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A casa onde tudo começou continua na família. A porta verde da moradia na Lapa, em Lisboa, é a mesma que estava instalada em 1959, ano em que foi criada a químico-farmacêutica Hovione pelo casal Ivan e Diane Villax, em conjunto com os sócios húngaros Nicholas de Horthy e Andrew Onody. Mas desde 1969 que a empresa mudou de morada — já só com o casal ao leme. Ivan Villax, que fugiu da Hungria no final da década de 40, “um engenheiro químico brilhante, genial, inovador” trabalhava nos produtos. Já Diane Villax era o cérebro responsável pela gestão.
Aos 66 anos, a Hovione é uma multinacional nascida em Portugal mas com presença global, com fábricas nos EUA, Irlanda e também em Macau. Não produz medicamentos em nome próprio, mas sim para outras empresas farmacêuticas. Emprega 2.400 pessoas em todo o mundo e tem mais de cem clientes. Diz o ditado que o segredo é a alma do negócio e, por isso, a Hovione não diz quais são. “O que posso dizer é que servimos 19 das 20 maiores farmacêuticas do mundo. Os maiores nomes [da indústria] são nossos clientes”, diz ao Observador o CEO Jean-Luc Herbeaux. “Quando fazemos as contas, percebemos que estamos envolvidos em medicamentos que tratam 80 milhões de pessoas por ano.” O executivo também estima que a Hovione esteja em cerca de 5 a 10% dos novos medicamentos que chegam ao mercado.
A Hovione abriu as portas das instalações de Sete Casas, em Loures, a jornalistas portugueses e a uma comitiva da imprensa internacional. Esta foi a primeira fábrica da farmacêutica e ainda se mantém como um pilar da estratégia da empresa familiar. Foi crescendo com o passar dos anos e, hoje, trabalha de forma contínua na produção de componentes para para medicamentos. “O mais parecido com o que podemos comparar é uma cozinha”, explica Jorge Pastilha, vice-presidente de operações técnicas para Europa e Ásia. Uma “cozinha” com “capacidade para produzir centenas de produtos diferentes usando receitas diferentes.” Neste caso, as “receitas” são as fórmulas de fármacos desenvolvidas e patenteadas pelas gigantes farmacêuticas.
A visita à fábrica assinalou a receção do prémio Leonardo da Vinci, atribuído pela The Henokiens, a Associação Internacional de Empresas Bicentenárias Familiares (inclui o grupo português Pinto Basto, com 254 anos), e pelo Chateau du Clos Lucé, a última morada de Leonardo da Vinci. A Hovione é a primeira empresa portuguesa a receber o prémio que distingue empresas familiares. São elegíveis para este galardão negócios familiares com pelo menos duas gerações e mais de três milhões de receitas anuais. É ainda necessário que a família seja acionista maioritária.
Diane Villax, de 90 anos, mantém-se ativa na empresa, ainda que hoje com funções bem diferentes: é a mestre do acolhimento aos funcionários. “Vêm pedir-me para falar. Começo a ser uma lenda, ‘ela ainda mexe’”, diz aos jornalistas com um sorriso. “Faço uma apresentação em que conto resumidamente a história da Hovione em 35 minutos”, explica. “Faço isso umas quatro vezes por ano. Os jovens que acabaram de entrar na Hovione assim ficam a conhecer a nossa história, como é que começámos, os nossos valores, como progredimos. Como chegamos ao ponto onde estamos hoje”, relata.
A história sobre a primeira década da empresa, os anos “complicados”, como diz, é um dos pontos de destaque. “Trabalhávamos de casa. O meu marido tinha o laboratório na cave, eu trabalhava no rés-do-chão e tínhamos quatro filhos”, recorda. “Quando a laboração saiu da Travessa do Ferreiro eram 11 pessoas que entravam diariamente na minha casa para trabalhar. Almoçavam lá… Aqui entram diariamente mil pessoas”. À partilha de memórias ainda se juntam as tarefas enquanto membro do conselho de administração. “Tenho de estar a par, tenho de ler” para o conselho de administração, explica, acabada de regressar de uma viagem a Nova Jérsia. Entre risos, afirma que “só tem um voto, não tenho poder de veto”. A família tem metade dos assentos do conselho de administração, enquanto os restantes são ocupados por membros independentes.
EUA são o principal mercado da Hovione, que não vê “diferenças nas dinâmicas” após tarifas
Jean-Luc Herbeaux é CEO da Hovione desde abril de 2022, sucedendo a Guy Villax, o segundo filho mais velho do clã, que esteve ao leme da empresa durante mais de duas décadas. Herbaux, que ingressou na Hovione em 2020, no início da pandemia de Covid-19, explica que houve um processo de transição na gestão. “A família tem sido acolhedora e gentil.”
“Fui diretor de operações durante dois anos, portanto isso deu-nos tempo para encontrar formas de trabalharmos juntos. O Guy ainda era CEO, eu era diretor de operações e fui assumindo cada vez mais responsabilidades. Não foi algo de um dia para o outro, foi um processo gradual ao ponto de a passagem ter sido extremamente fácil quando isso aconteceu”, contextualiza.
A maior parte da produção da Hovione é exportada para o estrangeiro, com os EUA como principal destino. Mesmo reconhecendo a incerteza que paira desde que foram introduzidas tarifas pela administração Trump, Herbaux explica que a Hovione “ainda não está a ver diferenças nas dinâmicas”.
▲ Jean-Luc Herbeaux assumiu o cargo de CEO em abril de 2022 — é o primeiro CEO que não é da família Villax
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“As tarifas são o que são. No setor farmacêutico são agora de 15%. Assumimos que os nossos clientes estão a absorver os 15% [de tarifa]”, diz o gestor francês ao Observador. “As cadeias de fornecimento farmacêuticas são muito complexas. Dependem de tecnologias muito especiais, de ativos que já existem ou de novos ativos”, contextualiza. “São precisos entre quatro a cinco anos para ter esses ativos, para que o novo equipamento dê frutos. Dois a três anos para desenhá-lo e construi-lo, depois há o comissionamento, a validação… demora muito tempo. Há uma enorme quantidade de inércia, de depender de parceiros em quem se confia. Muito do que fazemos aqui os clientes não confiariam a mais ninguém para fazer.”
A Hovione tem uma fábrica em Nova Jérsia, desde 2001. Que, ao longo dos anos, também tem vindo a expandir-se. No ano passado, ganhou uma unidade de spray drying, secagem por pulverização, uma técnica de produção que permite secar rapidamente substâncias e obter partículas com as mesmas dimensões. No próximo ano, a Hovione pretende duplicar a capacidade desta área na fábrica norte-americana.
Repetindo que “não vê uma mudança radical” devido às tarifas na indústria, afirma que a empresa “fez a coisa certa ao estar presente em várias geografias”. Além dos EUA, a empresa tem uma fábrica em Cork, na Irlanda, e também em Macau. “Somos grandes aqui [em Loures], mas também temos um local que está a crescer muito depressa na América do Norte, com uma equipa local muito boa. Temos uma unidade na Ásia, portanto também somos capazes de responder à procura dos mercados e mudanças em opções de supply”, concretiza.
Mas a incerteza global tem sido um desafio. “Não é tanto as tarifas. O que é um problema para a equipa de liderança de negócio é quando o mundo se torna tão incerto que é difícil criar estratégias”, nota. “É preciso criar agilidade e flexibilidade no modelo, para nos adaptarmos. Ter vários locais e torná-los funcionais e preparados para servir é agilidade.” Jean-Luc Herbeaux acrescenta que já “não é incomum um cliente dizer que ‘ok, aprovo isto para a unidade do Seixal [que deverá abrir em 2027] e também quero a aprovação para os EUA’.” “Assim podem escolher que unidades vão fornecer cada mercado”. “Podemos fazer isso porque temos os mesmos ativos, mais ou menos, em diferentes locais.”
▲ Jean-Luc Herbeaux e Diane Villax durante a apresentação à imprensa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A fatia de leão dos 2.400 trabalhadores da Hovione está em Portugal — 1.800 trabalhadores divididos entre a fábrica de Loures e o centro de investigação e desenvolvimento no Lumiar. A empresa é o maior empregador de doutorados do país. Na unidade dos EUA, recorre a alguns vistos H-1B, dedicados a trabalhos altamente especializados, que na semana passada foram alvo de alterações pela administração Trump. As próximas candidaturas, em abril de 2026, vão ter associadas uma taxa de 100 mil dólares. Questionado sobre se a Hovione será afetada pela mudança, o CEO diz que a empresa não “pretendia ser Nostradamus”. “Mas o que posso dizer é que já há três anos que nos distanciámos da ideia de enviar recursos humanos portugueses ou europeus para os EUA”.
“Dependemos de trabalho local. Parámos de fazê-lo [usar vistos] porque não fazia sentido ter uma unidade nos EUA a ser liderada por uma equipa europeia”, diz Herbaux, que estudou nos EUA e também em França, e que trabalhou também na Ásia durante oito anos. “Não funciona gerir um negócio com uma equipa estrangeira, quer culturalmente, quer na ligação com os clientes.”
Hovione quer fábrica no Seixal a funcionar em 2027. “Há muito interesse de clientes no espaço e na capacidade”
Ainda em janeiro de 2019, a Hovione anunciou a construção de uma fábrica no Seixal, na margem sul do Tejo. Adquiriu um terreno na zona industrial com 40 hectares, dez vezes maior que as instalações de Loures. A criação da fábrica do Seixal, que deverá estar a funcionar comercialmente em 2027, tem sido um processo longo de um investimento de 200 milhões de euros.
Noutras ocasiões, o anterior CEO, Guy Villax, lamentou o tempo de licenciamento destas novas instalações. Anos depois, o novo CEO já traça um cenário mais otimista. “Está a progredir bastante bem, na verdade a acelerar. Estivemos maioritariamente a trabalhar na infraestrutura, nas estradas, nas utilities”, explica sobre os trabalhos na zona industrial de um campus batizado de Hovione Tejo.
Jean-Luc Herbeaux detalha que o tempo de desenvolvimento de medicamentos encurtou e que, assim, os clientes precisam de mais espaço. “Antes eram precisos dez a 12 anos para desenvolver um medicamento e lançá-lo no mercado. Agora são cinco a seis, é metade.” Assim, a Hovione já regista “interesse dos clientes em espaço e na capacidade” de produção prometida pelas novas instalações. Não abre o jogo sobre de quem parte esse interesse. “A nossa base de clientes evoluiu com o tempo, mas é dos mesmos cem clientes que tipicamente temos.”
“Vamos instalar o equipamento e a tecnologia mais recente de engenharia de partículas no Seixal”, acrescenta. Herbaux descreve o trabalho com as partículas para os medicamentos como “uma tecnologia especial”.
“Quando se olha para um medicamento, vemos um nome muito longo, é o químico que está ativo, que atua no corpo, cura alguma coisa. Mas só as moléculas não são suficientes, é precisa uma formulação: é preciso que seja entregue no sítio certo [do corpo] e na altura certa. É o que nós fazemos e trabalhamos com ativos que são muito difíceis de solubilizar em água.” Lembra que o corpo humano é composto maioritariamente por água. “Se não é possível dissolver em água não resulta. Nós fazemos fármacos que são solúveis, trabalhamos em sistemas de polímeros, sistemas complexos. É essa a tecnologia que vamos ter no Seixal”, onde também serão desenvolvidos trabalhos na área da “forma final de dosagem, dos comprimidos e no enchimento de cápsulas”.
Além de um tempo de chegada ao mercado mais reduzido, o CEO da Hovione também vê espaço para outra aplicação da tecnologia à indústria. “A inteligência artificial está a ajudar muito com o design da molécula. Com o design clínico, também, na forma como a molécula é testada nos pacientes e a reduzir os efeitos secundários.”
▲ À esquerda de um mural colorido fica uma parede com a lista de substâncias desenvolvidas pela Hovione
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Um processo extenso para obter “uma joia perfeita”
As instalações da Hovione de Sete Casas, em Loures, são compostas por vários edifícios, dedicados a diferentes propósitos do ciclo de produção de um medicamento. No mesmo campo de visão de um mural colorido, destaca-se uma parede mais discreta, mas que resume as substâncias para medicamentos que são produzidas pela Hovione. Há uma organização: estão agrupadas por áreas de atuação do medicamento (sistema respiratório, fígado ou cancro), em vários casos com códigos, por questões de confidencialidade.
Um dos edifícios do complexo, com sete andares, é dedicado à técnica de spray drying (secagem por pulverização), em que as substâncias que vão compor um medicamento são pulverizadas, resultando em gotas, todas do mesmo tamanho, que são secas em instantes, resultando num pó. Peter Villax, o filho mais velho do casal Ivan e Diane, acompanha a visita e descreve de forma entusiasta o processo de secagem de partículas: “No fim temos uma partícula que é uma joia perfeita.”
É uma forma de resumir um processo que requer minúcia e um ambiente em que impera a segurança. As partículas que resultam do processo de spray drying têm todas o mesmo tamanho e a mesma dimensão. “É uma fase muito importante [do processo de fabricar um medicamento], para garantir que os medicamentos funcionam e são absorvidos”, explica Fábio Pinto, o gestor do edifício 3 do campus.
O processo tem início num reator, uma enorme estrutura metálica que ocupa os andares superiores do edifício. O trabalho “envolve controlo de temperatura, humidade, pressão” para que o produto final, um pó, esteja de acordo com os parâmetros.
▲ Praticamente não existe papel no laboratório da empresa portuguesa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Ao lado de um dos reatores, com capacidade para até 800 kg de produção, é detalhado que o processo pode “durar semanas”. Está dependente da “complexidade da ‘receita’” a seguir, “da complexidade do produto e também do processo”. “É também isso que influencia o preço dos medicamentos”, detalha Jorge Pastilha. Para medicamentos em fases experimentais, são feitas “fornadas” mais reduzidas.
Noutro dos andares do edifício repleto de tubos, mais abaixo, há um “ciclone” que separa o pó, que terá de ser recolhido na base. Com intervalos de poucos minutos, ouve-se o som de pancadas. “São uma espécie de martelos automáticos”, explica Fábio Pinto. Uma vez que o pó tem tendência a agarrar-se às paredes, os martelos batem nas paredes da estrutura para garantir que chega ao destino: a base do edifício, com uma ajuda da força da gravidade.
Há uma forte presença tecnológica neste processo, que é automatizado. “A automatização ajuda a reduzir o risco e mantém a estandardização”, dizem os responsáveis. É também essa automatização que permite, a partir de uma sala de controlo, saber tudo o que se passa nas diferentes fases (e andares) do processo.
▲ A Hovione não identifica os clientes — mas o CEO afirma que trabalham com "19 das 20 maiores farmacêuticas"
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Noutra parte da fábrica, já no laboratório, há mais controlo a ser feito — mas à qualidade dos produtos. O laboratório que é apresentado à imprensa centra-se na cromatografia líquida, “uma das técnicas mais comuns da indústria farmacêutica”, explica o responsável Carlos Moreno. Aqui, o objetivo é garantir que os medicamentos têm a mesma quantidade de miligramas e também que não há impurezas.
O laboratório branco e brilhante organiza-se por códigos inscritos no topo das estações de trabalho. Não há praticamente papel nenhum no laboratório — os registos eletrónicos garantem maior fiabilidade, diz o responsável. Peter Villax aproveita para chamar a atenção para um dos cabos de uma máquina. “Tratamos muito bem as nossas máquinas. Esta, pelo tipo de cabo, deve ter 30 anos, deve ser do meu tempo”, graceja o antigo vice-presidente para a inovação da Hovione.
Cada uma das máquinas no laboratório “custa entre 60 a 70 mil euros”, a que ainda se juntam os custos de manutenção anual, explica o responsável desta área. “Há 70 máquinas no laboratório, 150 no total da fábrica”, diz Carlos Moreno. “Como dizia Guterres”, completa Peter Villax, “é fazer as contas”.