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Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos

Stefani Reynolds-Pool/Getty Images

Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos

Stefani Reynolds-Pool/Getty Images

Irão e Arábia Saudita. Os dilemas de Joe Biden no Médio Oriente /premium

Antes de chegar à Presidência, Biden prometeu retomar o acordo nuclear com o Irão e responsabilizar a Arábia Saudita. O "embate com a realidade" pode tornar essas promessas difíceis de cumprir.

Apesar da progressiva perda de influência no tabuleiro geopolítico que a região tem vindo a testemunhar, o Médio Oriente tem ocupado um lugar de destaque nas primeiras semanas da Presidência de Joe Biden, com o chefe de Estado norte-americano absorto na resolução de dois problemas diplomáticos complexos e que lhe têm valido críticas e muitas dores de cabeça: as relações com o Irão e Arábia Saudita.

Na última semana, de resto, o Presidente dos EUA fez duas jogadas importantes na região, cujas consequências para o futuro da política externa norte-americana são ainda imprevisíveis, apesar de ainda estarmos numa fase inicial da administração Biden.

Com o objetivo de enviar uma “mensagem clara” a Teerão em resposta a um ataque atribuído ao Irão a uma base militar norte-americana no Iraque, os Estados Unidos bombardearam, na passada quinta-feira, bases controladas por forças iranianas na Síria, causando a morte de mais de 20 pessoas.

No dia seguinte, na sexta-feira, foi finalmente revelado um relatório dos serviços secretos norte-americanos que confirmou que o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman (MBS, como é conhecido) deu autorização para o assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, um cronista do The Washington Post, crítico do regime, que foi desmembrado no interior do consulado saudita na Turquia.

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Mas ao contrário das expectativas de alguns sectores do Partido Democrata e de organizações de defesa dos direitos humanos, Biden não tomou medidas duras contra MBS, o que gerou desconforto nos Estados Unidos.

Quanto ao Irão, o ataque às bases na Síria foi visto como uma demonstração de força que pode ter consequências, numa altura em que Washington e Teerão estão num braço-de-ferro para ver quem dá o primeiro passo para regressar ao Plano Abrangente de Ação Conjunta (JCPOA, na sigla em inglês), assinado em 2015 pelos Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia, China, Alemanha e Irão, e rasgado unilateralmente por Donald Trump em 2018.

Posição de força

Tanto a administração Biden como o governo iraniano  já manifestaram publicamente vontade (e disponibilidade) para retomar o JCPOA, embora com condições: Washington exige que Teerão pare de enriquecer urânio para lá do acordo de 2015 e que contenha as as ambições regionais, enquanto o Irão pede aos Estados Unidos o levantamento imediato das sanções que estão a sufocar a economia do país.

“O Irão não quer ser enganado duas vezes. Não quer regressar ao JPCOA e a uma total implementação do acordo e depois vir a ser surpreendido por Washington”
Adlan Margoev, analista do Institute for International Studies, da MGME University, na Rússia

Apesar de, aparentemente, os dois lados ambicionarem o mesmo, Washington e Teerão estão num braço-de-ferro para ver quem dá o primeiro passo. O impasse, diz Adlan Margoev, analista do Institute for International Studies, da MGME University, de Moscovo, na Rússia, deve-se a questões técnicas, nomeadamente o “coreografar do regresso ao JPCOA, devido à complexa sequência de passos” que têm de ser dados, mas, sobretudo, a questões políticas.

O Irão não quer ser enganado duas vezes. Não quer regressar ao JPCOA e a uma total implementação do acordo e depois vir a ser surpreendido por Washington”, nota Margoev, por telefone, ao Observador. “Uma vez que os Estados Unidos saíram do acordo em primeiro lugar, têm de ser os primeiros a regressar também. É isso que o Irão pensa”, acrescenta o analista especializado em desnuclearização.

Mohammad Javad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão

CEM OZDEL/HANDOUT/EPA

Adlan Margoev refere ainda que, para os Estados Unidos, é fácil regressar ao acordo, uma vez que “basta assinar algumas ordens executivas, e Joe Biden tem autoridade para isso”. Contudo, continua, “os Estados Unidos não querem ser vistos como o lado fraco e não querem dar o primeiro passo, porque pensam que são os iranianos que precisam que sejam os EUA a regressar ao acordo, e não o contrário”.

Por esse motivo, conclui o analista russo, Washington está “numa posição de força”. Mas alerta: “Se a nova administração nos Estados Unidos tentar, simplesmente, capitalizar a vantagem que tem, então a disponibilidade do Irão para voltar à mesa das negociações e para cumprir o acordo em toda a sua extensão vai diminuir.”

Política diferente de Trump?

Após a eleição de Joe Biden, o regresso dos Estados Unidos ao JCPOA com o Irão era considerado inevitável, tendo em conta as promessas do então candidato democrata em romper com Donald Trump, que fez do Irão o seu principal alvo no Médio Oriente.

"É provável que, no melhor cenário, Biden consiga um novo acordo, mas não um acordo que reduza a ameaça [iraniana] imposta aos parceiros árabes”
Kirsten Fontenrose, analista do Atlantic Council e antiga responsável pelas questões do Golfo na administração Trump

No entanto, conforme nota ao Observador a analista Kirsten Fontenrose, diretora da Scowcroft Middle East Security Initiative do think tank Atlantic Council, com sede em Washington, apesar de “a política de Biden em relação ao Irão ser muito diferente da de Trump em termos de abordagem, os resultados no terreno podem não ser muito diferentes no final”.

Para a analista, que integrou o Conselho de Segurança da administração Trump até 2018, onde dirigiu os assuntos relacionados com o Golfo, o Presidente Joe Biden quer renovar o JPCOA para “limitar os programas iranianos em termos de de fações armadas e de mísseis balísticos, que são usados para ameaçar a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos e desestabilizar o Iraque, o Líbano, o Iémen e a Síria”. No entanto, alerta, “através das suas ações e declarações, o Irão indica que não está disposto a limitar esses programas, que Teerão considera como pilares da sua política externa”.

“Por isso, é provável que, no melhor cenário, Biden consiga um novo acordo, mas não um acordo que reduza a ameaça imposta aos parceiros árabes”, conclui a analista do Atlantic Council.

“Recalibrar” relações

Se o Irão tem dado dores de cabeça a Biden, apesar da sua posição de força em relação ao regime iraniano, mais complicações surgem no que diz respeito à relação dos Estados Unidos com a Arábia Saudita, um dos principais aliados de Washington no Médio Oriente e um dos grandes compradores do armamento norte-americano.

Ao divulgar o relatório que responsabiliza diretamente Mohammed bin Salman, o líder de facto da Arábia Saudita, pelo assassinato de Jamal Khashoggi às mãos de um esquadrão da morte saudita que responde diretamente ao príncipe herdeiro, Joe Biden enviou uma mensagem a Riade e deixou claro que as conversações com o reino saudita passam a ser entre si e o Rei Salman, de 85 anos, e não com MBS, ao contrário da regra que vigorou durante o mandato de Donald Trump.

Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita

AFP via Getty Images

Mas, em termos de medidas concretas, a resposta de Biden ao homicídio de Khashoggi ficou aquém das expectativas, uma vez que MBS ficou fora da lista de sanções ou da proibição para viajar para os Estados Unidos. Ao invés, a administração Biden introduziu a “proibição Khashoggi”, que permite recusar vistos a quem estiver envolvido na perseguição de dissidentes do reino saudita. Como consequência, revelou o secretário de Estado Antony Blinken, 76 sauditas ficarão impedidos de entrar em território norte-americano.

"Parece que, sob a administração Biden, déspotas que ofereçam valor estratégico momentâneo para os Estados Unidos devem receber um passe para um 'homicídio gratuito""
Fred Ryan, publisher do The Washington Post

A Casa Branca justificou a decisão de não visar diretamente MBS pela importância das relações diplomáticas entre Washington e Riade, defendendo, pelo contrário, um “recalibrar” do relacionamento com a Arábia Saudita — uma expressão muito distante daquilo que Biden afirmou enquanto candidato à Presidência, quando se referiu à Arábia Saudita como um “Estado pária” ou quando prometeu que o reino saudita “iria pagar o preço” pelas violações de direitos humanos, incluindo a prisão de ativistas, o homicídio de dissidentes ou a campanha sangrenta no Iémen.

“Embate com a realidade”

A inação de Biden em relação a MBS, que é alvo de uma queixa por crimes contra a humanidade, apresentada num tribunal alemão pela ONG Repórteres sem Fronteiras, foi alvo de críticas dentro do próprio Partido Democrata — o senador Ron Wyden, do estado do Oregon, defendeu que MBS devia ser sancionado e que o governo saudita deveria “sofrer graves consequências” enquanto o príncipe herdeiro fizesse parte do mesmo —, mas também das Nações Unidas, de organizações de defesa dos direitos humanos e da imprensa norte-americana.

“Parece que, sob a administração Biden, déspotas que ofereçam valor estratégico momentâneo para os Estados Unidos devem receber um passe para um ‘homicídio gratuito’“, escreveu o publisher do The Washington Post, Fred Ryan, num artigo de opinião  publicado na segunda-feira no mesmo jornal norte-americano.

"Mesmo que MBS não seja o interlocutor com a Casa Branca, todas as principais decisões sauditas sobre as relações bilaterais ainda serão tomadas por MBS”
Kirsten Fontenrose, analista do Atlantic Council

No mesmo dia em que Fred Ryan publicava o seu duro texto, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Ned Price, em conferência de imprensa, justificava que Biden estava a fazer todos os possíveis para levar as relações entre Washington e Riade “num bom caminho”, considerando que “medidas mais dramáticas ou drásticas”, como aplicar sanções a MBS, diminuíram a influência norte-americana sobre o reino saudita.

Para a analista Kirsten Fontenrose, que saiu da administração Trump após o o assassínio de Khashoggi em 2018, a resposta de Biden após a divulgação do relatório sobre o assassínio do jornalista saudita, em contraste com a retórica da campanha eleitoral, é o resultado de um “embate com a realidade”, notando que Biden enfrenta um partido e um governo divididos quanto ao rumo das relações com Riade.

“Os democratas que estão preocupados com os direitos humanos, mas que não são especialistas em Médio Oriente, pedem que Biden castigue MBS pessoalmente. Os especialistas em Médio Oriente na equipa de Biden compreendem a necessidade estratégica de uma relação de parceria com a Arábia Saudita”, afirma Fontenrose, destacando a estabilidade que os sauditas dão a Washington comparativamente a outros países da região.

Em conclusão, a analista considera que a política de Biden para a Arába Saudita “será diferente” da abordagem de Donald Trump, mas apenas em “pequenas questões técnicas”, nomeadamente na “limitação do fornecimento de armas norte-americanas” ou nos “ajustes aos protocolos que diminuem o relacionamento direto de MBS com a Casa Branca”.

“Mas essa mudança no lado dos EUA não vai mudar a forma como as decisões são tomadas na Arábia Saudita. Mesmo que MBS não seja o interlocutor com a Casa Branca, todas as principais decisões sauditas sobre as relações bilaterais ainda serão tomadas por MBS”, remata.

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