Cinco dias depois de ter sido tornado público um relatório dos serviços de inteligência americanos, onde se determina que o assassinato do jornalista e colunista do Washington Post Jamal Khashoggi, em 2018, no interior do consulado saudita em Istambul, foi sancionado pelo príncipe herdeiro do país, deu entrada na justiça alemã uma queixa contra Mohammad bin Salman e outros quatro oficiais de topo do país por crimes cometidos contra a humanidade. Em causa está não apenas o homicídio de Khashoggi mas a perseguição “generalizada e sistemática” que tem sido movida contra os jornalistas na Arábia Saudita, invariavelmente sob o comando ou aval do herdeiro da coroa, de 35 anos.

A queixa, inédita, foi apresentada pela organização não governamental Repórteres sem Fronteiras e a Alemanha foi o país escolhido por uma questão assumidamente legal: as leis do país dão aos respetivos tribunais jurisdição sobre crimes internacionais cometidos no estrangeiro, mesmo que não tenham qualquer ligação com a Alemanha.

O objetivo da ONG é que com esta ação, submetida por meio de um documento com 500 páginas, a justiça alemã abra um processo de “análise de situação”, que por sua vez possa depois dar origem a uma investigação criminal formal que condene MBS, como é conhecido, por crimes cometidos contra a humanidade.

“Estes jornalistas são vítimas de assassinatos, tortura, violência sexual, coação e desaparecimentos forçados”, disse esta terça-feira o secretário-geral dos Repórteres sem Fronteiras em conferência de imprensa, citada pelo Guardian.

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Hatice Cengiz, a noiva de Jamal Khashoggi, também se pronunciou publicamente sobre o assunto e já se disponibilizou para ajudar, fornecendo provas, caso seja aberta uma investigação: “A verdade foi revelada mas isso não é suficiente. Não se pode permitir que o assassino se safe, caso contrário voltará a acontecer”.

Esta segunda-feira, os Estados Unidos, que resolveram não sancionar MBS pelo assassinato de Khashoggi a pretexto da “recalibragem” de relações entre Washington e Riade (o que tem valido duras críticas ao presidente Joe Biden), pediram ao país o desmantelamento da unidade de elite responsável pela morte do jornalista. “Exortamos a Arábia Saudita a desmantelar este grupo e a adotar reformas institucionais sistémicas e mecanismos de controlo, para pôr fim às atividades e operações contra dissidentes”, disse Ned Price, o porta-voz do Departamento de Estado.