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Florida Town Of Parkland In Mourning, After Shooting At Marjory Stoneman Douglas High School Kills 17
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▲Memorial do massacre no liceu de Parkland, na Flórida, que ocorreu em 2018

Getty Images

▲Memorial do massacre no liceu de Parkland, na Flórida, que ocorreu em 2018

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“Isto explica-se por quem eles são e pelo que lhes acontece.” As lições que se podem tirar dos ataques a escolas nos EUA

Jovem suspeito de planear ataque a Faculdade de Ciências acompanhava tiroteios em escolas nos EUA. Especialistas alertam que não há "perfil" único. E que é possível prevenir a violência.

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Columbine, Sandy Hook, Parkland. Estes são todos nomes de escolas onde ocorreram ataques nos Estados Unidos, quase sempre em forma de tiroteio. O jovem de 18 anos que foi detido pela Polícia Judiciária esta quinta-feira, suspeito de estar a preparar um atentado na Faculdade de Ciências, consumiria muita informação sobre estes ataques, segundo revelaram fontes da investigação a vários media nacionais.

Desde o ataque no liceu de Columbine, em 1999, que os EUA têm sido palco de vários destes tiroteios — todos com recurso a armas e com planos bem traçados. E as investigações aos principais massacres ajudam a traçar um perfil dos atacantes: são jovens, a maioria antigos alunos das escolas que escolhem e são descritos como pessoas solitárias. Nestes casos, os históricos dos computadores e dos telemóveis revelam também as suas principais pesquisas, que vão desde vídeos sobre violência e ódio até formas para aprender a fazer ataques.

Peter Langman, especialista na psicologia dos autores destes ataques que chegou a aconselhar o FBI e o governo norte-americano nesta área, relembra, porém, que é enganador achar que, por o modus operandi ser semelhante, estamos perante um tipo de perfil único. “As pessoas vêem as semelhanças nos ataques, mas não há uniformidade nas razões pelas quais eles os levam a cabo”, diz ao Observador o autor de livros como School Shooters: Understanding High School, College, and Adult Perpetrators e Why Kids Kill: Inside the Minds of School Shooters.

"Por vezes, estes indivíduos estão a revoltar-se contra o mundo em geral. Sentem-se injustiçados — ‘Porque é que toda a gente na Universidade está feliz e adaptada e eu não?’, por exemplo — e atuam assim como uma espécie de vingança.”
Peter Langman, investigador na área da Psicologia de atiradores em escolas

“Alguns são tímidos, mas nem todos. Alguns foram vítimas de bullying, mas em muitos casos não”, ilustra o investigador, ao telefone a partir da Pensilvânia. “Costumo dizer que o que explica isto é em parte quem eles são e, por outro lado, aquilo que lhes acontece.” Ideia reforçada por Deborah Weisbrot, especialista em psiquiatria infantil e juvenil: “Não há um ‘perfil’ específico”, disse ao New York Times em 2019. “Já houve atiradores homens e atiradores mulheres e muitos vêm de origens socioeconómicas diferentes”.

Para Peter Langman, em casos como o que se registou agora em Portugal é necessário, primeiro que tudo, determinar a motivação do suspeito. “Estaria a tentar atacar alguém em particular? Uma mulher que o rejeitou, um professor que lhe deu uma nota má, um responsável que o suspendeu, alguém de quem tem inveja? Ou tratava-se de um ataque que não tinha em mente vítimas específicas? Por vezes, estes indivíduos estão a revoltar-se contra o mundo em geral. Sentem-se injustiçados — ‘Porque é que toda a gente na Universidade está feliz e adaptada e eu não?’, por exemplo — e atuam assim como uma espécie de vingança.”

Eric Harris, um dos autores do massacre na escola de Columbine, é exemplo disso mesmo, ao ter dado sinais dessa revolta geral com o mundo muito antes de cometer o atentado. Para partilhar arquivos, Harris criou vários sites, onde difundia também discurso de ódio, dirigido a pessoas do bairro onde vivia ou da sua vida. As autoridades acreditam que terão sido estes sites o ponto de partida para o ataque, que começou a ser preparado muito tempo antes.

Columbine High School Students Exiting with Police After Shootings

▲ Alunos do liceu de Columbine a saírem da escola depois do tiroteio levado a cabo por Eric Harris e Dylan Klebold

Corbis via Getty Images

Ao longo da sua investigação de anos, o investigador Peter Langman desenvolveu um modelo que divide os autores deste tipo de ataque em três tipos: psicopáticos, psicóticos e traumatizados. Os primeiros distinguem-se pelo narcisismo, falta de empatia, por vezes traços sádicos; os segundos sofrem frequentemente de esquizofrenia e muitas vezes ouvem vozes ou têm alucinações; no terceiro grupo incluem-se os atacantes que cresceram em famílias disfuncionais e foram marcados por experiências como violência doméstica, alguma forma de abuso, alcoolismo ou toxicodependência na família, etc. “Contudo, há muitas pessoas que se encaixam nestas categorias e que não matam ninguém”, lembra o investigador. “Portanto, o que é que as leva a fazer isto? É aí que temos de olhar para outros fatores.”

Reservados e alvos de bullying. Há traços comuns entre atacantes, mas exclusão social não é fator determinante

No caso do ataque planeado à Faculdade de Ciências, fonte policial disse ao Observador que o jovem seria “vítima de violência”, com o Correio da Manhã a falar mesmo numa possível vítima de bullying. Os dados recolhidos por vários órgãos de comunicação social falam num jovem “extremamente inteligente”, mas “bastante reservado”.

Estas são características algo comuns entre muitos dos atiradores que protagonizaram ataques a escolas. Ataques gravados em vídeos que o suspeito português consumia compulsivamente. Nikolas Cruz, atirador de Parkland, era descrito como um adolescente solitário e tinha acompanhamento psicológico desde os três anos. Já Adam Lanza, que matou 27 pessoas na escola primária de Sandy Hook, tinha Síndrome de Asperger, com alguma dificuldade em estabelecer relações sociais.

Nikolas Cruz, atirador de Parkland, era descrito como um adolescente solitário e tinha acompanhamento psicológico desde os três anos. Já Adam Lanza, que matou 27 pessoas na escola primária de Sandy Hook, tinha Síndrome de Asperger, com alguma dificuldade de estabelecer relações sociais.

John Van Dreal, psicólogo responsável por um programa de segurança escolar no Oregon, dizia em 2019 à National Public Radio que “muitas destas pessoas sentem-se excluídas, socialmente à margem ou rejeitadas”. O mesmo artigo destacava um estudo dos serviços secretos norte-americanos e do Departamento da Educação do país de 2004, onde se concluía que quase três quartos dos atacantes analisados se tinham “sentido perseguidos, vítimas de bullying, ameaçados, atacados ou feridos por outros” antes do ataque. “Em alguns casos, a experiência de ser vítima de bullying parece ter tido um impacto significativo no atacante e ter sido um fator na decisão de preparar o ataque à escola”, pode ler-se no estudo.

No entanto, Peter Langman avisa que é redutor olhar apenas para o bullying ou para o isolamento social como fatores decisivos. “Muitos miúdos são vítimas de bullying e não saem por aí a disparar sobre outras pessoas”, diz ao Observador. “Este é um tema complexo, que resulta sempre de uma combinação de fatores.”

Um plano traçado ao longo do tempo e um “gatilho” que pode ativá-lo

É então possível traçar alguma linha comum entre estes ataques a escolas, por exemplo, ao nível da preparação? O já referido estudo de 2014 dos serviços secretos e Departamento de Educação norte-americano aponta como os “incidentes de violência que têm escolas como alvo raramente são atos repentinos e impulsivos”. Em vez disso, a tendência é de que sejam atos preparados com antecedência e planeados durante algum tempo.

Nikolas Cruz, o autor do ataque na escola de Parkland, na Flórida, deu sinais dessa preparação muito antes do atentado de 2018. Dois anos antes, Nikolas publicou uma fotografia no Instagram com uma arma. “Vou ter esta arma quando tiver 18 anos e vou disparar na escola”, escreveu. Já no ano seguinte, em 2017, o FBI acredita que tenha criado um perfil no Youtube, usando o seu nome, onde dizia que iria “ser o próximo atirador da escola”. E os históricos do seu computador e telemóvel revelavam ainda mais informação relacionada com violência e armas: pesquisava antigos massacres em escolas, procurava informação sobre armas e sobre tortura e morte de animais. “Matar pessoas num massacre”, “matar pessoas é fácil”, “quero matar pessoas, mas não sei como fazer” — estas frase faziam parte das suas pesquisas. As fotografias que guardava seguiam a mesma linha e incluíam, sobretudo, armas.

“Há um pensamento fugaz. Depois pensam mais sobre isso, fantasiam e vão lentamente construindo uma justificação. Preparam-se e, quando o conjunto de circunstâncias certo aparece, libertam a raiva.”
Kevin Cameron, diretor do Centro Canadiano de Avaliação de Ameaças e Resposta ao Trauma

Também em Portugal, no caso do adolescente em Massamá, havia um plano traçado. Quando o jovem foi detido, as autoridades encontraram folhas na sua mochila com várias referências ao crime que iria praticar: “Imitar um massacre e matar, pelo menos, 60 pessoas”. Sabia quais as aulas que teriam mais alunos e tinha consigo facas, bombas caseiras, gás pimenta, um bastão, gasolina, fósforos e uma espingarda. No dia do ataque, fez explodir um very light num dos pavilhões da escola, para que todos os alunos que estavam no interior fossem para a rua. Depois usou gás pimenta e utilizou facas de cozinhas para esfaquear os colegas e a funcionária, que sofreram ferimentos ligeiros. Agora, no caso da Faculdade de Ciências, o estudante de engenharia também é suspeito de ter traçado um plano detalhado por escrito, que manteria em casa.

Kevin Cameron, diretor do Centro Canadiano de Avaliação de Ameaças e Resposta ao Trauma, explicou em tempos ao New York Times como estes processos costumam ocorrer ao longo do tempo: “Há um pensamento fugaz. Depois pensam mais sobre isso, fantasiam e vão lentamente construindo uma justificação. Preparam-se e, quando o conjunto de circunstâncias certo aparece, libertam a raiva.”

Connecticut Community Copes With Aftermath Of Elementary School Mass Shooting

▲ Polícia do Connecticut em frente a um memorial em homenagem às vítimas do ataque à escola primária de Sandy Hook, em 2012

Getty Images

Alguns especialistas dizem que há acontecimentos que funcionam como gatilhos para ativar este “plano”. Peter Langman, contudo, prefere falar num “conjunto de eventos sociais que correm mal”: “Há quem não consiga arranjar uma namorada, ou termina um relacionamento. Ou é despedido. Ou é detido”, enumera o investigador da área da Psicologia, que explica que é preciso este conjunto de acontecimentos associar-se a um dos tipos de personalidade já mencionados para levar determinada pessoa a uma ação violenta deste género.

Prevenção “é possível”, mas intervenção psicológica precoce é essencial

Certo é que, apesar de ser muito difícil fazer uma check-list de sinais a que estar atento, os especialistas sublinham que é importante estar alerta e agir preventivamente — até porque, diz Langman, “é possível” prevenir, seja através da psicoterapia, medicação, desenvolvimento de capacidades sociais, apoio educacional ou um conjunto de todas estas respostas.

“Quando o ataque a Columbine aconteceu, eu trabalhava num hospital psiquiátrico juvenil. Nos primeiros dez dias a seguir ao ataque, começámos a receber muito mais gente nos internamentos, porque as pessoas à sua volta ou eles próprios começaram a notar os sinais semelhantes aos do caso de Columbine”, revela o investigador. “De todos os adolescentes que tratámos na altura, nunca nenhum veio a realizar um ataque deste tipo. Portanto, aqui está a prova: quando se intervém cedo, previne-se que a violência venha a acontecer.”

“Acho que onde falhei foi no facto de ter subestimado o nível de dor em que ele estava. Temos todos a responsabilidade de parar e pensar. Alguém que amamos pode estar a sofrer ou estar a atravessar uma crise.”
Sue Klebold, mãe de um dos atiradores do massacre de Columbine

Mensagem já reforçada no passado por Sue Klebold, mãe de um dos adolescentes que levaram a cabo o ataque em Columbine. Antes da tragédia, a mãe notou diferenças no comportamento do filho e contactou um elemento da escola, que perguntou a Dylan se queria fazer terapia. Ele recusou. “Acho que onde falhei foi no facto de ter subestimado o nível de dor em que ele estava”, refletiu Sue Klebold com a NPR, anos mais tarde. “Temos todos a responsabilidade de parar e pensar. Alguém que amamos pode estar a sofrer ou estar a atravessar uma crise.”

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