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▲O MC (Mestre de Cerimónias) da noite foi Ricardo Karitsis, que pertence ao plantel de luxo da produtora de Luís Pardelha

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲O MC (Mestre de Cerimónias) da noite foi Ricardo Karitsis, que pertence ao plantel de luxo da produtora de Luís Pardelha

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

"Isto Não Vai Dar em Nada": qual é a graça de uma noite de testes de stand-up?

Foi a primeira organizada pela Produtores Associados e quer tornar-se um hábito (a próxima acontece já dia 11 de março). Quem participa, o que procuram e como reage o público? Fomos descobrir.

“Isto Não Vai Dar em Nada” é o novo investimento “muito sério” da Produtores Associados na comédia. A nova sessão de testes de stand-up da agência aconteceu há poucos dias no Cine-teatro Turim, em Lisboa, onde foi apresentado um plantel de convidados para averiguação do nível de piada. Num ambiente informal, o evento quis “celebrar o processo criativo da comédia, a liberdade de errar e a possibilidade de descobrir novos — e antigos — talentos em palco, num espectáculo onde tudo pode acontecer e nada está garantido. Esta foi a primeira sessão. A segunda acontece a 11 de março. Mas o que se passa nestas noites?

Nesta que o Observador presenciou, havia Benfica—Real Madrid. Conclusões precoces aqueles que davam por certos lugares vazios na primeira vez do “Isto Não Vai Dar em Nada”. Organizada pela Produtores Associados, a estreia estava prevista para o dia 28 de janeiro, mas nessa data as eventuais gargalhadas foram abafadas por um problema de canalização que, aparentemente, inundou a sala de espectáculos e impossibilitou a atividade dos comediantes.

O teatro “decidiu brincar às inundações”, como descreve agora o Mestre de Cerimónias da noite, Ricardo Karitsis, que depressa encontra a primeira vítima entre o público. É sabido que num espectáculo de stand-up quem se senta nas filas da frente pode ser alvo de chacota dos humoristas, se esse for o método do protagonista, mas toda a regra tem exceção. Desta vez, a escolhida é Nina, que, na terceira fila, parece ser a única espectadora que não gosta de stand-up, pelo menos não aplaude quando o MC faz a pergunta ao público. “A Nina ainda está a estacionar”, diz Karatsis, introduzindo um momento de picardia com a mulher do Sô Paulo — como acrescenta um amigo em tom gozão —, e que faz rir um público ainda morno.

Nos bastidores apertados e inundados pela luz dos espelhos à maneira de Hollywood (ou, pelo menos, como a imaginamos), um grupo de comediantes aguarda a vez de subir ao palco. Ninguém está nervoso, atuar à frente de multidões é o pão nosso de cada dia para quem vive de contar piadas. Além disso, como refere a gravação de voz que, num tom cómico, abre o espectáculo, estamos perante uma sessão de testes em que somos meras “cobaias” dos humoristas. Podemos esperar reações adversas, “como alívio de maus fígados ou uma súbita tolerância ao absurdo” e, ache-se graça ou não, “não há cá devoluções de bilhetes”.

▲ O melhor amigo do comediante: o bloco de notas, onde aponta as piadas e ideias que obtêm risos no palco

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Iniciativa da Produtores Associados, “Isto Não Vai Dar em Nada” pretende sinalizar um interesse muito sério da agência de artistas e de produção de eventos na área da comédia. “Estamos empenhados nisto, não se trata de uma aventura”, admite o co-fundador e sócio da produtora, Luís Pardelha. “É uma coisa que queremos muito que dê certo, estamos a investir nisto porque o mercado cresceu muito, mas também porque já há muita gente a fazer e a gostar de comédia.”

A produtora nasceu em 2007, pelas mãos de Luís e dos colaboradores José Morais e Bruno Neves. De início, especializou-se na área da música, e hoje gere a atividade de um catálogo diversificado de artistas em grupo, como os GNR, Cassete Pirata ou Expresso Transatlântico, e a solo — o caso de Áurea, Lena d’Água ou Blaya. Em 2025, decidiram voltar as atenções para a comédia, um mercado em grande expansão e bastante mais económico de produzir.

“Em relação ao mercado da música, que já conhecemos há muitos anos, a comédia ganha pela informalidade, porque a música é muito mais estruturada, tem equipas de 10 ou 15 pessoas”, acrescenta Luís. “A disponibilidade dos comediantes e também a forma como nos integram nas decisões, isso é muito engraçado.”

A aposta num grupo de cinco humoristas não saiu furada, como evidencia a sala de teatro com 90 lugares quase cheia esta quarta-feira — muito além da expetativa de “quatro bilhetes” vendidos. “Cinco contratações de luxo num plantel de champions, prontos para brilhar de norte a sul do país e até para cruzar o oceano em menos de nada!”, assim vem prefaciado o conjunto de humoristas da produtora, no anúncio divulgado em novembro. “Todos [eles] com o mesmo objetivo: arrancar sorrisos e gargalhadas, fazer chorar (de rir), levantar plateias e levar o público ao rubro!”.

Segundo Luís, nenhum dos agenciados suscitou dúvidas. São eles Carlos Moura, Pedro Alves, Karitsis, David Cristina e Laura. Os últimos três marcam presença na primeira sessão de testes “Isto Não Vai Dar em Nada”, ainda que os seus nomes não tenham sido anunciados. Juntam-se ainda três convidados surpresa.

No espaço intimista e forrado a veludo vermelho do Cine-Teatro Turim, Karitsis não tem dificuldade em desempenhar a função de MC — aquecer o público, a fim de preparar os espectadores para as atuações seguintes. Move-se com à vontade entre o banco alto e o suporte do microfone, únicos objetos em palco necessários ao stand-up, um fenómeno de entretenimento francamente minimalista. No público, vê-se um pouco de tudo: muitos casais velhos e novos, grupos de amigos, espectadores solitários, que, se no início, ainda desviavam a vista para os resultados do jogo de futebol no ecrã do telemóvel, depressa — e entre risos — se esqueceram dele.

O motivo é Laura, a primeira a tomar o palco e única mulher na setlist da noite, que arrasa o público com o seu “stand-up com sotaque francês”. Natural de Dijon, no nordeste de França, emigrou para Portugal há 10 anos. Na altura, fundou um bar de crepes à la mode française, motivo pelo qual foi convidada para o programa de Cristina Ferreira, “que não conhecia”. “Pensava que era uma coisa pequena, mas quando cheguei lá, reparei que era gigante”, admite em conversa relaxada nos camarins. “Falei dez minutos e todas as pessoas riram do que estava a dizer.”

5 fotos

Foi então que equacionou uma mudança de vida e se dedicou em exclusividade ao stand-up, sempre em português. Por não ser a sua língua nativa, expressa-se sem filtros, atua “com a barriga”. “Não tenho emoção com as palavras. Posso dizer qualquer coisa, e acho que isso é parte da minha piada”, enfatiza.

É justamente essa presença que traz para palco — isso e a experiência única de uma imigrante europeia em Portugal, que consegue ver graça em coisas que para os nativos são banalidades. Expressiva e com um olhar aguçado, discorre sobre o pedido de nacionalidade, o novo namorado “tuga a sério” e uma série de idiossincrasias do país que a acolheu, num discurso pontuado por francesismos vários, do “mais, oui” ao “catastrophe!”.

Segue-se uma voz nacional, com morada fiscal em Massamá, no concelho de Sintra. Mário Falcão veio e foi a alta velocidade, disparando piadas e punchlines a ritmo de metralhadora e sempre sob o mote “isto está cada vez pior”. Humorista convidado da Produtores Associados, admite ter baixa estatura (1,65 metros nas palavras do próprio), condição que não o impede de fazer roasts e bullying aos “malucos” da audiência.

▲ A iniciativa da Produtores Associados encheu o Cine-teatro Turim, de pessoas e gargalhadas, na passada quarta-feira.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

O próximo é Rafael Pessanha, mestre das imitações em palco: da avó, de uma Sandra “com faringite no cérebro”, dos convidados do programa de João Baião; e logo David Cristina, outra cara da Produtores Associados, e uma voz conhecida dos ouvintes da Rádio Observador, onde já fez manhãs. O seu perfil amigável e as histórias tiradas da manga sem esforço aparente desarmam o público, mesmo quando fala de temas mais polémicos como os Ficheiros Epstein e até a escravatura, que geraram o desabafo: “É a última vez que conto esta piada em público”.

Karitsis volta a palco a fim de apresentar o último comediante — que, apesar do pedido dos espectadores, não é Ricardo Araújo Pereira, mas alguém tão grande como ele (no que diz respeito à altura, pelo menos). Quem dá o remate final é Ricardo Maria, a terceira face do projeto Cubinho, grupo de humoristas onde também participam António Azevedo Coutinho e Vítor Sá, cujo caráter ingénuo e desengonçado fechou a noite com categoria. Entre reflexões cómicas sobre os efeitos da tempestade Kristin na sua terra natal, no distrito de Leiria, e outro tipo de trovoadas de natureza mais escatológica, o comediante conseguiu convencer mesmo o público mais cético.

Feitas as contas, parece que isto faz mais sentido do que o título do evento sugere, razão pela qual a sessão se deve repetir já no próximo mês, dia 11 — e quem sabe se nos seguintes. Para já, “não temos nada fechado, além da sessão de março”, reconhece Luís Pardelha. Mas mostra-se entusiasmado diante da possibilidade de repetir a proeza. “Isto pode não dar em nada, mas vai continuar”, promete.

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