Desvaloriza o apreço que muitos eleitores socialistas parecem ter por Henrique Gouveia e Melo e justifica a popularidade que o almirante vai tendo nas sondagens, em parte, com a “gratidão” que os portugueses possam guardar pelo trabalho feito na pandemia. Apesar de tudo, não tem dúvidas: no momento certo, no dia 18 de janeiro, os eleitores do PS e a esquerda como um todo vão escolher António José Seguro. “Vai ser Presidente da República. Os portugueses vão ser sábios.”
Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, Álvaro Beleza, dirigente do PS e apoiante de Seguro, de quem é amigo há mais de 40 anos, relativiza o aparente desencanto de uma parte expressiva do partido em relação à candidatura do seu antigo secretário-geral. E diz mais: tem a profunda convicção de que Pedro Nuno Santos vai aparecer, mais cedo ou mais tarde, ao lado de António José Seguro. “Independentemente de estar mais à esquerda, é um homem sério e uma pessoa decente.”
Quanto ao mais, Beleza não tem dúvidas sobre o que pretende. “Não precisamos de um militar para pôr isto na ordem. Precisamos é que os portugueses regenerem a República e precisamos de um político decente, eticamente à prova de bala, que regenere a confiança que as pessoas perderam nos políticos E isso faz-se pelo exemplo das pessoas. Acho que era bom para a democracia que passassem à segunda volta os candidatos que, no fundo, são apoiados pelos grandes partidos: Luís Marques Mendes e António José Seguro.”
“Gouveia e Melo é um militar com provas dadas. Mas faz falta alguém que seja político”
Durante muito tempo, o PS pareceu com dificuldades em encontrar um candidato presidencial. Ficou satisfeito por, esta semana, ter arranjado não um, mas dois candidatos presidenciais?
Vocês têm sentido de humor. O candidato do PS é António José Seguro. Aliás, como não seria de outra maneira, tendo um ex-líder candidato, é natural que o PS o apoie. Agora, o PS é uma casa de gente livre, de homens e de mulheres livres, na velha tradição republicana e liberal. É natural que haja alguns que não estejam com ele. Sempre foi assim.
Mas não era esse o alcance da nossa pergunta. É que Henrique Gouveia e Melo assumiu-se como representante do PS.
É natural que o almirante tenha apoios no PS. Agora, a esmagadora maioria dos socialistas, dos militantes e dos eleitores socialistas, vai votar em António José Seguro. Até por uma questão de equilíbrio: o sistema político português está muito inclinado para a direita.
Consegue compreender o porquê de Henrique Gouveia e Melo ter dito o que disse?
São eleições. É natural que ele tente ir buscar eleitores ao PS. Faz parte. Sabe que gosto da política com fair play e temos de respeitar os adversários. Temos vários candidatos a Presidente da República que dariam bons Presidentes da República.
Henrique Gouveia e Melo daria um bom Presidente da República?
O almirante Gouveia e Melo é uma pessoa a quem o país deve muito. Deve muito na Covid, foi um grande comandante de submarinos, foi um excelente chefe de Estado-Maior da Armada, ajudou numa reforma importante das Forças Armadas. É um militar com provas dadas. A questão é que isto são eleições presenciais. Faz falta alguém que seja político, que tenha experiência política. O que está em causa é esta ideia do sistema e do antissistema. Ora, o sistema é a democracia pluralista e a liberdade das democracias ocidentais que vêm das luzes, do parlamentarismo inglês, da República Americana, dos países europeus pós-Segunda Guerra. Claro que é preciso regenerar a confiança das pessoas nos políticos. Precisamos de políticos decentes, éticos, à prova de bala. António José Seguro faz isso na perfeição. É absolutamente inatacável, tem experiência política e tem a vantagem de ser um moderado vindo do PS. É um homem que sabe fazer pontes também com setores à direita. O Presidente da República tem que ser um árbitro, tem que ser um equilibrador.
Há um dado suportado por todas as sondagens feitas até ao momento: existe uma fatia expressiva do eleitorado do PS a preferir Henrique Gouveia e Melo. Consegue perceber porquê?
É a questão da gratidão por aquilo que fez no tempo do Covid.
Mas não é por demérito de António José Seguro?
As sondagens são importantes, mas o candidato com mais sucesso nas sondagens são os indecisos. São aqueles portugueses, metade, que ainda não decidiram quem vão escolher. Estou muito confiante: os portugueses vão querer equilibrar o sistema político. A greve é um sinal claro da greve geral de que os portugueses não querem ultraliberalismo.
E dá um sinal para as presidenciais?
Isso dá um sinal para todos e para a esquerda, nomeadamente aos eleitores que votam à esquerda. Têm que perceber que o sistema político está muito desequilibrado para a direita. A maior garantia desse equilíbrio é alguém que venha da esquerda e que garante que o Estado Social será preservado e que a dignidade do trabalho também. Trabalho digno que o PS sempre defendeu. E António José Seguro é militante do PS, mas é um homem livre, independente, que pensa pela sua cabeça.
“Pedro Nuno Santos vai manifestar apoio a Seguro”
Até agora não há nenhum antigo líder do PS que tenha expressado o apoio a António José Seguro. Era importante que figuras como Eduardo Ferro Rodrigues ou Pedro Nuno Santos aparecessem em campanha?
Espero que eles apareçam. Isto é um caminho que se faz caminhando. E estou absolutamente certo que irão aparecer. É natural que António Costa, que é presidente do Conselho Europeia, não se queira meter nestas eleições. Mas também já o disse, numa frase, que é simbólica: dizendo que iria votar “seguramente” nestas presidenciais.
Acha que vai votar em António José Seguro?
Não sei. Mas a frase é simpática, pelo menos.
Não tem dúvidas que Pedro Nuno Santos venha a manifestar apoio?
Espero e confio que sim. Acho que o Pedro Nuno, independentemente de estar mais à esquerda, é um homem sério, uma pessoa decente, que luta por convicções e que vota António José Seguro. Precisamos de políticos absolutamente exemplares do ponto de vista ético, de seriedade, que não confundem política com negócios e que só estão ao serviço dos portugueses. O partido do António José Seguro são os portugueses.
Apesar de tudo o que diz, António José Seguro não tem conseguido disparar nas sondagens. Até tem descido.
Mas vai disparar dia 18.
O que é que está a falhar?
Não está a falhar nada.
Está a fazer tudo bem?
A campanha está agora a ser organizada e montada. Só teremos campanha a seguir ao Ano Novo. As pessoas também precisam de descanso no Natal. Há depois o mês de janeiro. Há tempo de sobra para a campanha eleitoral propriamente dita. António José Seguro vai para o terreno, vai falar com as pessoas, vai percorrer o país, vai falar com os portugueses.
E vai contar com as estruturas do partido também?
O partido está motivadíssimo. Na campanha, na direção de campanha da candidatura, estão imensos dirigentes do partido, militantes do partido e por todo o lado.
No terreno conta com essa estrutura, é isso?
A candidatura é individual, é independente, não é do PS. É natural que sendo António José Seguro militante do partido há 45 anos, é natural ter laços de amizade e de camaradagem. Depois, há esta questão política que é relevante: “Acorda, esquerda”. O PS já acordou. Senão, no dia 19, vamos ter duas pessoas da direita a disputar as presidenciais.
José Luís Carneiro esta semana saiu em defesa de António José Seguro depois do debate com o Henrique Gouveia e Melo. Isto não é um apoio que já vem tarde e a más horas?
Veio na altura certa. Este caminho tinha de ser feito como foi. Portugal precisa de um Presidente sóbrio, que faça Câmara ou para um Governo. Não é um lugar executivo. Temos berraria a mais. O tempo da campanha eleitoral será janeiro. Até lá, estes debates são importantes porque as pessoas ficam a conhecer melhor os candidatos. António José Seguro esteve muito bem nos debates. Ganhou-os todos. Aqueles que pode não ter vencido, empatou. Esteve muito bem. Não é um candidato contra ninguém, é um candidato por um país mais decente, mais equilibrado. É uma pessoa normal. Ter estado afastado da política é bom porque teve a vida de cada um de nós. Deu aulas, criou uma empresa, teve essa experiência.
O facto de o líder socialista ter decidido aparecer assim que Henrique Gouveia e Melo disse representar o PS não é a assunção de alguma fragilidade da candidatura de António José Seguro? É preciso vir o líder dizer “não, este senhor é que é o candidato do PS”?
Não houve pedido nenhum para o líder fazer nada. Foi uma atitude espontânea de José Luís Carneiro.
As pessoas poderiam ter alguma dúvida em relação ao candidato oficial do PS?
Foi claro para que não houvesse dúvidas. É óbvio que o candidato do PS é António José Seguro. Mas as candidaturas vão para além dos partidos. O Presidente tem que ser um homem independente dos partidos. Não é acima dos partidos; é ao lado. Sem partidos não há democracia.
Mas há ou não algum desconforto no PS em relação à candidatura de António José Seguro?
Quando Jorge Sampaio se candidatou havia muita gente também no PS que não foi logo com ele. É natural.
Horas depois deste toque a rebate de José Luís Carneiro, Carlos César, presidente do partido, em declarações ao Observador, veio deixar o seguinte recado: “Cada pessoa, seja dirigente ou simples militante, simpatizante ou votante, fará e votará como entender e não será penalizado por isso”. Não é mais uma evidência de que há uma divisão no PS?
O partido é feito de homens e mulheres livres, não há delitos de opinião. Era o que faltava. E a candidatura presidencial é individual. Ponto. Agora, não tenho dúvidas de que o Carlos César estará com António José Seguro e participará na campanha.
“Seguro cometeu um erro estratégico. Mas todos cometemos erros”
Numa entrevista ao público, há mês, António José Seguro evitou colocar-se na “gaveta” da esquerda. Entretanto, já veio afirmar-se como alguém da esquerda democrática e moderada. Foi um erro estratégico esse distanciamento inicial da esquerda?
Foi um erro estratégico. Todos cometemos erros e temos frases menos conseguidas. Já cometi muitos e ele também já cometeu. E há de cometer mais. Foi uma frase menos feliz. Ele próprio já disse isso. Mas eu concordo na questão das gavetas. Ele não entregou o cartão de militante do PS. É militante do PS. Ele é o que foi até agora nos últimos 40 anos. O que conta num candidato a Presidente da República é o que ele foi nas últimas décadas. Até tenha estima pessoal pelo almirante Gouveia e Melo, mas isto não é um concurso de popularidade e de simpatia. Caso contrário, o candidato com mais hipóteses era o Cristiano Ronaldo. O almirante tem muito currículo na área militar, mas espero que Portugal não vá entrar em guerra. Precisamos de um político com experiência; não de um super-homem. Isto não vai lá com um super-homem. Vai com um homem normal, com as qualidades e os defeitos que conhecemos. Não estou a dizer que Seguro é perfeito. Não é. Erra como todos nós. Mas é um homem modesto, simples, sabe reconhecer erros, ouve antes de decidir, é prudente. Precisamos de alguém em Belém que não se precipite, que seja prudente, que saiba ouvir, gerir o silêncio.
Para chegar a Belém, vai ser capaz de garantir a convergência à esquerda. Tem capacidade para isso?
Acho que sim.
António José Seguro tem no currículo a abstenção a um dos orçamentos da troika e também na revisão laboral do Governo PSD/CDS dessa mesma altura, já incluía a redução das compensações por despedimento e a eliminação de quatro feriados.
E ganhámos as eleições [europeias].
Mas este currículo é um problema? Há uma esquerda que está incomodada com isso.
Mas ele pensou primeiro no país. Estava com ele e apoiei-o nessas decisões todas. Se não fossem as intervenções do António José Seguro e do PS nessa altura, com visitas que ele fez à Alemanha, com conversas regulares que tínhamos com a delegação da Troika, a coisa tinha sido pior. E o que teria sido melhor? Entrar em rutura ou tentar, apesar de tudo, limitar alguns danos e atenuar alguns desses problemas?Qualquer que fosse o governo em bancarrota teria que apertar o cinto. O PS, quando fez o Bloco Central, liderado por Mário Soares, teve que apertar imenso o cinto. Por isso se achava que Mário Soares não tinha nenhuma chance como candidato a Presidente, porque tinha sido um governo impopular. Nesta questão da troika, fomos obrigados a tomar medidas muito difíceis.
O PS não era governo.
O PS sempre tentou amenizar essas medidas e pensou mais no país. Acho que o António José Seguro pensou no país até com o prejuízo de poder acontecer o que acabou por acontecer. Ele tinha a noção que muita gente no partido e fora do partido não estava a gostar daquilo. Mas há uma coisa que costumo dizer quando estou com ele, e nós somos amigos há 40 anos: dormimos muito bem. Ele não toma comprimidos para dormir. Tem uma consciência muito tranquila. E isso é muito bom.
A questão aqui era só sobre a capacidade dele de congregar a esquerda.
Ele é candidato a Presidente da República, mas isto não é uma questão de vida ou de morte. Não foi fácil para ele candidatar-se. Ponderou muito porque é uma decisão difícil. É preciso ter coragem. Expor-se, estar numa campanha eleitoral, tendo família, tendo a vida boa que ele tem, tendo uma empresa, sendo professor… Ele tomou uma atitude dizendo: “Eu estou disponível. Com as minhas qualidades e com os meus defeitos. Já me conhecem. Conhecem-me bem. Eu sou assim. Não vou mudar agora para ganhar votos”. Ele é o que e será aquilo que o país precisa: alguém da esquerda, mas que é moderado e que vai ao centro e que sabe fazer pontos com setores à direita. Porque o Presidente tem que estar no meio. Isso está-lhe impregnado.
Tendo em conta o currículo político que António José Seguro traz como antigo líder da oposição durante a troika, ainda acha possível que vai conseguir que outros candidatos à esquerda abdiquem? António Filipe, Catarina Martins e/ou Jorge Pinto?
Acho que vai haver voto útil na primeira volta.
Mas nenhum destes candidatos à esquerda abdica a favor de António José Seguro?
Não vou dizer porque acho que não fica bem tentar dizer isso. As candidaturas do Bloco e do PCP são mais partidárias, para ver se salvam os respetivos partidos do declínio. O Livre até teve bons resultados eleitorais…
Abdicarem poderia ser um sinal importante para a candidatura de António José Seguro.
Os eleitores que têm votado nesses partidos à esquerda têm que pensar muito bem no seu voto. Senão votarem em António José Seguro corremos o risco de não ter ninguém à esquerda na Presidência da República. É muito simples e qualquer pessoa percebe isto. Não quer dizer que eles desistam. Acredito que os portugueses são sensatos e inteligentes. Na hora do voto, o voto é secreto e é o eleitor sozinho perante um quadrado. Quanto mais, acho que eles [os outros candidatos] não vão ter resultados muito simpáticos para eles. Mas farão que entenderem. Mas seria a bem do país, dos trabalhadores e dos mais fracos. A bem dos valores da esquerda, da solidariedade, da igualdade de todos, de um país mais fraterno, mais igual. Se querem isso, vão votar útil a 18 de Janeiro. Isto não é uma coisa de somenos. O país ficará muito desequilibrado à direita ou… Presido uma associação da sociedade civil. Não precisamos de um militar para pôr isto na ordem. Precisamos é que os portugueses regenerem a República e precisamos de um político decente, eticamente à prova de bala, que regenere a confiança que as pessoas perderam nos políticos E isso faz-se pelo exemplo das pessoas. Acho que era bom para a democracia que passassem à segunda volta os candidatos que, no fundo, são apoiados pelos grandes partidos: Luís Marques Mendes e António José Seguro
O PS foi terceiro em número de deputados nas últimas legislativas, perdeu de forma expressiva as últimas autárquicas. O candidato apoiado pelo PS nestas eleições presidenciais arrisca-se a não passar à segunda volta. O eventual sucesso de António José Segura é essencial para o Partido Socialista?
É essencial para a esquerda portuguesa.
Mas é importante para o PS, nesta fase que o partido atravessa?
É importante ter um militante seu na Presidência da República. Mas se não houver alguém do PS, que é a única hipótese que a esquerda tem de ter um Presidente, vamos passar três décadas com a direita em Belém. Porquê? A esquerda tem lepra? A esquerda, às vezes, pensa pouco. Tem que pensar mais.
O PS preparou-se pouco para este ciclo?
Não há candidaturas perfeitas. Já apoiei candidatos que não preferia. Mas, às vezes, temos que fazer opções racionais e inteligentes.
“Duarte Cordeiro tem todas as condições para ser um dia líder do PS”
Vamos avançar para o segundo segmento do nosso programa, o bloco “Carne ou Peixe”. Conhece as regras. Só pode escolher uma de duas opções. Vamos imaginar o seguinte cenário. Na véspera da eleição, António José Seguro percebe que não tem hipóteses e abdica. André Ventura tem tudo para passar à segunda volta. Em quem é que votaria para passar a essa mesma segunda volta e enfrentar André Ventura: Luís Marques Mendes ou Henrique Gouveia e Melo?
Esse cenário é absolutamente impossível de acontecer. Nem passa pela cabeça. António José Seguro vai ser Presidente. Os portugueses vão ser sábios. Gosto muito de História e, ao longo da História, os portugueses foram sempre sábios nas decisões. Sabem bem que não podem pôr os ovos todos no mesmo cesto.
A quem é que dava boleia numa longa viagem para conhecer melhor o país: José Luís Carneiro ou Francisco Assis?
O Assis é meu amigo. Já atravessei o país com ele várias vezes. Dava ao José Luís, porque nunca atravessei o país com ele e acho que ele ia ficar cheio de medo que eu ando sempre a 200 à hora.
Quem é que precisa mais de uma tour pelos corredores do Hospital Santa Maria: Ana Paula Martins ou o juiz Carlos Alexandre?
Ana Paula foi diretora do hospital. Conhece bem o hospital, não precisa. O juiz Carlos Alexandre conhece menos.
Quem preferia ter numa conferência organizada pelas SEDES a falar sobre o futuro do socialismo: Duarte Cordeiro ou Fernando Medina?
Duarte Cordeiro. Acho que tem todas as condições para ser um dia líder do PS.
Fernando Medina não? Já passou o tempo deles?
Fernando Medina é um grande quadro. Gosto dele, acho que ele é um homem sensato, moderado. Mas não podemos ser todos líderes, não é? Cada um faz o seu papel e poderá ser outras coisas. Presidente da Assembleia da República, por exemplo.