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As perguntas são muito espaçadas, mas insistentes. Ivo Rosa tem entre ele e a testemunha um tradutor: pergunta em português; espera pela tradução; ouve as respostas em árabe; e espera de novo para as compreender. Não é possível, assim, que o diálogo seja mais dinâmico, mas isso não parece afetar o juiz de instrução criminal. Sentado numa cadeira preta, de costas altas, em frente à mesa cor de pinho que encabeça uma das salas de audiência do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, parece estar atento a todos os detalhes. Insiste no que não ficou bem explicado e faz, muitas vezes, a mesma pergunta, de forma diferente, para confirmar que, do outro lado, está a sair a verdade. Sempre com a mesma expressão e na mesma cadência, sem que, na voz, se perceba qualquer emoção — nem de desconfiança, nem de validação. Mudanças de tom — ou de ritmo — só quando se impacienta com explicações que não pediu. Aí, o magistrado interrompe, até, o tradutor, diz “isso está esclarecido, o que eu pergunto é se…” e força a resposta. “É uma pessoa com um enorme poder de síntese”, conta ao Observador um advogado que já participou em vários processos titulados por Ivo Rosa. “Tem a capacidade de perceber imediatamente o que é realmente importante. E quando percebe que estão a enrolar, intervém”, acrescenta.

Foi isso que aconteceu de todas as vezes que a tal testemunha pareceu não dar a resposta que o juiz procurava. O cidadão marroquino estava a ser ouvido no processo que investiga Abdesselam Tazi, o também marroquino que foi detido em Aveiro por suspeitas de recrutar pessoas para o autoproclamado Estado Islâmico. A detenção foi apresentada como um caso de grande sucesso da Polícia Judiciária (PJ) e do Ministério Público (MP), sobretudo depois de reveladas as relações de Tazi com Hicham El Hanafi, um dos homens detidos em França, em 2016, por alegadamente estarem a preparar vários atentados naquele país, no dia 1 de dezembro daquele ano. Diz o MP que Hicham foi um dos jovens recrutados por Tazi para o Daesh.

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