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Jacob Frey. O mayor moderado de Minneapolis que agora faz frente a Trump

Com a cidade "invadida" pelo ICE, Jacob Frey ganhou palco. Tinha experiência a lidar com crises, mas faltava-lhe o apoio da ala esquerda do Partido Democrata. Agora conquistou-o.

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Jacob Frey tinha tomado posse como presidente da Câmara de Minneapolis, pela terceira vez, há apenas dois dias, quando o telefone tocou, na manhã do dia 7 de janeiro. Do outro lado da linha, Brian O’Hara informou-o que um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) tinha “baleado alguém”. A vítima, identificada depois como Renee Good de 37 anos, acabou por morrer. Frey, que estava reunido com membros da sua administração e da assembleia municipal a planear o novo mandato, traçou uma resposta e agendou uma conferência de imprensa. Horas mais tarde, deixava, em direto para as câmaras, duas mensagens. A primeira, à administração federal, que declarara, entretanto, que o agente Jonathan Ross tinha matado Renee Good em legítima defesa: “tretas“, declarou Frey. A segunda mensagem foi diretamente para os agentes de imigração: “ICE, saiam de Minneapolis, porra“.

A escolha de palavras — inesperadas para um político — saltou à vista e dividiu opiniões. A administração federal e vozes adversárias do Partido Republicano acusaram-no de “mentir publicamente e incitar a mais violência contra as autoridades”. Já muitos dos seus apoiantes viram nas suas palavras um retrato da indignação que tomou conta da cidade. No entanto, mais do que isso, a firmeza com que Jacob Frey respondeu a Donald Trump e à sua administração valeu-lhe aliados entre políticos mais à esquerda que, há poucos meses, se opuseram à sua recandidatura a mayor. “Fico feliz por poder dar o braço a Jacob Frey e lutar contra as tropas de choque fascistas de Trump”, declarou Aisha Gomes, congressista estadual apoiada pelos Democratas Socialistas da América (DSA) — uma organização política dos EUA que congrega visões socialistas e sociais-democratas.

A mudança de opinião dos políticos mais à esquerda é justificada com a evolução das posições de Frey. Isto porque numa cidade que é particularmente liberal, Jacob Frey é visto como um moderado — as suas duas reeleições foram sempre contra candidatos mais radicais e o autarca soma no seu currículo momentos que lhe valeram a censura e as críticas dessas mesmas fações do Partido Democrata. Porém, a presença dos agentes de imigração na sua cidade — que classificou como uma “invasão” —, permitiu-lhe explorar um outro lado: o de exemplo a seguir pelos democratas pela resistência às políticas de Donald Trump. Ao longo do último ano, o título foi dado uma e outra vez a governadores ou autarcas que desafiam Washington.

"Desculpem se ofendi os seus ouvidos de princesa Disney. Se estamos a falar sobre [o que é] inflamatório, de um lado temos alguém que disse um palavrão, do outro, alguém que matou outra pessoa. Eu acho que a ação mais inflamatória é matar alguém."
Jacob Frey, em entrevista à CNN depois da sua reação à morte de Renee Good

Agora, com a atenção de Donald Trump em Minneapolis, Jacob Frey foi atirado para debaixo dos holofotes. Depois do dia 7 de janeiro, o telefone de Frey já tocou mais duas vezes com a mesma notícia. A primeira no dia 14 de janeiro, quando um homem foi baleado pelo ICE numa perna durante um protesto. Julio Cesar Sosa-Celis sobreviveu. A segunda, no passado sábado, quando o ICE disparou sobre Alex Jeffrey Pretti, que acabou por morrer durante uma operação para detenção de imigrantes sem documentos. As conferências de imprensa tornaram-se quase rotina, as críticas acesas à administração também, mas Frey não cede às críticas republicanas.

“Desculpem se ofendi os seus ouvidos de princesa Disney. Se estamos a falar sobre [o que é] inflamatório, de um lado temos alguém que disse um palavrão, do outro alguém que matou outra pessoa. Eu acho que a ação mais inflamatória é matar alguém”, defendeu-se, em entrevista à CNN. A resistência de Frey é facilmente justificada por aqueles que trabalharam junto dele ou acompanharam os sucessivos obstáculos dos seus mandatos. “Jacob aprendeu com experiências duras como se lidera uma cidade através da tragédia”, elogiou a senadora do Minnesota, Tina Smith.

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As “experiências duras” de Jacob Frey e a oposição progressista

“Não consigo respirar”. As palavras que estavam na máscara que Jacob Frey utilizava no dia 6 de junho de 2020 eram as mesmas que George Floyd dissera quando foi morto dias antes por um agente da polícia, Derek Chauvin. Durante o protesto em que participava em Minneapolis, o autarca foi questionado pelos manifestantes se estaria disposto a abolir o Departamento de Polícia para criar um novo departamento de segurança pública. Recusou firmemente e a resposta foi recebida com vaias: “Vergonha” e “Vai para casa, Jacob”, ouviu-se nos vídeos do momento que ficaram virais na internet.

“Achei que a minha carreira política tinha terminado“, recordou agora, passados mais de cinco anos do momento, ao New York Times. À data, na verdade, a carreira política de Frey não era particularmente extensa. Nascido em Washington a 23 de julho de 1981, no seio de uma família judia, Frey entrou para a Universidade com uma bolsa de atletismo. Foi como atleta profissional que visitou Minneapolis em 2006, para correr uma maratona. Apaixonou-se pela cidade, segundo relata até hoje, e, depois de concluir o curso de Direito, rumou a norte de forma permanente. Foi eleito para a Assembleia Municipal em 2014, aos 32 anos, e, quatro anos depois venceu a sua primeira corrida à Câmara Municipal.

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▲ Frey, de costas, é vaiado por recusar abolir o Departamento de Polícia de Minneapolis, em junho de 2020

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Em 2022, em entrevista à Vogue depois da primeira reeleição, comparou os dois tipos de corrida. “O esforço do dia a dia é mais importante do que a corrida. Tal como numa campanha, não se pode só aparecer só no dia da eleição e ganhar”, analisou. Antes da eleição de Frey, Andrea Jenkins, que cumpriu dois mandatos na Assembleia Municipal durante o mesmo período, achou o político de 36 anos muito “verde”, recordou agora ao New York Times. Os muitos obstáculos dos anos que se seguiram tornaram-lhe a “pele rija”, argumentou por sua vez o próprio autarca ao mesmo jornal.

O maior braço de ferro foi aquele que travou com as fações mais à esquerda sobre a abolição do Departamento de Polícia, medida aprovada em Assembleia Municipal. Saiu vitorioso quando o tema foi a votos em referendo no boletim de 2021 e a maior parte dos eleitores votou contra a medida. O ano de 2020, para além dos motins que se seguiram à morte de George Floyd, trouxe também uma pandemia que, por sua vez, causou uma crise económica que impossibilitou o cumprimento de muitas das suas promessas eleitorais.

Apesar da oposição dos progressistas em ano de eleições, conseguiu renovar o mandato em 2021, ainda que por uma margem ligeiramente mais curta. Em 2025, novamente em ano de eleições, Minneapolis — e Frey — voltaram a ocupar espaço na agenda mediática nacional, por causa de uma sucessão de casos de violência armada na cidade. Em junho, uma congressista estadual, Melissa Hortman, e o marido foram mortos a tiro em casa, num subúrbio de Minneapolis. Em agosto, duas crianças foram mortas e 17 pessoas ficaram feridas quando uma atiradora disparou sobre uma igreja no sul da cidade.

Em novembro, o lugar de Jacob Frey voltou a ser desafiado. Desta vez, três dos seus opositores — o socialista democrata Omar Fateh e os progressistas DeWayne Davis e Jazz Hampton — formaram uma aliança política para tentar derrubar Frey. Numa eleição que funciona por ranking dos candidatos e não por voto único, os três candidatos apelaram aos seus eleitores que colocassem os nomes uns dos outros no boletim, sem elencar Frey. Contudo, a estratégia não foi bem-sucedida e o incumbente foi reeleito — ainda que, novamente, com uma margem ainda mais curta.

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▲ Devido ao frio, aos apelos de Frey ou ao contexto diferente, os protestos mantém-se pacíficos

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Um moderado que “não capitulou”, mas mudou e ganhou apoiantes com uma “mensagem agressiva”

“Eu envelheci uma década, facilmente. Este é um tempo que me mudou para sempre”. Jacob Frey fazia assim, à Vogue, o balanço do seu primeiro mandato, queixando-se das rugas, dos cabelos brancos e do “trauma” adquirido ao longo de quatro anos à frente de Minneapolis. Passados outros quatro anos, Frey diz ter feito nova evolução. “Não sou o mesmo mayor que era então. Mal sou a mesma pessoa”, afirmou já este mês ao Wall Street Journal.

A constante evolução é testemunhada por aqueles que acompanharam o seu percurso. Andrea Jenkins, a deputada municipal que tinha reservas sobre a sua governação, aponta como ponto de viragem o confronto com os progressistas. “Ele era o Vilão n.º 1. Mas manteve-se firme. Não capitulou perante os ventos políticos, o que teria sido muito fácil de fazer“, elogia. É essa mesma firmeza que se destaca agora, ainda que com um novo adversário: em vez de confrontar os democratas à sua esquerda, Frey apontou armas ao poder federal e a Donald Trump.

A postura trouxe para o seu lado alguns dos seus críticos, como a deputada estadual Aisha Gomez — que reconheceu que elogiar Frey não é uma opinião popular nos seus círculos “de esquerda” e “radicais” —, mas também gerações mais novas. Linea Palmisano, aliada de Frey na Assembleia Municipal, relatou à imprensa norte-americana que a sua primeira reação às palavras do autarca no dia 7 de janeiro foi negativa; achou que podia ser um erro utilizar um discurso tão inflamatório. A mesma leitura é feita por Lawrence Jacobs, professor na Universidade do Minnesota. “Ele permitiu ser enquadrado como o mayor histérico, de extrema-esquerda e zangado“, argumentou ao Wall Street Journal.

No entanto, depois da reação inicial, Linea Palmisano falhou com o filho adolescente, que classificou o discurso como “perfeito”, ouviu o tema debatido nas ruas e as palavras do autarca impressas em t-shirts e cartazes. A aliada de Frey diz que a linguagem é comum em privado — foi com o mayor que a filha de quatro anos de Palmisano aprendeu palavrões, admitiu à CNN —, mas nunca a figura privada se tinha misturado tão fortemente com a figura política. Mas o discurso, que aponta como espontâneo, acabou por ajudar Frey, precisamente por dar voz aos sentimentos reais dos seus eleitores. “Ele não se apercebeu no momento, mas pegou no megafone”, resumiu.

epaselect epa12488351 California Governor Gavin Newsom announces legal action against the Trump administration at a press conference in Sacramento, California USA, 28 October 2025. Newsom announced that California is suing the Trump administration over the administration's 'unlawful refusal to fund SNAP benefits'.  EPA/ANDRI TAMBUNAN

▲ O governador da Califórnia, com um discurso igualmente agressivo, é visto como um dos principais opositores de Trump

ANDRI TAMBUNAN/EPA

Um político democrata com “uma mensagem agressiva”, como aponta o canal norte-americano, não é inédito. Do outro lado dos Estados Unidos, numa coluna de opinião, o editor do jornal The Sacramento Bee compara Jacob Frey a um outro político de “declarações audazes”: o governador da Califórnia, Gavin Newsom. No entanto, LeBron Antonio Hill argumenta que a resistência de autarcas como Frey é mais eficaz, porque passa das palavras aos atos, é “vivida em tempo real” e uma “reflexão da experiência vivida”. Já a resistência de Newsom é “performativa”, critica.

Na Minneapolis de Frey, esta leitura não é unânime. Em 2022, PJ Hill, conselheiro financeiro de Frey, elogiava à Vogue a sua evolução desde os tempos em que era acusado de não ser um líder presente. “Ele está a fazer um trabalho muito melhor. Aparece nos sítios, quer tenha respostas, quer não”, assegurou. Contudo, em 2026, a estratégia de Frey continua a ser questionada quer por eleitores, quer por funcionários da Câmara que continuam a acusar o autarca de não passar das palavras aos atos.

As ferramentas de Frey: a lei, a Constituição e a comunicação “intencional e consistente”

“O mayor radical de Minneapolis Jacob Frey está a abusar do seu poder numa tentativa de bloquear os apoiantes do Presidente de o verem falar na quinta-feira. Recusamos ser vítimas de bullying de um resistente de esquerda e não o vamos deixar abafar o discurso de Donald Trump ou dos seus apoiantes.” A publicação de uma assessora de Donald Trump podia ser de 2026, mas é de 2019, quando o Presidente acusou o autarca de cobrar valores demasiado altos para utilizar o Target Center, na baixa de Minneapolis, para um comício com o tema “Mantenham a América Grande”.

Cerca de um ano depois, Trump deixava novo ataque, acusando Frey de ser “fraco”, face à forma como lidava com os motins que tomaram conta de Minneapolis no verão de 2020. Um relatório posterior, citado pelo Wall Street Journal, responsabilizou realmente as autoridades locais e estaduais pela fraca resposta de emergência à situação. À data, Frey já tinha apontado as fragilidades nas autoridades locais, sem capacidade para responder a estas situações. Mais de cinco anos depois, o diagnóstico mantém-se. Os agentes federais (entre o ICE e outras agências) são cinco vezes mais numerosos que os agentes da polícia local e a equipa de Frey, com apenas 15 funcionários, não tem capacidade para filtrar as milhares de denúncias da população de alegados abusos por parte desses agentes. “Estamos debaixo de água”, sintetizou John Freude, conselheiro de segurança pública da administração à New Yorker.

▲ Os protestos que ocupam as ruas de Minneapolis continuam a ser, maioritariamente, pacíficos

Anadolu via Getty Images

Porém, tal como em 2019, Frey — em sintonia com o Partido Democrata — procura formas de bloquear o Presidente. A estratégia mais visível, até agora, tem passado pelas palavras dirigidas aos manifestantes. “Não podemos contrariar o caos de Donald Trump com o nosso próprio caos. Para os que protestam pacificamente, aplaudo-vos. Para os que estão a morder o isco, não estão a ajudar os imigrantes sem documentos da nossa cidade”, declarou depois de a polícia local ter denunciado que os manifestantes atiraram fogo de artifício contra as autoridades.

Os protestos têm-se revelado mais pacíficos do que em 2020, aquando da morte de George Floyd. Exceção feita ao ocasional grafitti e a confrontos com os agentes federais, não houve registos de destruição de propriedade privada ou violência perpetrada pelos manifestantes. Em Minneapolis, surgem várias hipóteses: uns apontam o frio — a atual tempestade levou os termómetros a registarem temperaturas abaixo dos 30ºC negativos — que leva as pessoas a limitar a presença na rua a protestos e vigílias organizados. Já Frey destacou à New Yorker, por comparação,que em 2020 a existência da pandemia estimulou a vontade de sair à rua e permitiu que todas as pessoas andassem de cara tapada na rua.

Outros apontam a comunicação constante com a população de Jacob Frey. “Como é que se continua a comunicar — mesmo que não se tenha nada diferente para dizer — de uma forma que ajuda as pessoas a sentirem-se em segurança, a preparem-se para o que aí vem? Isso é algo que eu vejo o mayor Frey a fazer, a comunicar de forma muito intencional e muito consistente”, elogiou Melvin Carter, que foi, durante um período em simultâneo, mayor de St. Paul, a cidade vizinha de Minneapolis, considerada “Cidade Gémea”.

Primando pela boa comunicação, Frey também tentou estabelecer linhas diretas com a Casa Branca para negociar o fim da “invasão”. No entanto, segundo disse à New Yorker e ao Wall Street Journal, ainda antes da morte de Alex Pretti, as tentativas de estabelecer contacto não tinham obtido qualquer resultado. Um dado que mudou esta segunda-feira, quando falou ao telefone com Donald Trump — o autarca diz ter “apreciado a conversa”, sinalizando uma possível mudança de postura do Presidente.

Antes disso, já tinha dito à CNN que utilizaria “todas as ferramentas”. “Especialmente a lei e a Constituição, que estão firmemente do nosso lado”, rematou. Até este fim de semana, isso passou por um processo contra a administração Trump e pela mobilização da Guarda Nacional do estado do Minnesota.

Ainda assim, a ferramenta mais visível de Frey tem sido o lugar de destaque que ganhou no palco nacional. Apesar de Tim Walz, o atual governador do Minnesota, já ter anunciado que não se irá recandidatar ao cargo, e com as eleições intercalares a realizarem-se este ano, Jacob Frey foca-se no cargo para que acabou de ser reeleito e recusa comentar qualquer cenário onde investir o recém acumulado capital político. “Tenho trabalho para fazer aqui”, limitou-se a dizer à CNN.

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