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Zohran Mamdani. O carismático rosto da política nova-iorquina que pode ser "modelo" para os democratas e "arma" para os republicanos

Depois de uma campanha focada no custo de vida que tomou conta das redes sociais, tudo indica que Mamdani vai liderar Nova Iorque. Mas exportar o sucesso para o resto do país pode ser mais difícil.

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Quando Zohran Mamdani apresentou a candidatura à presidência da Câmara Municipal de Nova Iorque, a 23 de outubro de 2024, o deputado estadual era apenas um entre dezenas de aspirantes a tornar-se o candidato oficial do Partido Democrata. Aos 33 anos, o seu currículo era mais curto e o seu nome tinha menos peso que o dos seus adversários. Passado pouco mais de um ano e na véspera das eleições, Mamdani não se tornou apenas o candidato democrata, como lidera a corrida a três e tudo aponta para que esteja prestes a tornar-se o primeiro político socialista e muçulmano à frente da maior câmara do Estados Unidos, em número de população.

Ao longo de um ano de campanha, Mamdani tomou conta dos cinco bairros da cidade, ajudado por mais de 50 mil voluntários, segundo números da campanha. Mas o fenómeno não ficou restrito à “big apple“. Impulsionado por milhões de seguidores nas redes sociais, o outrora desconhecido político nova-iorquino nascido no Uganda tornou-se um rosto familiar da política nacional (e internacional). No fim de semana passado, por ocasião da abertura das urnas para o voto antecipado, Mamdani organizou um comício intitulado “Nova Iorque não está à venda”, que reuniu no Estádio Forest Hills em Queens 13 mil pessoas — um número só comparável com a assistência de eventos de campanhas presidenciais.

Quem é Zohran Mamdani, o socialista imigrante e muçulmano que poderá ser coroado rei da “selva de betão” de Nova Iorque?

Ao lado de Mamdani em palco estiveram dois dos nomes mais famosos da esquerda norte-americana: o senador independente Bernie Sanders e a representante Alexandria Ocasio-Cortez. Não foi só na franja mais radical do Partido Democrata que Mamdani encontrou apoio. Em palco esteve também a governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, que representa uma fação mais moderada do partido e que já tinha declarado o seu apoio formal ao candidato em setembro. Porém, nem todos os centristas foram tão rápidos a avançar com o seu apoio. Hakeem Jeffries, líder dos democratas na Câmara dos Representantes e também ele nova-iorquino, expressou o seu apoio, de forma reticente, apenas a poucos dias das eleições e Chuck Schumer, que ocupa o mesmo cargo no Senado, mantém-se, até agora, em silêncio. Já este sábado, o antigo Presidente Barack Obama declarou o seu apoio num telefonema para o próprio Mamdani, onde se ofereceu para ser seu “conselheiro” em caso de vitória nas eleições.

A postura hesitante dos democratas mais ao centro explica-se com o facto de Zohran Mamdani ser apoiado pelos Socialistas Democráticos da América (DSA), a uma organização de matriz socialista e social-democrata que é a maior organização política dos Estados Unidos. A DSA tem um papel ativo na política norte-americana, tendo já apoiado a campanha de vários dos deputados mais progressistas do Congresso. A proximidade de Mamdani com os ideais de esquerda e centro-esquerda defendidos pela organização não só não são bem-vindos entre muitos democratas moderados, como fazem soar alertas.

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▲ Bernie Sanders e AOC são as figuras políticas nacionais mais vocais no apoio a Mamdani

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“Os Socialistas Democráticos da América têm uma série de ideias que são muito fáceis de transformar em armas e que já estão a ser transformadas em armas pelos Republicanos”, declara Matt Bennett, co-fundador da Third Way, uma organização de democratas moderados, ao Observador. O antigo assistente do Presidente Bill Clinton vê em Mamdani uma série de características positivas, mas teme que as suas ligações à DSA favoreçam uma ofensiva do Partido Republicano contra os democratas — que ainda se encontram a tentar recuperar da pesada derrota eleitoral de 2024.

Por outro lado, outros analistas argumentam que uma governação bem-sucedida de Mamdani na câmara de Nova Iorque, independentemente de ter ideais pouco populares nos Estados Unidos, poderá ajudar o Partido Democrata e deitar por terra a tentativa dos republicanos de transformar essas ideias em armas. Entre os democratas — sejam céticos ou fãs — surge ainda outra leitura praticamente unânime: Zohran Mamdani é um fenómeno raro, com o qual o Partido pode aprender.

As políticas de FDR, o carisma de Obama e o Tiktok dos mais jovens. A mistura bem-sucedida para mover multidões

“Fazer os autocarros rápidos e gratuitos”, “tornar os cuidados infantis universais” e “congelar as rendas”. As três promessas eleitorais viraram lema e veem-se em cartazes, panfletos, autocolantes e pins, sempre em amarelo, azul-escuro e vermelho e são repetidas em conversas do candidato com os eleitores, em comícios em frente a milhares e em TikToks vistos por milhões. “Mamdani foi bem-sucedido porque criou um movimento em redor da sua candidatura”, resume Basil A. Smikle.

O professor na Universidade de Columbia e estratega político democrata destaca como fator de sucesso a sua mensagem política. “Ele pediu aos nova-iorquinos que votassem contra as políticas de Trump e a favor de [políticas] aspiracionais. Assim, ele envolveu eleitores mais jovens e aqueles com pouca ou nenhuma relação à infraestrutura e máquina do Partido Democrático”, elabora ao Observador. A mensagem política de Mamdani centra-se — de “forma incessante”, elogia Matt Bennett — no custo de vida. “Zohran Mamdani está a concorrer a presidente da Câmara para baixar o custo de vida para os nova-iorquinos de classe trabalhadora”, lê-se na sua página online.

Além das promessas sobre autocarros, rendas e cuidados infantis, o deputado estadual promete também criar supermercados geridos pela câmara, para combater a inflação, criar um Departamento de Segurança Comunitária, que implemente programas de saúde mental e resposta a crises, investir na habitação a preços controlados e controlar as obrigações dos senhorios para com os arrendatários. As propostas seriam financiadas com o aumento dos impostos sobre o 1% da população mais rica de Nova Iorque e das empresas sediadas na cidade.

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▲ Mamdani compra uma sanduíche num supermercado típico de Nova Iorque durante um evento da campanha

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Robert Reich, antigo secretário do Trabalho de Bill Clinton, elogia, numa coluna de opinião no The Guardian, as medidas de Zohran pelo facto de darem resposta aos “problemas que os nova-iorquinos estão a discutir à mesa da cozinha”. Reich compara este trabalho ao New Deal do Presidente Franklin D. Roosevelt — FDR foi precisamente o escolhido de Mamdani quando questionado sobre qual o melhor Presidente dos tempos modernos — e critica o facto de os “democratas corporativos terem afastado o partido da sua missão real”, de dar resposta aos problemas concretos da classe trabalhadora. Reich compara ainda Mamdani a outro Presidente dos Estados Unidos: Barack Obama.

A comparação entre Mamdani e Obama é feita por muitos outros democratas, com base num outro fator: o carisma, a capacidade de comunicação e de arrastar multidões de ambos os políticos. “Ele é sem dúvida um comunicador brilhante”, elogia novamente Bennett. O elogio ao carisma de Mamdani já era feito pela revista New Yorker, não durante a campanha, mas em 2002, quando Zohran tinha apenas nove anos. “Zohran, o filho falador e de olhos esbugalhados, que exala o charme dos filhos amados”, escrevia a revista sobre Mamdani (a versão criança) num perfil sobre a sua mãe, a realizadora premiada Mira Nair.

Passados mais de 20 anos, o “falador” Zohran passou a brilhar nas redes sociais, onde grava vídeos a falar sobre as suas propostas, enquanto caminha pela cidade e interage com os seus habitantes. A sua juventude permite que se sinta claramente à vontade no mundo digital, admitiu à revista TIME. Contudo, na mesma entrevista, credita a mulher, Rama Duwaji, ilustradora de 28 anos, por o ter ajudado a utilizar melhor as redes sociais, principalmente o TikTok, onde se concentra a geração Z — os jovens com menos de 30 anos que, como aponta Basil A. Smikle, não têm grandes ligações à política. “A maior parte dos políticos são incrivelmente cringe [que provoca vergonha alheia] nas redes sociais. Até dá arrepios”, compara Matt Bennett. Isso não acontece com Mamdani, mesmo que não concorde com a sua mensagem, acrescenta.

[Chegou o histórico debate entre Soares e Freitas. E o socialista já conseguiu o voto dos comunistas sem “olhar para o retrato” dele. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]

No cruzamento entre o conteúdo e o formato da mensagem, Mamdani criou uma campanha bem-sucedida. “O seu ponto forte foi mobilizar o apoio público em nome das suas políticas, o que é um traço raro”, resume Michael Gianaris, senador estadual por Queens que participou na campanha, à TIME. O sucesso da campanha deverá traduzir-se nos resultados das eleições de terça-feira. As sondagens mais pessimistas colocam-no sempre à frente, por margens de dois dígitos à frente do segundo classificado. As mais positivas, como uma sondagem da Emerson College publicada esta quinta-feira, dão-lhe 25 pontos percentuais de vantagem.

▲ Enquanto governador de Nova Iorque, Cuomo era um nome de peso no seio do Partido Democrata

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Socialismo ou social-democracia: um “perigo” para Cuomo e um rótulo indiferente para Mamdani

Num sistema bipartidário, que favorece Democratas e Republicanos, a corrida à câmara de Nova Iorque deste ano, chegou a ter quatro candidatos de destaque: Mamdani, o candidato republicano Curtis Sliwa, o incumbente Eric Adams, que concorreu como independente, e o antigo governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo. Cuomo foi, durante vários meses, o favorito nas primárias do Partido Democrata, mas acabou por perder para Mamdani. Apesar da derrota, Cuomo escolheu continuar na corrida, como independente, e ocupa agora o segundo lugar das sondagens — Adams retirou depois a sua candidatura para o apoiar.

Cuomo é um veterano do Partido Democrata, que governou o estado de Nova Iorque durante uma década. Contudo, a forma como Cuomo saiu de Albany tornou-o num figura impopular: Cuomo apresentou a demissão depois de ter sido acusado de assédio sexual por 13 antigas funcionárias, uma acusação que Mamdani utilizou para atacar o seu adversário. “Apesar de todas as suas capacidades, teria sido muito difícil vencer as primárias se não tivesse Adams e Cuomo para o empurrar”, avalia Matt Bennett. No contra-ataque, Cuomo focou-se numa das características que tornam Mamdani tão diferente dos outros candidatos democratas: as suas ligações à DSA e o facto de se autoproclamar como socialista, o que, diz Cuomo, é um “perigo” para a cidade. “Imaginem a publicidade no país, internacionalmente, se a cidade de Nova Iorque virar socialista“, declarou Cuomo na semana passada.

Na verdade, o socialismo democrático que Mamdani e a DSA reclamam é algo “que na Europa seria descrito como social-democracia”, explicou Robert Lieberman, professor de ciência política na Universidade Johns Hopkins, ao Washington Post. Na prática, passa por um apoio maior ao Estado social e críticas ao capitalismo, sem serem assumidamente anti-capitalistas. “É um compromisso com a governação democrática com políticas que procuram suavizar as arestas mais afiadas do capitalismo (…)  [para] diminuir as desigualdades em vez de um apelo forçado, por vezes não democrático, ao controlo do governo por parte dos trabalhadores”, diz.

Durante a campanha, Mamdani procurou ativamente distanciar-se dos rótulos, citando regularmente o ativista pelos direitos civis, Martin Luther King Jr.: “Chamem-lhe democracia, ou chamem-lhe socialismo democrático. Tem é de haver uma melhor distribuição de riqueza para todos os filhos de Deus neste país”. “Para os fãs da História, o sr. Mamdani fez o favor de reacender o interesse numa tradição americana em grande parte esquecida: os socialistas do esgoto“, escreve o jornalista e comentador político E.J. Dionne numa coluna de opinião no New York Times.

O conceito é uma referência aos políticos locais norte-americanos que implementaram medidas socialistas sem as identificarem como tal, limitando-se a resolver problemas concretos, como a limpeza dos esgotos — problema que dá nome ao conceito. Dionne ironiza que o conceito de “socialismo da neve” seria igualmente apropriado, referindo-se às políticas de limpeza de neve implementadas por Bernie Sanders quando foi presidente da câmara de Burlington, no Vermont. Ou, como escreve a TIME, por outras palavras: “Enquadrar as suas ideias como senso comum, não como leninistas”. Porém, os detalhes teóricos pouco importam a Cuomo, que continua a colar a Mamdani o rótulo de radical. E, fora de Nova Iorque, Cuomo não é o único a tentar fazê-lo.

epa10975445 House Minority Leader Hakeem Jeffries (L) watches as US Speaker of the House Mike Johnson addresses the crowd gathered for a 'March for Israel' on the National Mall in Washington, DC, USA, 14 November 2023. Thousands of Israelis and Palestinians have died since the militant group Hamas launched an unprecedented attack on Israel from the Gaza Strip on 07 October, and the Israeli strikes on the Palestinian enclave which followed it.  EPA/WILL OLIVER

▲ A posição hesitante de Jeffries (à esquerda) está relacionada com o facto de temer ser colado a posições de Mamdani pelos republicanos

WILL OLIVER/EPA

“Anti-israel, anti-polícia e anti-capitalismo”: os rótulos de Mamdani que os republicanos querem colar aos democratas

“Não vou deixar que este Comunista Lunático destrua Nova Iorque. Não se preocupem, eu controlo todas as alavancas e tenho todas as cartas na mão.” O aviso foi deixado pelo Presidente Donald Trump, dias depois de Mamdani ter ganhado as primárias do Partido Democrata. Em privado, a Casa Branca terá chegado à conclusão que era impossível vencer Mamdani nas urnas, relata o Wall Street Journal, citando pessoas próximas do Presidente, pelo que o Partido Republicano mudou de estratégia e começou a desenhar um “plano de batalha para tornar Mamdani numa arma” contra o Partido Democrata.

Num memorando interno a que o Axios teve acesso nos últimos dias, o Comité Nacional do Partido Republicano apela aos candidatos a governadores e congressistas por todo o país que retratem Mamdani como “anti-polícia, a favor do fim do financiamento, anti-capitalismo e extremista anti-Israel” e utilizem isso para poder retratar o Partido Democrata como um todo como radical. “Se o socialismo de Mamdani pode tomar de Nova Iorque, pode tomar conta de qualquer parte”, lê-se no memorando da liderança republicana.

As acusações dos republicanos baseiam-se em declarações antigas de Zohran Mamdani, que voltaram a emergir à medida que a sua campanha ganhou destaque mediático. Em 2020, por ocasião dos protestos do movimento Black Lives Matter, Mamdani apelou ao corte de financiamento da polícia e acusou a polícia de Nova Iorque de ser “racista, cruel e corrupta”. Agora, pediu desculpa publicamente à polícia e prometeu manter a comissária atual no cargo, vendo a sua proposta para um novo departamento de Segurança Comunitária como uma solução intermédia.

Outra das críticas mais frequentes a Mamdani e que os republicanos querem utilizar está relacionada com o seu apoio à causa palestiniana. Desde que fundou o núcleo de apoio à Palestina durante a faculdade, até às suas declarações durante a campanha de que mandaria prender Benjamin Netanyahu, devido ao mandado internacional por crimes de guerra, se este se deslocar a Nova Iorque, passando pela sua utilização do lema “globalizem a Intifada”, Mamdani tem um longo historial de apoio à Palestina. Os seus adversários, de Cuomo aos republicanos, acusam-no de ser “antissemita” e “pró-Hamas”.

Em resposta, Mamdani reuniu-se com rabinos e líderes da comunidade judaica para provar o seu empenho no combate ao antissemitismo e debater formas de o fazer — chegando a reunir o apoio de muitos deles. Recusando sempre qualquer acusação de antissemitismo, denunciou o facto de ele próprio ter sido alvo — ao longo da juventude e da campanha — de discriminação baseada no facto de ser muçulmano.

"Os partidos funcionam melhor que tiverem um bocadinho de areia nas ostras, um bocadinho de tensão [que os incentive] a trabalhar em vez de estarem apenas a responder ao 'querido líder'."
Matt Bennett, co-fundador da Third Way, uma organização de democratas moderados

Porém, Matt Bennet teme que Mamdani não se distanciado “o suficiente” das suas ideias mais radicais e daquelas que a DSA defende e que, por esse motivo, a estratégia dos republicanos consiga ganhar terreno fora de Nova Iorque. E terá sido com esta mesma possibilidade em mente que os atuais líderes do Partido Democrata no Congresso hesitaram em apoiar Mamdani, analisa. O democrata aponta que o comunicado de Hakeem Jeffries é um bom reflexo da postura que os centristas estão a adotar: apoiar Mamdani apenas por ser o candidato oficial do Partido, mas distanciando-se o mais possível das suas políticas.

Apesar de todos os “perigos”, o provável futuro líder de Nova Iorque não é um mero risco para o Partido Democrata, mas uma oportunidade que deve ser aproveitada. “Os partidos funcionam melhor se tiverem um bocadinho de areia nas ostras, um bocadinho de tensão [que os incentive] a trabalhar em vez de estarem apenas a responder ao ‘querido líder’”, como acontece atualmente com o Partido Republicano, o movimento MAGA e Donald Trump, remata.

Como replicar o fenómeno Mamdani para lá do rio Hudson de olho nas eleições intercalares

Em meados de janeiro, quando o seu nome ainda não liderava sondagens, Zohran Mamdani publicou nas redes sociais um vídeo em que dizia que “Nova Iorque enfrenta uma crise chamada ‘halalflação‘”. No vídeo, Zohran visita vários pontos de venda de comida “halal” e fala com os donos, que se queixam da inflação e dos preços de licenciamento dos negócios, que os obrigaram a aumentar os preços.”É altura de fazer halal a oito dólares novamente”, lê-se na legenda.

Meses depois, o vídeo foi utilizado por vários democratas como exemplo do maior ensinamento que Mamdani pode dar ao partido. “Foi ótimo porque entrou em contacto com os nova-iorquinos comuns em torno de temas que os preocupam, ao mesmo tempo que apresenta soluções simplificadas”, exemplificou Caitlin Kawaguchi, estratega e representante comunitária em Brooklyn, ao New York Times. “Todos podem e devem fazer isto. Qualquer pessoa pode encontrar uma coisa no seu distrito que as pessoas precisem e querem, que se tornou mais cara ou desapareceu e falar sobre isso de formas que ressoem”, elabora Matt Bennett. “Espero que os democratas façam mais isso mais”.

O primeiro teste do “fenómeno Mamdani” deverá ser as eleições intercalares do próximo ano. As eleições dão oportunidade ao Partido Democrata de pôr em prática as duas coisas que elogiam de forma unânime a Mamdani: o seu estilo de comunicação e o seu foco no custo de vida — mesmo que as medidas concretas para o baixar possam ser totalmente diferentes, devem é ser igualmente concretas e simples como “autocarros rápidos e grátis”.

Basil Smikle considera que este é um “bom modelo”, mas alerta “que o sucesso de o replicar depende dos democratas mais velhos e mais do sistema que o atacam publicamente e o diminuem em vez de encontraram formas de trabalhar com ele”. Neste sentido, o professor e estratega argumenta que o sucesso do modelo depende do sucesso da governação Mamdani e da sua capacidade de implementar as suas promessas eleitorais. “É importante relembrar que, como presidente da câmara, muito do que pode fazer é controlado pelo Estado [e] será determinado em grande parte por quão próximo da governadora ele consegue trabalhar”, explica.

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▲ Hochul subiu ao palco com Mamdani, num bom sinal para a futura colaboração entre a câmara e a governadora

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O comício do fim de semana passado, em que Kathy Hochul subiu ao palco para apoiar Mamdani, em contraciclo com outros democratas do mesmo espectro moderado pode ser um bom augúrio para o sucesso de Mamdani. Mas, mesmo bem-sucedidas, as suas políticas não são populares fora de Nova Iorque, uma cidade que, como escreve o Wall Street Journal, “não é modelo da América”: é mais “urbana, infinitamente diversa e loucamente obcecada consigo própria”. “Assim que se passa o [rio] Hudson, a sua popularidade cai a pique, porque isto é um país de centristas. Não somos radicais”, elabora Matt Bennett.

O centrista considera que, por esse motivo, o Partido Democrata não irá apoiar candidatos tão radicais como Mamdani noutras partes do país — e dá o exemplo concreto da corrida no Maine, onde uma governadora veterana compete com um antigo veterano com ideias radicais, polémicas antigas e uma forte presença mediática. Apesar das semelhanças de Graham Platner com Mamdani, Bennett não duvida que o Partido irá, desta vez, apoiar Janet Mills, uma figura do sistema bem mais fácil de apoiar do que Cuomo em Nova Iorque. Mas só os resultados finais permitirão dizer se o Partido Democrata conseguirá utilizar o fenómeno Mamdani a seu favor ou se sairá ainda mais fraturado.

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