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No dia 21 de julho de 2024, Joe Biden divulgou uma carta aberta em que anunciou que ia desistir da recandidatura à presidência dos Estados Unidos e declarava o seu apoio à sua vice Kamala Harris. Rapidamente, os media norte-americanos multiplicaram-se em listas com os nomes mais prováveis de ficar com o lugar de candidato do Partido Democrata. Ao lado de Harris — e da governadora do Michigan — um nome repetiu-se uma e outra vez: Gavin Newsom, governador da Califórnia.
Ao longo da administração Biden, o nome de Newsom já tinha surgido como sucessor, mas, no verão de 2024, o governador seguiu o ritmo dos restantes democratas e não colocou obstáculos à candidatura de Harris. Quase um ano mais tarde, Kamala Harris perdeu as eleições, retirou-se dos holofotes da política nacional e o Partido Democrata dividiu-se à procura de um líder. Tanto antes de Biden, como depois de Harris, Newsom nunca negou a ambição de chegar à Casa Branca — e a postura mantém-se a caminho das eleições de 2028.
Independentemente das suas ambições, os últimos meses revelaram-se difíceis para o governador de 57 anos. Logo no início do ano, a Califórnia sofreu alguns dos incêndios florestais mais mortíferos da sua História. Além disso, o orçamento estadual enfrenta um défice de 12 mil milhões de dólares, que levou ao corte de múltiplos programas sociais, o que gerou insatisfação.
No final de abril, 54% dos californianos acreditava que Gavin Newsom estava mais preocupado em “fazer coisas que o possam beneficiar como candidato presidencial”, enquanto apenas 26% afirmava que a sua prioridade era “resolver os problemas” da Califórnia, segundo um inquérito da Universidade de Berkeley. Com o seu mandato como governador a chegar ao fim no próximo ano e com a impossibilidade de se recandidatar, Newsom arrisca sair da liderança da Califórnia com taxas de popularidade negativas, argumentou Mark DiCamillo, diretor do Instituto de Estudos Governamentais que conduziu os inquéritos.
▲ Em 2022, Newsom já era apontado como possível sucessor de Joe Biden
AFP via Getty Images
Junho trouxe uma nova crise ao estado de Newsom, quando milhares de pessoas saíram à rua para protestar contra os raides anti-imigração do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE na sigla em inglês) e o Presidente Donald Trump respondeu com a mobilização da Guarda Nacional e de centenas de fuzileiros, contra a vontade do governador californiano. Contudo, esta crise permitiu a Newsom assumir um novo papel: o de líder da resistência democrata contra a presidência de Trump.
Na terça-feira, num discurso transmitido na televisão a nível nacional, Newsom não poupou nas críticas. Rodeado de bandeiras nacionais e estaduais, assemelhou a estratégia de Trump à de “ditaduras falhadas” e “regimes autoritários” e desafiou o seu poder, apelando aos cidadãos que façam o mesmo. Conhecido crítico do Presidente Trump, este não é o primeiro frente a frente entre os dois. Mas poderá ser o mais consequente: “Ele acabou de dar o pontapé de saída para a campanha de 2028“, declarou Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump e crítico de Newsom, ao New York Times.
O equilíbrio de Gavin Newsom: ocupar a liderança vazia dos democratas, sem alienar os eleitores republicanos
“Isto não é só sobre os protestos aqui em Los Angeles (…) Isto é sobre todos nós. Isto é sobre vocês. A Califórnia pode ser a primeira, mas claramente não vai acabar aqui. Os outros estados são a seguir. A democracia é a seguir“. Ao longo de oito minutos, o governador Gavin Newsom criticou os raides do ICE, pela forma como visam “famílias imigrantes trabalhadoras de forma indiscriminada”, elogiou os protestos pacíficos dos habitantes de Los Angeles e criticou a resposta da Casa Branca, que classificou como “um abuso de poder”. O discurso resumiu as várias declarações que tem feito sobre o tema.
Na parte final do discurso olhou para fora da Califórnia e deixou vários avisos. “A democracia está sob ataque sob os nossos olhos, o momento que temíamos chegou”, declarou, acrescentando que “o Estado de Direito tem vindo a dar cada vez mais lugar ao Estado de Don”. As palavras deixadas aos norte-americanos fora da Califórnia não passaram despercebidas, dadas as suas ambições ao cargo do outro lado do país, na Casa Branca. “Não há nenhuma dúvida de que Gavin Newsom está a utilizar este momento para elevar o seu perfil nacional, apresentando-se como o rosto da resistência democrática a Donald Trump”, argumentou o estratega político Charlie Kolean à AFP.
Seja qual for a motivação de Gavin Newsom para fazer frente a Trump, vários democratas escolheram focar-se no que isso significa para o partido hoje, em vez de anteciparem a corrida daqui a três anos, e fizeram eco do governador da Califórnia, exaltando a necessidade de “não ficar em silêncio”. Entre essas vozes, contam-se outros nomes populares à candidatura presidencial de 2028, como o senador Chris Murphy — que tem sido um dos democratas mais vocais contra Trump — ou o senador Cory Booker — que bateu o recorde do discurso mais comprido de sempre no Senado, em protesto contra as políticas de Trump.
Do lado de Newsom, ficaram também os líderes democratas no Senado e na Câmara dos Representantes, assim como todos os governadores democratas, pela voz da Associação que os representa. Pela primeira vez desde a pesada derrota de novembro, o Partido Democrata parece apresentar-se como uma frente unida, com um possível líder.
Ora, dadas as características do sistema presidencial norte-americano, os líderes dos partidos são muitas vezes são, na maior parte das vezes, o Presidente ou o candidato presidencial. Desde que Harris deu um passo atrás na vida política, os democratas ainda não conseguiram preencher o vazio da liderança. Se Newsom conseguir fazê-lo, “vai voltar para o topo dos candidatos presidenciais”, considera RL Miller, um dos superdelegados do Comité Nacional Democrata.
Contudo, o conselheiro político Charlie Kolean avisa que a resistência a Donald Trump não deve ser a única estratégia de Gavin Newsom, sob pena de alienar uma grande margem do eleitorado de Donald Trump, que apreciou a sua bandeira de candidato da “lei e ordem”. “Os norte-americanos querem líderes que consigam proteger a segurança pública e ficar do lado das autoridades — não aqueles que politizam a agitação”, argumentou.
O governador Newsom parece estar perfeitamente ciente dessa necessidade, a julgar pelo discurso de terça-feira, durante o qual elogiou várias vezes o trabalho da Guarda Nacional e dos fuzileiros e criticou a sua mobilização a nível interno, quando a “honra” e a “coragem” do seu “serviço” se traduz melhor noutras situações, afirmou. Ao mesmo tempo, condenou a utilização da violência como forma de protesto e prometeu responder. “Quero ser muito claro sobre isto — se incitarem à violência ou destruírem as nossas comunidades, vão ser responsabilizados. Esse tipo de comportamento criminoso não será tolerado. Ponto final”, declarou.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 4.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]
Podcasts, guerras culturais e cortes em programas sociais. “Moderação” ou um “caminho tortuoso”?
Os últimos meses na Califórnia não ficaram marcados apenas pelas crises que o estado enfrentou, mas pela forma como o governador as enfrentou. Gavin Newsom ocupa o cargo desde 2019, período durante o qual se popularizou por medidas progressistas como a garantia do acesso ao aborto e de cidades santuário (que protegem imigrantes da deportação). Mas em 2025, Newsom mostrou-se muito mais moderado e até conservador em alguns aspetos.
No início do ano, quando recebeu Donald Trump no sul da Califórnia, onde ainda lavravam os incêndios florestais, revelou-se muito mais contido do que atrás de um ecrã e mostrou-se disponível para colaborar com o Presidente, quer na questão da resposta a crises, quer no trabalho para manter Los Angeles como a capital da indústria cinematográfica. A postura foi recebida com espanto, mas interpretada como uma forma de manter os apoios federais que Trump ameaçava retirar. “Toda a gente sabe que a melhor forma de levar Trump a fazer algo é dar-lhe graxa”, comentou o consultor político e antigo gestor de campanha de Newsom, Jim Ross, com a ABC7.
▲ Durante a visita de Trump à Califórnia, os dois mostraram-se dispostos a colaborar
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Mas a impopularidade de Gavin Newsom entre os seus pares cresceu quando fundou o podcast “This is Gavin Newsom“. A estratégia, popularizada por Donald Trump, foi adotada de um modo geral por várias figuras democratas de topo. Mas as críticas a Newsom notavam o facto de ter passado o microfone a figuras influentes do movimento MAGA, como Steve Bannon ou Charlie Kirk, concordando com eles em temas como a manutenção dos departamento de polícia — alguns democratas mais progressistas defendem o corte do financiamento à polícia — ou a oposição à participação de raparigas e mulheres transgénero em competições desportivas. “Acho que é uma questão de justiça, concordo completamente contigo”, afirmou Newsom sobre o tema na conversa com Kirk.
Ao mesmo tempo, Newsom apresentou medidas para banir os acampamentos de pessoas sem-abrigo — uma das suas prioridades no cargo, tendo em conta a dimensão do problema da habitação na região — e propôs pôr fim aos seguros de saúde Medicaid para imigrantes sem documentos, assim como cortes no financiamento de associações que garantem cuidados de saúde reprodutivos. Os cortes foram feitos na sequência do défice orçamental de 12 mil milhões de dólares, pelo qual Newsom responsabilizou as políticas comerciais e financeiras de Trump. No entanto, as medidas geraram polémica, já que inverteram uma tendência de crescimento dos apoios sociais a que a Califórnia tinha vindo a assistir.
As posições de Gavin Newsom no que toca às questões culturais e os programas que escolheu cortar quando confrontado com a necessidade de realizar cortes orçamentais levantaram a questão: tratava-se de uma estratégia já a pensar nas eleições de 2028 e a procurar angariar votos entre um eleitorado moderado? O governador não se comprometeu e, confrontado com essa questão, limitou-se a responder: “Eu sou, como sempre, um pragmático teimoso“.
A possível estratégia dividiu os eleitores democratas, ouvidos pela Associated Press. A fatia mais ao centro, elogiou a moderação de Newson. “Podemos namorar um liberal, mas casamos sempre com um moderado”, atirou Matt Bennet, fundador do grupo centrista Third Way. Outros, mais progressistas, acusaram o governador de “estar disposto a atirar decência básica para debaixo do autocarro da campanha de 2028”. Steve Shurtleff, antigo speaker no congresso estadual de New Hampshire, apresentou uma terceira leitura: a moderação era legítima, mas aconteceu de forma muito abrupta e, portanto, inorgânica.
Seja qual for a estratégia por trás desta moderação, os eventos mais recentes parecem ter mudado completamente a abordagem de Newsom para uma jogada agressivamente anti-Trump. Apesar de esta agressividade levantar preocupações entre os moderados, uma série de democratas, ouvidos pela CNN, ficaram “satisfeitos” com o facto de Newsom ter regressado à postura combativa que o popularizou, precisamente por ser muito mais genuína.
O consultor Jim Ross argumenta que este “regresso às origens” era inevitável. “A minha experiência com Gavin Newsom é que ele costuma fazer a coisa certa, mesmo que chegue lá da maneira errada (…). Ele acabaria sempre por ser uma oposição a Trump, mas percorreu um caminho tortuoso para lá chegar.”
Com a Califórnia como ponto de fraco, Newson joga cartas a nível federal
A Califórnia é o terceiro maior estado, o mais populoso e o mais rico dos Estados Unidos (de tal forma que, se fosse um país, seria a quarta maior economia do mundo, só atrás dos Estados Unidos, da China e da Alemanha). Todos estes factos contribuem para que ser governador da Califórnia seja simultaneamente “um cenário de sonho” e um desafio.
O “cenário de sonho” aplica-se especificamente a líderes democratas, argumentava Bill Whalen, analista do think tank Hoover Institution, no ano passado. Isto porque é um estado com uma supermaioria azul, que permite a implementação de políticas liberais que não seriam aprovadas em muitos dos outros estados ou a nível federal. “Muito do que os democratas gostariam de fazer a nível nacional, a Califórnia está a fazer”, destacou. Ao mesmo tempo, a riqueza do estado permite que estas políticas sejam implementadas na prática.
Contudo, estas mesmas características — o liberalismo e a riqueza californianas — podem prejudicar uma candidatura a nível nacional, alertam democratas da costa leste ao LA Times. No que toca à dimensão política, um candidato californiano é muito mais facilmente descrito pelos republicanos como “um liberal de esquerda”, de forma pejorativa. No que toca à dimensão financeira, a riqueza perpetua a imagem do Partido Democrata como um partido de elites. “Acho que [Newsom] não está sintonizado com os trabalhadores de colarinho azul que precisamos de trazer de volta para o Partido”, critica Dick Harpootlian, que liderou os democratas na Carolina do Sul.
Como prova de que estes estereótipos continuam a existir, os democratas apontam um fantasma recente: a derrota de Kamala Harris, também ela uma californiana, que foi retratada como “marxista” por Donald Trump e que perdeu o voto da classe trabalhadora para o Partido Republicano. Ainda assim, o estratega Jeff Link defende que ser da Califórnia “não é uma sentença de morte” para uma candidatura presidencial.
▲ A derrota de Kamala Harris é utilizada como "prova" dos estereótipos associados à Califórnia
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Dentro da Califórnia, a popularidade de Gavin Newsom também já viu dias melhores. As suas taxas de aprovação não estão em queda — pelo contrário, mantém-se nos 46% desde o ano passado –, mas o descontentamento cresce com as medidas que foi aplicando ao longo de 2025 e, como alertou Mark DiCamillo, este descontentamento pode crescer até ao final do mandato. Os democratas são unânimes em considerar que há outra falha no currículo de Newsom que nenhum californiano conseguiu esquecer: quando o governador desrespeitou as medidas de combate à Covid, que ele próprio promovia, para participar no jantar de aniversário de um dos seus conselheiros políticos.
Apesar da controvérsia que gerou na Califórnia, os democratas admitem que eventos isolados como este deverão ter pouco impacto para um potencial eleitor em 2028, do outro lado do país. O que importa, destacam, é o facto de Newsom ser um nome conhecido em qualquer parte dos EUA: os seus anúncios anti-Trump passam na Fox News e sete estados também têm cartazes do governador californiano; os convidados do seu podcast dão-lhe visibilidade entre os eleitores republicanos, assim como o debate televisivo com o governador da Florida, Ron DeSantis.
O exemplo mais recente da sua estratégia abrangente de comunicação foi o discurso desta terça-feira: não só pelo conteúdo, mas pelo formato, acessível em todo país e com um apelo a todos os norte-americanos. A estratega democrata Karen Finney elogiou à NBC o equilíbrio que Gavin Newsom conseguiu encontrar na sua “comunicação clara”. Já o analista Bill Whalen resume: “Ele pega na mensagem de Biden e apresenta-a de forma muito mais eficaz“. Contudo, só em 2028 é que deverá ser possível avaliar se a inovadora estratégia de comunicação de Newsom permitiu repetir o sucesso de Joe Biden.