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O Observador entrevistou, em exclusivo internacional, o homem que foi promovido a responsável máximo pela estratégia de investimento da Schroders

O Observador entrevistou, em exclusivo internacional, o homem que foi promovido a responsável máximo pela estratégia de investimento da Schroders

"Jovens, poupem. O tempo é o vosso melhor amigo" (o conselho de Charles Prideaux, que gere 500 mil milhões na Schroders) /premium

Charles Prideaux, recém-promovido a "global head of investment" na Schroders, recusa generalizações, mas deixa um aviso para os jovens que trocam poupança para o futuro por "experiências no imediato"

Charles Prideaux foi em setembro promovido a global head of investment de uma das maiores gestoras de ativos em todo o mundo, basicamente tornando-se o responsável máximo pela estratégia global de investimentos de uma gestora que tem 500 mil milhões de euros sob gestão, quase três vezes todo o produto económico anual de Portugal.

Durante uma conferência que a Schroders organiza para jornalistas de todo o mundo, em Londres, Prideaux deu uma entrevista ao Observador, em exclusivo internacional, onde alerta para os riscos de poupar pouco, colocar todas as fichas (da reforma) nas expectativas em relação a Estados endividados e uma economia futura muito imprevisível. E não basta poupar: por causa das taxas de juro baixas que os bancos centrais mantêm, sem perspetiva de subida, para ganhar algum dinheiro com a poupança é necessário diversificar investimentos e introduzir uma componente de risco, defende.

Falando diretamente para os mais jovens — e rejeitando generalizações como quando se diz que as novas gerações não poupam e só privilegiam o consumo imediato e as “experiências” — Prideaux tem uma mensagem simples e direta: “comecem já a poupar e a investir, porque o tempo é o vosso melhor amigo. Os melhores investimentos que fiz na vida foram aqueles que fiz quando era muito jovem e até já me tinha esquecido deles”.

Quanto aos mercados bolsistas (de ações), estes podem continuar a ser uma boa aposta no longo prazo mas parte dos ganhos recentes já foram “pedidos emprestados” ao futuro, defende Charles Prideaux, puxando a brasa à sua sardinha que é a gestão ativa dos investimentos, isto é, pagar a um gestor de investimentos para escolher as ações com maior potencial e fugir das que podem cair.

“Taxas de juro altas como antes da crise? Esqueça. Isso foi-se”, diz Schroders

Na apresentação que fez nesta conferência disse que “infelizmente, foram-se os tempos” em que se colocava algum dinheiro numa poupança e essa poupança crescia, naturalmente, por força do juro…
Sim, disse “infelizmente” porque agora uma pessoa que queira investir e ganhar algum dinheiro tem pensar no risco que está disponível para correr para obter essa rentabilidade. Pertencem ao passado os dias em que se punha dinheiro num depósito e esse depósito fazia, por si mesmo, um caminho de valorização ajudado pelo juros compostos [efeito matemático de juros cada vez mais volumosos à medida que se dá a capitalização dos juros que vão sendo pagos]. Infelizmente, isso já não é possível na Europa, por causa das taxas de juro baixas.

Isso tem levado a um aumento da procura pelos fundos que uma gestora como a Schroders gere? Fundos de gestão ativa?
Ainda mais agora, porque tivemos um período de 10 anos em que, neste cenário de juros baixos, muitos investidores encontraram uma boa alternativa nos fundos de gestão passiva [fundos com comissões mais baixas que replicam o desempenho de índices bolsistas, sem intervenção ativa de um gestor de fundos, como os ETF, por exemplo], porque os estímulos do BCE ajudaram a fazer subir as bolsas. O problema é que já não temos o mesmo ambiente económico benigno.

As bolsas podem cair e, portanto, limitar-se a seguir os índices de forma passiva pode ser um mau negócio?
Continuamos a acreditar que as ações, como classe de ativos, são uma boa aposta, tendo em conta a abundância de liquidez nos mercados financeiros. Mas acreditamos que, ao olhar para as avaliações que temos hoje nas bolsas, é como se nos últimos anos os investidores já tivessem “pedido emprestados” alguns dos ganhos económicos futuros, já os anteciparam.

"Ao olhar para as avaliações que temos hoje nas bolsas, é como se nos últimos anos os investidores já tivessem "pedido emprestados" alguns dos ganhos económicos futuros, já os anteciparam"
Charles Prideaux, "global head of investment" da Schroders

É uma injustiça entre gerações? Que uma geração tenha podido contar com o efeito dos juros e outra geração nem saiba o que é isso?
Penso que há formas diferentes de olhar para isso. Percebo o que quer dizer mas é importante referir que o rácio de dependência entre a geração que está reformada e a geração que está a trabalhar está a deteriorar-se em quase todo o mundo, por causa da questão demográfica. Desse ponto de vista, há, logo aí, uma injustiça, mas não há uma solução rápida para isso.

A solução é poupar mais para a reforma?
Preocupamo-nos muito com o caminho para a reforma. Mas, também, tendo em conta o aumento da longevidade, é preciso pensar, também, no caminho após a reforma. Neste momento, é inevitável que, ao investir, até mesmo após a reforma, os investimentos tenham de ter alguma componente de risco. Isto para que se consiga que o dinheiro que temos quando chegamos à reforma consiga dar-nos um rendimento por mais anos.

“Juros baixos são maus para os jovens que não têm pais ricos”

Em Portugal, uma maioria das pessoas não tem mais do que as contribuições que faz para a segurança social pública… Ou seja, está a contar que o sistema público de segurança social irá pagar-lhes aquilo que esperam…
Isso coloca uma enorme pressão sobre os Estados, um pouco por todo a mundo. É uma pressão sobre as finanças públicas porque é um sistema que depende do crescimento do PIB e dos pagamentos de contribuições sociais por parte da parte produtiva para pagar as reformas, a cada momento. É por isso que os ratings de crédito estão sob pressão — por causa dos estímulos monetários temos visto um grande aumento dos stocks de dívida global. Há uma grande pressão sobre os governos para que eles consigam gerar melhorias na produtividade.

O que podem fazer para melhorar a produtividade?
Não há soluções rápidas. Mas há duas coisas, muito claramente, que os governos podem fazer: uma delas é dar prioridade aos investimentos em infraestruturas, que têm horizontes muito longos, retornos difíceis de quantificar no curto prazo mas que são muito importantes para dinamizar a produtividade. E isso até é um tipo de investimentos que é muito procurado pelos nossos clientes, investidores. O nosso trabalho é exatamente esse: juntar fontes de capital de longo prazo com necessidades de capital de longo prazo. Especialmente numa era em que os bancos, devido às limitações regulatórias que enfrentam, não têm muita capacidade para fornecer esse capital de longo prazo.

“É crucial, independentemente da idade, que se comece a poupar já”

E qual é a segunda prioridade, para aumentar a produtividade?
É o investimento em educação e formação em áreas que são condizentes com as aptidões que vão ser necessárias no mundo de amanhã. Eu, pessoalmente, estou muito interessado em que o meu filho aprenda a programar. Embora daqui a uns anos ele já não precise de saber programar — porque as máquinas vão programar sozinhas — mas simplesmente ter uma noção do que é a programação. E, quando se fala nas pessoas que estão no mercado de trabalho, digo sempre às pessoas que nunca podem perder a curiosidade. Nunca podem perder a vontade de aprender.

Pode ser uma fonte de instabilidade social? Ainda recentemente um economista português que estuda a área da segurança social, [Miguel Coelho], dizia que “estamos a 30 anos do abismo”…
Veja o que está a acontecer no Chile. Fala-se de manifestações por causa dos preços dos transportes públicos, foi essa a gota de água, mas há um tema subjacente que está relacionado com o sistema de pensões e algumas pessoas que não estão a receber aquilo que lhes terá sido prometido. Este é o tipo de questões para as quais temos de estar muito atentos.

É preciso pensar na reforma de uma forma mais “individual” e menos “coletivizada”?
As pessoas têm de ter literacia sobre o que é o nível de risco adequado para si — mas tomar riscos é inevitável. O que digo às pessoas que estão no início da carreira é que, se possível, pensem que têm ao dispor o ativo mais poderoso de todos, que é o tempo. E quando falamos em investimento o tempo é o nosso melhor amigo, por causa da importância dos juros compostos.

Segurança Social: “Estamos a 30 anos do abismo”

Para que tipo de ativos é que alguém na geração dos 30 ou, até, dos 20, deve estar a olhar, se tiver possibilidade?
Um ponto muito importante é que deve-se trabalhar, politicamente, no sentido de democratizar o acesso das pessoas comuns a investimentos menos líquidos, ou seja, investimentos de longo prazo, que não são pensados para estarem disponíveis para liquidação a qualquer momento, como um depósito está. Estamos a falar de “private equity“, fundos de dívida privada, por exemplo. Sobretudo para as pessoas mais jovens, que têm tempo e podem conviver melhor com essa maior iliquidez, é preciso dar-lhe a oportunidade de investir de forma transparente e segura. Para já esses investimentos estão muito limitados a empresas do setor financeiro e não faz sentido que só essas possam investir nesses ativos.

Mas essa geração, dos 30 ou, ainda mais, dos 20, está a poupar muito pouco, como se compreende, de um modo geral… Pelo menos em Portugal…
O problema com isso é que está-se a colocar as fichas todas no Estado. E pelas razões que já falámos, isso pode acabar por se revelar uma decisão muito pouco sensata, no futuro. E quando se poupa pouco, como sociedade, fica-se mais exposto às crises — designadamente crises internacionais — como a que acabámos de testemunhar.

Juros negativos. Ainda vale a pena poupar?

Também há uma componente geracional? Diz-se que estas novas gerações poupam menos, mesmo aqueles que teriam condições para poupar alguma coisa, com algum sacrifício…
Acho que há alguma generalização, quando se fala das “novas gerações”. Mas, sim, concordo que esta é uma mensagem importante que devemos passar às pessoas — tanto eu, que trabalho na indústria financeira, como você, que trabalha na comunicação social. Os seus leitores têm de perceber os riscos de não poupar o suficiente. E sobretudo os jovens têm mesmo de prestar atenção a isto, porque quanto mais cedo se começa a poupar menos sacrifícios será necessário fazer e mais rentabilidade se irá ter. Os melhores investimentos que fiz na vida foram aqueles que fiz quando era muito jovem e até já me tinha esquecido deles.

Para alguém que está a 15 ou 20 anos da reforma, ou alguém que teve um filho e quer poupar com vista a prazos semelhantes, que tipo de ideias de investimento podem fazer sentido?
Nesse tipo de horizonte temporal, historicamente as ações são o melhor ativo — se olharmos para as história dos últimos séculos, mesmo tendo havido grandes colapsos, a verdade é que alguém que invista a 15, 20 anos, houve sempre recuperações e, portanto, teve sempre oportunidade para ganhar. Ainda melhor se a pessoa optou pela capitalização dos dividendos, reinvestindo-os — os ganhos tendem a ser significativos. E os riscos podem ser limitados pela diversificação, ganhando exposição a vários setores e várias geografias.

Os seus leitores têm de perceber os riscos de não poupar o suficiente. E sobretudo os jovens têm mesmo de prestar atenção a isto, porque quanto mais cedo se começa a poupar menos sacrifícios será necessário fazer. Os melhores investimentos que fiz na vida foram aqueles que fiz quando era muito jovem e até já me tinha esquecido deles.
Charles Prideaux, "global head of investment" da Schroders

As pessoas preocupam-se menos com a reforma do que deviam?
É curioso que se escolhermos alguém, aleatoriamente na rua, é provável que essa pessoa nos saiba responder com algum detalhe sobre o seu crédito à habitação. Saberá, pelo menos, dizer quanto paga de prestação, provavelmente saberá dizer-nos qual é o “spread” que tem, quantos anos faltam para acabar de pagar, etc. Mas se lhe perguntarmos sobre a sua reforma, quanto vão receber a menos, que outros rendimentos terão… As pessoas, em geral, estão menos preparadas para responder a essas perguntas.

Para algumas, a poupança pode ser, basicamente, a casa… Claro que, para isso, está-se a apostar que daqui a algumas décadas alguém vai pagar pela casa aquilo que nós queremos…
Sim, ou, então, algo que se faz muito aqui no Reino Unido, que é o equity release. Isso é, quando alguém já terminou o pagamento da sua hipoteca (ou está na reta final) vende a um banco uma participação na casa, mantendo-se a viver lá até ao fim da vida e, depois, o banco tem direito à casa na proporção da participação que comprou. É uma coisa que tem de ser muito bem regulada, para não se repetirem os escândalos que houve há uns anos, mas é um produto que pode ter um papel muito importante — ainda mais com a valorização das casas e a escassez estrutural de casas. Para muita gente, pode fazer sentido um plano desses. Mas, lá está, isso significa que as novas gerações não podem estar a contar com, simplesmente, herdar a casa dos pais. As novas gerações têm de ser responsáveis, pensar nos riscos que estão associados a trocar poupanças para o futuro por experiências no momento.

A expectativa neste momento é que as taxas de juro vão continuar baixas, porque não se espera uma aceleração rápida da inflação. Mas qual é, na sua opinião, o risco de estarmos todos a subestimar o potencial para a inflação subir mais rapidamente e as taxas de juro subirem antes do esperado?
Há quem admita a possibilidade de serem lançados programas do género “helicopter money“, em que se lançam estímulos monetários ainda menos convencionais do que os que temos tido, desvalorizando rapidamente o valor da moeda e fazendo disparar a inflação. Viu-se isso em algumas partes da América Latina… Isso é aquilo que descreveria como maior risco negativo.

Atirar dinheiro de um helicóptero será a solução para a crise?

Acha provável?
Não, não, não é um cenário que consideremos provável, longe disso. O nosso cenário-base é de inflação baixa, porque estamos a conviver com forças desinflacionárias muito poderosas, sobretudo as relacionadas com a tecnologia.

De que forma?
Sobretudo pela substituição de força de trabalho humana por máquinas. Repare que quando vai apanhar um avião, a um aeroporto, lida com cada vez menos pessoas nesse processo. Não tive de ir para uma fila falar com alguém para me fazer check-in, o meu cartão de embarque está no meu telemóvel, não o mostro a uma pessoa, mostro-o a uma máquina e a porta abre. E os modelos de negócio trazidos pelo progresso tecnológico permitem a muitas empresas comprar subscrições na “cloud” em vez de terem de investir, à cabeça, em servidores gigantes para ter localmente. Tudo isso tira “gás” à inflação e ao aumento dos salários.

O Observador viajou a Londres a convite da Schroders.

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