Juros negativos. Ainda vale a pena poupar?

31 Outubro 2017119

Qual é o impacto para a cultura de uma sociedade o dinheiro não render, onde falta incentivo à poupança? Há quem tenha medo de "bolhas", mas o economista-chefe do BCE preocupa-se mais com as crianças.

“O que me preocupa mais é o aspeto cultural. Os pais já não têm como explicar o efeito-tempo do dinheiro aos seus filhos. Eles já não conseguem demonstrar-lhes que gastar hoje e gastar amanhã não são opções com o mesmo custo. Não me parece que seja algo bom para as crianças achar que devem gastar hoje, e não poupar para amanhã, porque a taxa de juro é negativa. Isto preocupa-me, mas, lá está: temos de fazer escolhas.”

Peter Praet, economista-chefe do Banco Central Europeu, em entrevista ao De Tijd

Na última entrevista como ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble deixou (mais) um alerta: há demasiada dívida na Europa e no mundo, dívida pública e dívida privada, e as taxas de juro baixas (ou, mesmo, negativas) que existem há tantos anos permitem que haja demasiada liquidez — demasiado “dinheiro barato” — na economia. Isso pode gerar bolhas especulativas e semear novas crises profundas, avisou. Esta visão cataclísmica contrasta com a do belga Peter Praet, que ajuda a tomar as decisões sobre as taxas de juro porque é economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE): os riscos de bolhas não são significativos e estão a ser “monitorizados”. O que preocupa Praet? As crianças.

O risco fundamental criado pelas taxas de juro baixas é o “aspeto cultural“, considera o economista-chefe do BCE, numa entrevista recente a um jornal belga. Como é que um pai ou um avô explica a uma criança ou jovem a importância de poupar, sem contar para isso com a noção de uma remuneração da poupança? Isto quando, em alguns casos, esse avô ainda se lembra bem de taxas de juro na ordem dos 20% ou 30% (embora a inflação também fosse elevada). Num mundo de taxas de juro negativas, como se ensina que se deve poupar quando, na realidade, estamos a admitir que, a menos que se vá além dos depósitos, é certo que se vai perder dinheiro?

Peter Praet, à direita na imagem (à esquerda de Mario Draghi), receia os efeitos culturais das medidas de estímulo monetário. (FOTO: Alberto Estevez / EFE – Pool/Getty Images)

Os juros abaixo de zero. Como chegámos até aqui?

Peter Praet e, presumivelmente, outros membros do BCE estão conscientes deste risco cultural. Mas “lá está: temos de fazer escolhas“. Na defesa da política do BCE, Praet contrapõe que as taxas de juro reais — descontadas da inflação — já são baixas (ou mesmo negativas) desde muito antes da crise. Por outras palavras, em 2006, por exemplo, podíamos ter a taxa de juro em 3% mas a inflação também era superior a 2%, pelo que o rendimento real não era muito elevado. Mas a perceção era diferente e, portanto, as pessoas não se queixavam, defende Peter Praet. A concorrência entre os bancos, antes da crise, tentando pagar um pouco mais pelos depósitos, ajudou a que a perceção fosse diferente.

"O rendimento deve ser medido em termos reais, ou seja, corrigidos pela inflação. As taxas de juro reais já eram baixas antes da crise, também, e em alguns momentos negativas. Infelizmente, apenas os economistas compreendem isso, a maior parte das pessoas não percebe."
Peter Praet, economista-chefe do BCE

Mas Praet defende-se, com ironia: “ouço muito poucas queixas vindas das pessoas que estão a refinanciar créditos a taxas baixas e, portanto, estão a pagar a casa com menos custos. Contudo, por vezes ouve-se as mesmas pessoas, depois, a queixarem-se que não recebem nada pelas poupanças”, afirma Peter Praet. A questão é que muitos dos que se queixam, na Alemanha, mas não só, não estão propriamente ainda a pagar prestações de crédito à habitação — pelo que a política do BCE é-lhes desfavorável.

A forma como se calcula a inflação não é isenta de controvérsia por ser, sempre, imperfeita — é um cálculo médio dos preços pagos pelos consumidores, mas algumas pessoas podem não ter aquelas despesas (ou naquela proporção) e ter outras. Seja como for, a taxa de inflação na zona euro já tem vindo a subir — 1,5% em setembro — e o mesmo acontece em Portugal, onde a taxa de subida dos preços no consumidor está nos 1,6%, segundo o Eurostat. Em contraste, a taxa média dos depósitos de particulares (com prazo até um ano) era de 0,22%.

Mais do que a taxa de juro diretora, que está em 0%, a situação atual remonta a uma decisão inédita na história do BCE — mas não da história, mesmo recente, de outros bancos centrais. Em junho de 2014, Mario Draghi anunciou que a taxa de juro dos depósitos ia passar para terreno negativo. A taxa desceu várias vezes e está, atualmente, em -0,4%. Isso significa que quando os bancos depositam a sua liquidez no banco central têm, efetivamente, de pagar uma taxa — em vez de receberem uma remuneração.

Os bancos deixam de ter uma rentabilidade “sem risco” quando “estacionam” a liquidez no banco central — a intenção é, precisamente, demovê-los de o fazer e, em vez, emprestar aos agentes económicos. Além disso, investimentos tidos, igualmente, como “sem risco”, como a dívida alemã, também viram os juros serem “arrastados” para terreno negativo. E até o Estado português, apesar de pagar juros ainda significativos em prazos mais longos (como mais de 2% a 10 anos) também consegue colocar dívida a juros negativos em prazos de alguns meses, o que também é efeito de arrastamento da política monetária.

Mario Draghi “carinhosamente” retratado pela imprensa alemã (pelo Handelsblatt).

Porque é que poupar é importante?

Para os clientes, o Banco de Portugal proíbe que se cobre pelos depósitos feitos na banca, mas é baixíssima a margem para pagar algo de positivo pelos depósitos. Porém, para o cidadão comum, com ou sem o benefício de juros mais generosos, a poupança é crucial por várias razões.

O fator mais imediato é a criação de uma almofada de segurança, um fundo de emergência, para que uma despesa súbita ou uma perda de rendimento inesperada não signifiquem, necessariamente, um crédito pessoal cujos juros serão sempre mais onerosos do que aquilo que uma poupança poderá render. Os especialistas recomendam que seja colocado de parte, num depósito facilmente mobilizável, o equivalente a pelo menos seis meses de rendimento para ter o que os anglo-saxónicos chamam de fundo para um dia chuvoso.

Poupar é, também, importante dada a incerteza em relação ao que a Segurança Social poderá pagar em reformas nas próximas décadas. Em entrevista ao Observador, Carlos Almeida, diretor de investimentos do Banco Best, sublinhou que “em Portugal temos de fazer esse esforço porque é provável que, quando se chegar à idade da reforma, nomeadamente a faixa etária entre os 30 e os 45 anos, haja uma quebra entre o meu último salário e a minha reforma na ordem dos 50%”. “É crucial que, independentemente da idade, se comece a poupar já“, alerta o especialista, sobretudo num contexto de aumento da esperança média de vida.

A poupança é também, crucial para despesas como comprar casa (ou dar entrada para o crédito) e pagar os impostos associados a esse investimento. Ou investir em educação, do próprio ou dos filhos. Ou ter capital para abrir um negócio. Para tudo isto, Carlos Almeida sublinha que é preciso uma “disciplina de poupança” tendo em mente um objetivo, que não precisa de grandes valores poupados a casa mês, mas sim — lá está, de uma “disciplina” de poupar sempre (ou quase sempre) alguma coisa.

Carlos Almeida, diretor de investimentos do Banco Best.

“Reposição de rendimentos”? Prepare-se: poupe pelo menos uma parte

Outra ideia forte da entrevista de Peter Praet é a ideia da independência do banco central. Isto é, da mesma forma que a crise sem precedentes e o risco de deflação levou a medidas inéditas, “um dia que as taxas de inflação subir para níveis próximos do objetivo — os 2% — o BCE vai ser, também aí, independente para assegurar que a taxa não sobe mais do que isso e garantir o cenário de estabilidade dos preços como o BCE o define”, diz Carlos Almeida, em entrevista ao Observador.

Por outras palavras, o BCE vai acabar por subir as taxas de juro, ainda que não deva acontecer antes de 2019. “Os países têm de se preparar para isso e as pessoas também”, diz Carlos Almeida, acrescentando que a economia hoje está a crescer um pouco mais e há perspetivas de aumento do rendimento disponível graças à redução dos impostos diretos prevista no próximo Orçamento do Estado.

Carlos Almeida lança o repto: “Quem conseguir poupar qualquer excedente, ou pelo menos parte desse excedente, é importante que o faça“, afirma o diretor de investimento do Banco Best, lembrando que “o mais complicado na nossa vida é quando temos de reajustá-la a um cenário de rendimentos mais reduzidos”. O conselho do especialista é este: “é precisamente nestas alturas que se poupa, porque muitas vezes as pessoas pensam que poupam quando têm dificuldades mas aquilo que devemos fazer é ir contra a corrente. É nestas alturas, em que há perspetivas de aumento do rendimento disponível, que é importante realçar: prepare-se”.

"Se houver possibilidade, as pessoas devem usar pelo menos parte desse ganho de rendimento disponível para a poupança. Hoje em dia há produtos de poupança com montantes baixíssimos, 5 euros, 15 euros, é uma questão de disciplina."
Carlos Almeida, diretor de investimentos do Banco Best

E, voltando à preocupação de Peter Praet, Carlos Almeida defende que a poupança deve ser feita em família. “É importante os pais reforçarem junto dos filhos a importância da poupança. Primeiro, porque os pais também vão ter necessidades de poupança maiores, desde logo porque a tendência é para um aumento da nossa esperança média de vida. Independentemente da idade da reforma, tudo leva a crer que iremos viver mais tempo após a reforma do que as gerações passadas. E isto do ponto de vista da poupança é muito importante”.

Na opinião do diretor de investimentos do Best, “a escola ainda não está preparada, salvo casos esporádicos, para dar aos alunos conhecimentos sobre poupança e literacia financeira”. Por essa razão, e a apesar da falta de juros, “temos de ensiná-los a fazer escolhas responsáveis, saber porque querem aquilo que querem, fazê-los pensar na utilidade das coisas e fazê-los perceber que os recursos são finitos”. “A poupança e o sentido da poupança é a melhor prenda que se pode dar — mas ao mesmo tempo envolvê-los na poupança, explicar como se está a fazer, justificar as escolhas que se fazem, eles aprendem muito com isso”, remata Carlos Almeida, que tem dois filhos, com 8 e 10 anos.

Ações são alternativa para quem tem tempo

A poupança e o investimento devem fazer-se por objetivos e com planeamento. E quando o horizonte temporal é mais longo, a história demonstra que deve optar-se por instrumentos com maior risco, sobretudo nos primeiros anos da poupança. As ações podem ser uma alternativa, apesar de os mercados já terem vindo a subir nos últimos anos.

“Por vezes ouvimos que os mercados americanos e os mercados europeus já subiram muito. Então e agora? O que é curioso é que ainda na semana passada assistimos a novos máximos históricos no Dow Jones e no S&P e os primeiros máximos históricos, nos últimos anos, foram no final de 2013 — quem dissesse, na altura, que ia sair do mercado porque o mercado está em máximos já tinha perdido mais de 50%, que foi a valorização desde então”, assinala Carlos Almeida, defendendo que “as ações estão a valorizar porque as empresas estão a apresentar resultados bons, algo a que não é alheio este contexto de taxas de juro baixas”.

E como é que poupa um diretor de investimentos de um banco? Como toda a gente deve poupar: com “objetivos” e “por convicção, não por necessidade“. “Cresci com um mealheiro, com a minha avó a ensinar-me a poupar. O que procuro educar nos meus filhos é fazê-los ver que os pais estão a poupar para eles — designadamente com um plano de poupança para quando eles atingirem os 18 anos estudarem na universidade. O que eu faço é um plano de poupança regular e periódico a pensar nas necessidades que vou ter em 2025”, isto é, a idade em que os filhos chegam à idade de ir para a universidade.

Educar para a poupança é, também, “fazê-los perceber que podemos gastar um determinado dinheiro num bilhete para um jogo de futebol ou, em alternativa, poupar e investir essas pequenas quantias e colher os frutos mais tarde”. Mas e, então, os juros negativos? “Depende daquilo em que investimos. Se eu tenho esta linha de referência de 2025, isso dá-me oportunidade de investir em ativos com maior risco em que os retornos finais são historicamente superiores aos depósitos a prazo, nomeadamente ações, que têm tido retornos extremamente positivos. O importante aqui é termos um objetivo e conseguir identificar o meu perfil de risco. Assim consegue-se superar os 0% dos tradicionais depósitos a prazo”, afirma Carlos Almeida.

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