Índice

    Índice

A família católica e multicultural de Chicago

Robert Prevost nasceu a 14 de setembro de 1955, na cidade norte-americana de Chicago, no seio de uma família descendente de imigrantes — e muito católica. A mãe, Mildred Martínez, tinha origens espanholas, trabalhava como bibliotecária e envolvia-se muito nas atividades da paróquia, sobretudo no coro. Duas das suas irmãs eram freiras. O pai, Louis Marius Prevost, tinha origens francesas e italianas e, apesar de mais discreto na paróquia, dava catequese. Robert e os dois irmãos cresceram envolvidos na paróquia local, frequentando até a sua escola e servindo como acólitos na missa.

Deu aulas de matemática e de física

Aos 22 anos, já depois de frequentar o seminário, Robert Prevost licenciou-se em Matemática. Ingressou entretanto na Ordem de Santo Agostinho e começou a dar aulas de matemática em part time na escola de Mendel, a mesma escola da paróquia onde estudou em criança. Segundo o Chicago Sun Times, por vezes também fazia de professor substituto de física no liceu de St. Rita.

Foi missionário na selva e adquiriu nacionalidade peruana

Já depois de ser ordenado padre, Prevost foi enviado em missão para o Peru, em 1985. Não foi para território urbano, mas sim para a prelatura de Chulucanas, no sopé dos Andes. Dois anos depois ser-lhe-ia pedido que regressasse a Chicago — mas, em 1988, o padre Prevost voltou para o Peru. Agora já não como missionário na selva, mas sim como diretor do seminário de Trujillo, a terceira maior cidade do país. Pelo meio foi pároco, professor e bispo, grande parte desse tempo em Chiclayo. A ligação ao Peru fortaleceu-se de tal forma que Prevost adquiriu a cidadania peruana em 2015.
Iacopo Scaramuzzi, vaticanista do La Repubblica, chegou mesmo a declarar o novo Papa como “o menos [norte] americano dos americanos” no conjunto dos cardeais que estiveram no Conclave. Não por acaso, nas suas primeiras declarações enquanto Papa, Prevost decidiu falar em espanhol e deixar uma mensagem especial para a sua “querida diocese de Chiclayo”.

É um poliglota

Robert Prevost fala cinco línguas: inglês, espanhol, italiano, francês e português. Para além disso, consegue ler latim e alemão.

Yankee latino”, “Pastor de Duas Pátrias”… e “Bob”

O novo Papa é conhecido por várias alcunhas, desde Chicago ao Vaticano, passando pelo Peru. Segundo o Washington Post, em Roma é por vezes chamado de “yankee latino” e o título “pastor de duas pátrias” também lhe está colado, pela sua dupla nacionalidade norte-americana/peruana. Já em Chicago, como na União Teológica local, é conhecido simplesmente por Bob.

Um Papa agostiniano

Em jovem, Prevost decidiu ingressar na Ordem de Santo Agostinho, conhecida pelos princípios de “viver juntos em harmonia, tendo uma só mente e um só coração no caminho para Deus”. A Ordem rege-se por princípios de pobreza, obediência, desapego do mundo, repartição do trabalho e caridade. Segundo o site norte-americano católico Pillar, o jovem Robert terá tido uma conversa esclarecedora com um padre mais velho, quando ainda era seminarista, sobre os votos agostinianos. “Enquanto jovem, vai-te ser mais difícil viver em celibato”, ter-lhe-á dito. “Mas, mais tarde, verás que viver em obediência é a coisa mais difícil.”

[A tensão entre a Índia e o Paquistão pode escalar? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]

O carro discreto e a postura contida

Como cardeal, Robert Prevost sempre foi conhecido pela sua postura contida. Isso foi evidente nos dias que antecederam este conclave, quando se deslocou sempre num carro discreto pelo Vaticano. Desta forma, evitou cruzar-se com jornalistas. Desde que o Papa Francisco morreu, Prevost não deu uma única entrevista, ao contrário de muitos dos cardeais eleitores. Ao New York Times, o padre Michele Falcone — que vê o novo Papa como um amigo e mentor — descreveu-o como um homem de “poucos excessos” e previu uma postura contida no papado: “Abençoar bebés, sim. Pegar neles ao colo, não.”

Um missionário “humilde”, que quer estar “junto das pessoas”

Aqueles que conhecem o (até aqui) cardeal Prevost, descrevem-no como um homem na linha de Francisco, no sentido da proximidade com os fiéis. O padre Fidel Purisaca Vigil, que trabalhou com o novo Papa na diocese de Chiclayo, no Peru, recordou à Associated Press como Prevost tinha o hábito de todas as manhãs tomar o pequeno-almoço com os padres da sua diocese, “mantendo o bom humor e a alegria”. Nas suas declarações públicas enquanto cardeal, Prevost sublinhou a necessidade de uma Igreja próxima das pessoas. “Não é suposto o bispo ser um pequeno príncipe sentado no seu reino”, disse. “É antes chamado a ser humilde, a estar junto das pessoas a quem serve, a caminhar com elas, a sofrer com elas”. Em 2023, foi taxativo: “Continuo a considerar-me um missionário.”

As acusações de encobrimento de abuso sexual (que nunca se confirmaram oficialmente)

Robert Prevost enfrenta críticas de alguns grupos de vítimas de abusos sexuais por membros do clero pelo seu alegado papel de proteção e encobrimento de padres abusadores. Mas os casos são complexos e nunca foram oficialmente confirmados.

O primeiro diz respeito a uma situação em Chicago, quando o padre James Ray — que já tinha cumprido pena depois de ser condenado por abuso sexual de menores — ficou alojado durante dois anos numa residência agostiniana local. Devido ao cargo como líder da Ordem no Midwest que ocupava na altura, supõe-se que isso terá sido autorizado por Prevost. Alguns ativistas falam em “encobrimento” por não ter sido partilhado com a escola primária próxima do edifício que Ray ali estaria alojado.

O caso mais recente é de setembro de 2024 e é mais complexo. Três mulheres peruanas acusaram o à altura bispo de não ter atuado perante as suas queixas de abuso sexual por parte de um padre local quando eram menores. A diocese de Chiclayo desmente a versão: afirma que Prevost abriu um inquérito, afastou o padre em questão e enviou as conclusões da investigação para o Dicastério da Doutrina pela Fé, em Roma. Terá sido o Vaticano a decidir encerrar o caso por falta de provas.

No Vaticano, algumas vozes ilibam totalmente o cardeal: “O assunto foi investigado e concluiu-se que Prevost não encobriu nada”, afirmou um responsável do Vaticano ao Crux. Há mesmo quem considere que se terá tratado de uma vingança de membros do movimento Sodalício, que atuava no Peru e era suspeito de abusos físicos — acabando mesmo por ser suprimido pelo Papa Francisco. “Perseguiram-no como retaliação”, afirmou ao La Croix a jornalista Paola Ugaz, que investigou o Sodalício, e que afirma que Prevost foi um dos poucos bispos no Peru a colocar-se ao lado das vítimas do movimento.

Em declarações públicas, já enquanto cardeal, Prevost sublinhou a necessidade de a Igreja continuar a combater o abuso sexual e o seu encobrimento. “Alguns recomendam que não seja o bispo diretamente a receber as vítimas, mas não podemos fechar os nossos corações, a porta da Igreja, àqueles que sofreram abusos”, disse ao Vatican News. “O silêncio não é a resposta. O silêncio não é a solução.”

A posição sobre a comunidade LGBT

Pouco se sabe do pensamento do novo Papa nesta matéria, mas o New York Times cita um comunicado de Prevost em 2012, dirigido a bispos, onde terá criticado “o estilo de vida homossexual” e “as famílias alternativas compostas pelos companheiros do mesmo sexo e as suas crianças adotadas”. O mesmo jornal diz que, no Peru, Prevost se opôs à “promoção da ideologia de género” nas escolas locais. Nada mais se sabe sobre o seu pensamento nesta matéria.

A recém-promoção no Vaticano que lhe permitiu incluir mulheres no Sínodo

Robert Prevost só foi nomeado cardeal em 2023, pelo Papa Francisco, que conhecera pessoalmente em 2018, quanto o Papa visitou o Peru. Mas parece ter caído nas boas graças de Francisco, que o nomeou logo como prefeito do Dicastério para os Bispos — um importante cargo no Vaticano, já que lhe permite supervisionar as nomeações de bispos de todo o mundo.

Foi nesse cargo que pode supervisionar o último Sínodo, que ficou marcado por uma decisão inédita do Papa Francisco, ao dar direito de voto a três mulheres. Uma decisão com a qual Prevost concordou, afirmando que “foi mais do que um gesto do Papa” — “foi uma participação real, genuína e com conteúdo que elas trouxeram”.

A ideia de maior sinodalidade na Igreja, de maior inclusão de todos, trazida pelo Papa Francisco parece ser também defendida pelo Papa Leão XIV. “O Bob acredita que toda a gente tem o direito e o dever de se expressar na Igreja”, afirmou ao New York Times o padre Mark R. Francis, seu antigo colega de seminário.