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Lemmy Kilmister não pode morrer

O líder dos Motörhead foi a mais fiel personificação do rock'n'roll – um cavalheiro viciado em sexo, droga, estrada e colunas no máximo. Alexandre Homem Cristo garante que nunca houve ninguém assim.

Quem foi Lemmy Kilmister? A pergunta ocupa agora a mente de muitos dos que tomaram conhecimento da sua morte. Mas a pergunta está mal formulada: Lemmy não foi, Lemmy é – ele não se conjuga no pretérito perfeito, só no presente do indicativo. Porque Lemmy, tal como o rock e as lendas, não pode morrer. E ele é ambos: um ícone da música, que recolheu admiração por onde passou, e a mais fiel personificação do estilo de vida do rock’n’roll – um cavalheiro viciado em sexo, droga, estrada, concertos e colunas no máximo. Afinal, algumas coisas na vida têm sempre algum risco associado e ele sempre gostou disso.

Até porque Lemmy chegou a acreditar que a sua natureza era indestrutível. Enganou-se quanto ao corpo, que sucumbiu ao cancro. Mas acertou quanto à sua transversal influência no rock e no heavy metal, e quanto às amarras que rompeu na conservadora sociedade inglesa. Há, pois, um antes e um depois de Lemmy. Porque o que ele construiu nos 70 anos que viveu é realmente indestrutível.

Viver sem fazer cedências

Neste tempo do Facebook, Instagram e Twitter, dificilmente um artista atinge o estrelato sem ceder aos caprichos do seu consultor de imagem – tem de ser politicamente correcto quando convém e polémico quando necessita de audiências, tem de estudar cada decisão à medida do impacto nas vendas, nos cliques, nas parcerias institucionais. Mas Lemmy não é deste tempo, nem quis ser. Cedências não eram com ele. Foi sempre ele próprio, disse o que pensava sem filtros sociais e orgulhava-se da sua frontalidade. Quem não gostasse das suas tiradas ácidas, que fosse dar uma volta e não regressasse. Nunca foi mania das grandezas, vício tão típico das estrelas rock. Lemmy não queria ser estrela, lenda ou ícone. Tinha, apenas, o feitio que tinha, forjado por uma infância nem sempre fácil. Com ou sem estrelato, nunca teve outro.

Ian Fraser “Lemmy” Kilmister nasceu em 1945, na Inglaterra profunda, e viveu os seus primeiros anos no ainda mais profundo País de Gales. O seu pai, um vigário que o abandonou aos três meses de idade, só apareceu na sua vida mais tarde, já ele tinha 25 anos, vida própria e a paixão pelo rock apurada. Crescera só com a mãe, que anos após a separação decidiu casar-se novamente – e Lemmy nunca se integrou verdadeiramente na nova família.

Ainda adolescente, começou a fazer biscates, a aprender a mexer na guitarra e a tocar em bares locais. E, claro, a conhecer mulheres.

Na escola, encontrou refúgio, mas não para estudar. Passeou-se pelos pátios e era neles que, nos intervalos, cravava moedas aos colegas para sustentar o seu vício em máquinas de apostas. A rotina diária valeu-lhe a alcunha com que ficou conhecido para a vida: segundo o próprio, “Lemmy” vem de “lend me” (“empresta-me”) que, numa pronúncia serrada, terá a mesma sonética. Sem saber, foi também na escola que aprendeu uma das lições mais valiosas para a sua vida: bastava-lhe uma guitarra na mão, mesmo sem a saber tocar uma nota, para ficar rodeado de raparigas. Uma forma perfeita de conciliar os seus dois únicos interesses na adolescência – música e mulheres.

Os anos no País de Gales não foram propriamente felizes, mas consolidaram no seu espírito a necessidade de se tornar independente e de ir à sua vida. Foi o que fez. Ainda adolescente, começou a fazer biscates, a aprender a mexer na guitarra e a tocar em bares locais. E, claro, a conhecer mulheres. Aos 17 anos, teve o seu primeiro filho com uma jovem que conhecera e seguira até Stockport, nos arredores industriais de Manchester. Entregou-o para adopção – na sua vida, não havia espaço para compromissos.

Na segunda metade da década de 1960, passou de Stockport para Manchester e, depois, para Londres. Foram os seus primeiros anos de independência pessoal, vividos entre bandas, concertos, bares e relacionamentos ocasionais – logo que chegou a Manchester teve um segundo filho, com o qual só voltaria a ter contacto anos mais tarde. Foi este período que, de certo modo, assinalou o arranque de um modo de vida que nunca mais abandonou – álcool, drogas várias, sexo, rock, concertos, desentendimentos.

Álcool, álcool e mais álcool (e drogas também)

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Após muita perseverança, o sucesso foi aparecendo e as histórias de vida foram-se acumulando. É, de resto, a partir deste ponto que os factos se confundem com os mitos, como sempre sucede com os que são maiores do que a vida. Diz-se que teve relações com cerca de duas mil mulheres – um exagero que Lemmy veio esclarecer, pois nas suas contas foram apenas umas mil. Experimentou todas as drogas e misturas existentes, excepto heroína, porque sabia que a essa não sobreviveria (com as que consumia, várias vezes esteve próximo da overdose). Gabava-se de conhecer os locais do corpo mais incríveis para esconder droga, técnica que aprendera com Jimi Hendrix no período em que foi seu roadie, fazendo parte do seu trabalho garantir que Hendrix mantinha a consciência necessária para tocar. Em plena tournée com os Hawkwind, foi preso na fronteira canadiana por posse de cocaína, mas libertado no dia seguinte porque, afinal, a droga apreendida era anfetaminas (e, à época, a lei do Canadá não previa a proibição dos speeds).

No palco, celebrou sempre tudo o que lhe ofereciam com a regra de a música nunca parar – desde cuspidelas a sexo oral. E, como hobbie obsessivo, coleccionou itens e uniformes militares, incluindo nazis, o que lhe valeu as devidas polémicas. Sem meio-termo ou meias-palavras, desprezou sempre o poder político, a religião e a autoridade em geral, preferindo navegar nas águas dos anarquistas e dos libertários.

[Veja aqui os álbuns dos Motörhead – os sucessos e os fracassos]

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Os seus excessos tiveram custos. Nos relacionamentos pessoais, claro. Na carreira, pois nunca foi convidado para o Rock’n’Roll Hall of Fame. E ainda mais na sua saúde. Nos últimos anos da sua vida, isso foi particularmente evidente. Cirurgias cardíacas, desintoxicações frustradas, cancro. Com infeliz frequência, os Motörhead cancelaram concertos, ou deixaram-nos a meio, porque Lemmy não se aguentava de pé.

Abrandou, de 2011 para a frente, mas não parou. Os concertos continuaram, os cocktails de drogas ficaram em suspenso e da garrafa diária de Jack Daniel’s passou para a vodka. Que não lhe pedissem mais sacrifícios do que estes, pois há um ponto a partir do qual a vida perde a graça. Afinal de contas, o seu lema estava lá, escrito em 1980, nos versos de “Ace of Spades”, a canção mais emblemática de Motörhead: “You know I’m born to lose, and gambling’s for fools, but that’s the way I like it baby, I don’t wanna live forever”. Lemmy, que viveu pelo rock’n’roll, morreria pelo rock’n’ roll.

Dos Beatles ao psicadelismo, e daí para tocar o mais rápido possível

A paixão pela música começou cedo e logo a música se tornou a única coisa que Lemmy sabia e queria fazer. Estava-se em 1965 e Lemmy, à beira dos 20 anos e depois de um período a tocar em bares, conheceu os primeiros sinais de sucesso (efémero) ao juntar-se aos The Rockin’ Vickers, uma espécie de imitação dos The Beatles, com os quais percorreu as estradas europeias. Dois anos depois, entrou na equipa de The Jimi Hendrix Experience, como roadie e, em 1968, integrou os já formados Sam Gopal, uma banda de rock psicadélico.

Estas duas experiências musicais aparentam ser meros apontamentos biográficos, mas foram determinantes no seu percurso, levando-o a explorar esta dimensão psicadélica do rock e, posteriormente, encaminharam-no até à integração nos Hawkwind – a lendária banda de art-rock/ space-rock, cujo single “Silver Machine” (1972), cantado por ele, alcançou o terceiro posto do top de vendas britânico. Na verdade, o psicadelismo foi o ambiente musical perfeito para Lemmy, que encaixou como uma luva naquela bombástica aventura de ácidos e rock’n’roll, que arriscava levar a experiência musical de uns Pink Floyd a uma nova dimensão. Aliás, Lemmy encaixou tão bem que o seu abuso de drogas o levou à demissão da banda – após o tal incidente na fronteira canadiana, Lemmy foi dispensado.

https://www.youtube.com/watch?v=yao_T2adl14

Há males que vêm por bem. Cansado de entrar e sair de bandas, Lemmy quis formar uma de raiz, que fosse sua e da qual fosse impossível ser despedido. Juntou uns amigos, fez uns telefonemas e decidiu que nome melhor caracterizaria um projecto seu. Chamou-lhe, primeiro, Bastard (“desgraçado” ou “pulha”). Mas, aconselhado contra potenciais censuras nas rádios e televisões, optou por mudar para Motörhead, o título da última canção que compôs para os Hawkwind e uma expressão que, na gíria de rua, estava associada ao consumo de ácidos. Vivia-se o ano de 1975, e aí se iniciavam os 40 anos de uma das maiores entidades do rock.

O objectivo de Lemmy com os Motörhead era simples – tocar música rápida, furiosa, arrogante, estridente, suja e desconcertante – e foi cumprido à risca. Sem pretensões artísticas, sem contemplações, o rock’n’roll dos Motörhead queria-se puro e duro. Inicialmente, com as primeiras audições, para tremendo insucesso comercial. Até que o lançamento de “Motörhead” (1977), o primeiro álbum, colocou a banda no mapa. Daí até 1982, a banda acumulou sucessos, alcançando sucessivamente os lugares cimeiros dos tops de vendas, sobretudo com “Bomber” (1979), “Ace of Spades” (1980) e “Iron Fist” (1982), com o álbum ao vivo “No Sleep ‘til Hammersmith” (1991) a atingir o número 1 do top.

Muita gente viu em Lemmy uma atitude de desafio pelas convenções sociais. Na hora em que nos seus corações batia a insatisfação, ele deu-lhes algo a que se agarrarem

Em termos criativos, esta foi a época dourada da banda que, de 1982 para a frente, perdeu a sua formação clássica, com Lemmy, Phil “Philty Animal” Taylor (falecido este ano, em Novembro) e “Fast” Eddie Clarke (que decide abandonar a banda nesse ano). O que aconteceu depois pertence, como se diz, à história: canções que são verdadeiros hinos ao rock n’ roll, mais 17 novos discos de originais, centenas de concertos nos maiores festivais de rock e heavy metal do mundo, prémios de vendas e de carreira, mudanças de formação, conflitos com editoras e disputas legais. Tudo regado, como seria inevitável nesta história, a álcool e drogas.

Agitar as mentes e a sociedade inglesa

O impacto de Lemmy e dos seus Motörhead na música é inquestionável. Mas medi-lo isoladamente pelas canções e álbuns lançados é não ver parte do quadro. Tudo tem o seu contexto e o caminho dos Motörhead rumo ao sucesso fez-se num dos períodos mais difíceis da história recente do Reino Unido (entre a segunda metade dos anos 70 e o início dos 80). Com níveis de desemprego elevados, com uma população jovem sem perspectivas futuras, com uma recessão económica que não dava tréguas e com a incapacidade de uma resposta política considerada insuficiente para proteger da pobreza os segmentos mais desfavorecidos da sociedade britânica, a contestação social aumentava, com greves contínuas e confrontos cada vez mais frequentes (como o famoso tumulto em Brixton, em 1981).

Lemmy (na foto com Zakk Wylde) mostra o que pensa sobre o mundo

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Não terá sido coincidência que, no mesmo período, proliferassem bandas de rock, punk e heavy metal nos bairros operários das grandes cidades inglesas. Não foi o caso dos Motörhead, que surgiram antes. Mas a sua proximidade sonora com o rock, o heavy metal e o punk tornou-os precursores e até líderes naturais desse movimento artístico, apelidado de New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). Mesmo que, em retrospectiva, Lemmy negasse essa influência e qualquer impacto da NWOBHM na sua carreira, o facto é que muita gente viu na banda, e particularmente em Lemmy, uma atitude de desafio pelas convenções sociais. Na hora em que nos seus corações batia a insatisfação, Lemmy deu-lhes algo a que se agarrarem – um exemplo de resistência, de hedonismo e de superação – e marcou uma geração.

Um legado que sobrevive

Os Motörhead acabaram no minuto em que terminou a vida de Lemmy. Mas este não é um tempo de despedidas, porque o que fica para consolar quem lamenta o desaparecimento de Lemmy é, para além do catálogo de Hawkwind e Motörhead, todo um legado de música e estilos influenciados pelas suas criações. A velocidade furiosa dos Motörhead deu pulso à criação e consolidação, na década de 1980, de vários sub-géneros de heavy metal, nomeadamente o speed e o thrash metal (Metallica, Slayer, Testament, Venom). O rock nunca mais teve receio de ser insolente, rápido e sujo, como ambicionaram ser (e fracassaram) os Guns N’Roses.

Lemmy Kilmister morreu sendo maior do que a banda que liderava e sendo o ícone que nunca quis ser.

Dezenas de bandas elegeram Motörhead como inspiração primária, de tal modo que é impossível medir até onde chegou a influência da sua música. As reacções à sua morte falam por si. Kirk Hammett (Metallica), por exemplo, nunca escondeu a admiração profunda por Lemmy, cujo exemplo lhe ensinou que cada um pode ser exactamente o que é. Ozzy Osbourne define Lemmy como o seu herói. E Dave Grohl (ex-Nirvana, Foo Fighters) há anos que o considera o único artista que, até hoje, realmente assimilou e representou todas as dimensões do que é o rock’n’roll.

Lemmy Kilmister morreu sendo maior do que a banda que liderava e sendo o ícone que nunca quis ser. Afinal, faz sentido: bandas, há muitas, e Lemmy só havia um, como tantos dos que o conheceram têm repetido nestes dias. Aliás – Lemmy só há um, porque Lemmy conjuga-se no presente do indicativo. Mesmo que nunca o tenha ambicionado, Lemmy era uma lenda-viva. Agora, é só lenda. Mas é – e sê-lo-á sempre. Porque, mesmo regadas a Jack Daniel’s, as lendas nunca morrem.

Alexandre Homem Cristo é doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e conselheiro no Conselho Nacional de Educação.

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