A Lilly foi fundada em 1876 em Indianápolis, nos Estados Unidos, pelo farmacêutico Eli Lilly. Num mercado dominado por curas milagrosas e encriptadas, a Lilly foi a primeira a imprimir os ingredientes nos rótulos dos medicamentos, construindo uma relação de confiança com médicos e doentes. A empresa dedica‑se, desde então, a investigar, desenvolver e produzir medicamentos inovadores, com foco em áreas como diabetes, obesidade, oncologia, imunologia, neurologia e doenças neurodegenerativas.

Neste século e meio de história, a Lilly destacou-se pela criação de terapêuticas que mudaram a história da medicina, como a produção em larga escala de insulina, antibióticos e a vacina que ajudou a erradicar a poliomielite. Globalmente, os medicamentos da Lilly chegam hoje a mais de uma centena de países e, em Portugal, é uma das principais exportadoras do setor farmacêutico. O legado da Lilly não é unicamente o que fez ao longo dos últimos 150 anos – é tudo o que ainda está por fazer pela vida das pessoas.

Insulina: de sentença de morte a vida inteira

Nos anos 1920, a Lilly uniu‑se à equipa da Universidade de Toronto para transformar a insulina numa terapia produzida em escala, tornando‑a acessível a pessoas com diabetes em todo o mundo. Em poucos anos, aquilo que era uma sentença de morte passou a ser uma condição gerível.

Penicilina: responder à urgência da guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Lilly foi uma das empresas a produzir penicilina em massa, desenvolvendo rapidamente processos industriais para aumentar a disponibilidade do antibiótico. Este esforço ajudou a salvar incontáveis vidas em contexto de guerra e lançou as bases para décadas de liderança em antibióticos.

Poliomielite: da ameaça ao desaparecimento

Quando Jonas Salk desenvolveu a primeira vacina eficaz contra a poliomielite, a Lilly foi chamada a produzir e distribuir milhões de doses num tempo recorde. Em poucos anos, a doença que paralisava e matava milhares de crianças em todo o mundo foi sendo controlada e reduzida a mínimos.

Oncologia e saúde mental: enfrentar doenças e estigmas

Em 1961, a Lilly lançou o seu primeiro medicamento oncológico, continuando até aos dias de hoje a oferecer novas opções terapêuticas a pessoas com cancro. Em paralelo, foi pioneira em saúde mental, ajudando a trazer a depressão e outras perturbações para o centro da prática clínica, com tratamentos eficazes que quebraram o silêncio e o estigma.

Obesidade e Alzheimer: novo capítulo dos próximos 150 anos

Mais recentemente, a Lilly desenvolveu terapias inovadoras para a obesidade, contribuindo para mudar a forma como a condição é entendida. Em 2024, alcançou também um marco histórico na investigação da doença de Alzheimercom um tratamento capaz de abrandar de forma significativa a progressão da doença de Alzheimer, abrindo uma nova janela de esperança para doentes, famílias e sistemas de saúde.

Como a Lilly pensa os próximos 150 anos

Alicia de Castro, diretora-geral da Lilly Portugal, explica como o claim “150 Years of Everything Else” traduz a essência de uma empresa que sempre colocou a vida das pessoas no centro. A partir da sua perspetiva, revisita momentos-chave destes 150 anos, reflete sobre o papel da inovação e da inteligência artificial na medicina e aponta os grandes desafios que continuam a marcar o acesso à saúde, da obesidade ao Alzheimer.

“150 Years of Everything Else” é um claim forte e pouco literal. Como nasceu esta ideia e o que significa esse “tudo o resto”?

A campanha é um dos pilares da celebração dos nossos 150 anos, mas está intrinsecamente ligada a um conceito que define a nossa identidade e que perdurará muito além do aniversário: a de que a Lilly é uma “Medicine Company”. Isto significa que a nossa missão é transformar a ciência em medicamentos que promovem a saúde, distinguindo-se da visão e atuação tradicional do setor. Foi nesse contexto que nasceu a ideia de “Everything Else”, que parte de uma constatação muito simples, mas poderosa: quando as pessoas falam sobre o que a medicina lhes deu, raramente mencionam o tratamento, focando-se na vida que recuperaram. O “tudo o resto” são esses momentos: é o avô que volta a contar a mesma anedota à mesa, a criança que consegue soprar as velas no seu aniversário. Para a Lilly, ser uma empresa que coloca a saúde acima de tudo, significa que o nosso foco nunca esteve na doença, mas sim na saúde das pessoas que torna todos estes momentos possíveis. “Tudo o resto” é a concretização do nosso propósito.

Em vários momentos, ao longo destes 150 anos, a Lilly foi inovadora e visionária. Que lições desses tempos orientam as decisões da empresa hoje?

A principal lição remonta à nossa fundação e ao nosso fundador. O Coronel Eli Lilly criou a empresa depois de testemunhar o sofrimento da Guerra Civil norte-americana, entre 1861 e 1865, e a fraude dos óleos de cobra. A sua missão era clara: criar medicamentos baseados na ciência para as pessoas que precisavam deles. Essa integridade e sentido de responsabilidade é a nossa bússola há 150 anos. A nossa longevidade e o nosso sucesso provêm de um compromisso inabalável com a ciência e com os doentes. Foi essa mentalidade que nos levou a produzir a penicilina em massa durante a Segunda Guerra Mundial, a investir na vacina da poliomielite sem garantias de sucesso, e é a mesma mentalidade que hoje nos guia na resposta aos grandes desafios de saúde do século XXI, como a obesidade, as doenças neurológicas, a doença oncológica, as patologias do foro imunológico. Colocar a saúde em primeiro lugar é a única forma de construir um futuro sustentável.

A Lilly tem hoje mais de 46 mil colaboradores em 105 países e, em Portugal, uma equipa altamente qualificada de 100 profissionais. Que papel têm as pessoas, além da tecnologia, no sucesso dos próximos 150 anos?

A tecnologia é uma ferramenta fundamental, mas a inovação nasce das pessoas. São elas o nosso maior e mais valioso ativo. Em Portugal, temos uma equipa de 100 pessoas, das quais cerca de 70% são mulheres, um reflexo do talento e da diversidade que nos orgulha. São estas pessoas, com a sua curiosidade, resiliência e compromisso, que transformam uma molécula em esperança. Que personificam diariamente a nossa missão de ser uma “Medicine Company”, priorizando o doente em todos os eixos da nossa atividade. A tecnologia acelera o nosso trabalho, mas o conhecimento e o compromisso humanos são insubstituíveis.

Qual o papel da Inteligência Artificial no presente e futuro da Lilly?

A Inteligência Artificial já é uma realidade e uma peça-chave no nosso presente e futuro. Vemo-la como uma aliada poderosa para acelerar todo o ciclo de vida do medicamento. Recentemente, anunciámos uma parceria com a NVIDIA para construir o supercomputador de IA mais potente do setor. Este investimento vai criar uma “fábrica de IA” que nos permitirá treinar modelos de IA para testar potenciais medicamentos, expandindo drasticamente o alcance e a sofisticação da descoberta de fármacos. A IA permite melhorar os processos em todas as nossas áreas terapêuticas – cardiometabólica, imunologia, oncologia e neurociências –, desde a descoberta de novas moléculas até à otimização dos ensaios clínicos e da produção.  Mas a tecnologia por si só não basta: o futuro passa por combinar o poder da IA com o talento e a experiência das nossas equipas.

Em Portugal, quais são hoje as principais barreiras para que a inovação na saúde chegue de forma rápida, sustentável e equitativa às pessoas que dela precisam?

A principal barreira é o que podemos chamar de custo da espera. Em Portugal, segundo os mais recentes dados da Federação Europeia de Associações e Indústrias Farmacêuticas (EFPIA), um doente espera, em média, 839 dias para ter acesso a um medicamento inovador após a sua aprovação europeia. São mais de dois anos de progressão de doença que poderia ser evitada.  E são mais 242 dias – o equivalente a mais de oito meses – face à média da União Europeia.  Este atraso representa um fardo enorme para os doentes, para as suas famílias e para o próprio Serviço Nacional de Saúde. O nosso objetivo é reforçar a colaboração com todos os agentes do sistema – desde as autoridades de saúde às associações de doentes – para encontrar soluções que reduzam este tempo, garantindo que a inovação chega a quem precisa de forma mais rápida e sustentável.

Alicia de Castro, diretora-geral da Lilly Portugal

No caso da obesidade, a Lilly defende uma mudança de paradigma: deixar de a ver como falha de vontade para a reconhecer como doença crónica complexa. O que é que falta ainda mudar – na ciência, nos sistemas de saúde, na sociedade – para que essa visão se torne dominante?

Acima de tudo, falta educação e conhecimento. Para percebermos a urgência desta mudança basta olharmos para a realidade em Portugal. Estamos a falar de uma doença crónica que, segundo a Direção Geral de Saúde (DGS), afeta mais de um quarto da população adulta (28,7%) e tem um impacto económico gigante, consumindo cerca de 10% de toda a despesa em saúde, de acordo com a OCDE. Aqui reside o grande paradoxo: Portugal investe apenas 2% dessa despesa em prevenção, mas a própria DGS estima que cada euro investido no tratamento de obesidade poderia gerar um retorno de até seis euros para o Sistema Nacional de Saúde. Estando a obesidade associada a mais de 200 outras doenças, a mudança de paradigma não é uma opção, é uma necessidade, porque tratar esta doença é prevenir inúmeras outras. A ciência já nos deu um conhecimento profundo sobre as bases biológicas da obesidade; é crucial que esse conhecimento se traduza em prática clínica e em políticas de saúde, tratando a obesidade com a mesma seriedade e acesso a tratamentos que damos à diabetes ou à hipertensão. Mas o maior desafio é talvez social: combater o estigma. A obesidade não é uma falha de caráter, é uma doença complexa. A Lilly está totalmente empenhada em liderar esta conversa, promovendo o conhecimento científico e defendendo o direito de todas as pessoas a serem tratadas com respeito e a terem acesso aos melhores cuidados. É exatamente isto que uma “Medicine Company” faz: não se limita a desenvolver um tratamento, assume a responsabilidade de ajudar a transformar a forma como a própria doença é entendida pela sociedade.

No Alzheimer somam mais de 35 anos de investigação com mais de 11 mil milhões de dólares investidos. Como é que se mantém a convicção ao longo de décadas, antes de haver resultados visíveis?

A convicção mantém-se porque o nosso propósito é maior do que qualquer obstáculo – e o obstáculo é imenso. Em Portugal, estima-se que a demência afete mais de 205 mil pessoas, segundo a OCDE, com a Doença de Alzheimer a representar a maioria desses casos, de acordo com a OMS. Os dados mais recentes da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa indicam que os custos diretos anuais já ultrapassam os 2 mil milhões de euros, o equivalente a 1% do PIB. E o futuro é ainda mais desafiador: a Alzheimer Europe prevê que a incidência da demência no nosso país possa mais do que duplicar até 2050. É perante esta realidade avassaladora que os 35 anos de investigação e os mais de 11 mil milhões de dólares que a Lilly investiu fazem todo o sentido. Muitos desistiram pelo caminho, mas a Lilly persiste, na crença de que, do outro lado, há milhões de famílias à espera de uma esperança.

Se pudesse escrever agora a primeira frase da história da Lilly daqui a 50 anos, o que gostaria que dissesse?

Gostaria que dissesse: “Com 200 anos de história, a Lilly tornou-se na empresa de ciência que decifrou os códigos das doenças mais complexas. Acelerou radicalmente o tempo entre a descoberta e a cura, e assim conseguiu criar respostas onde antes só havia perguntas.”

CMAT-33250/MAI2026