A envergadura dos meios acionados pela Marinha e a Força Aérea para interceptar um semi-submersível em alto mar contrasta com o pequeno bote que abordou o ‘narcosubmarino’ artesanal, mas bastante comprido, que tinha saído da América do Sul há cerca de três semanas, apurou o Observador. Lá dentro, três colombianos e um venezuelano transportavam perto de 9 toneladas de cocaína, o que pode representar a maior apreensão de cocaína de sempre pela PJ.
A embarcação intercetada a cerca de 200 milhas dos Açores transportava droga que poderia render “centenas de milhões de euros” aos grupos de “criminalidade altamente organizada”. Artur Vaz, diretor da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes (UNCTE) da PJ, explicou que apesar de ser “uma construção artesanal”, tem muita tecnologia, suficiente para “atravessar o Atlântico de forma dissimulada”.
A troca de informação centralizada no MAOC (entidade sediada em Lisboa que concentra informação sobre o narcotráfico) durava “há algumas semanas”, mas a parte “mais operacional foi desenvolvida” nos últimos três dias. Meios da Marinha e da Força Aérea levaram a PJ a detetar a embarcação que teve que ser, como habitual nestas situações, abordada discretamente — para evitar que os tripulantes se desfaçam da carga ou que se atirem para o mar, obrigando as autoridades a resgatá-los.
Os quatro tripulantes acabaram detidos, mas não foi possível recuperar o ‘narcosubmarino’, que afundou, ou a totalidade da carga. Como aconteceu na operação El Dorado, em novembro, não foi possível levar a embarcação até aos Açores ou recuperar a totalidade da carga. Os sul-americanos — que a PJ não duvida que pertençam a uma rede criminosa — já estão nos Açores, onde serão ouvidos para conhecerem as medidas de coação.
Droga avaliada em “centenas de milhões de euros” ia abastecer todo o continente europeu
O narcosubmarino partiu de um país da América Latina há três semanas e o objetivo era o continente europeu. A PJ não especificou qual o país para onde se dirigia, mas explicou que os 300 fardos não iriam abastecer o mercado ilegal de apenas um país, mas de todo o continente.
“Quando falamos destas quantidades de droga, normalmente estamos a falar de redes organizadas pois só elas têm a capacidade para movimentar estas quantidades de droga, uma quantidade colossal de cocaína que caso tivesse chegado aos mercados ilícitos, renderia centenas de milhões de euros a essas organizações”, disse Artur Vaz, em conferência de imprensa, este domingo.
O objetivo não seria, como aconteceu pelo menos uma vez na costa galega, chegar com o narcosubmarino à costa europeia. O semi-submersível, detalham as autoridades, deveria encontrar-se em alto-mar com outra embarcação: uma narcolancha. “Tudo indica que iria proceder ao transbordo desta droga para embarcações de alta velocidade, que é o procedimento habitual”.
Dentro do narcosubmarino, os tripulantes seguiam com os mantimentos necessários para uma travessia que pode durar mais de um mês, além dos 300 fardos de cocaína. A equipa de narcotraficantes costuma incluir “um ou outro” representante do grupo criminoso e “outros que podem ser pessoas recrutadas” por terem “conhecimentos específicos”. “É gente que tem que ter muitos conhecimentos técnicos de navegação para fazerem chegar este tipo de embarcações ao seu destino”, acrescentou Artur Vaz.
PJ, Marinha e Força Aérea destacam que esta operação foi levada a cabo em condições meteorológicas muito adversas que complicam o trabalho das autoridades, mas também a missão dos narcotraficantes, o que reforça o esforço empenhado pelas organizações para traficarem a cocaína. “É uma embarcação bastante artesanal, mantê-la a flutuar é sempre complicado”, concordou Bruno Sá Vaz, comandante da Marinha.
PJ foi surpreendida pela quantidade de droga transportada. Narcosubmarino era “artesanal” mas mais comprido que outros apreendidos
Várias autoridades — como a DEA (Drug Enforcement Administration) dos EUA e a NCA (National Crime Agency) do Reino Unido — participaram numa operação centralizada no MAOC, que teve o apoio do Departamento de Investigação Criminal dos Açores da PJ. A sinalização estava feita, mas faltavam os meios necessários para fazer chegar a “longa mão” da justiça a alto-mar.
Aí, explicou o coronel Vítor Martins, da Força Aérea, surgiram as entidades portuguesas. “A Força Aérea desenvolve estas operações há muitos anos, uma longa tradição que está plasmada na lei. A Força Aérea empenhou meios aéreos de transporte e meios aéreos de reconhecimento”. Além disso, tinham também disponível um dispositivo, em alerta, para a eventualidade de socorrer tripulantes ou agentes da autoridade — “porque o mar estava bastante perigoso”.
O socorro acabou por não ser necessário. As autoridades ultrapassaram o primeiro desafio ao identificar a embarcação. Não é só o facto de navegarem quase submersas que impede a sua localização, as organizações criminosas também costumam ter cuidado em pintar estes narcosubmarinos em tons que sejam mais discretos no alto mar. “É uma embarcação artesanal, mas que incorpora muita tecnologia. Apenas uma pequena parte da embarcação vem à tona da água, confunde se muito com a água. Em condições de mar adversas, tudo se tornou mais difícil”, explicou Artur Vaz.
Ultrapassado esse desafio, conseguiram outro: abordar a embarcação discretamente, a cerca de 200 milhas dos Açores, para impedir que os traficantes larguem fardos de droga no oceano. Quando abriram a escotilha (a ‘porta’ redonda que dá acesso ao interior dos submarinos), as autoridades foram surpreendidas, como confessou Artur Vaz.
“Só articulando com os parceiros internacionais e com autoridades nacionais é que nos permite chegar a estas distâncias e interceptar estas embarcações que trazem quantidades abissais de droga. A quantidade acabou por surpreender por excesso. Não estávamos à espera de encontrar tanta droga nesta embarcação”.
Porquê? O diretor da unidade de combate ao tráfico de droga compara esta embarcação com as duas anteriores. Em termos de construção, esta seria mais semelhante à apreendida em novembro, mas seria mais comprida. “Em anteriores operações, como foi referido, os [narcosubmarinos] traziam quantidades menores. É a primeira vez que nos deparamos com uma quantidade desta numa embarcação deste tipo”.
“Esta embarcação tinha dimensões [ maiores]”. Contudo, por se ter “afundado”, não foi possível realizar as devidas perícias para detalhar essa medição com certeza. Mas Artur Vaz assegurou: “Tinha maior capacidade para transportar maiores quantidades de droga”. Questionado pelo possível desenvolvimento dos cartéis de droga, que apostam em embarcações maiores para transportar quantidades recorde de cocaína, a PJ assegura que está a acompanhar esta tendência de “aumento do tráfico e aumento do consumo” de droga. “Temos vindo a acompanhar, temos vindo a desenvolver diligências e um conjunto de iniciativas, [face ao] incremento muito significativo [do tráfico] com destino a toda a Europa, incluindo com narcolanchas”.
Foram, então, apreendidos 265 fardos de cocaína. A PJ ainda terá que pesar os fardos, mas aponta para entre nove a dez toneladas de cocaína, o que pode fazer desta a maior apreensão de cocaína de sempre em território nacional.