A “dica” chegou há cerca de duas semanas às autoridades nacionais, através da plataforma internacional de entidades que combatem o tráfico de droga: um semi-submersível que tinha partido de um país da América do Sul estava a caminho da Península Ibérica e transportava sete toneladas de cocaína. Lá dentro, a PJ — em colaboração com a Força Aérea e com a Marinha — encontrou cinco traficantes colombianos, espanhóis e brasileiros que seriam pagos “principescamente” e teriam recebido treino para enfrentar uma travessia de longos dias no Atlântico.

Na conferência de imprensa em que detalhou mais informações sobre a operação, o Diretor Nacional da Polícia Judiciária sublinhou o caráter “violento” associado a organizações que transportam droga do continente sul-americano para a Europa. “Foi um rude golpe numa organização criminosa, das várias que procuram encharcar a Europa com cocaína, que está na base de muito branqueamento de capitais, muito crime violento (homicídios, raptos, toma de territórios)” e que procuram “intrometer-se nas estruturas do Estado” para facilitar a entrada de droga, destacou Luís Neves. “Ainda há pouco tempo mataram dois colegas nossos em França”, assinalou.

Traficantes apanhados em alto mar, a 3 mil quilómetros de Lisboa

A informação partiu da Guardia Civil espanhola e chegou à Polícia Judiciária através da MAOC, uma plataforma internacional onde é introduzida toda a informação relevante sobre operações de combate ao tráfico de droga e a partir da qual são, depois, selecionadas as autoridades nacionais — civis e militares — com melhor capacidade para concretizar as operações no terreno que permitam desmantelar os cartéis. “O caso português é um caso de estudo de sucesso internacional”, disse ainda Luís Neves, destacando a relevância da cooperação entre entidades de vários países: “O factor humano e a confiança são essenciais.”

As imagens da operação da PJ que intercetou submarino com sete toneladas de droga

A Força Aérea colaborou nas operações de vigilância da embarcação, que duraram cerca de uma semana até o submarino ser intercetado. E a Marinha colaborou nessa fase final, com o transporte de inspetores da Polícia Judiciária até ao submarino para que fossem concretizadas as detenções e apreendidas as 6,5 toneladas de cocaína. “É o primeiro [submersível] de que temos conhecimento a ser apreendido em pleno oceano” e o “primeiro a ser encontrado nestas circunstâncias”, disse Luís Neves.

O submersível foi intercetado a cerca de 3 mil quilómetros da costa portuguesa. No comunicado que divulgou sobre a operação, a Marinha refere que foi empenhado “um vasto conjunto de meios da Componente Naval do Sistema de Forças, designadamente das capacidades de comando e controlo, de patrulha e fiscalização, e de projeção de força” que permitiu o sucesso da missão.

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Também presente na conferência de imprensa na sede da Polícia Judiciária, Steve Reynolds, chefe de operações do MAOC-N referiu-se à embarcação como um equipamento construído propositadamente para “tornar difícil a sua captura”. Luís Neves acabou por avançar mais alguns detalhes sobre o equipamento capturado. “São os cartéis que os constroem, são manufaturados e têm tecnologia de ponta para poderem comunicar com a organização e para poderem estar no mar” durante longos períodos.

Traficantes com “treino” e “principescamente” pagos

Luís Neves não quis adiantar detalhes sobre a origem do submarino, mas fonte judiciária confirmou ao Observador que o Brasil foi o ponto de partida e que o destino seria, com “elevado grau de probabilidade”, a Península Ibérica. Chegou a ser avançada a informação de que a droga estava a ser transportada para Sines, mas o diretor nacional da PJ rejeitou essa hipótese. “Ali chega de outra forma que não esta”, limitou-se a dizer.

PJ e Marinha intercetam submarino com sete toneladas de cocaína a sul dos Açores, vindo da América do Sul

Questionado sobre uma eventual ligação dos tripulantes ao Primeiro Comando da Capital, uma importante estrutura criminosa com sede no Brasil e ramificações internacionais para, entre outros crimes, o tráfico de droga, o responsável máximo da PJ disse ser “cedo” para retirar essas conclusões. Os cinco tripulantes deverão ser presentes a juiz de instrução esta quarta-feira, em Lisboa, mas as próprias autoridades ainda estão a tentar recolher mais informações junto das congéneres sul-americanas para identificar os suspeitos.

“Normalmente, quem está nesta fase do tráfico de droga não são os líderes, são os operários”, referiu Luís Neves. Ainda assim, adiantou que os cinco tripulantes “não são aprendizes, têm capacidade e conhecimento de navegação, têm treino” e são, por norma, “principescamente pagos” para executar estas operações de inserção de droga nos países de destino.

PJ “fez muita força” para legislação das lanchas avançar

Luís Neves recordou ainda que, em muitos casos, estas embarcações são trazidas até distâncias mais próximas da costa europeia. Depois, entram em ação as chamadas lanchas rápidas, mais difíceis de capturar por atingir velocidades elevadas e serem mais “ágeis” no mar. “As lanchas rápidas vão buscar” a droga “a muitas milhas do mar” para depois a colocarem no terreno para ser distribuída, explicou.

Precisamente a esse propósito, o diretor nacional da PJ foi questionado sobre a legislação mais apertada na fiscalização da produção e comercialização destes equipamentos em Portugal. O Ministério da Justiça esteve a preparar alterações à lei e previa-se que o diploma fosse aprovado em breve — mas a queda do Governo de Luís Montenegro trouxe incertezas sobre o futuro dessa medida relevante para o combate ao tráfico de droga.

“Estou convencido de que na próxima legislatura” essa legislação será aprovada, disse, recordando que “Portugal é usado como plataforma” no tráfico de droga e que Espanha já deu passos significativos para tornar mais difícil o uso dessas lanchas rápidas.

Além do Diretor Nacional da PJ, participaram na conferência de imprensa responsáveis das várias entidades que colaboraram na operação que levou à detenção dos cinco elementos a bordo do submarino: Jorge Nobre de Sousa, Chefe do Estado-Maior da Armada, Alfonso López Melo, general da Guardia Civil de Espanha, Cartaxo Alves, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, e Arthur Guedes, oficial de ligação da agência dos Estados Unidos para o combate ao tráfico de droga, a DEA. Também estava previsto que Steve Reynolds, chefe de operações MAOC-N, estivesse presente, mas o britânico não conseguiu chegar a tempo a Lisboa.