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15 dias num 'narcosubmarino' "frágil" e "artesanal" com droga avaliada em 60 milhões de euros. Como a PJ travou 1,7 toneladas de cocaína

Embarcaram na Venezuela e tinham como destino a Península Ibérica. A travessia já levava duas semanas quando quatro tripulantes foram surpreendidos pela PJ. Tinham 1,7 toneladas de cocaína.

O ‘narcosubmarino’ não era dos mais sofisticados para fazer a travessia do Atlântico, mas foi a opção possível para os quatro tripulantes sul-americanos que partiram da Venezuela carregados de cocaína com destino à Península Ibérica. Dentro da embarcação, tinham também os mantimentos necessários para uma viagem que já durava há cerca de 15 dias quando foram intercetados pela PJ em alto mar.

A apreensão da embarcação que transportava 1,7 toneladas de cocaína — que poderia dar a ganhar pelo menos 60 milhões de euros aos traficantes — foi a segunda deste género em poucos meses. Mas as diferenças entre os dois semi-submersíveis são óbvias, como aponta a Marinha (que, tal como a Força Aérea, colaborou na operação).

Traficantes pagos “principescamente” e com “tecnologia de ponta”. A operação que levou à captura de submarino com 7 toneladas de cocaína

Ao contrário do que aconteceu na Operação Nautilus, a ação recente, batizada El Dorado, travou um submarino bastante mais frágil e arcaico do que a embarcação apreendida em março. Tanto que a embarcação acabou por afundar depois da intervenção das autoridades na zona do Atlântico a sul dos Açores — a cerca de 1.200 milhas náuticas de Lisboa (2.200 quilómetros).

“Numa tentativa de fazer o reboque do ‘narcosubmarino’, e devido às condições, e também à fragilidade da construção, não foi possível rebocar até terra e acabou por afundar. É uma embarcação frágil, de construção artesanal, a maior parte da estrutura é em fibra de vidro, daí não ter sido possível concretizar a operação de reboque”, explicou o comandante Ricardo Sá Granja, porta-voz da Marinha numa conferência de imprensa realizada esta terça-feira pelas autoridades portuguesas envolvidas (a ação contou ainda com o apoio de forças dos EUA, incluindo a DEA, e do Reino Unido).

O plano dos sul-americanos — dois equatorianos, um venezuelano e outro colombiano — estava traçado e é bastante conhecido das autoridades, sendo repetido com uma frequência quase diária e alarmante: o narcosubmarino seguiria até um local previamente delineado onde uma narcolancha recolheria a droga e a traria para a Península Ibérica. A PJ não especifica qual o local exato previsto para o desembarque que não chegou a acontecer.

Rota é conhecida das autoridades: narcotraficantes ficam semanas em alto mar à espera de transbordo para lancha rápida

O acompanhamento começou, tal como na última apreensão, com a “dica” indispensável do Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics (MAOC-N) — um organismo europeu sediado em Portugal. Teriam indicação de que uma “organização criminal” estava a tratar de enviar uma embarcação cheia de cocaína para a Europa.

Estas travessias costumam demorar três semanas, pelo que os narcotraficantes responsáveis por coordenar o transporte levam, além da droga, mantimentos suficientes para a viagem. As imagens reveladas pela PJ mostram bebidas e bolachas a boiar na água enquanto as autoridades inspecionam a embarcação apreendida.

Lá dentro, no espaço no qual conviveram os quatro tripulantes, é complicado andar de pé sem ser agachado. Mesmo já com os fardos de cocaína retirados pelas autoridades, sobra pouco espaço dentro do semi-submersível que tem uma sanita, motores, leme e pouco mais.

Os quatro sul-americanos não são novatos nesta matéria. A PJ admite que contam com “alguma experiência no meio marítimo”, um dos principais requisitos dos recrutadores. Apesar de ser comum estas embarcações serem auxiliadas por outros barcos — que podem levar mantimentos aos tripulantes —, as autoridades garantem que só a investigação poderá determinar se esta organização criminosa transnacional conta com esse apoio logístico.

“Operação permitiu apurar informação sobre transbordo que iria ocorrer na zona do Atlântico a Sul dos Açores. (…) De imediato, contactamos a Força Aérea e a Marinha, no sentido de prestarem auxílio nessa missão. Viemos a identificar uma ação desenvolvida por um narcosubmarino”, que estava prestes a fazer o “transbordo para uma lancha rápida”, explicou Vítor Ananias, coordenador da investigação da PJ e perito no combate ao tráfico de estupefacientes.

Traficantes tentam encher espaço do 'narcosubmarino' com a maior quantidade possível de droga, sobrando pouco espaço para a tripulação, que tem os mantimentos necessários para sobreviver durante várias semanas

O facto de haver três nacionalidades diferentes representadas nos quatro detidos é entendido pelo investigador como um exemplo da capacidade de recrutamento internacional das organizações. “Não estão somente sediadas num único país, têm mobilidade muito grande”. Depois de detidos, os homens com idades entre os 40 e os 65 foram ouvidos pelo juiz de instrução criminal de Ponta Delgada, nos Açores, tendo-lhes sido decretada a medida de coação de prisão preventiva.

A PJ também não detalhou qual o valor que teria sido pago aos tripulantes para fazer um serviço destes, mas o normal nestes casos, dependendo do nível de experiência e de funções de cada um, é alcançar as dezenas de milhares de euros.

Organizações têm conhecimento e meios para desenvolver narcosubmarinos e adaptar ‘modus operandi’

Com menos de oito meses a separar esta operação e a apreensão de um semi-submersível com 6,5 toneladas de cocaína, em março deste ano, as comparações são inevitáveis. A primeira salta à vista: a construção das duas embarcações não obedece ao mesmo rigor técnico.

“O conhecimento está na posse das organizações [criminosas], a forma como desenvolvem os ‘narcosubmarinos’ depende das capacidades da organização”, a quem compete “adequar a construção à necessidade do que pretendem fazer”, dependendo do orçamento. Vítor Ananias compara com a construção de uma casa: os arquitetos têm o conhecimento, mas cada qual constrói da forma mais conveniente.

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Certo é que, mesmo sendo mais “frágil”, como descreveu a Marinha, esta embarcação conseguiu aguentar cerca de duas semanas no mar, bem perto das três semanas que costuma durar este processo (seja a travessia total ou até ao momento em que há o transbordo para uma lancha rápida). A longa exposição a condições hostis fez com que os tripulantes não tentassem escapar à detenção: “Não apresentaram resistência, é difícil também porque têm 15 dias debaixo do mar, completamente fechados, sem privacidade ou regalias, com calor…”, explicou Ananias.

Construção dos narcosubmarinos pode ser diferente consoante a organização. Grupos de tráfico adaptam o seu 'modus operandi' consoante o trabalho das autoridades

A alteração na forma de atuação das organizações dedicadas ao tráfico internacional de cocaína é tida como natural pelo coordenador da investigação, que aponta a produção — “que aumentou de forma elevada” — como o principal impulsionador dessa mudança. “Depois do aumento [de fabrico], isto funciona como os mercados económicos. Havendo procura, há que colocar a matéria-prima no mercado”.

Se há uma adaptação das organizações, é porque há sucesso do outro lado, o das polícias, que têm “desenvolvido um esforço muito grande para combater” o tráfico, defende o inspetor. “Tem existido bastante sucesso nas operações e as organizações vão-se adaptando ao modus operandi” de forma a garantir “maior segurança no transporte da droga”.

A PJ tem identificadas duas “realidades quase diárias”: os narcosubmarinos na América do Sul e as lanchas rápidas na Europa — como a utilizada pelos supostos traficantes que mataram um GNR no Guadiana. “Numa primeira fase, os transbordos eram próximos da costa e agora são cada vez mais distantes, porque as organizações têm mais capacidade financeira e tecnologia diferenciada”.

“Isto é um homicídio, puro e duro.” Como o tráfico de droga que ensombra o rio Guadiana matou o cabo Manata e Silva, que “vivia para a GNR”

Por enquanto, no que à operação “El Dorado” diz respeito, as autoridades ainda não conseguiram perceber se a organização criminosa afetada por esta apreensão está presente em Portugal. “No quadro de cooperação internacional, vão-se recolhendo diferentes peças que permitem fazer um puzzle”, acrescentou Ananias, que lembrou que a investigação ainda decorre.

“Isto é tudo um processo dinâmico, algumas vezes temos sucesso, outras não temos tanto sucesso. Vamos continuar a garantir o nosso empenho e esforço. T0das estas situações têm um custo muito elevado”. O coordenador da PJ destacou que estas operações não são “como fazer um seguimento na rua”. “Não saímos a correr para o mar sempre que recebemos a informação. É preciso perceber se compensa. Isto tem custos para o Estado”.

A PJ também não revelou a que quantia monetária poderá corresponder esta apreensão, mas o preço cada vez mais elevado a que tem sido vendida a cocaína (37,49 euros por grama em 2024) situa estas quase duas toneladas — normalmente, ainda num estado muito puro — facilmente nos 60 milhões de euros.

Embarcação em que seguia militar que morreu no Guadiana foi apreendida a narcotraficantes em 2021

Cooperação e confiança entre autoridades essencial para sucesso da operação

Dada a natureza internacional do tráfico de droga, bem como os meios cada vez mais sofisticados utilizados pelos narcotraficantes, o sucesso das operações de combate ao tráfico depende da cooperação estabelecida entre parceiros de diferentes países, e forças nacionais. No caso desta operação, a PJ destacou como tendo sido essencial o apoio da Marinha e da Força Aérea: “Situação recorrente ao longo dos últimos anos, o trabalho com a Marinha e a Força Aérea é muito útil neste tipo de missões”.

“A operação “El Dorado”, em que participaram, além da PJ e da Marinha, a Força Aérea Portuguesa, a National Crime Agency do Reino Unido, a Drug Enforcement Administration e a Joint Interagency Task Force South, ambas dos EUA, teve origem em informação partilhada no Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics (MAOC-N)”, disse, inicialmente, a PJ em comunicado.

Droga

O MAOC lembrou que a operação teve início após a partilha de “informações recebidas” pelo organismo a dar conta do transbordo iminente da cocaína “com destino à Europa”. “Os parceiros do MAOC começaram imediatamente a trabalhar nesta ação e as autoridades portugueses ofereceram-se para enviar meios marítimos para conduzir a operação no oceano”.

Da parte da Marinha foram empenhados 70 militares e “um vasto conjunto de meios” de fiscalização e de projeção dos operacionais para alto mar, numa ação que durou “mais de 138 horas” e na qual foram navegadas 1.527 milhas náuticas (2.827 km). “Estas operações demonstram o compromisso e a capacidade da Marinha, no apoio que presta no combate ao tráfico internacional de estupefacientes, sempre em coordenação com a Polícia Judiciária”, reforçou a Marinha através de um comunicado enviado às redações.

A Força Aérea, representada na conferência pelo tenente-coronel Agostinho Rocha, manifestou a sua constante disponibilidade “para ajudar, dentro das suas capacidades, em que operação for, em prol de Portugal e dos portugueses”.

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