Como quase sempre no país, a confirmação gerou um misto de encanto e ressentimento. A bolha alfacinha estava à beira de se dividir entre o privilégio e o fracasso. O consolo de ter visto e o infortúnio de só ter ouvido falar. A grande soprano Adelina Patti, uma das maiores estrelas do século XIX, viria por fim à capital do país, com cinco récitas agendadas para o Teatro São Carlos – e apenas uns quantos eleitos conseguiram bilhetes para os espectáculos: custavam a exorbitante quantia de vinte mil reis e esgotaram em 48 horas.
Em outubro de 1885, os anúncios da empresa Mattos e Valdez, responsável pela sala junto ao Chiado, acabaram com um longo suspense, depois de duas décadas atordoados com os ecos do triunfo da artista lá fora. “De vez em quando, os jornais noticiavam vagamente que um empresário qualquer pensava trazer a Patti a Lisboa. E essa notícia fazia logo profunda sensação na nossa terra. Depois a notícia não se realizava e o público ficava desanimado e cabisbaixo”, escreveu o colunista Gervásio Lobato na revista ilustrada O Ocidente. “Ouvir a Patti constituía há muito tempo um dos supremos anelos do lisboeta (…) Esses anúncios fizeram mais sensação em Lisboa do que todos os artigos políticos que se têm escrito no nosso país.” O autor recordava ainda como em dois dias, se tanto, tinham voado os lugares e “Lisboa, a pobre, Lisboa, a pelintra, despejava no camaroteiro do S. Carlos vinte e tantos contos de reis, em metal sonante, pagos logo ali”.
▲ No papel de Carmen, a obra de Bizet, por volta de 1875
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A urgência de estar presente e a afronta do preço misturavam-se nessa ansiedade coletiva. As fraudes proliferaram, o mercado paralelo ganhou impulso, mas a verdade é que em novembro nem data certa marcada nem sinal de Patti. Outra bomba lançada nos jornais atualizava as previsões: afinal de contas, Adelina Patti só chegaria em março. Com a epidemia de cólera a atingir a península ibérica, a lenda recusava-se a pisar Portugal e Espanha enquanto houvesse confinamento e tendas de campanha improvisadas no coração da cidade.
“No Parlamento, sente-se o pânico, sobressaindo as preocupações (sessão de 8 de julho) pela “barraca” situada na avenida da Liberdade, onde tinham sido recolhidos os “indivíduos que conseguiram atravessar o cordão sanitário estabelecido na fronteira”: os deputados expressavam a sua apreensão pelos danos que poderiam ter causado na viagem até Lisboa, mas escondiam mal o medo pelas suas próprias vidas”, lê-se em “A luta contra as invasões epidémicas em Portugal: políticas e agentes, séculos XVI-XIX”, de Laurinda Abreu, onde se revê 1885, ano do último grande cordão sanitário de âmbito nacional realizado em Portugal.
Quando as quarentenas do Marvão levantaram, a promessa haveria de cumprir-se. Mas até à última, já em plena primavera de 1886, o público na capital só descansou quando viu de perto a mulher gentil de grandes olhos negros, acompanhada por um homem de barbas louras. “Agora era certo, íamos ouvir a Patti, mas o facto parecia tão assombroso, era tão inacreditável por ser tão desejado, que já a Patti estava a almoçar no Grand Hotel de Lisboa os filetes que o Matta lhe preparara com toda a sua arte maravilhosa do rei dos cozinheiros, e na Avenida ainda corria com insistência que a Patti não chegava”. Mas por lá multiplicaram-se as tentativas de encontrar bilhete. “Assignaturas para a Patti. Quem quiser ceder dois ou três noutes de assignatura d’uma frisa ou 1.ª ordem falle com o porteiro do hotel central.”
A predestinada que cantou para Lincoln, um duelo de divas e os 3.700 diamantes
De origens italianas, Adelina Juana Maria Patti nasceu em 19 de fevereiro de 1843, em Madrid, predestinada a trilhar o meio artístico. Filha mais nova do tenor Salvatore Patti (1800–1869) e da soprano Caterina Barilli (que morreu em 1870), os seus pais encontravam-se a trabalhar na capital espanhola quando veio ao mundo. As suas duas irmãs, Amalia e Carlotta foram também cantoras. Nunca alcançaram o patamar da mais nova mas chegaram a atuar como Irmãs Patti. Já o irmão, Carlo Patti, passou à história como violinista, casando-se com a atriz Effie Germon. Ainda durante a sua infância, a família mudou-se para Nova Iorque instalando-se no Bronx. Foi durante esses anos que Adelina começou a cantar profissionalmente, sobressaindo uma soprano coloratura, tipo de voz feminina na ópera conhecida pela sua extrema agilidade. Boa parte da técnica foi-lhe ministrada pelo cunhado Maurice Strakosch, também ele músico e empresário, que a acompanhou em boa parte do trajeto. Atuou em público pela primeira vez com oito anos, em 1851. Na Broadway, teimou que só cantava se lhe dessem uma boneca. Henriette, assim a chamou, haveria de seguir com ela vida fora.
Depois de vários anos em digressão pela América do Norte e do Sul, bem como as Índias Ocidentais, Patti fez a sua estreia oficial aos 16 anos em 24 de novembro de 1859, no papel-título de Lucia di Lammermoor de Donizetti na Academia de Música, em Nova Iorque. Em 1860, com 17 anos, é a estrela de uma atuação privada em Montreal para o então príncipe de Gales e futuro rei Eduardo VII, que haveria de visitá-la até aos últimos dias.
▲ Com a sua comitiva, num pullman
Um ano depois, viajou para Londres, onde debutou como Amina em “La Sonnambula” de Vincenzo Bellini, uma prestação decisiva que carimbou uma temporada de sucesso em Convent Garden. “Jovem, graciosa e com uma voz fresca de pura qualidade, Patti merece assumir uma posição alta como prima donna,” escreveu o Examiner nas semanas seguintes a esse arranque que a colocou no mapa. Adelina encetava assim um vínculo de 23 anos com o teatro Covent Garden – então Royal Italian Opera e atualmente Royal Opera House. Esteve em todas as temporadas até 1884.
A partir da capital britânica, onde comprou casa, em Clapham, partiu à conquista do continente europeu. Nos anos seguintes, foi Amina, em Paris e Viena, com idêntico triunfo. Um dos momentos mais marcantes remonta a 1862 e levou-a de novo aos EUA. Durante um périplo norte-americano Adelina visitou a Casa Branca, onde interpreta “Home, Sweet Home” de John Howard Payne para o presidente Abraham Lincoln, e a sua mulher, Mary Lincoln. O ambiente não era o melhor mas a atuação conseguiu derreter o gelo. De luto pela morte do filho, Willie, que fora vítima de febre tifóide, o casal pediu um bis da canção, que ficou associada à soprano. De tal forma que rematou muitos dos recitais futuros com esse tema.
44 anos depois de comover os Lincoln em plena guerra civil americana, Patti gravou “Home Sweet Home”. Os primeiros registos gravados da sua voz remontam a 1890, então feitos em cilindros de fonógrafo para Thomas Marshall em Nova York, o formato original para gravação e reprodução de som, inventado por Thomas Edison em 1877. Nem os títulos gravados, nem os seus números são conhecidos. Na generalidade todos se perderam, à exceção de um cilindro, que permanece até hoje no acervo da Universidade de Syracusa, em Nova Iorque, uma frágil preciosidade que não deve ser manipulada sob risco de se danificar.
Conhecido como “arqueólogo sónico”, Ward Marston é um mestre do restauro sonoro, que se empenhou em atualizar de forma digital aquilo que serão algumas das versões mais aproximadas aos originais interpretados por Adelina Patti. Graças a ele conseguimos hoje ter um vislumbre da experiência que o público da soprano terá tido. A par de Patti, trabalhou também sobre o arquivo de Victor Maurel, ator consumado e parceiro perfeito, que Verdi elegeu para fazer o papel de Iago em Otello e ainda o protagonista de Falstaff. Marston lançado um CD onde ambos surgem.
▲ A soprano por volta de 1875
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Não é por acaso que o London Museum a descreve hoje como “uma Mariah Carey da era vitoriana”, listando inclusivamente parte da sua coleção de joias usada em espectáculos. Ao longo de uma carreira de 60 anos, Adelina associou ao curriculum 42 óperas e levou a sua fama por toda a Europa e Américas. “Só há um Niagara e só há uma Patti”, sentenciou a cantora de ópera sueca Jenny Lind, cita John Frederick Cone na biografia de 1993 “Adelina Patti : queen of hearts”. Napoleão III, a rainha Vitória, Eduardo VII ou o Czar Alexandre II eram seus fãs. Tolstoy rendeu-lhe homenagem no clássico da literatura “Anna Karenina”, Émile Zola tornou-a saliente em “Nana”, e em “O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde consagrou-a como epítome do glamour e da perfeição artística. Nela se inspirou Gaston Leroux para imaginar a poderosa Carlota de “O Fantasma da Ópera”. E Charles Dickens, que a viu em Londres, jurou que não tinha precedentes.
Mundo fora, Adelina Patti estreitou relações com diferentes destinos e emblemas. Em São Petersburgo atuou regularmente no Teatro de Ópera Imperial Russo, especialmente nas décadas de 1870 e 1880, onde recebia tratamento de superestrela. Em França, batizaram uma rosa em sua homenagem, a “Camellia Japonica Adelina Patti”. No Reino Unido, a rainha Victoria recrutou as suas atuações privadas ao longo de um quarto de século. Após novas digressões que dia a dia mais alastravam a sua fama, resolveu o pianista português Artur Napoleão ir também à América do Norte, onde realizou o seu concerto com a colaboração da prima-dona de projeção global.
Os tiques de vedeta estavam ao nível do talento e por vezes também mereciam crítica. “Mesmo que esteja a simular uma morte em palco, a Patti levantar-se-á para colher os seus aplausos se simplesmente deixar cair a sua bengala sem querer“, terá chegado a comentar o escritor George Bernard Shaw. Adelina Patti colheu aplausos mundo fora, sim, mas o estilo cultivado tão dividia opiniões. Desde logo por confundir o perfil das personagens interpretadas em palco com o gosto pessoal pela ostentação. Patti adorava exibir a sua coleção de joias mesmo que tal não se adequasse ao figurino em causa. Em 1895 terá envergado o mais caro figurino de ópera alguma vez usado, quando perante a plateia de Covent Garden a sua Aida mostrou-se com 3.700 diamantes em cima, o que hoje equivaleria a uns 20 milhões de dólares. Exigia que o seu nome ocupasse o lugar mais vistoso dos cartazes, abusava da exuberância e chegou a ser a mulher mais bem paga do mundo. Cachet? 5 mil dólares por atuação, o que hoje ascenderia aos 150 mil, que exigia serem pagos em ouro e adiantando, no seu camarim — mais do que o presidente dos EUA ganhava num ano. Detalhes partilhados no livro ‘The Golden Age of Opera’, do arquivista de longa data do Met, Robert Tuggle. Nas suas memórias, o promotor de espectáculos James Henry Mapleson, detalha mesmo que a cantora treinou um papagaio para que este repetisse “Dinheiro!”, “Dinheiro”, sempre que Mapleson entrava no camarim.
▲ A soprano numa representação de Karl Friedrich Steinhardt
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Mas tanto a relação com a joalharia como com o ouro se enquadram no tempo. “Ser uma grande diva significava que os admiradores lhe deram joias inestimáveis em pessoa ou atiraram rubis e esmeraldas em bouquets quando a cortina caía. As joias eram uma coisa boa para as cantoras, porque, até ao século XX, muitas leis europeias impediam as mulheres de possuir propriedades e de manter o dinheiro que ganhavam. As joias eram riqueza portátil; poderiam escondê-las e usá-las como uma rede de segurança, como pé de meia para a reforma”, explicou em 2015 a historiadora Kathleen McDermott na obra “A Diva Story-Book, 1700-1920.”
De resto, acumulavam outro papel. “Joias poderiam fazer parte do traje de palco duma diva por outro motivo. Se um admirador estava dando-lhe joias fabulosas e “mantendo” ela usaria essas joias e um traje caro e elaborado no palco. Reconheceu-o publicamente e tornou-a ainda mais desejável aos olhos de homens que procuram amantes de prestígio. Não importa quantas joias uma cantora possuía, ela ainda era performer e pária social e, como tal, nunca esperava se casar com seus admiradores. Joias não mudavam a sua posição social, mas, quanto mais uma diva as tinha, mais ela poderia esperar.
Bilhar, passeios à beira rio e preferência por gente simples
Muito se falou da estadia de Madonna em Lisboa, entre 2017 e 2020; a espera online para comprar bilhetes para os concertos de Rosalía em 2026 dominou parte da semana pop ( a par da greve geral); mas lá do alto a estrela pop do século XIX poderá soltar algumas gargalhadas. “Há uma semana que Lisboa não pensa nem sonha outra coisa que não seja o grande acontecimento do inverno – A chegada da Patti. A Patti absorve todas as atenções, domina todos os assuntos, impõe-se a tudo e a todos com o seu grande nome e o seu grande prestígio …”. Nestes termos anunciava o “Repúblicas” em outubro de 1885, cujo diretor literário era Camilo Castelo Branco, a notícia da vinda da soprano Adelina Patti no inverno de 1886 para cantar no Teatro de S. Carlos, escreve Patrícia Moreno na obra de 2017 “Lisboa, o S. Carlos e Adelina Patti”.
Em 1877, o compositor Giuseppe Verdi descreveu-a como uma “artista estupenda”, provavelmente uma das melhores que alguma vez vira. Mas quando se preparava para pisar solo nacional, Patti já não era a jovem que aos 22 anos atuara diante dos principais soberanos europeus. Levava já 43 e muito se interrogavam se a lenda da ópera estaria à altura do seu próprio mito ou acusaria sinais de decadência.
▲ Numa caricatura da Rafael Bordallo Pinheiro, a propósito da vinda a Lisboa
Antes, durante e após a sua visita, a prima dona que foi eternizada na pintura de Franz Xaver Winterhalter, pintor da corte francesa; em retratos e caricaturas, fez encher páginas de publicações portuguesas. Dois meses depois, em 22 de maio, o frenesim voltaria a tomar conta da capital, agora com o faustoso casamento do príncipe D. Carlos e Amélia de Orléans.
Já em Portugal, Patti ter-se-á encantado pela cidade e pelo rio, dando longos passeios. Gerou aliás o amuo da alta sociedade alfacinha, que esperava que a diva correspondesse de forma mais assídua aos seus convites. Mas havia outro motivo de peso para o mal estar que se pré-instalara. O público do São Carlos consagrara já a sua eleita suprema, Fidès Devriés, pelo que a tensão crescia. Como reagiria a assistência à atuação da rival Patti? As passagens por Espanha no ano anterior não deixaram os melhores augúrios para a soprano. Os rumores sobre a quebra de qualidade adensavam-se e os preços obscenos dos bilhetes motivaram vaias no pais vizinho. Em Barcelona, quando se recusou a cantar “Il Bacio” terá sido brindada com a primeira grande vaia da carreira. Já Madrid recuperou a fama com um vistoso triunfo. António de Campos Valdez, gerente do Real Teatro São Carlos terá suspirado de alívio, mas mesmo assim a dúvida ficava no ar.
A chegada e check in da soprano são dignos de nota numa imprensa da época que documenta largamente o acontecimento do ano. Adelina chegou de comboio à estação de Santa Apolónia na manhã de 25 de março de 1886. No Grand Hotel de Lisboa, no Chiado, onde ficaria instalada, as escadarias foram atapetadas para este momento alto. João Matta, proprietário da unidade e um dos primeiros chefs portugueses encarregou-se ele próprio da confeção da ementa para a cantora, dividindo-se entre o caldo de arroz, o filé de lombo Chateaubriand, o bife inglês com batatas, ou o frango assado, e catapultando assim o seu nome para o estrelato, perante o selo de aplauso da hóspede ilustre.
Nenhum detalhe escapou às penas mais atentas. As ementas em francês, o copo de água morna que pediu mal entrou no hotel, a predileção por Château Margaux, as condições da garganta, o reumático que afligia o joelho, ou o perfume que pairava no quarto de Patti, sem esquecer a exigência que fizera: ter uma mesa de bilhar no seu aposento, já que o jogo era um dos seus passatempos de eleição. Patti desenvolveu um amor pela modalidade e tornou-se uma jogadora de renome, fazendo aparições enquanto convidada especial em muitos grandes eventos.
▲ Uma ilustração do Grand Hotel do Matta, no coração do Chiado, ao antigo Largo do Loreto
“Adelina Patti tem nos últimos dias ocupado a atenção pública e o noticiário jornalístico de preferência a todos os outros acontecimentos.”, sobrepondo-se, garantiam, a todo o tipo de parangonas sobre crimes, assassinatos, incêndios e outros temas sumarentos. Do suplemento satírico Pontos nos iss à revista Ilustração todos narram a euforia que assaltou por completo a high life lisboeta. “A diva apaixonou-se doidamente pelo sítio de Queluz. Frequenta mais aquele lugar ermo e sensaborão do que os empregados públicos frequentam as secretárias, por igual sensaboronas e ermas.”, lia-se e ria-se a 8 de abril de 1886. O frenesim pop chegou ao ponto de anos mais tarde o sabonete Ach Brito, marca lançada em 1918, ganhar uma versão “Patti”. E em Setúbal era fabricado um lugre “Adelina Patti”.
Na sua crónica no rescaldo das atuações da diva, o cronista Gervásio Lobato rejeita o ocaso da artista e confirma a “cantora assombrosa”, a singularidade no mundo lírico e a proeza que implicava traze-la a esta modesto recanto, pelo nível de celebridade e valores astronómicos para qualquer empresário do setor. No primeiro ato do Barbeiro de Sevilha, a soprano dera vida a Rosina perante o “frémito de curiosidade” da sala. “Todos os binóculos ávidos e os ouvidos apuraram-se para ouvir as primeiras notas”. Mas ao fim do segundo ato, “o pano desceu e nem uma palma”. No terceiro ato, a valsa da Sombra de Dinorah começou a desarmar o público, foi no entanto a valsa do Beijo com que fechou a ópera que desatou a ovação e apoteose. “E ninguém fala n’outra coisa – nem mesmo as pessoas que não alcançaram bilhete para nenhuma das récitas, porque essas mesmas falam da Patti a todo o momento para se consolarem de a não ouvir.”
O estudo histórico de Francisco da Fonseca Benevides, “Real Theatro de S. Carlos de Lisboa desde a sua fundação em 1793 até à actualidade”, traça um retrato da temporada de 1885-1886, pontuada pelo momento alto protagonizado pela soprano, e sobretudo pelo défice de flores e aplausos que a sua passagem mereceu.
“Para este facto, que lança sobre o público do nosso teatro lírico certa mancha de injustiça (…) concorreram várias circunstâncias, como a excessiva elevação dos preços, o estar pouco tempo em Lisboa e o modo de vida que e célebre cantora levava”. Entenda-se: “Patti não fazia casos de altos personagens em posição ou riqueza mostrando-se-se antes pelo contrário muito acessível aos pequenos (…) A diva preferia um jantar frugal e íntimo em casa do malogrado folhetinista Júlio César Machado às mais esplêndidas funções da corte.”.
Ao seu lado, no elenco, haviam estado Angelo Masini, Antonio Cotogni, Giuseppe Frigiotti, Neri, Pinto, Giovanni Soldà e Antonio Ghidotti. Mas se grandes surpresas as melhoras peripécias aconteceram fora de palco. Um dos episódios em Lisboa envolveu o empresário Carlos Freitas de Brito, antigo responsável pelo São Carlos e então ao leme da sala do Coliseu, ou Colyseu, que se dirigiu ao empresário particular da artista, J. Schurman, tentando que a agenciada se apresentasse também ao vivo naquela morada. Mas nem Adelina cantou no coliseu nem as damas da corte que a abordaram no hotel do Matta tentando que cantasse por beneficência conseguiram os seus intentos. Ah, e rezam as crónicas que veio auferir a “bagatela de 18 contos de reis”. Eis”essa mulher extraordinária a quem a natureza pôs a flor dos gorgomillos o que geralmente costuma pôr nas entranhas da terra — uma mina d’oiro”.
Crinolinas e heroínas, amores e escândalos
Em palco, a soprano italiana assumiu personas grandiosas, heroínas famosas cujo vestuário era decisivo para moldar a sua imagem, mas a referência enquanto ícone de moda estendia-se ao dia a dia. “Ela encantou os seus convidados com a sua presença e panache sartorial e recebeu-os vestidos com as mais recentes criações elegantes com saias crinolinas e decotes pulling do couturier Charles Frederick Worth, o seu cabelo muitas vezes arranjado à ‘Impératrice Eugénie com joias ardendo nele, bem como ao redor de seu pescoço e em seus braços e dedos — a tudo lisonjeando a sua figura de 1,80m e cintura de 17 polegadas.”, escreveu Frederick Cone.
Se para a opulência das árias imperavam os melhores tecidos como seda, cetim e veludo, adornados com bordados, pérolas e lantejoulas, a alta moda e o cunho dos melhores designers parisienses revelam-se no seu guarda-roupa pessoal. Em Londres, o museu Victoria & Albert Museum conserva alguns de seus trajes e acessórios, que atestam a sua declaração de status e extravagância no seu tempo. E na histórica alfaiataria Henry Poole & Co, em Savile Row, mantêm o registo de encomendas luxuosas que a soprano fazia para o seu pessoal.
Igualmente lendária foi a sua vida amorosa. Casou-se por três vezes. Primeiro, em 1868, com Henri de Roger de Cahusac, Marquês de Caux (1826-1889), que conhecera dois anos antes através da amizade com a imperatriz Eugénia, e que abdicou dos privilégios da sua vida na corte para se unir à artista, que recusava desistir da carreira. Adelina tinha 25 anos e o noivo 42 e o enlace durou menos de uma década. A vida de celebridade, as constantes viagens e as acusações de adultério contribuíram para o desfecho, perante o assédio da imprensa sensacionalista. No processo de divórcio, de Caux acusou Patti de ter um caso extra conjugal com um dos seus colegas em palco, o tenor italiano Ernesto Nicolini, então casado e pai de filhos. A soprano admitiu a relação e acusou o marido de ciúmes, controlo e violência. A separação foi finalizada em 1885, o acordo envolveu dar cerca de 300 mil dólares, cerca de metade da sua fortuna, a de Caux, e toda esta turbulência foi outro dos motivos para que a estrela adiasse a sua vinda a Lisboa. Poucos meses depois, casaria com Nicolini, que atuara no São Carlos 16 anos antes.
▲ Retratada por James Sant, uma obra do acervo da National Portrait Gallery, em Londres
Photo Credit: National Portrait Gallery, London
Em A Ilustração, de dezembro de 1888, notam como é inconveniente dizer “desta Paris não beberei”. Patti prometera não voltar a atuar na capital francesa devido à forma como a sua separação fora escrutinada sem pudor. “Todo o escândalo desse famoso divórcio que se debateu nos jornais franceses fez surgir vários artigos, qual deles o mais picante”, lamentou. “Paris ri-se da minha tragédia conjugal – pois não mais lá irei cantar”. A precisar dos aplausos e da crítica parisiense, “a primeira do mundo na crítica das coisas de arte”, Adelina acabaria por dar o braço a torcer, regressando para o Romeu e Julieta de Goulnod.
O casamento com o tenor durou até à morte deste e terá sido feliz, mas o conteúdo do testamento sugeria tensão nos últimos anos. Nicolini cortara Patti de todos os bens. A artista que foi a Gilda de Rigoletto, a Leonora do Trovador, a protagonista de Semiramide, a Zerlina de Don Giovanni ou a Violetta de La Traviata, morreria como baronesa, no Castelo de Craig-y-Nos, no vale de Swansea, na Gales do sul, a 27 de setembro de 1919, com 76 anos, e de forma natural.
O seu último enlace aconteceu em 1899, com o barão Rolf Cederström (1870-1947), um aristocrata sueco, vários anos mais novo. Nova viagem pelo arquivo mostra como o casal alugou um comboio para a sua boda, circulando entre Brecon e Londres. O marido terá ceifado boa parte da vida social e desafogo vivido por Adelina, poupando por exemplo no número de empregados à sua disposição. Depois da sua morte, Rolf Cederström casou-se com uma mulher muito mais nova e teve uma filha, Brita Yvonne Cederström, nascida em 1924, que haveria de herdar o espólio de Patti, que morreu sem deixar descendência. A diva era no entanto muito próxima das sobrinhas e sobrinhos e entre a lista de sobrinhos bisnetos ou trinetos contam-se a atriz e cantora Patti LuPone, o baterista Scott Devours, e a cantora de ópera galesa Lisa Lee Dark, cuja afinidade se estende ao casamento de Adelina com o tenor francês Ernesto Nicolini.
No seu refúgio galês, que por sua vontade viria a ser um hospital para tuberculosos após a sua morte, Patti cortou mais de 30 gravações de gramofone de disco de músicas e árias operísticas. Também ali instalou o seu próprio teatro de ópera doméstico, uma miniatura do milanês La Scala onde recebeu os amigos até aos primeiros anos do novo século. Entre 1905 e 1906, para a Gramophone & Typewriter Company, fez uma gravação de voz falada, uma saudação de Ano Novo para seu terceiro marido, que pretendia que ele mantivesse como lembrança.
Uma parte da antiga propriedade de Adelina Patti serve atualmente como um hotel boutique, catering, espaço para conferências e local de entretenimento. Os terrenos do castelo estão cercados por um parque rural inserido no Parque Nacional Brecon Beacons.
Em abril de 2025, a jornalista Reyes Monforte recuperou no livro “La Diva” a incrível história da mulher que nasceu em Madrid, marcada pela lenda desde a primeira hora, incluindo que a sua mãe teria rebentado as águas em plena representação de “Norma”, o que nunca foi dado como certo — muito menos o extravagante hábito de comer todos os dias uma sanduíche de doze línguas de canários para cuidar da voz. “Que falem bem ou mal de ti, o importante e falarem”, tranquilizava o amigo costureiro Frederick Worth.
Segundo Monforte, a estrela conhecia bem a sua voz, uma cláusula no contrato isentava-a de ensaiar — “que ensaiem os outros” — e evitava cantar mais de três vezes por semana. Seguia uma dieta rigorosa, tornou-se vegetariana e praticava homeopatia. As selfies demorariam a ser inventadas, mas Patti foi pioneira da cultura das celebridades. “Recebia cartas, flores, presentes de admiradores, os seus seguidores beijavam o tapete de sua casa ou desenganchavam os cavalos da carruagem para serem eles a levarem-na para o hotel. De alguma maneira, conheceu em vida o seu próprio processo de mitificação, era usual que os periódicos e revistas dedicassem capas inteiras às suas digressões”, descreveu a autora ao La Razon.
Em solo nacional, a publicação quinzenal de musica e theatros Arte Muscial, produzida nos Restauradores, caprichou na ousadia — e na tão popular teoria do parafuso que já impregnava a cultura das atualidades. Talvez Adelina Patti até tivesse, imagem bem, uma costela portuguesa.
Depois de Lisboa, seguiu-se uma tour pela América do Sul. Nos seus diários, Adelina conta como em março partiu da capital portuguesa no vapor Congo. Durante meses, em 1888, apresentou-se no argentino Teatro Politeama para uma das fases de maior êxito.
Nas suas memórias, publicadas em 1913, o maestro Wilhelm Ganz recorda os anos com Patti, da presença no seu casamento ao amor pelos animais, a pontualidade, e ainda as prodigiosas vezes ao longo da sua vida em que a estrela escapou à morte. Certa vez, aos 16 anos, enquanto cantava a Cena da Loucura em Lucia, a comprida manga do seu vestido pegou fogo numa vela, um pequeno incêndio que conseguiu extinguir com a própria mão, sem comprometer a atuação. Uma outra vez, na América, um anarquista atirou uma bomba a um homem que se encontrava junto ao palco. Por sorte, Patti encontrava-se no lado oposto, porque o engenho, que não chegou a rebentar, foi parar à zona onde estivera pouco antes. Ainda jovem, um mensageiro deixou um par de luvas em sua casa. O pai detetou uma aparência estranha e levou-as a um químico, que identificou a presença de veneno. Outra vez ainda, de regresso ao camarim, parou a tempo a ingestão de um copo de água — lá haviam embebido uma série de fósforos.
Um conjunto de ameaças quase tão maravilhosas quanto ela, cuja derradeira apresentação ao vivo foi no Royal Albert Hall em 24 de outubro de 1914, como parte de um concerto da Cruz Vermelha para ajudar as vítimas da Primeira Guerra Mundial. “Patti cantou, maravilhosamente ainda”, louvou o rei George V naquela noite. Como era seu desejo, foi sepultada em Paris, no cemitério Pele Lachaise, para repousar perto do compositor e amigo Gioachino Rossini (1792-1868).