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Nos bastidores das cinco maiores campanhas das presidenciais

A reunião à porta fechada, a campanha de risco zero, a viagem de autocarro antes da tormenta, a sala de guerra sobre rodas e o número mágico. O Observador nos bastidores das cinco maiores campanhas.

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As sondagens — a diária e as outras — ditaram o compasso da campanha presidencial mais imprevísivel dos últimos 40 anos. Na reta final da corrida, André Ventura, o grande favorito nos estudos de opinião, discute com os elementos da sua equipa mais restrita, onde se incluiu a mulher, Dina, o risco de uma eventual desmobilização por excesso de confiança. Longe, noutra caravana, dois conselheiros de António José Seguro estão agarrados aos telemóveis. Respiram fundo quando recebem os dados — têm tudo para passar à segunda volta depois de uma campanha sem riscos e sem falhas.

João Cotrim Figueiredo explode contra os jornalistas. Está há quatro dias a responder sobre o caso de alegado assédio sexual. O tom da campanha mudou radicalmente, a festa acabou, vai ser combate até ao fim. Noutro ponto do país, Luís Bernardo, uma das figuras mais poderosas da comunicação em Portugal, observa tudo à distância. Mais uma sala cheia para Henrique Gouveia e Melo. Houve mobilização — graças a Isaltino Morais, sobretudo. Mas o almirante não descola nas sondagens. Resta saber se ainda é possível.

Tal como ele, Luís Marques Mendes ainda acredita. No cair do pano, teve uma pequeníssima luz ao fundo do túnel: uma sondagem, apenas uma, dá o social-democrata em segundo lugar. A equipa assiste a tudo pela televisão. Celebra a sondagem como se fosse um golo. O Observador nos bastidores das cinco maiores campanhas presidenciais.

Ventura. O rei das redes, Dina à mesa da decisão e a máquina do Chega

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

À volta da mesa retangular comprida, colocada no centro de uma sala com vista para o exterior, estão nove pessoas. O candidato está no centro e tem a mulher, Dina Nunes Ventura, à sua esquerda. Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, está à direita. Os deputados e dirigentes nacionais Patrícia Carvalho e Diogo Pacheco Amorim também estão sentados à mesa, o mandatário Pedro Tinoco Faria, assim como Pedro Miguel Pinto, secretário da Mesa da Convenção e um dos coordenadores autárquicos do Chega. Há um lugar também para Luís Miguel Sousa, fotógrafo do Chega que segue na comitiva, e Diogo Avó, responsável por gravar vídeos para as redes sociais. Da direção, quem está com lugar na comitiva que segue na carrinha vai tendo assento nas reuniões.

A comitiva de André Ventura está reunida num hotel no Porto a ultimar preparativos para a ação da tarde. Durante toda a campanha, houve apenas um evento a meio da manhã e outro ao fim da tarde, o que dá mais tempo à comitiva para estar junta e longe dos jornalistas. O presidente do Chega não se multiplica em presenças. Nem precisa. Faz apenas questão de preencher os dois principais noticiários: o da hora de almoço e o da hora de jantar. Nos intervalos, trabalha para as redes sociais, que lhe permitem enviar mensagens sem filtro para os milhares de pessoas que o seguem nas várias plataformas.

Ao contrário do que acontece na esmagadora maioria das vezes, André Ventura não está com seguranças. É uma reunião de equipa e Marco Fortes mantém-se apenas no hall, à porta, muito mais relaxado do que nas exigentes arruadas. Habitualmente, há duas reuniões por dia, uma depois da ação da manhã, ao almoço ou depois da refeição e outra à noite.

É André Ventura, naturalmente, quem lidera a reunião a que o Observador assistiu. Estão a preparar a descida de Santa Catarina, no Porto, e o comício final. Ventura confirma o percurso e o local do discurso com Patrícia Carvalho, que já foi assessora de imprensa antes de chegar a deputada, enquanto recorda outras arruadas no mesmo sítio. E começa a colocar os temas que quer abordar nos últimos dias: imigração, impostos, José Sócrates. Vão sendo atiradas ideias. Dina sugere que se fale de turismo, recuperam a questão das pessoas com necessidades especiais depois de um encontro no Mercado das Caxinas, em Vila do Conde. Acabam por se recentrar naquilo que é mais prioritário.

Ventura está a prever 10 ou 15 minutos de discurso, depois de uma arruada “muito cansativa”, com uma “mensagem rápida e eficaz”. Lembra-se de que ainda não falou do voto dos emigrantes em discurso, até porque muitos têm vindo ter consigo para se queixarem da necessidade de deslocação aos consulados. Também quer recuperar o tema imigração, com Diogo Pacheco Amorim a dizer que no Porto há “problemas gigantescos”.

Instala-se uma confusão entre a palavra emigração e imigração, Pedro Pinto alerta que há muitos portugueses lá fora que ainda acham que vão receber os boletins, Tinoco explica que há falta de informação, cruzam-se conversas e Ventura pára para esclarecer: “Agora, estava a falar de imigração, com i”. Segue a conversa: “Temos de mudar para o voto, na fase final tem de ser”, diz Dina Nunes Ventura, muito interventiva. A mulher de Ventura juntou-se à campanha no fim de semana e não voltou a sair. Nas muitas campanhas que já tem nas pernas, esta é uma novidade para Ventura — nunca a mulher assumiu tanto protagonismo como agora.

Diogo Pacheco Amorim, acabado de se juntar à campanha, ainda ensaia a possibilidade de o discurso ser maior, uns “20, 30, 40 e 50 minutos”, o que arranca gargalhadas à mesa. “Está cheio de energia. Vê-se que acabou de chegar.” Ventura assume que o discurso depende sempre da “energia que as pessoas passam” e avisa que “ainda tem de ter voz para amanhã [quinta-feira] e sexta-feira”.

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

Reunidos antes da publicação de duas novas sondagens — que acabaram por confirmar a liderança de Ventura — o presidente do partido pede cautela para mais publicações sobre sondagens nas redes sociais (ainda que uma delas tenha mesmo sido partilhada nessa mesma noite). É importante que não se passe a ideia de que estão a viver “alimentados de sondagens”. É tempo de analisar a grande sondagem da Católica, discutem a margem de erro e abrem a porta ao que pode ser a próxima fase.

Ventura projeta eventuais combates com António José Seguro ou Luís Marques Mendes. Reconhece que seriam duelos diferentes, avalia potencialidades e riscos, prolonga-se sobre a hipótese de explorar a “ligação” de Seguro ao PS. Mas essas são lutas para próximos episódios. Agora, para os seus e para si próprio, para que lhe sirva de memória, lembra que “é importante passar a imagem de que não está nada garantido”. As sondagens dão-lhe um resultado positivo que pode levar a “conformismo”. Coloca uma meta: “Devíamos ter uma margem de cinco/seis pontos para o segundo lugar porque partimos em desvantagem para a segunda volta.”

São 15h45. Última quarta-feira de campanha. Prepara-se a reta final, afinam-se os temas dos últimos dias e um apelo forte ao voto: ao contrário do que é costume, André Ventura surge consistentemente em primeiro em quase todas as sondagens, mas é preciso convencer os que já votaram no Chega que os votos só contam nas urnas. É verdade que esses mesmos estudos de opinião vão sugerindo que ninguém tem eleitores tão fiéis como o líder do Chega; só que o fantasma da possível desmobilização por autoconvencimento foi atormentado a equipa do candidato. É preciso fazer tudo para que ninguém fica no sofá.

É Ventura quem gere as suas redes sociais. Há vídeos do dia a dia, nomeadamente de quando chega a algum local, que são publicados diretamente por outra pessoa da equipa, mas é o candidato presidencial que fica com essa pasta e não abdica dela. É ele que seleciona, decide a agenda e dispara as publicações. Na reunião fazem-lhe perguntas sobre o que publicou e sobre o que está em carteira. Ventura sabe de cabeça, auto-elogia o vídeo de Sócrates, reconhece que era necessário um vídeo para emigrantes — e já o publicou — e decide avançar para mais um, desta vez sobre antigos combatentes, que se tornaria uma questão central na campanha no dia em que vestiu um camuflado do Exército que lhe foi oferecido no dia de aniversário.

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

Reunião da tarde terminada, é hora de gravar mais um vídeo. Levantam-se todos da mesa, começam rapidamente a olhar em volta e a procurar o melhor sítio. Ganha o exterior. Desta vez não há grandes arranjos ou a ajuda da Inteligência Artificial, como várias vezes acontece. Ventura basta. A mulher dá-lhe dicas para ajeitar a camisola, esfrega aos mãos, dá uns saltinhos para descontrair e começa.

Take 1 e pára; take 2 e pára. Queixa-se do facto de estar muita gente a assistir. À terceira tentativa, Ventura faz o vídeo completo. One shot, sem erros. Dina bate palmas, elogia o “toque de cabeça” em que olha para o segundo telemóvel que estava nas mãos de Patrícia Carvalho. Está feito. É mais um de muitos que fazem parte da outra campanha de Ventura, aquela que controla a 100%, sem filtros. É tempo de ir para a baixa do Porto.

O assessor Filipe Duarte e o chefe de segurança, Hélio Filipe, saem em direção à tradicional arruada na Rua de Santa Catarina, no Porto. Nos últimos dias, os contactos com a população têm ficado cada vez mais intensos. Os dois são a equipa avançada no terreno, não só avaliam os sítios por onde passará e discursará André Ventura, como têm de controlar os muitos apoiantes que esperam ansiosamente, e muitas vezes em cima da estrada, pelo candidato a Belém. A esta hora ainda está tudo calmo no ponto de encontro. Dentro de minutos, seguir-se-ão os tradicionais apertos e empurrões. Nada disso atrapalha uma corrida que, muito provavelmente, será histórica para o Chega e para Ventura.

Seguro. Sem correr riscos, montado nas sondagens e em trocadilhos com o apelido

VASCO COELHO/OBSERVADOR

António José Seguro está a passar o final da manhã num centro de dia no Seixal. É o arranque da segunda e decisiva semana de campanha. O candidato circula entre as mesas do almoço. Deita dois dedos de conversa com o público com que é mais eficaz, os mais velhos — o grande reduto eleitoral do PS. Lá atrás, o seu núcleo mais restrito segue de olhos postos nos ecrãs dos telemóveis. As sondagens diárias animam a campanha de Seguro; mas já falharam muito no passado. O que a equipa de Seguro quer saber são os dados da primeira grande sondagem publicada na campanha. E as notícias não poderiam ser mais animadoras: o socialista parece ter tudo para passar à segunda volta.

Os únicos dados sobre os eleitores com que a campanha de Seguro garante ter trabalhado são os dos focus groups, um depois do verão e outro mais recente. O candidato apareceu sempre com boa avaliação ao nível da confiança, mas com poucas certezas sobre a sua capacidade de decisão. É a imagem do “candidato fraquinho“, uma expressão que o próprio chegou a usar para logo a seguir garantir que é capaz de “dar vários murros na mesa”. Resta saber se o esforço de campanha de Seguro será suficiente para convencer os indecisos e os que dele duvidam.

A campanha foi montada sobre  um tripé: reconhecimento de um nome da política com um extenso período de nojo (11 anos) e uma saída pela porta pequena; a manutenção da barreira higiénica em relação à família política; e o não arriscar, nem se comprometer, para manter o ponteiro o mais ao centro e o mais presidenciável (sem “lama”) possível. Sem riscos, mas também com pouco rasgo. O circuito pelos distritos alinhado inicialmente fez-se sem grandes desvios e as ações de campanha também. Exceto quando o mau tempo obrigou a adaptações e em dois momentos políticos: a visita a Pedro Santana Lopes, que o elogiou muito, e a uma esquadra da polícia. Na mensagem do candidato, a história foi outra.

A tal sondagem esperada confirma a tendência da tracking poll TVI/CNN e dá António José Seguro em segundo lugar, depois de André Ventura. O candidato já só voltaria a aparecer para uma arruada em Setúbal, ao fim da tarde, com declarações genéricas e um copo de Moscatel que nem consegue beber até ao fim. “Isto hoje está muito difícil”, comenta baixinho para o lado antes de pousar o copo no balcão e prometer vir beber o resto noutra altura. Inebriado pela vantagem nas intenções de voto, guarda para o comício da noite, no Barreiro, a novidade maior. Nessa altura, já tinha ideia de que a sondagem dali a dois dias não seria tão generosa. Precisa de aproveitar o momento e criar imediatamente a perceção de possível vitória (já não mudaria uma vírgula até ao fim, mesmo perante uma outra sondagem que o pôs no quarto lugar).

VASCO COELHO/OBSERVADOR

No fim do comício, um apoiante de sempre de Seguro comenta com o Observador: “Agora é só não cometer erros, o que para ele é fácil, porque é certinho. Aquilo que era um problema tornou-se uma vantagem”. A campanha foi isto mesmo, certinha: sem correr riscos; seguindo sempre o velho livro da política nacional, à procura de pessoas onde elas estão: do Sul para o Norte, nas ruas a horas de ponta e fins de semana, nos comícios à noite (e alguns com refeição incluída); aproveitando o PS para compor salas e centrando no homem uma candidatura que é de carácter unipessoal.

O auditório de cada sala não se diferenciava em quase nada de um comício socialista. Mesmo que Seguro tenha quase retirado os holofotes ao partido, preferindo independentes (sobretudo mandatários distritais da candidatura) e garantindo que ia bem além do PS, o que é certo é que, no terreno por estes dias, não se viu muito mais do que a sua família política. Bem tentou esticar o pano em Viana do Castelo, quando referiu a presença do antigo deputado do CDS Abel Batista, mas quem mais se preocupou em sair de casa foi mesmo o PS. Uma atrapalhação para o candidato que em Paredes, nos agradecimentos, esforçou-se por enumerar uma lista de socialistas sem nunca referir o partido, acabando a escorregar quando chegou aos “deputados e dirigentes do nosso… país”.

VASCO COELHO/OBSERVADOR

Geriu apoios essencialmente nas redes sociais (como o de Pedro Nuno Santos que estava combinado aparecer no arranque da segunda semana) e sem lhes dar grande destaque — “Eu é que sou o candidato” –, nem mesmo quando a cambalhota era mais acrobática, como a de Augusto Santos Silva. A dada altura, o Observador questionou-o sobre a mudança de opinião do socialista que mais o atacara e Seguro atirou apenas um “por amor de Deus!”.

Porque para Seguro isto é politicamente importante. O candidato promove-se como  alguém que não guarda “rancor”, mas a tomada de assalto costista do PS em 2014 continua a ser de difícil deglutição. E tudo o que vem desse tempo. Por exemplo, não se prende à referência presidencial soarista — ainda que os jovens que o acompanham gritem que “Seguro é fixe”; prefere alargar as referências e os elogios a outros antigos Presidentes — afinal nunca fez as pazes com o fundador, depois das críticas que este lhe fez em 2013, na negociação do compromisso de salvação nacional.

Nas ruas ouviu algumas referências à “traição” do PS nesses tempos. “Isso já passou”, chegou a responder em Braga. Outras vezes, como aconteceu na Amadora, fecha os olhos como quem concorda sem nada dizer. Em Grândola, nos primeiros dias, ainda se cruzou com Ana Catarina Mendes, uma figura do costismo que lhe fez frente em 2014. Cumprimentou-a, mas ficou por aí. Seguiu pelas ruas sempre à distância e nenhum socialista dessa frente arriscou repetir o gesto da eurodeputada. O sinal ficou dado.

Na rua é reconhecido pelo eleitorado mais velho e as interações fluem com naturalidade. É candidato de contacto, abraça e fecha os olhos, agarra os rostos femininos entre as mãos, fica vários minutos a ouvir queixas. Guarda na memória e serve-se dos momentos ao longo do dia nas intervenções que vai fazendo, seja nos comícios, seja em arruadas em declarações aos jornalistas.

Ninguém precisa de lhe ensinar os truques básicos da política. Está nela desde os 18 anos e o interregno que fez mudou muito pouco. Sabe usar os diretos televisivos, mas continua a mostrar tolerância baixa às insistências mais incómodas. Encerrou declarações quando não conseguiu explicar se existe insegurança real no país ou só perceção — num tema que ele próprio tinha trazido à campanha para ombrear com Ventura. E também se irritou com as várias perguntas sobre as condições políticas da ministra da Saúde, ao evitar radicalizações.

VASCO COELHO/OBSERVADOR

Durante este dias segue com um grupo pequeno de conselheiros e mais umas poucas dezenas à distância de uma mensagem escrita. Alguns desses apareceram pontualmente no terreno, como Álvaro Beleza ou Miguel Ginestal. Os acertos de mensagem fazem-se sobretudo em grupo, à noite, antes de dormir, mas se for preciso em qualquer viagem de carro onde o candidato nunca segue sozinho: ou vai o diretor de campanha, ou o diretor de comunicação, ou ainda a mandatária da juventude. Seguro nunca desliga, como contou ao Observador na “Última chamada.”

No seu núcleo há a perceção, desde início, de que um dos pontos fortes do candidato é o contacto que consegue manter com as pessoas. Por isso, era preciso levá-lo ao maior número de sítios possível. Nos últimos dias, as paragens multiplicaram-se — só na quinta-feira, a caravana parou em oito pontos diferentes para contactos rápidos do candidato, a cavalgar a ideia de que pode estar por uma nesga a sua vitória. O nome foi sempre dando para trocadilhos, a começar pelos cartazes do “Futuro Seguro” e a acabar no apelo ao “voto pelo Seguro” — que é pedido pelo próprio, a maioria das vezes na terceira pessoa. Depois da longa ausência política, era preciso repetir o nome até colar e, ao mesmo tempo, ir garantindo a tal confiança. Teria sido mais difícil se tivesse sido Carvalho.

Cotrim. As redes, a festa da primeira semana e a explosão com os jornalistas

▲ Cotrim de Figueiredo numa reunião no autocarro, com Bernardo Blanco, Liliana Reis e Octávio Oliveira

Maria João Gala

“Vai assistir a isto também”, anuncia João Cotrim de Figueiredo. Um ex-deputado do PSD, Walter Teixeira, apareceu numa ação de campanha na Universidade Sénior de Matosinhos para dizer que estava disponível para apoiar o eurodeputado Liberal. Não falou com o candidato, mas deixou o recado a Liliana Reis, ex-deputada da AD que passou boa parte da campanha ao lado do candidato. Cotrim telefona ao ex-deputado, a agradecer e a perguntar se o apoio pode ser tornado público.

Não é um nome conhecido a nível nacional, mas a ligação ao partido que apoia Marques Mendes (grande adversário de Cotrim na luta pelo voto da AD) torna-o ultra-valioso. “Olha, Walter, a Liliana estava aqui a partilhar comigo a mensagem que tinha recebido relativamente à tua disponibilidade de apoiar a candidatura mais ativamente, coisa que desde já muito agradeço e queria no concreto perguntar-te se encararias integrar aquele grupo de pessoas que me apoiam oficialmente, o que chamamos Horizonte 2031.”

O antigo deputado aceita e o seu nome será mesmo divulgado numa lista de novos apoiantes. A conquista de mais um apoio da área da AD é celebrada pela cúpula da candidatura. Cotrim está sentado no autocarro que serve ao mesmo tempo de escritório e de outdoor móvel. Arrisca uma chamada para Adolfo Mesquita Nunes, ex-dirigente do CDS e seu secretário de Estado quando foi diretor-geral do Turismo, no governo de Passos Coelho. Seria um apoio de peso. Mas Adolfo não atende.

Ao lado do candidato seguem Bernardo Blanco, diretor de campanha (que Cotrim provoca dizendo que é “o maior ditador, que acha que sabe tudo sobre política”); Frederico Valente, diretor de logística, a quem Cotrim chama “toque de caixa”, por controlar os tempos de cada ação de campanha); Liliana Reis, conselheira política; e Octávio Lousada Oliveira, o assessor de imprensa.

Mais atrás segue Catarina Neto, responsável pelos briefings de cada ação de campanha e que assegura também trabalho administrativo. Lá à frente, a seguir ao motorista, seguem dois jovens voluntários, que distribuem o material de campanha e estão sempre colados ao candidato na rua; e a equipa multimédia que filma ou fotografa e partilha todas as ações de campanha.

A campanha de João Cotrim Figueiredo pode bem dividir-se em dois momentos: antes da frase sobre André Ventura e do caso sobre o alegado assédio sexual; e depois da frase sobre André Ventura e do caso sobre o alegado assédio sexual. Foram mesmo duas campanhas diferentes. Até ao dia mais negro da campanha de Cotrim, o liberal era o candidato-sensação, temido e elogiado pela campanha que estava a conseguir fazer. Na sexta-feira, dia 9, quando o Observador teve acesso aos bastidores da campanha de Cotrim, respirava-se confiança. Faltavam três dias para a polémica. A partir daí, a campanha tornou-se uma coisa completamente diferente.

Igor Martins

Nessa altura, a maior das preocupações da candidatura era saber como reagir a um possível encontro com Henrique Gouveia e Melo. Nessa sexta-feira, o almirante ia estar no mesmo sítio à mesma hora, na Festa de São Gonçalinho, em Aveiro. A equipa de Cotrim discute o que deve dizer se se cruzarem, num encontro que quase de certeza seria filmado pelas televisões. Como é que os eleitores que Cotrim quer cativar iriam olhar para esse momento, se iam achar bem estar ali com piadas ou sorrisos ou se seria melhor um breve cumprimento cortês.

“Também pode ficar mal se for um com um bacalhau só muito seco e em seguida temos que calibrar.” “Também podes dizer: Olha, falamos depois em Belém, quando eu for presidente.” “Depois podes convidá-lo para chefe da Casa Militar.” “Não podes, não. O atual é da Marinha. Agora vais ter de por outro de outro ramo.” Gouveia e Melo atrasou-se por causa de um acidente e acabaram por não se cruzar.

Igor Martins

Outro brainstorming é a preparar o discurso do dia seguinte no comício em Lisboa: “Não tenho muito tempo para preparar logo à noite, nem amanhã de manhã. Para não ser aquela coisa à última da hora que dá grande stress, vamos pelo menos alinhavar as linhas mestras. O que é que lá tem de estar? Depois adaptamos se aconteceram coisas aqui”, diz o candidato, que quer passar mais cedo pelo palco, para aprender a trabalhar com um teleponto arranjado pelo deputado Miguel Rangel.

Cotrim precisa de se isolar para escrever e ensaiar, algumas vezes sozinho, para se ouvir, outras vezes frente ao filho mais novo, o mais envolvido em política, e também o que dá mais conselhos e faz mais críticas. Os 4 filhos e os 4 netos subiriam ao palco nesse comício de Lisboa, no Técnico, e a filha mais velha faria um discurso-surpresa, a admitir que, a partir daquele, momento seria “a filha do Cotrim”.

Nova festa no autocarro: chegou a resposta do gabinete do primeiro-ministro à carta que Cotrim de Figueiredo lhe enviou a prometer ser um aliado fiável do Governo, se avançarem reformas consensualizadas na saúde, economia e segurança social. “O que é que diz?” “Aquela coisa mais formal, tomei conhecimento”. Outros gozam: “Diz Portugal à Frente?” “Olá, eu vou votar em si, mas ele não me deixa dizer.”

▲ O candidato no autocarro, com Bernardo Blanco, Frederico Valne

Maria João Gala

A seguir discutem-se sondagens. Estão previstas duas para o início da semana seguinte. “Isto pode não ser mau. Vão ser muito díspares”, diz um dos conselheiros. Há um grupo de whatsapp que junta o núcleo duro da equipa. E há outro com elementos de fora, para discutir estratégia, que tem quatro membros mais ativos. O candidato prefere não dizer os nomes, por agora, mas revela o nome do grupo: “Pastel de Belém”.

Pergunta de Cotrim para os seus colaboradores no autocarro: “O que é que vocês sentiram com a expressão o Presidente da Esperança?” Tinha-a estreado no discurso do Porto, na véspera. “Acho que falta a tal dimensão de ação. Mas não acho mal. Sobretudo quando, por oposição, tu tens coisas altamente passivas e passadistas. A experiência, o valor da experiência, um futuro seguro.” Apresentar-se-ia no dia seguinte como “o Presidente do Otimismo e da Esperança”.

Maria João Gala

Parte do tempo no autocarro é passado a gravar vídeos para apoiantes que pedem, para partilhar nas redes sociais, onde a candidatura conseguiu crescer muito rapidamente, o que terá sido um dos fatores para vencer nas intenções de voto de jovens. Fala de como é difícil escolher uma música favorita. “Fazes-me aquela pergunta que é sempre tramada que é um gajo de 60 e tal anos qual é a música preferida? É híper injusto. E as duas que me lembram logo de seguida, ainda por cima, são dos Génesis. Uma chama-se “One for the Wind” e conta a história de um general que se vê general quando não queria e o poder que se exerce sem querer”. O candidato já gravou mais de cem vídeos destes.

“É um processo de brainstorming muito clássico. Consigo distinguir mesmo as pessoas que sabem o que é que faz sentido e não faz. E portanto, deixo-me guiar muito bem”, explica o candidato. A ideia das stories de Natal, que permitiu a toda a gente simular fotos no Instagram com Cotrim ao lado, foi adaptada por Bernardo Blanco de sites de roupa ou de cabeleireiros, que permitem que o cliente se veja com peças de vestuário ou com um determinado corte de cabelo. “Conseguimos misturar o Natal com a política e com a notoriedade. Manteve-se no top of mind”.

Há uma semana, a maior dúvida de João Cotrim de Figueiredo era sobre os 2% dos votos que lhe faltavam para assegurar a passagem à segunda volta. Estariam entre os indecisos ou entre apoiantes de outro candidato. Também há uma semana, questionado sobre se estaria preocupado que pudesse aparecer alguma coisa que perturbasse o crescimento da sua candidatura, Cotrim foi rápido a responder: “Não sei bem o quê, porque a minha vida já foi virada do avesso várias vezes desde que entrei na política. Mas sabemos que nestas ocasiões tudo é possível”.

Apareceu mesmo. E a campanha mudou drasticamente. Mudou o semblante do candidato, a mensagem e relação com os jornalistas. Na quinta-feira, e já depois de ter criticado publicamente o trabalho dos media, Cotrim interrompeu uma conversa entre os jornalistas da caravana e o assessor de imprensa para, visivelmente nervoso, gritar entre outras coisas: “Mataram-me naquele dia”. Horas depois, num jantar-comício, Cotrim e Mariana Leitão voltariam à tese da cabala. A festa deu lugar à dramatização.

Gouveia e Melo. Segurança anti-cavacas, o carro-gabinete e as histórias do fundo do mar

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Henrique Gouveia e Melo ia brincando quando iniciou a prova de rafting no rio Paiva, em Arouca: “Está combinado um jovem cair à água e eu ir salvá-lo”. O momento, claro, não aconteceu. Mas a adrenalina e o perigo de queda à água, de correntes fortes e acidentada com rochas, é real. Por sorte, não aconteceu, mas o almirante — experimentado dentro de água — quis arriscar. A certa altura, a empresa organizadora, exigiu que o rápido mais perigoso (grau de dificuldade 6/6) fosse ultrapassado a pé, por rochas laterais. O almirante contestou: “Não dá para ir?” Não dá mesmo, disse o guia, para lamento do candidato.

O impulso de se atirar para a frente é algo contra o qual Gouveia e Melo foi lidando ao longo de toda a sua campanha. Nos últimos meses, treinou-se para ser mais contido nas palavras. A relação com os jornalistas durante a campanha oficial foi sempre cordial e, com informalidade, fez questão de ter várias conversas paralelas off the record com os jornalistas que acompanhavam a caravana.

Não para contestar notícias ou perguntas (embora tenha confessado considerar muitas descabidas), mas mais para contextualizar algumas ideias, contar anedotas (como a do meio-piano) ou histórias da Marinha, que vão desde fumar um cigarro bem no fundo do mar a explicar a oficiais que, metaforicamente, o papel deles não dista muito do “Sandokan, o Tigre da Malásia”.

Já relativamente aos adversários, o espírito combativo, por vezes beligerante, foi-se manifestando. Está na sua natureza, como na história da rã e do escorpião. O próprio acabaria por contar a história de quando os assessores o aconselharam a não bater com demasiada força nos adversários — como é exemplo a insistência nos negócios de Marques Mendes –, pois isso podia custar-lhe a eleição. A resposta do almirante, em palavras do próprio, foi seca: “Se assim for, paciência“.

Pontual, chegou às ações sempre antes da hora. Dormiu em média entre 4 a 5 horas por dia e aproveitou algum espaço entre eventos de campanha para dormir pequenas powernaps de 15 minutos dentro do carro. Teve sempre a presença do Corpo de Segurança Pessoal da PSP na volta da campanha, numa equipa rotativa de três elementos (um condutor e dois agentes que estão em permanência nas atividades). Os agentes vão ajudando nas arruadas a abrir caminho, mas posicionam-se a uns dois metros do candidato, dando o espaço que lhe permite estar fora das câmaras.

Os momentos de tensão na rua foram praticamente nulos. Mas, em Coimbra, numa curta arruada, um homem visivelmente embriagado e com as mãos encardidas e ensanguentadas começou a gritar junto a Gouveia e Melo: “Este é um grande homem. Estive com ele no [submarino] Barracuda”. A primeira barreira é sempre o exército de gouveiminions que acompanha a campanha, que tenta resolver conflitos mais pequenos — e um dos jovens conseguiu afastar o homem num primeiro momento. A insistência do mesmo em chegar junto a Gouveia em Melo com gestos agressivos, motivou a uma intervenção de um dos agentes, que fez de parede e reteve o homem para que a caravana seguisse sem percalços.

Numa outra situação, um dos agentes foi obrigado a intervir na Festa de São Gonçalinho, em Aveiro. O cartão de visita não era o mais seguro: “Só hoje foram duas cabeças partidas“, comentou com a comitiva o homem do terreno, João Montenegro. Ainda assim, Henrique Gouveia e Melo seguiu para a praça em frente à Igreja onde os mais corajosos ficam à mercê de levar com cavacas bem duras na cabeça.

Apesar de a equipa tentar proteger o candidato com guarda-chuvas, teve de ser um agente da PSP, com um chapéu-de-chuva a desviar cavacas como se estivesse a jogar um tosco jogo de basebol. O almirante escapou ileso, mas da ação resultaria um ferido ligeiro: o operador de imagem da candidatura teve ferimentos no nariz e na face e começou a sangrar. Continuou a trabalhar impávido. “Ferido em combate”, comentou-se na comitiva. Gouveia e Melo ficou orgulhoso.

Os serviços secretos recomendaram que os candidatos presidenciais tivessem segurança e, por isso, um carro descaracterizado acompanha o almirante para todas as ações. Tem sido muito comum o candidato, que tem uma pontualidade militar, esperar a alguns metros do local onde inicia a ação de campanha. Há sempre dois carros: o Toyota branco onde segue o candidato e o carro da polícia.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O carro onde segue Gouveia e Melo vai sempre com o motorista, Paulo (que já acompanhou o almirante na Marinha), o candidato e dois de três assessores. Por norma, David Damião é fixo. João Camolas e Nuno Saraiva vão alternando entre si qual deles faz companhia a Damião no banco de trás. O candidato tem ido, ao longo de todas as ações, no lugar do pendura. “Gosto de ir à frente“, confessa ao Observador.

Durante as viagens o carro torna-se numa espécie de war room, já que as viagens são aproveitadas para a equipa discutir a estratégia. Pelo caminho afinam-se ações e preparam-se respostas aos jornalistas, que muitas vezes têm de ser feitas em cima do joelho, devido à voragem da atualidade. O próprio candidato revelou ao Observador que “raramente” ouve música precisamente devido a essas longas conversas. “Somos muito ativos, falamos uns com os outros. Normalmente, o rádio vai ligado, mas vou a ouvir notícias ou estamos a conversar uns com os outros”, contou ao Observador o candidato.

A partir do carro, são feitas chamadas para o todo-poderoso da comunicação da campanha, Luís Bernardo. Apesar de não andar na estrada, o envolvimento de Bernardo é total. E já apareceu em dois grandes comícios, nos concelhos de Sintra e Oeiras. Sempre discreto, no fundo da sala, a conversar com outros membros da equipa ou simplesmente atento à sala.

Na grande maioria das ações existe um exército de jovens que acompanha o almirante. Há quem já tenha feito parte, ou faça, de juventudes partidárias, mas também há jovens independentes. Ou pelo menos, não partidários. Muitos membros do núcleo duro desse grupo há poucos meses fazia parte dos jovens que acompanhavam Isaltino Morais na campanha das autárquicas de outubro de 2025. Também por aí se percebe a influência e apoio do autarca de Oeiras à estrutura de campanha.

São Jovens anónimos, como Jéssica ou Patrícia, mas também figuras semi-públicas, como Diogo Antunes, seis vezes campeão nacional de Atletismo pelo Benfica, em 100 e 200 metros, um dos homens do megafone da campanha e também mandatário do desporto de Gouveia e Melo.

Seguem o almirante para todo o lado. Até na descida de rafting do Rio Paiva. Vitória Patrocínio, por exemplo, foi camarada do lado no bote onde seguia o almirante. Em momentos “Banzai” (em que não se rema e apenas é suposto assumir uma posição defensiva, devido à violência da descida), a jovem chegou a segurar o almirante para o ajudar a reequilibrar-se e não correr o risco de cair do barco. E vice-versa.

Gouveia e Melo destaca a importância deste grupo que o acompanha. “Os meus jovens são fantásticos. Devo-lhes muito”, diz. Mas também confessa que às vezes os tímpanos pedem por descanso: “Quando eles andam connosco, às vezes fazem tanto ruído, tanto ruído, que eu digo: “Pára, pára, pára, só dois minutos ou três minutos para regularmos os nossos ouvidos”. Sobre o seu cântico favorito — as métricas são quase todas replicadas da Juve Leo — Gouveia e Melo não tem dúvidas: “Há uma em que eles dizem: “Já não pára, almirante! Já não pára, almirante!” É uma sensação de energia que nos transmitem”. A própria equipa auto-intula-se de Juve-Melo.

Várias vezes ao dia são colocados pequenos vídeos no Instagram e no Tik Tok de Henrique Gouveia e Melo. A descida de rafting no Rio Paiva, por exemplo, foi colocada num pequeno vídeo ao som da música Can’t Stop, de Red Hot Chili Peppers. A trabalhar nas redes sociais está Cristiana, que já teve essas funções nas duas campanhas de Pedro Nuno Santos e na campanha de Marta Temido, e Beatriz, que já desempenhou funções nas redes sociais de restaurantes do chefe Ljubomir Stanisic.

O fotógrafo oficial de campanha, Luís Catarino, conhece bem Belém, já que foi o fotógrafo oficial do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e, mais tarde, de Fernando Medina na Câmara municipal de Lisboa).

Henrique Gouveia e Melo até fica ligeiramente aborrecido quando lhe metem o microfone sem fios na lapela, mas, sendo um apaixonado pela tecnologia, percebe bem a importância das redes sociais. Todos os dias, logo pela manhã, o almirante aborda a equipa que gere as redes sociais e pergunta: “Então as redes, estão a bombar?”

No topo da pirâmide da comunicação está Luís Bernardo. Da equipa fazem parte, o antigo assessor de José Sócrates e António Costa, David Damião, o antigo assessor do líder parlamentar do PS, Nuno Saraiva e um antigo assessor do vereador José Sá Fernandes, João Camolas. Como homem do terreno, a ajudar em toda a parte logística, está João Montenegro, antigo secretário-geral adjunto do PSD e um dos homens de ligação ao terreno de Pedro Passos Coelho (no partido e no Governo) e de Rui Rio (no partido). Os detalhes sobre esta equipa altamente profissionalizada e experiente foram já revelados pelo Observador no último sábado.

O guião da campanha foi seguido como planeado (como o almirante gosta), com eventos cada vez com mais gente, para dar a ideia de crescendo. Da agenda inicial só houve uma alteração forçada: estava prevista uma ida à Figueira da Foz na segunda-feira, dia 12. Ao que o Observador apurou estava em cima da mesa um encontro com Pedro Santana Lopes.

Porém, na sexta-feira anterior (9) o autarca da Figueira da Foz recebeu António José Seguro na câmara municipal. Nesse mesmo dia, a equipa de Gouveia e Melo informou os jornalistas que a caravana já não passaria na Figueira da Foz. A equipa insistirá que foi uma coincidência, mas um apoiante do almirante resumiu a desmarcação da seguinte forma: “Foi mais uma santanice“.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A campanha está montada de forma altamente profissional e todo o aparelho — desde os dispendiosos brindes até a toda a logística. Tudo isso custa dinheiro. O almirante já disse que revelará, a seu tempo, quem são os seus financiadores, sendo certo que conta passar os 5% que lhe dão direito à subvenção. Um conhecido financiador é Mário Ferreira, o maior acionista da Media Capital, que já admitiu ir até ao limite de 31 mil euros.

No penúltimo dia de campanha, no Porto, Henrique Gouveia e Melo aproveitou a hora livre para ir ao almoço de aniversário de Mário Ferreira. “Fiz um pequeno intervalo para participar no almoço de aniversário de um amigo meu”, explicou. Além do donativo a título pessoal, Mário Ferreira terá ajudado a candidatura a ter outras fontes de financiamento. Apesar de ser o seu dia de aniversário, o proprietário da Douro Azul retribuiu e marcou presença quer na arruada, quer no comício na Âlfandega do Porto.

Não será pela ação do almirante que o dinheiro é gasto. Se o carro do staff tem snacks, o do almirante apenas tem água. Nas feiras e nos cafés, comparado com o atual Presidente da República, o almirante é muito contido nos gastos. Ainda assim, nos últimos dias, tem sido menos forreta. No mercado de Alvalade até comprou pepinos. Um membro da caravana não perdoou: “É com pepino que se torce o pequenino”. Para bom entendedor.

Mendes. O número mágico, o fator Sofia e os homens do Presidente

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Luís Marques Mendes acaba de discursar. Não parou de olhar de relance para o relógio: sabia que tinha de parar a tempo de entrar às 20h15 em direto, para a RTP, para comentar uma sondagem que se esperava há dias. Não trouxe boas notícias. Continua, como a tracking poll diária da TVI/CNN, a prever que o candidato apoiado pela AD fica em quinto lugar. Mas esse não é o único dado relevante que o estudo indica, e é isso que causa alvoroço em cima do palco.

Faltam segundos para Mendes entrar em direto e o chefe absoluto da máquina do PSD – o secretário-geral e líder parlamentar, Hugo Soares – também sobe ao cenário, com dois telemóveis na mão. O primeiro deles serve para falar e transmitir informações sobre o que está a ler no segundo – o relatório da sondagem, que esmiúça os dados e explica as idades e origens do eleitorado, mas também a firmeza das intenções de voto. “É metade!”, descobre Soares, entusiasmado. Mendes ouve e entra imediatamente em direto. Já tem a informação de que precisava.

A “metade” de que Hugo Soares fala é um número precioso e que acompanhará a equipa durante o resto da campanha. Na véspera, Cotrim Figueiredo tropeçara em si próprio e passara a ser assombrado pela declaração em que não excluía votar em Ventura na segunda volta. E o que a sondagem indicava nas letras pequeninas, que as caravanas se habituam a analisar ponto por ponto para definir e ajustar estratégias, é que metade do eleitorado de Cotrim admite mudar de ideias e votar em Mendes. Não está assim tão fidelizado. É altura de atacar.

Hugo Soares está longe ser o único representante da máquina da AD que anda na estrada com Mendes – o aparelho está composto, os deputados e autarcas foram chamados a ajudar, os seguranças ou fotógrafos são os mesmos que acompanham a caravana em eleições legislativas e o social democrata Duarte Marques é o diretor de campanha. O diretor da volta nacional, Paulo Cavaleiro, também dirige as operações no terreno das campanhas do PSD. Não é só o PSD que representa a AD: em várias ações vão aparecendo elementos do CDS que também são ouvidos com atenção por Mendes, casos de António Lobo Xavier, Diogo Feio (o primeiro democrata-cristão a apoiá-lo, ainda o partido não se tinha decidido) ou Francisco Mendes da Silva.

Soares aparece quando pode e vai distribuindo conselhos e indicações. Num mercado em Paredes, incentiva a presidente da concelhia social democrata a aparecer ao lado do candidato: “Mariana, não o largues!”. E noutro, em Torres Vedras, acompanha a visita discretamente e cruza-se com Mendes enquanto toma um café (“o senhor é de cá?”, brinca o candidato; “gosto muito de o ver na televisão, mas bate muito nos laranjinhas”, responde Soares de volta).

Além dos mercados, cenário preferido para as manhãs, neste período oficial de campanha Mendes divide-se entre sobretudo dois tipos de visitas: a lares e centros de dia, onde puxa pela sua vertente das preocupações sociais e com os mais velhos (não há dia em que não fale das pensões “de miséria” que é preciso aumentar) e a faculdades, em cujas cantinas muitas vezes almoça, aproveitando para ouvir as preocupações dos mais novos (um dos segmentos de eleitorado que tem maiores dificuldades em convencer, segundo as sondagens). Ao fim da tarde fala em comícios e “encontros com apoiantes”, quase sempre em concelhos pequenos e mais a norte — exceção feita a Évora, onde Hugo Soares apareceu para jurar a fidelidade do PSD (oficial) à candidatura.

Calhou que Mendes tivesse também a companhia de Hugo Soares precisamente no momento em que a campanha soube do caso Cotrim, no dia anterior, quando passeava pelo mercado quase vazio de Paredes. Não era o único: os omnipresentes Paulo Cavaleiro e Sebastião Bugalho, elemento da comissão política de Mendes que se tem mostrado muito empenhado na campanha, também lá estavam. Algures entre o fim das conversas com feirantes e o momento em que ia falar aos jornalistas, a equipa apercebe-se do deslize de Cotrim. Mendes é informado: primeiro pela assessoria, depois por Bugalho, a seguir por Soares, enquanto um elemento da equipa mostra o ecrã do telemóvel – parece difícil de acreditar, mas Cotrim acaba mesmo de cometer um erro crucial. Mendes sorri com espanto. E avança satisfeito para os jornalistas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A campanha passou, de resto, a ser marcada pelo erro de Cotrim: é evidente desde o início que o eleitorado da AD está disperso e que essa dispersão, que favorece o liberal e promove-o a rival direto, corre o risco de atirar Mendes para fora da segunda volta (numa visita ao Bolhão, o mandatário Rui Moreira oferece-lhe dois pacotes de fatias de laranja desidratada, para garantir que “os laranjas” votam nele).

O que também marca são as sondagens, sempre as sondagens. Embora o candidato garanta que os números não o “desanimam”, o impacto anímico na caravana é evidente. No dia em que a sondagem da Católica para a RTP é publicada, chega aos telemóveis da equipa e dos jornalistas, informalmente, à hora de almoço – e sucedem-se imediatamente as conversas semi-discretas entre Mendes, Bugalho e Luís Campos Ferreira, antes de o candidato passar a dar voltas a falar ao telemóvel, fora do restaurante onde jornalistas, apoiantes e a família o esperam.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já no dia seguinte sai uma sondagem muito mais positiva da Intercampus – a primeira que o coloca em segundo lugar, em posição de ir à segunda volta, já depois do dia mau de Cotrim – e o ambiente vira. Há dança, há bombos, há enchentes na rua mas sobretudo há um sorriso de esperança na equipa. À hora a que a sondagem é oficialmente divulgada, Mendes espera num café, de olhos postos nas televisões à espera do minuto certo em que os números aparecerão no ecrã, rodeado de apoiantes.

A sondagem sai. Uns momentos de espera. A seguir, uma salva de palmas. Se a cena não se passasse num café de Fafe, terra natal onde daí a minutos se travará o confronto entre a equipa da casa e o Braga para a Taça de Portugal (o dia é de sorte e o Fafe ganha 2-1), pareceria uma noite eleitoral. Tente-se ou não desvalorizar as sondagens, a injeção de energia é evidente.

Quem está ao lado de Mendes – normalmente de mão dada – em todos estes momentos é Sofia, a potencial primeira dama, que começou a namorar com o candidato no liceu. Nunca mais se largaram. Três filhos e sete netos depois (vem mais um a caminho), decidiu acompanhar o marido nesta aventura pelo país e acaba por ser um dos maiores focos de atenção na campanha Mendes. Sofia sorri, Sofia distribui beijos e abraços, Sofia tem muita paciência (por vezes até mais do que o candidato) para conversar na rua, Sofia é elogiada pelos apoiantes e começa a ter direito a cânticos (“Nós só queremos Sofia a primeira dama!”).

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

No dia em que a campanha está na mó de baixo, com a sondagem da RTP, e apesar de se definir como uma pessoa reservada, decide falar uns minutos em público para dizer ao marido como está “orgulhosa” dele e lembrar que o ama. Esta quinta-feira, os dois faziam uma pit stop inesperada na campanha para irem a um centro comercial no Porto comprar um perfume para uma das noras, que fazia anos no dia seguinte.

A importância da família para Mendes é evidente: além de andar sempre com a mulher (que divide com Paulo Cavaleiro tarefas prosaicas como passar-lhe lenços de papel ou ajudá-lo a vestir o casaco à pressa), Mendes tem frequentemente a companhia de filhos ou netos em ações de campanha. Serão alguns dos fatores que lhe dão energia.

Outros são as sete horas por noite que não abdica de dormir – até porque não consegue descansar no carro – e os cinco ou seis cafés que bebe por dia. Isso e o otimismo, vai dizendo: garante que não desanima e que tem sempre confiança em si próprio. Apesar disso, de Mendes diz-se – e ele próprio acredita – que é um político subestimado. Até domingo, terá de acreditar que as sondagens também o estão a desvalorizar.

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