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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nos bastidores das duas campanhas presidenciais da segunda volta

O comício mais estranho, o roteiro traçado à vista e os hinos não cantados ou a cappella. O Observador nos bastidores das campanhas Presidenciais da 2ª volta, que tiveram de se adaptar à tempestade.

Nem António, nem André, a maior protagonista da segunda volta da campanha presidencial acabou por ser a tempestade Kristin, o que forçou os dois candidatos a reverem estratégias e a planearem tudo de forma diferente. Para muitos portugueses, o mundo mudou numa madrugada. Quis o acaso que essa mudança acontecesse de 27 para 28 de janeiro, horas depois do único debate entre os dois candidatos presidenciais. Seguro e Ventura desmarcaram comícios, refizeram agendas, cancelaram viagens, embora tenham continuado estrada fora, com muitos quilómetros nas áreas afetadas.

António José Seguro quis certificar-se que não havia música nos comícios, chegou a ver ser-lhe demonstrada indisponibilidade para ser recebido num local não revelado e foi dando menos gás aos pedidos de legitimidade reforçada. Já André Ventura não mais tirou um pin que um corporação de bombeiros lhe colocou na lapela, também mandou travar a euforia (chegaram a existir vários “chiuuu” para quem queria gritar pelo candidato) e acabou a pedir mais tempo por causa do mau tempo: o adiamento das eleições. O candidato apoiado pelo Chega chegou a dizer que dispensava o hino e Seguro chegou a cantá-lo acapella, para demonstrarem que nem os símbolos nacionais são mais importantes que o momento difícil que o país atravessa. Entre mudanças de agenda, ações marcadas em cima da hora e momentos espontâneos dos candidatos, o Observador esteve nos bastidores das duas campanhas da segunda volta.

Seguro. O comício mais estranho de sempre, um roteiro traçado à vista e a meta desaparecida

“Não há música, pois não?”. É sexta-feira à noite, 30 de janeiro, e António José Seguro quer certificar-se de que tudo corre como planeou neste regresso aos palcos de campanha. Está em Viseu e prestes a entrar numa tenda gigante, sobre a qual cai uma valente carga de água, com cerca de 650 apoiantes à espera do candidato que, contra todas as expectativas, venceu a primeira volta e vai a passos largos para se tornar Presidente da República. Todos elementos indiciariam uma receção de estrondo, mas não. O socialista faria ali uma intervenção algo inédita num dos jantares-comícios mais estranhos de sempre.

Não deixa de haver uma coreografia, quando não há coreografia de todo e ela era esperada. Como por exemplo, entrar a seco, quase sem palmas, numa sala cheia de apoiantes ávidos por ter ali o seu candidato, mas sem as habituais bandeiras, nem música de glória e o desejado a atravessar por entre os convivas de cabeça baixa, olhar pesado e as mãos no peito como quem agradece em surdina. Desde manhã que em Viseu correu o aviso: Seguro não queria festejos, pedia palmas contidas e não ficava para jantar. E, lá está, “não há música”. Pois não.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Seguro foi até ao púlpito dizer que aquela “estava para ser uma grande festa, mas uma catástrofe assolou o país.” Falou menos de dez minutos e exclusivamente dos “danos incalculáveis” provocados pelo temporal” e dos “muitos concidadãos sem luz, água e telecomunicações”. Não ficou para jantar, saiu de mão direita sobre o peito a pedir desculpa a quem tinha ido até ali para estar com o candidato. Mas no dia seguinte, no almoço na Lixa, já ficou para almoçar, ainda que sem grande mensagem além da urgência da resposta às populações.

A trágica passagem da depressão Kristin pela zona centro do país virou a campanha do avesso. Houve cancelamentos de última hora e agenda escondida até ao limite, mas também encontros — como o de Viseu — que não deram para desmarcar. Também não deixava de haver uma corrida eleitoral a decorrer, entre os destroços do país, e duas propostas de Presidência a tentarem vingar por entre esses mesmos escombros . No caso de Seguro, pregaram-se os bons modos, de não aparecer em comitiva onde podia ser um “estorvo” e ir sozinho “escutar as populações”. Quanto às eleições, a dada altura lá se reativaram os comícios, mas sempre neste modo contido. Em Guimarães, sábado à noite, até o hino, com que Seguro sempre encerra os comícios, foi a cappella.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em Faro, na Associação dos Reformados, Pensionistas e Idosos, houve indicações para que o acordeonista que animava o salão de baile pousasse o instrumento enquanto o candidato estivesse na sala a cumprimentar os idosos — o homem ainda tentou dar uns acordes para ver se o baile voltava a pegar, mas algum elemento da caravana dava logo sinal para não avançar. Ao estilo Astérix, o bardo da sala só foi libertado quando o candidato saiu pela porta na outra ponta do salão. Num palco onde, ainda em maio, Pedro Nuno Santos girou na pista com meia sala, Seguro não fez o gosto ao pé. Explicou-se ao microfone, “há pessoas a sofrer no país”, apelou ao voto e preferiu claramente o momento recatado do jogo do bingo, na sala ao lado.

“É um equilíbrio difícil”, reconheceu durante a campanha sobre seguir na estrada quando o país está focado num problema tamanho. Inicialmente, na candidatura, a desaceleração de ritmo, depois de uma primeira volta louca por todos os distritos do país, era vista como uma vantagem para o candidato que ia à frente. Menos riscos de cometer erros fatais quando tem os focos todos em cima. Mas a dada altura temeu-se a perda de fôlego e, no fim de semana, foi impossível não ir a jogo com o voto antecipado a decorrer, com os comícios a animarem ainda que a o país continuasse na mesma. Nas sondagens diárias da CNN Portugal, o candidato seguia a perder terreno, sem perceber o motivo — podia ser a desmobilização natural da segunda volta ou então devido ao mau tempo ou ainda com o alinhamento do candidato com o Governo — e esse era um indicador que tinha de se contrariar.

Havia alguns pontos de que Seguro não prescindiria e um deles era mudar o registo na relação com o Governo, recusava-se a criticar e proteger a ideia de ser um elemento estabilizador de mandatos governativos. Sobrava virar-se para a tentativa de levar as pessoas a votar, sobretudo através da dramatização do “pesadelo” Ventura. Foi nesse domingo que, no Teatro Cine de Gouveia, Seguro se deixou de pudores e tirou do bolso a mensagem política que vinha alinhada para a segunda volta — e que foi subitamente guardada. De perna esquerda cruzada atrás da direita atrás do púlpito verde que só tem um escudo e as palavras “Seguro Presidente”, mãos em cada um dos lados, o candidato avisava: “Não é indiferente o número de votos que a candidatura tem. Não basta ganhar por um. O Presidente da República tem de sair com legitimidade eleitoral reforçada. Quanto mais votos tiver, mais força política tem para fazer com que os partidos, o Governo e o Parlamento façam aquilo que devem, que é contribuir, dentro daquilo que são os seus projetos, para resolver os problemas dos portugueses.”

Nunca quis dizer que número tinha na cabeça e esse pedido que tinha estado no arranque da campanha e que voltou nesse dia ficou por ali. Arrependeu-se? Fonte próxima garante que não e jura que é arma usada apenas para a mobilização do voto — quando começou por ser confiança em esmagar o adversário. A mesma fonte também diz ao Observador que já não deve voltar com outro intuito que não o de mobilizar. Durante o jogo do bingo, entre os reformados de Faro, os números que iam saindo no jogo serviam aos jornalistas para desafiar o candidato sobre se aquela seria uma boa meta. 67, 70? “Serão os portugueses a decidir qual o montante dessa confiança (…) Tudo o que seja acima de 50% mais um é muito bom.”

▲ António José Seguro conversa com o seu assessor de imprensa Luís Sobral

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Porém, no dia seguinte, durante uma visita à agência de empreendedorismo DNA Cascais lá empreendeu uma fasquia, mas mínima. Afinal, os tais 50% mais um não chegam para Seguro que continua sem dizer o que quer, focando-se no que não quer. Questionado sobre esse mínimo em particular, o candidato disse ser “um risco inaceitável“, apelando aos eleitores para que “não arrisquem e façam o voto do lado certo”. Foi titubeante mas chegou a este porto de ambição reduzida porque mais vale reduzir do que ter de remediar na noite eleitoral.

Também os dias de estrada foram feitos de ajustes, a começar pelo tipo e número de iniciativas. No máximo, duas ações de campanha por dia e, por vezes, apenas uma, como aconteceu na terça-feira quando visitou, pela primeira vez em campanha, um centro empresarial afetado pelo temporal da semana anterior, em Proença a Nova. O diretor de campanha, o deputado socialista Paulo Lopes Silva, ia controlando a disponibilidade no concelho seguinte através do telemóvel e a dada altura a caravana percebeu que o dia teria de ficar por ali. Não houve disponibilidade local para receber o candidato naquele momento — não se chegou sequer a saber onde, já que a agenda só era libertada para a comunicação social mesmo muito em cima do acontecimento. Seguro só não falhou os palcos televisivos, onde tinha entrevistas marcadas, afinal era por onde podia melhor passar a mensagem de uma campanha relegada para o terceiro plano mediático.

Isso e a presença nas redes sociais, sobretudo aquele segundo tempo, no final de cada comício, em que o candidato fica disponível para as dezenas e dezenas de solicitações de selfies. É um período quase mais duradouro do que o do comício propriamente dito. Mas a potencial partilha de cada um daqueles registos multiplica a capacidade de alcance. É nas redes onde se joga muito das campanhas atuais, com o candidato a prestar-se mais a isso do que a participações nos meios de comunicação tradicionais. Mal Seguro sai do carro para a primeira ação da manhã, já sabe: levanta o cachecol para a equipa multimédia que segue na caravana colocar-lhe um pequeno microfone de lapela para apanhar as interações que vai tendo com eleitores e assim continua pelo dia fora. Tudo o que vem é aproveitado para vídeos nas redes.

Mesmo com algumas dessas estratégias em campo, o espírito da campanha para a segunda volta foi quase sempre o de cumprir calendário e decidir sobre o dia à vista. Não houve rua (a chuva também não deu grande espaço a isso), bombos, danças, músicas ou gritos pelo candidato. Foi tudo retirado propositadamente, tendo em conta o momento que o páis vive. E na quinta-feira, penúltimo dia de campanha, chegou a estar previsto um “DJ set”, na Musa de Marvila, com Seguro a querer fechar o dia dedicado aos jovens a fazer de DJ na pista, tal como tinha acontecido em Braga na primeira volta. Mas não condizia com novo agravamento da situação do país, agora por causa de cheias, e foi mais uma ação de campanha que caiu.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Esta foi a prima tímida da campanha da primeira volta, que, na verdade, também está confortável por não chamar tanta atenção para si. Menos barulho e luzes, a escapar por entre os pingos da chuva e a medir cada tiro ao adversário, que se tornou alvo nos últimos dias. Seguro saiu do debate com Ventura, que aconteceu no dia anterior ao arranque da campanha oficial, satisfeito com a sua prestação e convencido de que tinha causado mossa quando falou diretamente ao eleitorado “desiludido” do Chega. Nessa altura já tinha um plano na cabeça.

Pode ter mudado muita coisa na campanha, mas havia um objetivo para a segunda semana que permaneceu inalterado: a passagem pelas zonas do país onde Ventura tem maior penetração, Alentejo e Algarve. Mesmo com todas as voltas que a agenda levou, essa rota estava prevista desde início e manteve-se. Assim, na recta final, Seguro passou pelo distrito de Portalegre (onde venceu Ventura por apenas 60 votos) e também pelo Algarve (o único distrito do país onde o adversário ganhou as presidenciais). Foi lá marcar as diferenças para os estilos dos dois, chamar “pesadelo”, “risco”, promotor de “divisão” e de “ruído” a Ventura, mas também pedir uma vitória, até no Algarve. Sondou o eleitorado Chega, prometeu que mesmo que não votem nele será “o Presidente de todos os portugueses” na mesma, e flirtou ostensivamente com as “dezenas de apoiantes” de Gouveia e Melo e Marques Mendes que disse, representarem “bem a essência da democracia, de pessoas que se respeitam, lutam pelas convicções e que no momento certo sabem onde devem estar para defende a democracia.” Não deixa de ser irónico que possa estar aí a chave para o tal resultado “reforçado”, que resultaria num Presidente Seguro todo poderoso junto de “partidos, do Governo e do Parlamento” — foi o próprio que avisou.

Ventura. O momento que estragou o guião, a agenda em atualização e o hino que não tocou

É quase hora de almoço quando André Ventura chega à empresa Madeiras Alto Tâmega, em Chaves. Está muito frio e chove com alguma intensidade. As câmaras de televisão têm de ser mudadas de local para que o candidato presidencial não fale à chuva (o que chegou a acontecer noutras ocasiões). Sai do carro, esfrega as mãos do frio, está de sobretudo bege, ainda com o pin que tinha recebido no quartel dos Bombeiros Voluntários de Braga no dia antes — e que não voltou a tirar. Uns metros ao lado começa a aumentar o número de apoiantes na entrada principal da fábrica, que não têm vista para o sítio onde o candidato está a falar aos jornalistas.

Carregam os cachecóis e as bandeiras que praticamente tinham desaparecido da campanha, que deixou de ser “tradicional”, por ordem do próprio candidato. Não interessa o guião que estava escrito: Ventura está ali a uns metros e não querem perder a oportunidade de o ver. Aparecem cada vez mais. Lá dentro, a visita segue nas calmas, com Ventura a escutar atentamente o processo entre o material que chega à fábrica, a modificação e o resultado final. A madeira que ali chega é pura e sai em forma de mobiliário ou material pronto a usar. A campanha não costuma ser feita destas visitas, mas o candidato adapta-se rápido. Ouve, pergunta, toca, prova o que houver para provar.

O frio permanece, a lareira gigante no centro do armazém é quase uma bênção. Ventura estende as mãos. “Podíamos ter feito as declarações aqui”, comenta com os jornalistas que estão por perto. A comitiva segue pela fábrica dentro, rumo a outra parte do armazém. Bem ao fundo dessa sala, um portão gigante está completamente aberto e os apoiantes, que continuam a multiplicar-se, já estão dentro da fábrica. Surpreendem André Ventura, que levanta a mão em forma de cumprimento, e continua a ouvir a visita guiada. Na comitiva sucedem-se as queixas: seguranças, assessores e deputados, todos comentam o mesmo. Não é suposto estarem ali, não é suposto haver gritos, nem bandeiras. “O que é isto? O que estão a fazer”, desabafa um deles.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O candidato presidencial apoiado pelo Chega anda há uma semana a dizer que não quer festas, cancelou as arruadas e os comícios em nome do sofrimento das pessoas e fechou-se em sessões de esclarecimento. O que se está a passar vai contra tudo o que anda a pedir aos responsáveis políticos. É ir direitinho e com tudo contra o guião. Mas há pouco a fazer. Ventura vai sair por trás e ignorar aquelas pessoas, quando ainda por cima estão tão próximas do portão principal e o carro tem de passar por lá? Já não vale a pena, é assumir. Terminada a parte da visita, a comitiva aproxima-se mesmo das pessoas que estão ali para ver, beijar e tocar em Ventura. Instala-se a confusão, luta-se por um aperto de mão, por uma troca de palavra.

A campanha calma e controlada acaba de ser invadida por um grupo de fãs que se exaltam e estão aos empurrões para chegar a Ventura. O momento foi tão inesperado, rápido e intenso que quase não era possível mexerem-se. O candidato segue rodeado por seguranças, jornalistas, repórteres de imagem e fotojornalistas, mas há uma mulher que perde a calma. Grita que é “inadmissível” estarem todos à frente, que quer chegar a Ventura e “não pode”. Um outro diz que “estes senhores”, leia-se jornalistas, o “tratam mal” e “andam a destruir” o candidato. Fica tudo de tal forma nervoso que é Ventura que pede calma e puxa a mulher para a bolha.

Apesar de dizer que todos sabem “o que pensa” dos jornalistas, explica calmamente que estão apenas a fazer o seu trabalho e a cobrir a campanha eleitoral. “É respeitável, mas o dr. André Ventura vai para lá com os nossos votos”, justifica a apoiante, com Ventura a acrescentar que “não é com os deles [votos] de certeza”. Ânimos acalmados e elogio que embaraça feito (“bendita a mulher que o pariu”), Ventura segue e chega mesmo a perguntar se já cumprimentou todos — não fique algum chateado. Tira fotografias, entra no carro e segue viagem. Está arrumado o ponto nevrálgico da campanha, o momento que não podia ter acontecido, mas que ninguém controlou. Alguém avisou aquelas pessoas para ali estarem — até porque o ponto da visita foi mudado durante a manhã porque a outra empresa não aceitava comunicação social — e isso prejudicou toda a narrativa.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A tempestade Kristin e, mais para o fim, a tempestade Leonardo viraram do avesso a campanha eleitoral. Só se fala de mau tempo, vítimas, casas sem telhados, pessoas desalojadas, localidades sem ajuda, sem eletricidade, água ou comunicações. O país está focado nos problemas e a campanha eleitoral foi atirada praticamente para o fim das preocupações (e até da atualidade noticiosa). Ventura fala pela primeira vez sobre a intempérie na quarta-feira à tarde, à entrada de uma sessão com jovens na Universidade Lusíada, no rescaldo do debate com Seguro, e onde disse esperar poder ir visitar as zonas mais afetadas “sem atrapalhar”. Não foi mais tema, as perguntas focaram-se no rescaldo do debate com Seguro e dentro da sessão com jovens não houve essa necessidade.

Nesse dia, pouco antes da declaração, já os distritos de Coimbra e Leiria estavam na agenda e na comitiva apontou-se logo para a possibilidade de ir mesmo lá. E assim foi. Antes, ainda houve tempo para uma arruada em Mem Martins, terra de onde é natural candidato. Daí para a frente, a campanha passa a navegar à vista, com planos de um dia para o outro, quando não são de uma hora para a outra. Na agenda partilhada na quarta-feira havia apenas uma previsão de distritos, na quinta há visitas às zonas afetadas e no final da tarde há uma nova agenda, bem mais atualizada, que previa arruadas, uma visita a um mercado e até um jantar em Braga. Nada se cumpriu: as arruadas passaram a ser recolhas de alimentos ou sessões de esclarecimento. E, a partir daí, nada voltou ao normal. Deixou de haver rua (o tempo também não permitia) por ordem de Ventura.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

É sexta-feira. Está a chover muito em Espinho. Há paletes de água empilhadas. Entre dois postes do edifício da biblioteca estão abrigados alimentos, desde conservas a ração de animal. A carrinha está estrategicamente estacionada para ser carregada. Ventura chega ao local e começa a acartar tudo sozinho, com câmaras e máquinas fotográficas a captar cada passo. Não cabe tudo, distribuem por mais carros, agora já com outras pessoas a dar uma mãozinha. No fim, fala aos jornalistas e conclui que, com tudo o que se está a passar, é impossível dar continuidade a uma “campanha tradicional” — é preciso voltar a Leiria e a campanha passa a assentar também em visitas ou a locais afetados ou a entidades de socorro (de bombeiros a GNR).

Estão dadas as ordens. Estão todos informados. E mesmo assim há sempre um percalço de vez em quando. À entrada de um almoço com autarcas, em São Bartolomeu de Messines, Ventura entrava sem música, sem os sorrisos e animações da primeira volta e sem as mãos ao alto em forma de “V” e, mesmo assim, um dos representantes do Chega gritou bem alto “Ventura, Ventura, Ventura”, meia dúzia seguiram o apoio e os outros imediatamente responderam com um muito audível “chiu”. Parou, olhou em volta a estranhar o que se estava a passar e seguiu, meio envergonhado com o momento.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ventura quer mesmo uma campanha sem agitações. Além de duas recolhas de alimentos, há um dia de agenda cancelada para que Ventura passe “a tarde em contacto com autarcas para coordenar a entrega de bens e donativos” e muito do trabalho passa a ser feito nos bastidores, ao lado de vários deputados do partido. Há lonas a serem recolhidas e cortadas e o vídeo só aparece nas redes sociais, mas também material a ser retirado de outdoors para que haja forma de tapar telhados que voaram. Aí, longe dos jornalistas, os vídeos de reações a notícias continuam, os cortes televisivos que interessam não são esquecidos (desde o ministro da Coesão à polícia que dá conta de furtos) — mas nunca desviando do tema das intempéries.

Ventura segue nesse ritmo, fazendo questão de dizer “que se lixem as eleições” (de várias formas e feitios) cada vez que se pergunta sobre ganhos políticos, votos ou necessidade de mobilização. A explicação é simples: o lema da campanha “os portugueses primeiro” é para levar à risca. Tanto que nem há espaço para aumentar o som — mesmo que seja para se ouvir um símbolo da nação. No final da recolha de bens em Espinho, Ricky, o homem do som que acompanha Ventura há anos, pergunta-lhe diretamente: “André, queres o hino?” — a resposta foi clara: “Não, não!” Em tempo de crise, até o hino passa para segundo plano.

[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]

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