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Internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar conta com profissionais de diversas áreas, como terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e assistentes sociais.
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Rodrigo Cabrita

Rodrigo Cabrita

“O internamento é uma oportunidade”

Psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e assistentes sociais. É a soma de todas estas profissões que faz a diferença na nova unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar.

A porta de um dos quartos está aberta. No cadeirão, descansa uma “perna” sozinha. Tem o par direito de uns ténis calçado no pé, enquanto símbolo de esperança renovada. Todos os dias contam para a recuperação da mobilidade perdida na sequência de um acidente de viação, que culminou numa amputação. É necessário aprender a caminhar com a prótese que está no cadeirão, enquanto o doente recupera na cama, entre tratamentos. Este é o último quarto do corredor onde estão internadas várias pessoas a quem a sinistralidade ditou um caminho diferente. Fica mesmo antes da porta da nova unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar, em Lisboa. Na nova unidade, as patologias são outras. Em causa está a saúde mental, mas nem por isso as dificuldades são assim tão distintas.

Rodrigo Cabrita

Muitos doentes internados nessa unidade sentem-se amputados de algumas das suas capacidades, com impacto na habilidade de tomar decisões, de falar ou mesmo de andar. Psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais são por isso profissões determinantes para a recuperação da funcionalidade de quem passa pelo Hospital do Mar, independentemente do diagnóstico que está na origem do internamento, num trabalho sempre articulado com a equipa de psiquiatria e enfermagem.

“O trabalho tem de ser sempre em equipa. Eu não consigo trabalhar a autonomia física do doente se não tiver em conta a área cognitiva, psicológica ou social.” 
Alexandra Paula

Perturbação depressiva ou perturbação de ansiedade grave, esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, doença bipolar ou adições – das mais clássicas, como o álcool, às mais recentes, como os videojogos – são vários os exemplos das rasteiras que a vida pode trazer-nos e que nos pode colocar na rota deste hospital do Grupo Luz Saúde, integrado na rede Hospital da Luz.

Os doentes podem aceder a este internamento de diversas formas, nomeadamente após o recurso a uma urgência hospitalar, mas também por referenciação do psiquiatra ou outro médico assistente. Também é possível um contacto individual direto com a unidade, sendo depois feita uma avaliação.

Comissão Europeia

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A saúde mental é uma parte integrante da saúde e uma prioridade para a Comissão Europeia, que tem apoiado ações e projetos nos últimos 25 anos para melhorar a saúde mental das pessoas na UE e além fronteiras. Em 7 de junho de 2023, a Comissão adotou a Comunicação sobre uma abordagem abrangente para a saúde mental, que ajudará os Estados-Membros e as partes interessadas a tomar ações rápidas para lidar com os desafios relacionados à saúde mental. Com esta nova Comunicação, a Comissão Europeia revela que a maioria dos europeus coloca a saúde mental no mesmo nível da saúde física. (1)

60 %

Proporção de europeus que considera que os fatores mais importantes para uma boa saúde mental são as condições de vida (2)

53 %

Percentagem de europeus que destaca a segurança financeira como essencial para a saúde mental (2)

35 %

Total de europeus que cita o contacto com a natureza e os espaços verdes como fundamentais para a saúde mental. Encontrou-se percentagem idêntica para o peso dos hábitos de sono, para a atividade física e para o contacto social (2)

O Hospital do Mar já soma quase duas décadas de atividade. Os cadeirões contam muitas histórias de superação em áreas como a geriatria, cuidados paliativos, demências e reabilitação, Acidente Vascular Cerebral (AVC), situações ortopédicas traumatológicas, entre muitas outras, às quais se juntou agora o desafio de abrir um internamento de Psiquiatria. Este destina-se aos casos mais graves, mas em que não seja necessário esperar por uma situação limite para ter acesso a esta resposta. A decisão da Luz Saúde de abrir esta nova unidade no Hospital do Mar, em fevereiro de 2024, nesta fase inicial com 14 quartos, teve precisamente como objetivo aproveitar toda a experiência que já existia em áreas com desafios semelhantes, com a vantagem adicional de a equipa multidisciplinar estar já formada e oleada.

Hospital

Rodrigo Cabrita

“A comunicação facilitada entre a psiquiatria e todas as outras áreas acaba por representar um pacote completo e um fator diferenciador tanto para os doentes como para as famílias.” 
Inês Parada

Alexandra Paula é fisioterapeuta. Trabalha em todos os serviços do Hospital do Mar. Apoia tanto o plano de recuperação do doente que depende da nova prótese, como o doente com doença bipolar que está na nova ala de saúde mental, numa fase depressiva, e que custa a tirar da cama. “As comorbilidades associadas a um problema de saúde mental, mas também associadas à farmacologia, privam alguma mobilidade. Algumas funções do foro automático, como caminhar, estar de pé ou comer ficam afetadas quando entram em desuso. A fisioterapia procura restituir, dentro do que seja viável, essas capacidades funcionais para que as pessoas possam voltar a trabalhar, a conduzir, ou a praticar hobbies”, explica. “O trabalho tem de ser sempre em equipa. Eu não consigo trabalhar a autonomia física do doente se não tiver em conta a área cognitiva, psicológica ou social. Aqui conseguimos trabalhar a pessoa como um todo e isso motiva-nos muito”, acrescenta, garantindo que há naturalmente, alguns cuidados especiais na área da saúde mental, mas, no essencial, as técnicas são idênticas.

Eurobarómetro

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O Eurobarómetro de 2023 sobre saúde mental revelou que nove em cada dez inquiridos (89 %) consideram que a promoção da saúde mental é tão importante como a promoção da saúde física. Ao mesmo tempo, só menos de metade dos inquiridos consideram que as pessoas com problemas de saúde mental recebem o mesmo nível de cuidados que as pessoas com uma doença física. (2)

Estes são também os valores [ver caixa acima] que guiam a psicóloga Inês Parada no seu quotidiano. “A comunicação facilitada entre a psiquiatria e todas as outras áreas acaba por representar um pacote completo e um fator diferenciador tanto para os doentes como para as famílias”, diz, lembrando várias situações em que a recuperação decorreu de forma mais sólida pelo caminho conjunto entre os vários profissionais e a capacidade de adaptar as respostas às necessidades e expetativas dos doentes. A primeira abordagem de Inês Parada junto dos doentes é feita no serviço de internamento, mas a partir daí é estabelecido um plano de consultas e intervenções que já tiram partido dos restantes espaços do Hospital do Mar, seja um gabinete de consulta ou uma sala de leitura. “A empatia e a escuta ativa são duas características principais a ter, e nesta equipa isso existe”, garante, explicando que o primeiro passo é “estabelecer uma relação de confiança com o doente e com a família”.
“Se o meu doente tem alterações psiquiátricas que dão origem a uma alteração de comportamento ou se essa alteração decorre de uma demência, não é o mais relevante. Estamos perante uma disfunção ocupacional e trabalhamos com a pessoa para atingir os melhores resultados possíveis.” 
Vera Pinto

Quem olhar de forma mais rápida mal dá pelas diferenças. Numa das zonas do hospital existe uma bancada de cozinha semelhante a tantas outras zonas de copa que nos habituamos a ver nestes espaços. Mas esta tem uma missão especial. Neste caso, não pretende satisfazer as necessidades diárias de refeição de quem trabalha no hospital. Neste espaço ensaia-se, trabalha-se função, isto é, a recuperação de capacidades que são necessárias para voltar à vida lá fora. No Hospital do Mar, a alta começa a ser pensada no dia da admissão, para que o regresso a casa seja tranquilo e com confiança.

Impacto da guerra

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Acontecimentos recentes, como a pandemia de COVID-19, a agressão da Rússia contra a Ucrânia, a crise climática e outras pressões societais e económicas, exacerbaram os já críticos níveis de saúde mental na Europa, confirma o Eurobarómetro de 2023 sobre saúde mental. Antes da pandemia de COVID-19, uma em cada seis pessoas na UE sofria de problemas de saúde mental e esta situação agravou-se. Segundo a maioria dos inquiridos, os recentes acontecimentos mundiais influenciaram a sua saúde mental “relativamente” (44%) ou “em grande medida” (18%). (2)

Vera Pinto é terapeuta ocupacional e é também uma peça fundamental nesta engrenagem. “A terapia ocupacional, dizendo de forma simples, cobre áreas que não são cobertas pelas outras terapias. Nas outras terapias a pessoa é reabilitada ao nível motor, ao nível da fala, mas depois é preciso enquadrar as competências e capacidades que as pessoas têm nas tarefas diárias que terão de desempenhar, como voltarem a vestir-se sozinhas, a cozinhar, a irem tomar um café à rua ou mesmo regressarem ao trabalho”. “Se o meu doente tem alterações psiquiátricas que dão origem a uma alteração de comportamento ou se essa alteração decorre de uma demência, não é o mais relevante. Estamos perante uma disfunção ocupacional e trabalhamos com a pessoa para atingir os melhores resultados possíveis”, reforça, mas assegurando que nas terapias de grupo tudo é pensado para que os desafios e tarefas sejam compatíveis com todas as patologias e ajustados, por exemplo, a fases mais complexas de uma esquizofrenia ou de uma outra psicose.
“Se a assistente social, no contexto de saúde, não estiver dentro do plano clínico e da equipa clínica, não é possível ao médico efetivar uma alta em segurança.” 
Inês Oliveira

Toda a equipa está presente na vida dos doentes ao longo de todo o internamento. Mas há uma pessoa que tem um papel especial, tanto no acolhimento dos novos clientes como no dia da alta. Inês Oliveira é assistente social e esteve sempre motivada com esta profissão por poder “atuar em complementaridade com as áreas clínicas”. “Se a assistente social, no contexto de saúde, não estiver dentro do plano clínico e da equipa clínica, não é possível ao médico efetivar uma alta em segurança”, justifica.

Redes sociais

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Em todos os Estados-Membros que integraram o Eurobarómetro de 2023 sobre saúde mental, a grande maioria dos inquiridos considera que a utilização das redes sociais pode ter um impacto negativo na saúde mental dos jovens. (2)

45 %

Total de europeus que considera que a União Europeia poderia dar um maior contributo para melhorar a saúde mental dos cidadãos europeus ao melhorar a qualidade de vida em geral nos vários países (2)

37 %

Proporção de europeus que considera “melhorar o acesso e o apoio ao diagnóstico, ao tratamento e aos cuidados de saúde mental” uma das áreas em que a União Europeia devia investir (2)

35 %

Percentagem de europeus que identifica “apoiar a saúde mental dos mais vulneráveis” como uma das áreas prioritárias em que a União Europeia deveria concentrar esforços (2)

Inês Oliveira tem como missão perceber o contexto do doente e da sua família ou cuidador, para poder garantir que não existem pontas soltas no regresso a casa ou a outro local. De atendimentos de acompanhamento a intervenções, ou mesmo a apoio domiciliário e material necessário para adaptar, por exemplo, um quarto às necessidades do doente, são vários os apoios que a assistente social pode apresentar e mobilizar para tornar esta passagem pelo Hospital do Mar mais leve. “O trabalho de equipa é muito facilitador na comunicação e na agilização dos recursos necessários”, afirma a colaboradora, que está também presente nas reuniões semanais em que se discutem os casos.
“A empatia e a escuta ativa são duas características principais a ter e nesta equipa isso existe.” 
Inês Parada

“Tudo começa antes de o doente voltar para casa”, reforça. “É fundamental termos empatia e sabermos colocarmo-nos no lugar do outro, no que está a sentir e a viver, e chegarmos à génese do seu problema”, acrescenta. “O serviço social ainda está muito conotado apenas com uma vertente financeira, mas o principal foco está no encaminhamento para os diferentes recursos da comunidade e em munir as famílias das diferentes estratégias e informações para permitir que tenham acesso a benefícios em linha com as necessidades”, sublinha.

“O trabalho de equipa é muito facilitador na comunicação e na agilização dos recursos necessários.” 
Inês Oliveira

É da combinação de toda esta equipa que se preenche o dia de um doente. Às 10h, pode existir uma neuroestimulação individual ou uma atividade em grupo, seguida de uma sessão de fisioterapia. De tarde pode haver, por exemplo, terapia da fala e uma consulta de psicologia. Todos os momentos contam para uma recuperação acelerada, mas segura.

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“Temos uma equipa preocupada com as necessidades clínicas, a vontade, os interesses e o gosto dos doentes e também muito humana. O saber olhar para o outro e estar com o outro, mas de uma maneira que não foca apenas o sintoma ou o diagnóstico faz toda a diferença”, frisa a psicóloga Inês Parada, que espera que esta abordagem sirva, também, para reduzir o estigma que ainda existe na área da saúde mental. “Isto não é um internamento para quem não consegue gerir tudo sozinho. É um internamento para quem está a passar por uma fase mais difícil e que aqui encontra os especialistas que podem atenuar e minimizar essa sintomatologia. A saúde mental é para todos e os doentes também nos ajudam a nós com cada história que trazem, com cada medo, cada ansiedade ou cada choro que partilham connosco”, reconhece.

Um estigma que Inês Oliveira também ainda sente como assistente social. Os doentes podem chegar ao Hospital do Mar referenciados por outros médicos, através de uma urgência ou por iniciativa própria. Mas quem telefona a pedir informações ainda tem receios. “Recebo contactos de potenciais clientes que pedem informações para uma suposta terceira pessoa, mas sabemos que estão a falar de si”, diz.

“Não vale a pena é uma frase que não faz parte do nosso dicionário. Há sempre alguma coisa que vale a pena fazer e o internamento é uma oportunidade para isso.” 
Alexandra Paula

“Mesmo na equipa criou-se alguma expetativa de como iria correr a integração da nova unidade junto dos outros doentes. Nas terapias de grupo não damos ênfase ao serviço de onde a pessoa vem ou à doença. E é muito interessante perceber que para quem está nos grupos não importa de onde vem o outro doente, não é uma questão”, completa Vera Pinto. A terapeuta ocupacional recorda, sobretudo, um grupo de senhoras que descobriram que tinham em comum um grande interesse por puzzles e que passaram a combinar encontrar-se entre tratamentos, ou a integração de um senhor muito diferenciado num dos grupos de trabalho. “Foi muito curioso vê-los a partilharem espontaneamente os sintomas e a perceberem que não conseguem dormir, tal como ele, ou que estão acelerados, tal como ele. Ao fim de poucos dias já estavam a combinar tomar café na cafetaria do Hospital do Mar para continuarem as conversas que não cabiam no tempo das atividades”, recorda.

“Não vale a pena é uma frase que não faz parte do nosso dicionário. Há sempre alguma coisa que vale a pena fazer e o internamento é uma oportunidade para isso. Posso não recuperar a marcha de uma pessoa, mas posso recuperar a alegria de viver. Posso não poder dar mais vida, mas posso dar uma vida com mais qualidade e sentido de pertença. Somos otimistas, mas é sempre com realismo que gerimos as expetativas dos doentes e das famílias”, completa a fisioterapeuta Alexandra Paula.
“Temos uma equipa preocupada com as necessidades clínicas, a vontade, os interesses e o gosto dos doentes, e também muito humana. O saber olhar para o outro e estar com o outro, mas de uma maneira que não foca apenas o sintoma ou o diagnóstico, faz toda a diferença.” 
Inês Parada

Os resultados veem-se todos os dias. Em menos de um ano, a nova unidade de saúde mental já tem muitos cadeirões repletos de histórias bonitas e de superação. Até a cafetaria do hospital é testemunha dos finais felizes. Vera Pinto conta que alguns dos doentes que acompanhou, e que tomavam café juntos durante o internamento, mantêm o contacto. Um deles já teve alta e tem vindo visitar os colegas para retomar o contacto na cafetaria e deixou também alguns cafés pagos, para que os amigos se lembrem dele, mesmo quando não pode vir.

Memórias que se traduzem em palavras especiais para toda a equipa. Desafiadas a definirem as suas profissões em três palavras, Alexandra Paula escolhe compaixão, empatia e criatividade. Empatia é também a palavra escolhida por Vera Pinto, à qual junta relação e flexibilidade. Também Inês Oliveira repete empatia e relação, juntando a componente confiança. Por fim, Inês Parada reitera a palavra confiança, mas destaca alma e desafio. Quanto às características do novo internamento de psiquiatria, Inês Oliveira usa a palavra equipa, compreensão e comunicação. Equipa é a palavra repetida por Alexandra Paula, à qual junta assertividade e estrutura. Para Inês Parada, a palavra equipa também não pode faltar, bem como conforto e empatia. Vera Pinto remata este exercício com integração, inovação e entrega. Bem-vindos ao Hospital do Mar, uma tripulação de coração cheio e mãos prontas para responder aos desafios da mente humana.

Fontes utilizadas

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1 – Council of the European Union. (2023). Council conclusions on mental health. 15971/23 SAN 699 SOC 823 EMPL 590 RECH 529 JEUN 275 EDUC 463 CULT 170 DIGIT 279 ENV 1378 ECOFIN 1280 FIN 1240. Adopted at the EPSCO Council (Health) meeting, 30 November 2023, Brussels.

2 – European Commission. (2023). Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions on a comprehensive approach to mental health. Brussels: European Commission, Brussels.

Este texto faz parte do conjunto de reportagens “Por detrás dos cuidados”, no âmbito do projeto “Redes Mentais”.

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