A porta de um dos quartos está aberta. No cadeirão, descansa uma “perna” sozinha. Tem o par direito de uns ténis calçado no pé, enquanto símbolo de esperança renovada. Todos os dias contam para a recuperação da mobilidade perdida na sequência de um acidente de viação, que culminou numa amputação. É necessário aprender a caminhar com a prótese que está no cadeirão, enquanto o doente recupera na cama, entre tratamentos. Este é o último quarto do corredor onde estão internadas várias pessoas a quem a sinistralidade ditou um caminho diferente. Fica mesmo antes da porta da nova unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar, em Lisboa. Na nova unidade, as patologias são outras. Em causa está a saúde mental, mas nem por isso as dificuldades são assim tão distintas.
Muitos doentes internados nessa unidade sentem-se amputados de algumas das suas capacidades, com impacto na habilidade de tomar decisões, de falar ou mesmo de andar. Psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais são por isso profissões determinantes para a recuperação da funcionalidade de quem passa pelo Hospital do Mar, independentemente do diagnóstico que está na origem do internamento, num trabalho sempre articulado com a equipa de psiquiatria e enfermagem.
Perturbação depressiva ou perturbação de ansiedade grave, esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, doença bipolar ou adições – das mais clássicas, como o álcool, às mais recentes, como os videojogos – são vários os exemplos das rasteiras que a vida pode trazer-nos e que nos pode colocar na rota deste hospital do Grupo Luz Saúde, integrado na rede Hospital da Luz.
Os doentes podem aceder a este internamento de diversas formas, nomeadamente após o recurso a uma urgência hospitalar, mas também por referenciação do psiquiatra ou outro médico assistente. Também é possível um contacto individual direto com a unidade, sendo depois feita uma avaliação.
Comissão Europeia
↓ Mostrar
↑ Esconder
A saúde mental é uma parte integrante da saúde e uma prioridade para a Comissão Europeia, que tem apoiado ações e projetos nos últimos 25 anos para melhorar a saúde mental das pessoas na UE e além fronteiras. Em 7 de junho de 2023, a Comissão adotou a Comunicação sobre uma abordagem abrangente para a saúde mental, que ajudará os Estados-Membros e as partes interessadas a tomar ações rápidas para lidar com os desafios relacionados à saúde mental. Com esta nova Comunicação, a Comissão Europeia revela que a maioria dos europeus coloca a saúde mental no mesmo nível da saúde física. (1)
60 %
Proporção de europeus que considera que os fatores mais importantes para uma boa saúde mental são as condições de vida (2)
53 %
Percentagem de europeus que destaca a segurança financeira como essencial para a saúde mental (2)
35 %
Total de europeus que cita o contacto com a natureza e os espaços verdes como fundamentais para a saúde mental. Encontrou-se percentagem idêntica para o peso dos hábitos de sono, para a atividade física e para o contacto social (2)
O Hospital do Mar já soma quase duas décadas de atividade. Os cadeirões contam muitas histórias de superação em áreas como a geriatria, cuidados paliativos, demências e reabilitação, Acidente Vascular Cerebral (AVC), situações ortopédicas traumatológicas, entre muitas outras, às quais se juntou agora o desafio de abrir um internamento de Psiquiatria. Este destina-se aos casos mais graves, mas em que não seja necessário esperar por uma situação limite para ter acesso a esta resposta. A decisão da Luz Saúde de abrir esta nova unidade no Hospital do Mar, em fevereiro de 2024, nesta fase inicial com 14 quartos, teve precisamente como objetivo aproveitar toda a experiência que já existia em áreas com desafios semelhantes, com a vantagem adicional de a equipa multidisciplinar estar já formada e oleada.
Rodrigo Cabrita
Eurobarómetro
↓ Mostrar
↑ Esconder
O Eurobarómetro de 2023 sobre saúde mental revelou que nove em cada dez inquiridos (89 %) consideram que a promoção da saúde mental é tão importante como a promoção da saúde física. Ao mesmo tempo, só menos de metade dos inquiridos consideram que as pessoas com problemas de saúde mental recebem o mesmo nível de cuidados que as pessoas com uma doença física. (2)
Quem olhar de forma mais rápida mal dá pelas diferenças. Numa das zonas do hospital existe uma bancada de cozinha semelhante a tantas outras zonas de copa que nos habituamos a ver nestes espaços. Mas esta tem uma missão especial. Neste caso, não pretende satisfazer as necessidades diárias de refeição de quem trabalha no hospital. Neste espaço ensaia-se, trabalha-se função, isto é, a recuperação de capacidades que são necessárias para voltar à vida lá fora. No Hospital do Mar, a alta começa a ser pensada no dia da admissão, para que o regresso a casa seja tranquilo e com confiança.
Impacto da guerra
↓ Mostrar
↑ Esconder
Acontecimentos recentes, como a pandemia de COVID-19, a agressão da Rússia contra a Ucrânia, a crise climática e outras pressões societais e económicas, exacerbaram os já críticos níveis de saúde mental na Europa, confirma o Eurobarómetro de 2023 sobre saúde mental. Antes da pandemia de COVID-19, uma em cada seis pessoas na UE sofria de problemas de saúde mental e esta situação agravou-se. Segundo a maioria dos inquiridos, os recentes acontecimentos mundiais influenciaram a sua saúde mental “relativamente” (44%) ou “em grande medida” (18%). (2)
Redes sociais
↓ Mostrar
↑ Esconder
Em todos os Estados-Membros que integraram o Eurobarómetro de 2023 sobre saúde mental, a grande maioria dos inquiridos considera que a utilização das redes sociais pode ter um impacto negativo na saúde mental dos jovens. (2)
45 %
Total de europeus que considera que a União Europeia poderia dar um maior contributo para melhorar a saúde mental dos cidadãos europeus ao melhorar a qualidade de vida em geral nos vários países (2)
37 %
Proporção de europeus que considera “melhorar o acesso e o apoio ao diagnóstico, ao tratamento e aos cuidados de saúde mental” uma das áreas em que a União Europeia devia investir (2)
35 %
Percentagem de europeus que identifica “apoiar a saúde mental dos mais vulneráveis” como uma das áreas prioritárias em que a União Europeia deveria concentrar esforços (2)
“Tudo começa antes de o doente voltar para casa”, reforça. “É fundamental termos empatia e sabermos colocarmo-nos no lugar do outro, no que está a sentir e a viver, e chegarmos à génese do seu problema”, acrescenta. “O serviço social ainda está muito conotado apenas com uma vertente financeira, mas o principal foco está no encaminhamento para os diferentes recursos da comunidade e em munir as famílias das diferentes estratégias e informações para permitir que tenham acesso a benefícios em linha com as necessidades”, sublinha.
É da combinação de toda esta equipa que se preenche o dia de um doente. Às 10h, pode existir uma neuroestimulação individual ou uma atividade em grupo, seguida de uma sessão de fisioterapia. De tarde pode haver, por exemplo, terapia da fala e uma consulta de psicologia. Todos os momentos contam para uma recuperação acelerada, mas segura.
Um estigma que Inês Oliveira também ainda sente como assistente social. Os doentes podem chegar ao Hospital do Mar referenciados por outros médicos, através de uma urgência ou por iniciativa própria. Mas quem telefona a pedir informações ainda tem receios. “Recebo contactos de potenciais clientes que pedem informações para uma suposta terceira pessoa, mas sabemos que estão a falar de si”, diz.
Os resultados veem-se todos os dias. Em menos de um ano, a nova unidade de saúde mental já tem muitos cadeirões repletos de histórias bonitas e de superação. Até a cafetaria do hospital é testemunha dos finais felizes. Vera Pinto conta que alguns dos doentes que acompanhou, e que tomavam café juntos durante o internamento, mantêm o contacto. Um deles já teve alta e tem vindo visitar os colegas para retomar o contacto na cafetaria e deixou também alguns cafés pagos, para que os amigos se lembrem dele, mesmo quando não pode vir.
Memórias que se traduzem em palavras especiais para toda a equipa. Desafiadas a definirem as suas profissões em três palavras, Alexandra Paula escolhe compaixão, empatia e criatividade. Empatia é também a palavra escolhida por Vera Pinto, à qual junta relação e flexibilidade. Também Inês Oliveira repete empatia e relação, juntando a componente confiança. Por fim, Inês Parada reitera a palavra confiança, mas destaca alma e desafio. Quanto às características do novo internamento de psiquiatria, Inês Oliveira usa a palavra equipa, compreensão e comunicação. Equipa é a palavra repetida por Alexandra Paula, à qual junta assertividade e estrutura. Para Inês Parada, a palavra equipa também não pode faltar, bem como conforto e empatia. Vera Pinto remata este exercício com integração, inovação e entrega. Bem-vindos ao Hospital do Mar, uma tripulação de coração cheio e mãos prontas para responder aos desafios da mente humana.
Fontes utilizadas
↓ Mostrar
↑ Esconder
1 – Council of the European Union. (2023). Council conclusions on mental health. 15971/23 SAN 699 SOC 823 EMPL 590 RECH 529 JEUN 275 EDUC 463 CULT 170 DIGIT 279 ENV 1378 ECOFIN 1280 FIN 1240. Adopted at the EPSCO Council (Health) meeting, 30 November 2023, Brussels.
2 – European Commission. (2023). Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions on a comprehensive approach to mental health. Brussels: European Commission, Brussels.
Este texto faz parte do conjunto de reportagens “Por detrás dos cuidados”, no âmbito do projeto “Redes Mentais”.