[este artigo foi originalmente publicado a 21 de maio e republicado a propósito do incêndio em Monchique]

Quais são as zonas do país onde há maior risco de grandes incêndios no verão que se aproxima? Foi para responder a esta questão que a Estrutura de Missão para os Fogos Rurais pediu à equipa do Centro de Estudos Florestais (CEF), do Instituto Superior de Agronomia (ISA), que fosse feito um mapa de risco, numa tentativa de pegar no conhecimento científico existente nesta área e aplicá-lo na atuação das equipas de prevenção e combate a incêndios.

O mapa produzido indica a probabilidade de arderem mais de 250 hectares, por cada área de 400 hectares onde se verifiquem condições favoráveis aos incêndios. No top 20 dos concelhos (e respetivo distrito) com maior risco estão:

  1. Monchique (Faro)
  2. Oleiros (Castelo Branco)
  3. Caminha (Viana de Castelo)
  4. Vila Nova de Cerveira (Viana do Castelo)
  5. Vila Nova de Paiva (Viseu)
  6. Aljezur (Faro)
  7. Vila de Rei (Castelo Branco)
  8. Covilhã (Castelo Branco)
  9. Proença-a-Nova (Castelo Branco)
  10. Moimenta da Beira (Viseu)
  11. Viana do Castelo (Viana do Castelo)
  12. Vila Pouca de Aguiar (Vila Real)
  13. Baião (Porto)
  14. Celorico da Beira (Guarda)
  15. Gavião (Portalegre)
  16. Sardoal (Santarém)
  17. Sertã (Castelo Branco)
  18. Chamusca (Santarém)
  19. Portimão (Faro)
  20. Ponte da Barca (Viana do Castelo)

“Estamos atentos ao que é produzido e integramos”, disse ao Observador Tiago Oliveira, presidente da Estrutura de Missão para a Instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais. Para o engenheiro florestal este é apenas mais um documento técnico. Integrar o conhecimento científico nas tomadas de decisão “é o que se deve fazer”.

O mapa agora produzido em conjunto pelo CEF, Centro de Estatística e Aplicações da Universidade de Lisboa (CEAUL) e Instituto Dom Luiz (IDL), também da Universidade de Lisboa, já “está a entrar na análise dos cenários deste ano”, confirmou Tiago Oliveira. Não é que as equipas de prevenção e intervenção não tivessem já ideia de onde deviam focar os esforços, mas este trabalho “dá mais evidência aquilo que já se intui”, disse o presidente da estrutura de missão.

As zonas que têm maior probabilidade de arderem mais de 250 ha em 2018 estão indicadas a laranja e vermelho num mapa com a delimitação dos concelhos – CEF e CEAUL

José Miguel Cardoso Pereira, investigador no CEF e coordenador do trabalho, considera que este mapa pode alertar para os locais onde se deve reforçar a vigilância e patrulhamento terrestre ou onde se deve pré-posicionar os meios pesados. Para o professor do ISA, este mapa também contém informação útil para fornecer às pessoas, mas lembra que a nível local, e “nesta altura, já é tarde para fazer grande coisa na redução de combustíveis”.

Os combustíveis, ou seja, a vegetação que pode arder, são um dos focos da previsão do risco. Outro é a meteorologia. E, naturalmente, a forma como estas duas variáveis se combinam. O índice de severidade meteorológica é uma das variáveis mais importantes consideradas no modelo estatístico, explicou ao Observador Maria Antónia Turkman, investigadora no CEAUL. Mas há outras variáveis incluídas no modelo como: se ardeu ou não (ou que percentagem da área ardeu) no ano anterior; quantos anos passaram desde o último incêndio; que tipo de vegetação (matos ou florestas) predomina na região; entre outros.

O que podemos esperar do índice de severidade meteorológica [ver infografia]? Sabemos que choveu em março-abril, mas neste momento ainda não podemos saber em que condições estará a vegetação no final de junho. O que se pode é criar cenários de maior ou menor gravidade, que estão associados a um maior ou menor risco de grandes incêndios, com base no que aconteceu no passado, explicou Carlos da Câmara, investigador em meteorologia no IDL. O investigador lembrou que se podem usar dados dos últimos 30 anos de meteorologia e historial de incêndios para calcular estes cenários.

Pinhal Interior e maciço de Monchique são zonas de risco em 2018

Para criar o mapa de risco, a equipa dividiu o país em 21.757 quadrículas de 400 hectares cada. A ideia é que as áreas fossem o mais pequenas possível, mas teriam de ter um número de fogos e área ardida nos anos anteriores que fosse suficientemente grande para poder ser usada num cálculo estatístico. “Do ponto de vista estatístico é difícil ter uma estimativa viável com áreas mais pequenas porque não arderam o número de vezes suficiente”, explicou José Cardoso Pereira.

Para cada uma dessas quadrículas foi analisada a probabilidade de arderem mais de 250 hectares, tendo em conta um modelo estatístico que inclui as variáveis já referidas (como o índice de severidade meteorológica). Esta área foi escolhida porque ajuda a prever a probabilidade de acontecerem grandes incêndios, aqueles que ultrapassam os mil ou os cinco mil hectares ardidos, disse Maria Antónia Turkman. José Cardoso Pereira disse que fizeram alguns ensaios com outras áreas (maiores e menores que 250 hectares) e que o aspeto do mapa geral não era diferente do que agora se reproduz.

As classes definidas no mapa vão de probabilidades muito baixas de arderem áreas superiores a 250 hectares (por 400 hectares) a probabilidades muito altas. As áreas em que a probabilidade é muito baixa (abaixo de 1%, “< 0,01” no mapa) podem comparar-se com um ano médio em Portugal — nestes anos ardem cerca de mil hectares, um por cento do território. No extremo oposto estão as áreas de que têm 10% ou mais de probabilidade (“0,10-0,23” no mapa, 10-23%) de arderem áreas maiores que 250 hectares — isto são 10 ou mais vezes a probabilidade de incêndio do que num ano médio.

O cenário apresentado tem em consideração condições severas, mas a equipa também testou condições médias e benignas. “A probabilidade de incêndios acima de 250 hectares baixava, mas as áreas de risco continuavam a ser as mesmas”, disse José Cardoso Pereira.

O especialista em incêndios florestais lembrou, no entanto, que mesmo “nos sítios que apresentam os piores cenários, está-se longe de se poder dizer com certeza que vão arder mais do que 250 hectares”. José Cardoso Pereira disse que foi o melhor modelo que conseguiram no período de cerca de dois meses que tiveram para o fazer. E que agora cabe à estrutura de missão dizer se é útil ou não. Para Tiago Oliveira, “o que é importante é se o método é adequado e se transmite confiança”. Ao Observador confirmou que sim.

Fogos de 2017 não foram “o pior” que pode acontecer

Para José Cardoso Pereira, um dos pontos importantes deste trabalho feito sem protocolo formal e sem financiamento específico foi o trabalho da equipa multidisciplinar que permitiu usar esta metodologia, neste contexto específico, pela primeira vez. A metodologia, essa, já tinha sido publicada pela equipa do CEAUL em 2014. Os investigadores também querem aplicar este trabalho aos concelhos (e não apenas ao país), mas para isso ainda têm de afinar a metodologia.

Por agora fica a certeza de que as regiões junto às áreas ardidas no ano passado continuam com um risco superior à maior parte do território. Apesar de ter havido mais limpeza junto às povoações do que nunca, “o que confere segurança adicional”, José Cardoso Pereira lembrou que “no meio das florestas ainda existem condições para ocorrerem grandes incêndios”.