O mapa dos concelhos que podem arder este ano /premium

21 Maio 20182.485

A equipa de investigadores do Instituto Superior de Agronomia e da Universidade de Lisboa criou um mapa para as zonas onde se podem gerar grandes incêndios. Veja quais os 20 concelhos de maior risco.

[este artigo foi originalmente publicado a 21 de maio e republicado a propósito do incêndio em Monchique]

Quais são as zonas do país onde há maior risco de grandes incêndios no verão que se aproxima? Foi para responder a esta questão que a Estrutura de Missão para os Fogos Rurais pediu à equipa do Centro de Estudos Florestais (CEF), do Instituto Superior de Agronomia (ISA), que fosse feito um mapa de risco, numa tentativa de pegar no conhecimento científico existente nesta área e aplicá-lo na atuação das equipas de prevenção e combate a incêndios.

O mapa produzido indica a probabilidade de arderem mais de 250 hectares, por cada √°rea de 400 hectares onde se verifiquem condi√ß√Ķes favor√°veis aos inc√™ndios. No¬†top 20 dos concelhos (e respetivo distrito) com maior risco¬†est√£o:

  1. Monchique (Faro)
  2. Oleiros (Castelo Branco)
  3. Caminha (Viana de Castelo)
  4. Vila Nova de Cerveira (Viana do Castelo)
  5. Vila Nova de Paiva (Viseu)
  6. Aljezur (Faro)
  7. Vila de Rei (Castelo Branco)
  8. Covilh√£ (Castelo Branco)
  9. Proença-a-Nova (Castelo Branco)
  10. Moimenta da Beira (Viseu)
  11. Viana do Castelo (Viana do Castelo)
  12. Vila Pouca de Aguiar (Vila Real)
  13. Bai√£o (Porto)
  14. Celorico da Beira (Guarda)
  15. Gavi√£o (Portalegre)
  16. Sardoal (Santarém)
  17. Sert√£ (Castelo Branco)
  18. Chamusca (Santarém)
  19. Portim√£o (Faro)
  20. Ponte da Barca (Viana do Castelo)

‚ÄúEstamos atentos ao que √© produzido e integramos‚ÄĚ, disse ao Observador Tiago Oliveira, presidente da Estrutura de Miss√£o para a Instala√ß√£o do Sistema de Gest√£o Integrada de Fogos Rurais. Para o engenheiro florestal este √© apenas mais um documento t√©cnico. Integrar o conhecimento cient√≠fico nas tomadas de decis√£o ‚Äú√© o que se deve fazer‚ÄĚ.

O mapa agora produzido em conjunto pelo CEF, Centro de Estat√≠stica e Aplica√ß√Ķes da Universidade de Lisboa (CEAUL) e Instituto Dom Luiz (IDL), tamb√©m da Universidade de Lisboa, j√° ‚Äúest√° a entrar na an√°lise dos cen√°rios deste ano‚ÄĚ, confirmou Tiago Oliveira. N√£o √© que as equipas de preven√ß√£o e interven√ß√£o n√£o tivessem j√° ideia de onde deviam focar os esfor√ßos, mas este trabalho ‚Äúd√° mais evid√™ncia aquilo que j√° se intui‚ÄĚ, disse o presidente da estrutura de miss√£o.

As zonas que têm maior probabilidade de arderem mais de 250 ha em 2018 estão indicadas a laranja e vermelho num mapa com a delimitação dos concelhos РCEF e CEAUL

Jos√© Miguel Cardoso Pereira, investigador no CEF e coordenador do trabalho, considera que este mapa pode alertar para os locais onde se deve refor√ßar a vigil√Ęncia e patrulhamento terrestre ou onde se deve pr√©-posicionar os meios pesados. Para o professor do ISA, este mapa tamb√©m cont√©m informa√ß√£o √ļtil para fornecer √†s pessoas, mas lembra que a n√≠vel local, e ‚Äúnesta altura, j√° √© tarde para fazer grande coisa na redu√ß√£o de combust√≠veis‚ÄĚ.

Os combust√≠veis, ou seja, a vegeta√ß√£o que pode arder, s√£o um dos focos da previs√£o do risco. Outro √© a meteorologia. E, naturalmente, a forma como estas duas vari√°veis se combinam. O √≠ndice de severidade meteorol√≥gica √© uma das vari√°veis mais importantes consideradas no modelo estat√≠stico, explicou ao Observador Maria Ant√≥nia Turkman, investigadora no CEAUL. Mas h√° outras vari√°veis inclu√≠das no modelo como: se ardeu ou n√£o (ou que percentagem da √°rea ardeu) no ano anterior; quantos anos passaram desde o √ļltimo inc√™ndio; que tipo de vegeta√ß√£o (matos ou florestas) predomina na regi√£o; entre outros.

O que podemos esperar do √≠ndice de severidade meteorol√≥gica [ver infografia]? Sabemos que choveu em mar√ßo-abril, mas neste momento ainda n√£o podemos saber em que condi√ß√Ķes estar√° a vegeta√ß√£o no final de junho. O que se pode √© criar cen√°rios de maior ou menor gravidade, que est√£o associados a um maior ou menor risco de grandes inc√™ndios, com base no que aconteceu no passado, explicou Carlos da C√Ęmara, investigador em meteorologia no IDL. O investigador lembrou que se podem usar dados dos √ļltimos 30 anos de meteorologia e historial de inc√™ndios para calcular estes cen√°rios.

Pinhal Interior e maciço de Monchique são zonas de risco em 2018

Para criar o mapa de risco, a equipa dividiu o pa√≠s em 21.757 quadr√≠culas de 400 hectares cada. A ideia √© que as √°reas fossem o mais pequenas poss√≠vel, mas teriam de ter um n√ļmero de fogos e √°rea ardida nos anos anteriores que fosse suficientemente grande para poder ser usada num c√°lculo estat√≠stico. ‚ÄúDo ponto de vista estat√≠stico √© dif√≠cil ter uma estimativa vi√°vel com √°reas mais pequenas porque n√£o arderam o n√ļmero de vezes suficiente‚ÄĚ, explicou Jos√© Cardoso Pereira.

Para cada uma dessas quadrículas foi analisada a probabilidade de arderem mais de 250 hectares, tendo em conta um modelo estatístico que inclui as variáveis já referidas (como o índice de severidade meteorológica). Esta área foi escolhida porque ajuda a prever a probabilidade de acontecerem grandes incêndios, aqueles que ultrapassam os mil ou os cinco mil hectares ardidos, disse Maria Antónia Turkman. José Cardoso Pereira disse que fizeram alguns ensaios com outras áreas (maiores e menores que 250 hectares) e que o aspeto do mapa geral não era diferente do que agora se reproduz.

As classes definidas no mapa v√£o de probabilidades muito baixas de arderem √°reas superiores a 250 hectares (por 400 hectares) a probabilidades muito altas. As √°reas em que a probabilidade √© muito baixa (abaixo de 1%, ‚Äú< 0,01‚ÄĚ no mapa) podem comparar-se com um ano m√©dio em Portugal ‚ÄĒ nestes anos ardem cerca de mil hectares, um por cento do territ√≥rio. No extremo oposto est√£o as √°reas de que t√™m 10% ou mais de probabilidade (‚Äú0,10-0,23‚ÄĚ no mapa, 10-23%) de arderem √°reas maiores que 250 hectares ‚ÄĒ isto s√£o 10 ou mais vezes a probabilidade de inc√™ndio do que num ano m√©dio.

O cen√°rio apresentado tem em considera√ß√£o condi√ß√Ķes severas, mas a equipa tamb√©m testou condi√ß√Ķes m√©dias e benignas. ‚ÄúA probabilidade de inc√™ndios acima de 250 hectares baixava, mas as √°reas de risco continuavam a ser as mesmas‚ÄĚ, disse Jos√© Cardoso Pereira.

O especialista em inc√™ndios florestais lembrou, no entanto, que mesmo ‚Äúnos s√≠tios que apresentam os piores cen√°rios, est√°-se longe de se poder dizer com certeza que v√£o arder mais do que 250 hectares‚ÄĚ. Jos√© Cardoso Pereira disse que foi o melhor modelo que conseguiram no per√≠odo de cerca de dois meses que tiveram para o fazer. E que agora cabe √† estrutura de miss√£o dizer se √© √ļtil ou n√£o. Para Tiago Oliveira, ‚Äúo que √© importante √© se o m√©todo √© adequado e se transmite confian√ßa‚ÄĚ. Ao Observador confirmou que sim.

Para José Cardoso Pereira, um dos pontos importantes deste trabalho feito sem protocolo formal e sem financiamento específico foi o trabalho da equipa multidisciplinar que permitiu usar esta metodologia, neste contexto específico, pela primeira vez. A metodologia, essa, já tinha sido publicada pela equipa do CEAUL em 2014. Os investigadores também querem aplicar este trabalho aos concelhos (e não apenas ao país), mas para isso ainda têm de afinar a metodologia.

Por agora fica a certeza de que as regi√Ķes junto √†s √°reas ardidas no ano passado continuam com um risco superior √† maior parte do territ√≥rio. Apesar de ter havido mais limpeza junto √†s povoa√ß√Ķes do que nunca, ‚Äúo que confere seguran√ßa adicional‚ÄĚ, Jos√© Cardoso Pereira lembrou que ‚Äúno meio das florestas ainda existem condi√ß√Ķes para ocorrerem grandes inc√™ndios‚ÄĚ.

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