532kWh poupados com o Logótipo da MEO Energia Logótipo da MEO Energia
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Logótipo da MEO Energia

Adere à Fibra do MEO com a máxima velocidade desde 32.99/mês aqui.

i

MICHAEL M. MATIAS / OBSERVADOR

MICHAEL M. MATIAS / OBSERVADOR

O pão que os sírios amassam em Lisboa é feito de recomeço

Teresa, Gina e Giselle Aboud, são mãe, filha e neta. Sírias e refugiadas. Através da comida acalmam as saudades de "casa", ambientam-se ao novo país e já sorriem. "Aqui sentimo-nos seguras", dizem.

Teresa era cabeleireira em Damasco e na cozinha do mercado de Santa Clara corta cebola freneticamente. Gina, a filha, ajuda por ali, entre outras sírias, algumas com o lenço tradicional, o hijab e sob a batuta de um chef, também sírio. As chamuças de legumes precisam de ficar prontas, bem como a salada de salsa e tomate (tabbouleh), para o jantar solidário que vai ocorrer nessa noite. Giselle tem oito anos e saltita entre as mesas, decorando-as com folhas de outono.

Mãe, filha e neta chegaram a Portugal em setembro. Se conheciam o país? A resposta surge com um encolher de ombros que não precisa de tradução. A proposta do Sistema de Recolocação de Refugiados na Europa, quando se encontravam num campo de refugiados na Grécia, deu-lhes o nome de um país desconhecido.

Portugal. Para elas era uma palavra de incerteza. "Quando perguntávamos a alguém se sabiam como era, as respostas eram sempre as mesmas: um país de muitos imigrantes e a viver uma grande crise".

Portugal. Para elas era uma palavra de incerteza. “Quando perguntávamos a alguém se sabiam como era, as respostas eram sempre as mesmas: um país de muitos imigrantes e a viver uma grande crise.”

As refugiadas contam que sair da Síria foi “uma aventura” que não gostam de descrever. Quando abandonaram Damasco, rumaram à Turquia e depois numa odisseia sobre a qual preferem não adiantar pormenores revelam, nas entrelinhas, uma viagem de barco e um resgate pelas autoridades.

Portugal acolheu 720 refugiados em 2016

Mostrar Esconder

Dos 670 refugiados acolhidos este ano em Portugal, o Conselho Português para os Refugiados tem à sua responsabilidade 170 pessoas. 30 terão abandonado o país para outras paragens da Europa.

À chegada tudo novo: uma língua distante, costumes diferentes. No entanto, algo especial as sossegou: “Qualquer pessoa era simpática, sorria para nós e tentava ajudar”, conta Teresa, revelando que a experiência de pouco mais de três meses no país está a “surpreender pela positiva”.

“No fundo acho que até somos muito parecidos . Temos em comum um forte conceito de família. As pessoas têm bom coração e gostam de ajudar”, prossegue Gina. As grandes diferenças? A comida.

“Aqui comem muito peixe, aquele bacalhau que nem sequer conhecíamos. Nós cozinhamos com iogurte e aqui torcem o nariz”, exemplifica, movendo-se entre tachos na cozinha improvisada no mercado de Santa Clara, em Lisboa, onde participam na iniciativa “Pão a Pão – Projeto de integração de refugiados”, que até ao final de dezembro organiza jantares solidários com o auxílio de seis mulheres sírias refugiadas em Portugal.

syria-na-cozinha10_1280x640_acf_cropped

Teresa, Gina e Giselle Aboud, são mãe, filha e neta

É pois através da comida que se consolam das saudades que sentem de casa. Vivem juntas num pequeno apartamento em Campo de Ourique e lá vão tentando recriar as iguarias sírias, com os ingredientes que vão conseguindo encontrar ou improvisar. “Aqui não há muitos dos nossos ingredientes, mas cozinhamos as nossas receitas”, confirma Gina. A carne com bulgur, o pão ou o mlokih, que é uma iguaria com folhas de videira, fazem-nas recordar outros tempos. Mas a recordação não é doce como a baklava que em cima da bancada espreita para a sobremesa.

Syria na cozinha, refugiados, social, sociedade, susana otão, 2016, syria,

Baklava é uma tradicional sobremesa do Médio Oriente

A guerra, a saída de Damasco, o resgate em alto mar, o campo de refugiados são imagens que não gostam de manter vivas no discurso. “É muito doloroso, ainda nos marca muito”, diz Teresa.

Gina toma a palavra. Olha a filha de oito anos, enternecida. “Tudo por ela”, vinca. “Quero que ela tenha uma vida livre. Quando estava na Síria pensava muito sobre o futuro dela, como iria ser. Queria que os seus direitos fossem respeitados e cheguei a equacionar imigrar para um país com uma mentalidade mais aberta”, lembra. Nunca pensou que seria assim, enquanto refugiada.

Gina conta que o autocarro que a filha utilizava todos os dias para ir para a escola foi atingido por estilhaços de uma bomba. Nesse dia, Giselle ficou em casa. Morreram várias crianças.

A saída de Damasco foi conturbada. “Já passou, ficou lá atrás”, desabafa, mas, com a voz entrecortada, consegue descrever o momento em que o abandono do seu país foi inadiável: “A Giselle acordou meio adoentada e decidi que ela não iria à escola. Foi uma decisão normal, banal, mas nesse mesmo dia, o autocarro que ela utilizava sempre a caminho da escola foi atingido por estilhaços de um rebentamento de uma bomba…”. As palavras de Gina ficam em suspenso. Num tom mais baixo revela: “Morreram vários meninos, os amigos de Giselle”.

Syria na cozinha, refugiados, social, sociedade, susana otão, 2016, syria,

As especialidades árabes são preparadas com afinco

A pequena passeia-se entre as mesas postas no meio do mercado. Endireita os talheres e vai debicando um ou outro pedaço de pão.
“Ela é pequenina, mas já percebe muitas coisas”, diz a mãe. Giselle assoma com as suas tranças compridas e expedita, diz: “Eu já não sou pequenina”.

A avó e a mãe riem. Têm orgulho na pequena que em apenas três meses já está completamente integrada na escola e já percebe muito bem a língua portuguesa. “Ela é quem nos ensina agora”, diz Gina, revelando que a criança frequenta a escola e que “adora” os colegas e a professora. “Está feliz. Diz que cá é muito melhor, que não há guerras. Vai ser uma menina de dois países”, reforça, dizendo que no futuro irá adotar os hábitos de Portugal e misturá-los com os da Síria. “Quando crescer quero ser hospedeira”, informa Giselle.

"Há imagens que não nos deixam. O prédio defronte à minha casa foi alvo de uma bomba. O barulho, a escuridão, o fumo e as nossas janelas a ficarem turvas. O sentimento de insegurança era muito grande, não sabíamos se seríamos nós os próximos a ser atingidos"

À pergunta sobre se gostariam de um dia regressar a Damasco, hesitam. “Sim, é o nosso país, mas agora? Isso nunca, não é seguro”, atira Gina. Os olhos da matriarca ficam mudos e tristes. Há uma outra filha ficou em Damasco.

600

Segundo divulgou recentemente a Ministra da Administração Interna, Portugal recebeu em 2016 mais de 600 pedidos de asilo.

“As comunicações são difíceis, as más notícias todos os dias…” Têm mais família na Síria e, a cada dia, temem pelas suas vidas, apesar de estarem longe das grande cidades. “Nada é seguro por lá”, afirma Teresa, que ainda sente na pele o som estridente dos rebentamentos. “Há imagens que não nos deixam. O prédio defronte à minha casa foi alvo de uma bomba. O barulho, a escuridão, o fumo e as nossas janelas a ficarem turvas. O sentimento de insegurança era muito grande, não sabíamos se seríamos nós os próximos a ser atingidos”, recorda.

Voltando à fuga. “Foi tudo muito difícil, intenso, muito marcante” , conta. Na Grécia permaneceram três meses num campo de refugiados e agora, por muito que se sintam “seguras e em paz”, também temem o futuro.

Syria na cozinha, refugiados, social, sociedade, susana otão, 2016, syria,

O chef do projeto também é sírio

“Há sempre preocupação, porque não temos garantias de nada. Estamos a ser muito bem acolhidas, aliás por aquilo que escutamos Portugal é dos melhores países para acolher refugiados, mas não sabemos como será o futuro”, revela Gina.

Por agora os planos passam por aprender português e integrar o projeto “Pão a Pão” e através da comida ganharem um novo país. “É uma iniciativa muito boa e inovadora. Estamos muito recetivas e queremos trabalhar no futuro restaurante”, ressalva.

Syria na cozinha, refugiados, social, sociedade, susana otão, 2016, syria,

Rafat, tem 20 anos e de Portugal conhecia Cristiano Ronaldo e o Benfica

Numa outra bancada, Rafat de 20 anos, ajuda a mãe a preparar um dos pratos principais, frango com molho tahini e arroz de especiarias. Tímido, já fala português, mas conta pouco sobre a sua chegada a Portugal, há cerca de um ano. “Primeiro estive no Egito, mas lá é tudo muito complicado. Aqui em Portugal é diferente, ainda estou a aprender a viver cá”, salienta, revelando que mora com a mãe e dois irmãos numa casa no Lumiar e que aos poucos vai entendendo “o funcionamento do país”.

Rafat, de 20 anos, diz que sabia bem onde ficava Portugal no mapa: "O país do Cristiano Ronaldo e do Benfica, claro"

Sobre a comida portuguesa diz ainda não ter experimentado muitas coisas, mas elogia os doces. “São mesmo bons”, diz bem disposto, e destaca que sabia bem onde ficava Portugal no mapa: “O país do Cristiano Ronaldo e do Benfica, claro”. Rafat diz que pretende ficar por terras lusas e melhorar a sua vida e a da sua família: “Recordações más nem quero saber. Agora quero estar aqui e viver”.

Syria na cozinha, refugiados, social, sociedade, susana otão, 2016, syria,

São muitas as especiarias utilizadas nesta cozinha

O projeto “Pão a Pão” nasceu de uma conversa entre os mentores do projeto Francisca Gorjão Henriques, Rita Melo e Nuno Mesquita com Alaa Alhariri, uma estudante de arquitetura síria que está em Portugal há dois anos ao abrigo de um programa estudantil.

“Perguntaram-me do que é que eu sentia mais saudades da minha terra e a minha resposta foi rápida: do pão! O pão não é apenas comida é o nosso elo de ligação a forma que temos de comunicar com a mesa”, explica Alaa, dizendo que é um complemento que funciona como talher e que está sempre presente na mesa dos sírios. “O pão tem muita relação com as minhas memórias e foi a partir daí que começamos a desenvolver este projeto, pois observámos que em Portugal não há nenhum espaço, exclusivo, de cultura árabe”, salienta para vaticinar: “Vamos criá-lo, primeiro com a comida depois, quem sabe, com a dança e a música”.

Syria na cozinha, refugiados, social, sociedade, susana otão, 2016, syria,

Na cozinha todos têm uma função definida

Sobre a guerra na Síria, Alaa não gosta de falar. Os olhos baixam e o sorriso que se apresentava franco esmorece. “Ainda assisti a muita destruição, a loja do meu pai foi bombardeada, perdi muitos amigos na guerra”, diz, revelando que um dia gostaria de voltar, até porque os seus pais, família e amigos lá permanecem. “Quero voltar à Síria, mas agora o meu coração já tem dois países”, sorri e segreda: “E acho que somos mais parecidos do que diferentes”.

Francisca Gorjão Henriques, uma das fundadoras do Pão a Pão, sentiu a necessidade de “fazer alguma coisa” face ao que estava a acontecer na Síria e a fragilidade do problema dos refugiados. “O acolhimento estava a ser feito, as respostas estão a ser dadas, mas faltava o resto, a continuidade”, avança, relatando que este projeto que pretende fazer a ponte entre Portugal e a Síria, através da comida, tem um objetivo bem definido: criar emprego.

syria-na-cozinha04_433x433_acf_cropped

Os jantares solidários decorrem durante o mês de dezembro

“Vai fazer muita diferença na integração destas pessoas, através da empregabilidade. E é algo que está relacionado com elas e a sua cultura”, avança, apontando como grupos de risco com quem pretendem trabalhar as mulheres e os jovens.

70

De Norte a Sul de Portugal são já 70 os concelhos que acolhem refugiados

Durante o mês de dezembro estão a promover jantares solidários no mercado de Santa Clara que, confessa, estão a servir como laboratório. “Queremos criar trabalho e para isso vamos fundar um restaurante onde estas pessoas vão poder trabalhar”, disse, deixando as novidades para janeiro: “Já temos local, mas por agora ainda não podemos revelar”, diz confiante. O certo é que Lisboa terá em breve um restaurante com sabor a Médio Oriente.

Syria na cozinha, refugiados, social, sociedade, susana otão, 2016, syria,

O mercado de Santa Clara está a acolher os jantares solidários do projeto Pão a Pão

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

Ofereça artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Este artigo só pode ser lido por um utilizador registado com o mesmo endereço de email que recebeu esta oferta.
Para conseguir ler o artigo inicie sessão com o endereço de email correto.