– 10 da manhã? Não pensem nisso, pouco depois das 9h já lá ando…
Por razões de agenda, por motivos pessoais e pela maneira como a campanha se tornou uma avalanche de pedidos que dificulta a vida até do mais organizado diretor de operações, o Observador tinha passado uma tarde com Luís Filipe Vieira. Não teve manhã, não teve noite, teve muitas combinações (ou tentativas) para que a ideia de “Um dia com” fosse seguida quase à risca. No entanto, estava marcado: no dia seguinte, novo encontro escrito no caderno para cumprir. Questão? Ao contrário do que é normal, a manhã foi de exceção e não de regra depois de ter estado na véspera no aniversário da filha, Sara. “Eh pá, foi até tarde… Eu que ando aqui todo rebentado e só cheguei depois da 1h da manhã… Desculpem lá”, atira nessa segunda-que-devia-ter-sido-primeira tentativa de contacto na residência, em Algés. O exercício estava a começar.
Antes, Aires, motorista do antigo presidente do Benfica, tinha confidenciado que também estranhara não ter encontrado o habitual parceiro de caminhadas de um lado para o outro num percurso de 600 metros que fica no complexo onde vive. Um telefonema rápido, a explicação da hora tardia a que se deitou, a certeza de que quando o encontrar não falha nos habituais 12 quilómetros (ou 20 séries de um lado para o outro) em passo mais ou menos acelerado. “Houve uma deselegância de Rui Costa ao tomar posse ao não referir o meu nome. E fiquei magoado quando ele proibiu dois fisioterapeutas do Benfica, no horário pós-laboral, de irem a minha casa. Como se fosse possível passarem alguma informação”, tinha contado numa das primeiras entrevistas após deixar a liderança do clube, em junho de 2022. Essa proibição não mais foi invertida, essa preocupação de Vieira com a saúde mantém-se a do costume e é a partir daí que apanhamos o “comboio”.
Só mesmo quando a pessoa que liderou o Benfica durante 18 anos assumiu que era candidato à presidência do clube muitos acreditaram. Há mais de um ano que eram conhecidos os almoços e jantares com pessoas do universo benfiquista que fazia questão de manter. Há mais de quatro meses que se garantia nos bastidores que tudo estava preparado para ter uma entrada com pompa e circunstância na corrida. Há pouco mais de dois meses a decisão final foi tomada – sendo que esse passo, depois de vários contactos encetados que lhe permitiram apresentar listas que não tivessem pontos de contacto com o passado, só foi dado quando teve a reunião decisiva que assegurou a possibilidade de ter financiamento a rondar os 200 milhões para colmatar a situação que pensa vir a encontrar na Luz. Agora, entre o frenético quotidiano que envolve sempre uma/duas entrevistas por dia, ganhou outra “vida”. Nem todos aceitaram a decisão, todos “perceberam” a decisão.
“Já viram esta vista? Faz bem ver isto”, solta enquanto volta a vestir a camisola num treino a andar de um lado para o outro que o deixara a transpirar como um atleta de 76 anos. Os elogios a Isaltino Morais por tudo o que tem feito em Oeiras são muitos (“Agora parece que até um cemitério para cães fez, aquele homem é uma máquina”, recorda), a forma como chegou a nova maioria absoluta serve como inspiração. “A maneira como ele faz esta campanha foi um estouro. O homem foi um terramoto aqui para os outros”, diz entre sorrisos. A caminhada é retomada, as chamadas enquanto anda também. Há sempre uns phones com o telefone que anda na mão de um lado para o outro, há sempre alguém para falar enquanto realiza o exercício diário. “Este exercício porque eu agora tem sido falar, falar e falar…”, acrescenta. Primeira parte feita.
▲ Luís Filipe Vieira começa o dia a fazer uma caminhada no seu condomínio acompanhado pelo motorista, "o Aires". Trajeto tem 600 metros, costuma fazer 20 vezes enquanto fala muitas vezes ao telefone
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A piscina está ali ao lado (uma exterior, outra interior para todo o condomínio) mas sobe as escadas para ir ao ginásio. Cumprimenta uma vizinha e a personal trainer que estão no espaço, vai fazer alongamentos para a varanda enquanto já tem calçadas umas luvas para seguir para as máquinas. Nessa altura, Aires começa a colocar os pesos que vai levar, com 12,5 quilos de um lado e mais 12,5 quilos do outro. Faz séries de dez ou 12 sem respeitar as puxadas caso se sinta melhor ou pior, bebe água nas pausas, começa a recordar em voz alta mais um dia de agenda preenchida. Mais entrevistas, mais reuniões, mais encontros à mesa com grupos de associados (na véspera estivera com empresários açorianos). Mais de tudo, já a pensar num fim de semana onde vai voltar a cumprir centenas de quilómetros. Vale a pena? “Se quiserem, vai valer a pena. Se não quiserem, volto para a minha vida sossegado mas já sei que daqui a dois anos chamam-me e não estou”.
Aquele dia 7 de julho de 2021 não mais será esquecido. Foi aí que, no seguimento daquilo que ficou depois conhecida como Operação Cartão Vermelho, Luís Filipe Vieira foi detido. Primeiro foi chamado para ser identificado, depois para ser ouvido, depois para ser outra vez ouvido. “E levaram-me para casa com as metralhadoras e tudo, pareciam aqueles das Brigadas Vermelhas”. Esse período de quatro dias, entre uma quarta-feira e um sábado, tornou-se uma eternidade. Quatro anos depois, está de volta. “Sou inocente, eu sou inocente de tudo”, assegura mais uma vez, passando ao lado de tudo o que são casos como o Lex ou como o Saco Azul, onde está como arguido do processo. “Sei aquilo que fizemos, sei aquilo que destruíram, sei aquilo que tenho de refazer e consolidar. O Benfica parou no tempo nestes últimos quatro anos”, salienta.
▲ Vieira começa a manhã com uma caminhada e segue depois para o ginásio, onde termina o exercício físico diário
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– Estou à frente de alguém que está muito mais motivado do que as pessoas poderiam pensar. O que é que leva a essa transformação de alguém que em condições normais não se iria candidatar e de repente se tem de chegar à frente nesta campanha do Benfica?
– Já o repeti diversas vezes: há alturas em que temos de tomar decisões. Longe de mim, há três meses ou há três meses e pouco, pensar alguma vez que me poderia candidatar mas começava a ver que a situação do Benfica estava a agudizar, a agudizar, a agudizar… Tinha informações internas que na verdade aquilo era um verdadeiro caos. Aliás, a palavra correta que me disseram foi mesmo bandalheira…
– Não havia mesmo outra maneira de ver a situação?
– Nessa altura achei que devia candidatar-me. Acho que neste momento faz todo o sentido fazê-lo, até por tudo aquilo que vai aparecendo todos os dias…
– E como é que explicou a pessoas como a sua mulher ou à sua família que iria avançar depois de dizer que 2021 tinha sido o ano mais difícil da sua vida sobretudo até para eles? Bastou essa simples explicação de que tinha de ir acabar o que começou?
– Para os meus filhos não foi muito complicado, para a minha mulher é que foi complicado porque ela não sabia de nada… Só mesmo na reta final é que se começou a falar mais nisso, foi complicado…
– Nunca lhe disse nada antes de que estava pelo menos a pensar isso?
– Não, nunca tinha dito nada, até porque não estava ainda muito decidido. Depois quando começou a surgir mais nas notícias, principalmente na televisão, é que a minha mulher começou a ficar um bocado chateada mas pronto, começámos a compor as coisas, não há problema nenhum…
– Mas em 2003, por exemplo, ela apoiava-o muito…
– Sim mas quem sofreu tudo o que nós sofremos em 2021, logicamente que nunca mais queria sequer pensar em ouvir falar de Benfica nesse aspeto. Mas pronto, foi assim que se decidiu. Está decidido, está decidido, agora só temos de ir até ao fim…
Na sexta-feira, Torres Vedras é o ponto seguinte de encontro com os benfiquistas. A sala volta a ter casa cheia, como em quase todos os convívios com sócios e adeptos do clube, o dia tem como prato principal o jogo dos encarnados em Chaves para a Taça de Portugal. Vieira não chega a tempo das entradas mas não quer aparecer apenas nas sobremesas, rumando com ligeiro atraso pelo trânsito à saída de Lisboa enquanto vai ouvindo o relato do encontro na rádio. “Se estou bem? Então com o Benfica a ganhar estou sempre bem”, responde logo à chegada, comemorando mais uma vez o golo de Pavlidis que vai fazendo a diferença.
Como faz em quase todos estes convívios, sondagens é assunto tabu – não tem, não fala, não liga, não perde tempo, não acrescenta. De quando em vez vai discutindo com alguns sócios aquilo que considera que ser uma bipolarização sem sentido da corrida à presidência do Benfica entre Rui Costa e João Noronha Lopes. Nunca deixa de aceitar esses nomes, nunca perde uma oportunidade para acrescentar o seu. A razão para isso vai entroncando nas receções que foi tendo ao longo das muitas Casas visitadas neste período, sobretudo na zona norte do país. Por diversas ocasiões, aquilo que o Observador foi testemunhando é que, em qualquer cenário, Vieira tem o seu eleitorado. Algumas vezes há até quem faça comparações com a política, recordando o voto que pode não ser expresso quando se pergunta em público mas que será depois expresso em urna.
▲ Luís Filipe Vieira deslocou-se à Casa de Torres Vedras esta sexta-feira, durante o jogo do Benfica em Chaves para a Taça, antes de mais um fim de semana na estrada
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Nos discursos, que vão agora utilizando cada vez mais o novo chavão “Para o Benfica voltar a ganhar, o Vieira tem de lá estar”, aponta quase sempre ao mesmo caminho: duas décadas de liderança mostraram tudo o que pode fazer, duas décadas de liderança mostraram que sabe fazer. A isso, junta essa palavra que funciona quase como um encantamento do Flautista de Hamelin: títulos. Aponta a novo tetracampeonato, recorda a segunda década com mais troféus na história dos encarnados entre 2010 e 2020, garante que vai recolocar as infraestruturas ao nível de um clube com a dimensão mundial do Benfica, assegura que é pelo Seixal que passa o futuro em termos de investimento desportivo e “material”. E apela, sempre, ao voto.
“Têm todos de ir votar, todos os benfiquistas têm de ir votar. Ao contrário do que se diz, o Benfica não está bem. Todos sabem isso, todos sabem que pode descer ainda mais. Estou disponível para voltar mas agora compete aos sócios ir votar. No final destas eleições, todos os benfiquistas têm de estar unidos”, volta a pedir. A ideia que passa da candidatura de Luís Filipe Vieira é que uma maior votação, sobretudo em todos os círculos que não sejam em Lisboa e arredores, pode favorecer mais o antigo líder do conjunto da Luz. As críticas aos concorrentes diretos, essas, ficam quase sempre guardadas para a imprensa presente nos eventos, que teria dificuldade em encontrar uma “surpresa” na visita a Torres Vedras: o agente César Boaventura.
“Há alguém que já foi presidente, que tem muita experiência do que é que se passa dentro do Benfica e como é que aquilo funciona, depois há outros dois, principalmente dois candidatos que são muito fortes, que é o próprio Rui Costa e o Noronha Lopes. Um já demonstrou que não tem liderança e vê-se o estado em que está o Benfica neste momento. Dificilmente iremos ter um resultado positivo nos próximos dois anos, se o Benfica não tiver uma boa Liga dos Campeões ainda vai piorar. O outro [Noronha Lopes] não tem conhecimento praticamente nenhum do Benfica. Vi agora como é que ele falou das Casas do Benfica, é desconhecer que as Casas do Benfica não são assim como ele pensa. Neste momento, a aposta só pode ser num homem. Se quiserem apostar noutro qualquer, são livres e têm o direito de o fazer mas dentro de pouco tempo, ou daqui a um ano ou dois, vão lembrar-se das minhas palavras”, recordou agora na Anadia. Mas fica essa dúvida: se os estatutos tornaram o Benfica num clube sem “governo”, como se pode estancar a oposição?
▲ Vieira contou com casa cheia em Torres Vedras e uma "surpresa" entre os presentes: o empresário César Boaventura
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– Tem referido várias vezes que com os atuais estatutos o Benfica se tornou ingovernável, no sentido em que as mudança nos estatutos transformaram o Benfica num clube ingovernável. Faço a questão ao contrário: ganhando, como fica governável?
– Quem estiver atento ao que fiz, ao que motivei a fazer, vê que tornei o Benfica numa empresa estável, numa empresa que funcionaria com outra qualquer, até se dizia que era uma multinacional já a funcionar. A virtude que tive numa situação destas foi olhar para mim e saber onde é que eu era muito forte e onde é que eu não era forte. Naquele ano ou dois que estive com o Manuel Vilarinho percebi que na realidade o Benfica era um clube ingerível só com eleitos, tinha de profissionalizar o Benfica. Quando me tornei presidente, a primeira coisa que fiz foi profissionalizar o Benfica. Tive muita sorte, o Benfica teve muita sorte, quando chegou o Domingos Soares de Oliveira. Foi empatia logo no primeiro sinal, já nem sequer cheguei a ouvir as outras duas pessoas que havia porque tomei logo a decisão de que seria ele. Ele, os restantes profissionais e os outros que entraram depois, todos os quadros que entraram, fizemos um trabalho extraordinário no Benfica. Até costumava, gostava de dizer que um dia isto tinha de ser bem preparado e ser bem estudado, alguém um dia tinha de fazer algo para saber tudo o que nós fizemos por este clube…
– E em relação aos estatutos, o que é que mexe com isso?
– Mesmo com os atuais estatutos no Benfica, a minha mentalidade vai ser sempre a mesma. Logicamente que o Benfica tem dirigentes, que estão a ser eleitos, mas já falei com eles todos e aceitam que a ideia seja a mesma: profissionalizar o Benfica. Ou seja, ter um CEO, ter um CFO e o resto por aí abaixo. A mentalidade era tão forte que nunca alguma vez admiti alguém que fosse meu amigo dentro do Benfica. Aliás, isso era impossível porque havia instrução nos recursos humanos para isso. Tudo o que passava pela parte dos recursos humanos passava pelo CEO e depois é que me transmitia a mim e aos meus colegas o que se tinha passado. Depois quando saí, e peço desculpa por falar nisso, começou o problema…
– O problema do mandato de Rui Costa foi ter mexido naquilo que existia?
– O primeiro grande erro que ele fez, sim. O primeiro grande erro que ele fez foi esse porque quando se falava e quando acordámos que me poderia um dia substituir disse que não podia tocar na estrutura profissional do Benfica. Sabia que ele não era forte naquilo que eu era forte. O Rui pode ser mais forte do que eu no futebol mas em termos de organização e de experiência de empresa não é, nem sabe sequer. Então sem o Domingos começou a gerar-se a situação, primeiro saiu o Miguel Moreira, depois entrou um financeiro que curiosamente até é amigo do Rui Costa, que depois até se demitiu também por divergências com o presidente do Benfica…
– Era um amigo próximo até, segundo consta…
– Acho que sim mas curiosamente foi por causa da gestão que o amigo se demitiu também, foi precisamente pelos procedimentos que estavam a ter e ele não concordava com eles. A partir daí foi um caos… Depois começou a haver pessoas que não eram os recursos humanos que contratavam. Era por amizade, ou era pelo chefe de gabinete, ou era um outro amigo que contratava e foi assim que, lentamente, tudo sucedeu. Sucedeu isso e depois o mais grave: as pessoas ou os quadros que já não toleravam esta gestão, que não era gestão, esta presidência, não estavam com essa presidência ou com esta Direção e começaram também a demitir-se. Passou-se isso no Seixal também… Aliás, foram dezenas de pessoas que saíram do Benfica.
– E como é que no meio disto tudo consegue convencer Domingos Soares de Oliveira? Imagino que não seja fácil resgatar alguém que está no futebol da Arábia Saudita…
– São 17 anos que o Domingos trabalhou comigo, isso tem sempre algum peso…
– Mas a Arábia Saudita também é um peso, sobretudo ao final do mês é um peso grande…
– É preciso que as pessoas trabalhem só por dinheiro também… Só para trabalhar e dormir também não vale a pena, tem que fazer coisas que tenha gozo de fazer. Ao Domingos dá-lhe gozo, sabe perfeitamente que a obra não está acabada e há muita coisa para fazer ainda. Sucedeu o que sucedeu, toda a gente sabe, e acho que podemos, de uma vez por todas, pôr o Benfica naquilo que nós pretendíamos, ou seja, crescer cada vez muito mais.
– Há aqui um ponto em relação a Rui Costa. Tem-se falado de rancor, de vingança mas nas várias entrevistas que foi tendo também defende o Rui Costa. Foi assim quando disse que não acreditava e que lhe tinham dito que era mentira um alegado aluguer de 184 quartos num hotel em Lisboa para presidentes das Casas, disse que aquele pagamento do Lokomotiv não tinha interesse nenhum nem ia dar nada… Isso é sinónimo de equilíbrio em relação à forma como olha para Rui Costa, que era uma espécie de delfim?
– Sim… Olhe, vou dizer-lhe uma coisa: de certeza que a pessoa que melhor pode conhecer o Rui Costa de perto sou eu, que trabalhei com ele dez, 12 ou 13 anos. Logicamente que o Rui, ou o presidente do Benfica, quando sai o Domingos Soares de Oliveira ficou desamparado. Aquilo que me consta, aquilo que se diz e agora mais afirmativamente é que na verdade quem manda é o chefe de gabinete, que parece o presidente. E agora também tem um outro, que é o Gandarez, que também aparece sempre nas decisões. Aquela casa não pode ser governada assim. Aquela casa, se não tiver alguém que seja um CEO e que coordene uma operação completa, não funciona, esqueça. E essa desmotivação que os quadros e os profissionais têm e que lhe foram transmitindo… Depois tem outro problema mais grave agora: há muita gente que em quatro anos nunca viu a remuneração alterada e de um momento para o outro, como há eleições, dá prémios a todos…
– Ou quase todos, parece que no Seixal houve quem não gostasse…
– Caiu mal em todo o lado, vou-lhe dizer. Caiu mal mesmo em todo o lado. Aliás, aquela situação de proximidade das pessoas deixou de existir. Aquele prazer de trabalhar, que era sério, no Benfica deixou de existir. O Benfica tem boa gente, tem bons quadros, tem bom pessoal. Agora, têm que ser motivados para trabalhar. Há situações que têm de ser devidamente preenchidas com alguns que saíram e foram substituídos por aqueles que na nossa ótica não têm o mínimo de qualidade para estar lá.
– Acha que Rui Costa, quando olha para estas eleições e para a possibilidade de uma segunda volta, teme mais um Luís Filipe Vieira numa linha de continuidade ou um dos outros candidatos que possam protagonizar a mudança?
– Vou dizer-lhe isto de uma maneira muito sincera: se eu não for eleito, o Benfica vai ter muitos problemas. Garanto-lhe isso. Andam todos enganados…
– Mantém que daqui a dois anos haverá de novo eleições?
– Daqui a dois anos vai haver um problema, dois anos no máximo. As pessoas estão todas enganadas com o Benfica, aquilo não é chegar e dizer que vai mudar. Não muda. É preciso conhecer primeiro, é preciso ter uma dedicação fantástica. Eu cheguei a trabalhar a dez ou 12 horas por dia, conhecia por completo o Benfica ao pormenor. Conhecia desde a pessoa mais insignificante, que pode ser a mais significante, até cá acima. Eu estava identificado com tudo…
▲ Vieira tem deixado a gravata de fora ao longo da campanha, sendo raras as ocasiões em que recupera a sua gravata vermelha
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– …
– Ainda ontem [terça-feira] se passou um caso curioso, quando fui dar entrevista à BTV. Eu também sou de pormenores. Ontem, quando vi o pavimento do estacionamento do Benfica, interno, na zona circular, fiquei horrorizado. Tinha mesmo um aspeto desleixado. Dava-me gosto ter as coisas impecáveis. Se aquilo está lá pintado a branco, o branco tem que estar sempre. Se a parede é branca, tem que ser branca. Não é branca, já não é branca. A sujidade é imensa. É nestes pormenores que vemos como está aquilo, muita gente não liga a isto e olha só para a faturação. É muito importante mas este aspeto de manter todas as infraestruturas do Benfica impecáveis, com as suas cores lá dentro, também.
– Mas no meio disto tudo, com tantas críticas, porque é que não foi seguindo de uma forma mais próxima o Benfica, entre 2021 e 2025?
– Eu digo porquê, porque essas coisas foram-se deteriorando com o tempo. O exterior cá de fora é o que se vê, nos arcos também fui vendo isso. Mas nessa altura em nunca pensava no Benfica, na possibilidade de voltar ao Benfica. Estava fora do meu horizonte alguma vez voltar ao Benfica. Acho que, neste momento, depois do que lhe disse há pouco, cada vez mais sinto que a minha entrada é importante no Benfica.
As 6 grandes ideias dos 6 candidatos à presidência: o que saiu das 6 entrevistas de meia hora na BTV
“É com grande sentido das minhas responsabilidades que vos escrevo estas palavras muito ponderadas. A nossa longa história prova que os(as) benfiquistas são corajosos(as). Nos momentos mais difíceis, os benfiquistas nunca recorrem à velha e cobarde desculpa ‘o problema não é meu’ e sempre colocaram os interesses do Sport Lisboa e Benfica acima das suas conveniências pessoais. Esta é a ‘Força do Benfica’! A esmagadora maioria de vós reconhece o trabalho e o mérito da recuperação do nosso clube na primeira década dos anos 2000, para de seguida, unidos, termos feito uma das duas melhores décadas da nossa história, em termos desportivos e de crescimento patrimonial. Foi com essa determinação e coragem, enfrentado todos os adversários e superando todos os desafios que gritamos ‘Ninguém pára o Benfica!’. Cumprimos!”, começa por destacar Luís Filipe Vieira na versão mais longa do Programa Eleitoral.
“Erguemos o Estádio que é um ícone do futebol mundial (palco das mais importantes finais internacionais), criámos a melhor Academia de Formação de atletas de elite do mundo, levámos o Benfica ao quinto lugar da UEFA, atingimos duas finais europeias, conquistámos o inédito tetracampeonato, a Benfica TV foi de sonho a realidade, transmitindo os jogos da nossa equipa principal e das modalidades federadas, revolucionámos e liderámos o novo modelo de gestão de Direitos Televisivos em Portugal, inaugurámos o Museu Cosme Damião para perpetuar as nossas glórias e juntámos-lhe centenas de troféus nacionais e internacionais, a Marca Benfica foi valorizada como nunca, o Benfica foi consagrado pela indústria mundial uma referência em todos os níveis e áreas, batemos recordes históricos de contas positivas (…) Bem liderados, somos invencíveis! Provámos que os benfiquistas sabem superar crises graves quando acreditam em projetos e lideranças fortes e competentes. Este ciclo de sucesso crescente foi interrompido em 2021. Desde então até ao momento, verificámos uma deprimente incapacidade diretiva, ausência de visão estratégica e uma preocupante irrelevância institucional que têm paralisado o Benfica”, faz questão de recordar.
▲ Vieira tem a sede de campanha "improvisada" na zona de Alvalade, onde vai reunindo com a equipa que o acompanhará nestas eleições
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A versão do programa que o costuma acompanhar é mais curta e nem mesmo quando lhe passam papéis com mais dados cresce. “Ora isto rasga, rasga, rasga… Isto é sempre a aviar… Não sei porque é que me passam tanto papel se sabem que eu já sei estas coisas todas”, comenta com a equipa que o acompanha em nova reunião de trabalho nos escritórios que têm servido como uma espécie de sede de campanha, na zona de Alvalade. “Dás-me só dois minutos para ver aqui umas coisas?”, pergunta, enquanto passa os olhos pela metade das folhas que sobraram da razia ao molho inicial. Já é raro usar a gravata como fazia de forma quase obrigatória ao longo de largos anos como líder do Benfica, aproveita sempre que pode para ficar apenas de camisa, gosta de acertar posição na cadeira seja para começar uma entrevista, seja para discutir a campanha.
Nem sempre acata o que lhe dizem, ouve sempre as opiniões que lhe têm para dizer. Há três, acima de todas as outras, que concorda serem as mais importantes nesta fase: 1) apelar ao voto de todos os sócios (se possível confirmando que têm as quotas pagar “para não haver nenhum azar”); 2) recordar tudo aquilo que fez ao longo de quase duas décadas projetando uma nova era onde a parte das infraestruturas terá um papel fulcral a médio/longo prazo para o futuro do Benfica; 3) enfatizar que conhece a receita para ganhar e que é isso que mais quer – ganhar. Ganhar uma, duas, três, quatro vezes consecutivas em busca de uma hegemonia que se perdeu entre culpas diversas, dos atuais dirigentes e as escolhas feitas ao próprio clube. O passar dos dias reforçaram-lhe a confiança e é também assim que reaparece o “Assobiador encartado”, alcunha que um dia lhe deram ainda no Bairro das Furnas e ao qual faz jus quando as coisas lhe correm bem na campanha.
▲ Luís Filipe Vieira decidiu há quatro meses que avançava com uma candidatura. Quatro anos depois, quer que o futuro volte a passar pelo Benfica
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– Acha que existe uma divisão cada vez mais acentuada no Benfica entre aquilo que era um bairrismo mais à antiga e uma nova geração diferente na forma como olhar para o clube?
– Quem não for do povo, vai ter sempre dificuldades no Benfica Eu sou um homem do povo mesmo e encaro muito assim o benfiquismo. A nova geração deve ter uma palavra a dizer, está a ter uma palavra no Benfica agora. Mas repare: o que é que a nova geração nos trouxe? Radicalismo. E, curiosamente, tanto na lista do senhor Noronha como na lista do senhor Manteigas, os radicais estão lá, basta ver o que se passou na última Assembleia Geral. Se é esse o espírito, não vale a pena. O Benfica tem que melhorar profundamente. E os estatutos como foram feitos mesmo à medida desse radicalismo. Quando nós fizemos um esforço louco para fazer crescimento em sócios, viajei quilómetros e quilómetros a dizer aos sócios do Benfica que eles iam ter uma palavra no futuro, que valia a pena porque iam interferir em todas as decisões, iam tomar decisões, e agora há uma minoria que toma as decisões todas do Benfica. A alteração dos estatutos foi feita com oito mil sócios, o Benfica tem 400 mil sócios…
– Votaram a favor cerca de 90% de oito mil sócios…
– E o que é que isso significa? Significa precisamente que foi um fato de medida, foi um fato preparado à medida para quem quer chegar ao poder do Benfica. Está identificado quem quer chegar ao poder…
– E naquela altura não era possível ter travado a situação também?
– Quem andou a negociar estes estatutos, quem esteve a preparar estes estatutos, não teve visão para o futuro do Benfica. Aliás, é uma das coisas que hoje se denota muito é que as pessoas não têm visão para o futuro do Benfica. É para o momento, com promessas, promessas, promessas e promessas. Eu costumo dizer que promessas todos têm, mas comigo já sabem que eu faço. Não vou inventar nada, vai ser assim e as coisas vão parecer feitas. As pessoas aí não tiveram essa visão para o futuro para ver o que é que poderia acontecer. Eu vi, por exemplo, o Rui Costa, o presidente do Benfica, ser triturado numa Assembleia, naquela na Luz. Foi tudo tratado. Logo ali as pessoas tinham de perceber o que é que se estava a passar no Benfica. Era tão fácil, tão fácil… E agora culminou tudo precisamente com aquela atitude que tiveram na Assembleia Geral… E foram ambos, atenção: dizem que foi o senhor Manteigas que começou, e isso depois foi confirmado por um outro candidato, e foi falar com o senhor Noronha Lopes. A primeira coisa que ele tinha de fazer era tomar uma decisão, dizer que não em vez de dizer que ia consultar os seus… Ali nota-se que não deve haver assim muita liderança, deve haver ali muitos enfiamentos…
– Liderança é uma palavra chave para si…
– Se o Benfica não tiver uma liderança forte, uma liderança mesmo muito forte, eu não vinha. Aliás, costumo dizer que se o Benfica tiver um presidente que não seja um líder, que emocionalmente seja fraco, que não saiba dizer não, nunca serve para o Benfica. Nunca.
– Em 2003 quando chegou à presidência do Benfica chegou a dizer que naquela altura havia quase alguma vergonha dos sócios em falar do clube perante o estado das coisas. Como é que descreve este Benfica de 2025?
– Acho que os benfiquistas continuam a ter orgulho no Benfica, claro. Naquela altura o Benfica estava completamente falido, não havia nada. Aí sim, acho que as pessoas até tinham vergonha de falar do Benfica, de dizerem que eram do Benfica. A única maneira que tínhamos de projetar uma visão para o futuro, que era a única, era o Estádio. Foi por isso que me envolvi tanto na construção do Estádio, porque na Direção do Benfica havia quem não quisesse, chegaram a chumbar. Era a única forma mas ninguém tinha uma visão. O problema era não termos dinheiro, não termos dinheiro… A única maneira de mudar era mesmo entregar alguma coisa aos benfiquistas. Puxámos pela autoestima do Benfica, tudo mudou quando fizemos o anúncio. As pessoas começaram a acreditar outra vez, voltámos a acreditar e a ter credibilidade. Foi uma revolução. Eu ainda sou do tempo em que para viajarmos tínhamos que pagar com um cheque visado. Se ultrapassasse o resto era pago em dinheiro, se não chegasse lá depois devolviam o resto. Era assim…
– Acha que esta tentativa de regresso ao Benfica poderá ser uma espécie de versão 2.0 da primeira vez em que chegou à presidência? Quando comparamos programas, toda a gente fala num aumento da Luz mas pensa um bocado à frente e admite mesmo um novo Estádio…
– Essa é a minha ideia, honestamente, mas vão ser os benfiquistas a decidir claramente o que querem. Nós quando chegarmos vamos ter uma reunião com os responsáveis do Estádio e vamos compor tudo aquilo em termos de infraestruturas e manutenção. Se as cores são vivas, têm de estar vivas. Já falei com o António Ferreira, esse vai ser o primeiro trabalho mal seja eleito: fazer a manutenção completa de tudo isto, no Estádio, nos pavimentos, no exterior. Depois, vamos fazer um levantamento direto de tudo, sendo que este Estádio tem capacidade para 75 mil, basta apertar um bocado as cadeiras. Eles mexeram um pouco naquilo. Se for para chegar aos 90 mil, vamos para os 90 mil mas depois é preciso subir no estacionamento indo para baixo, fazer a cobertura, tratar dos bares… São várias áreas que precisam de ser resolvidas, sendo que a principal até passa pelo estacionamento. Para aumentar assim o Estádio, penso que terá de ser com vigas novas, aquilo vai ficar um mamarracho para fora. Não sou engenheiro mas vão criar ali um mamarracho terrível com aquela brincadeira. E tudo custa dinheiro, há que saber quando custa esta brincadeira toda…
– E como é que imagina então o futuro do Benfica?
– O Benfica é um dos maiores clubes do mundo e tem que dizer isso também às pessoas nas infraestruturas, que somos o maior clube do mundo em todos os aspetos. Vamos ser claros nisto, depois mais à frente posso abrir um pouco mais o jogo se me tornar presidente do Benfica: já identifiquei dois terrenos com 200 hectares que nos permitem, na verdade, fazer a tal célebre Cidade Desportiva que um dia eu sonhei fazer no Benfica. Curiosamente voltou-se a falar depois deste presidente do Benfica tomar posse e curiosamente era no mesmo sítio onde eu queria fazer mas que percebi que seria um custo muito grande para nós, não íamos ter depois as receitas a partir daquela Cidade Desportiva…
– Mas se quer manter no coração de Lisboa, só consigo ver um terreno possível para isso…
– Não sei, não sei… Vamos ver, vamos lá chegar. Isso é o futuro do Benfica, de uma vez por todas tem de pensar para a frente. Onde estarei daqui a dez anos? Onde estarei daqui a 15 anos? Só vejo o Benfica com um Estádio novo para 120 mil pessoas, só vejo lá aquela que pode ser a grande sala de espectáculos deste país, terá de contar com pavilhões multiusos, o novo Museu e pode ou não ter um estádio para o feminino. Não vejo o Benfica de uma outra maneira, o resto é mandar dinheiro à rua… Não sei quanto custa essas obras no Estádio atual mas se chegar aos 100 milhões, é melhor parar logo…
– Porque nunca terá capacidade para amortizar o investimento?
– Não, porque fica ali um mamarracho e porque é preciso pensar mais à frente e nesse caso devemos criar as tais infraestruturas necessárias para o Sport Lisboa e Benfica, para fazer a Cidade Desportiva. Essa sim, é uma Cidade Desportiva que se torna rentável porque permite ir buscar receitas.
– No final de um mandato de quatro anos, via com mais orgulho um tetra ou o início deste projeto da Cidade Desportiva, o lançamento de uma ideia que com essa dimensão?
– Não vai lançar, a parte desportiva tem de ser a primazia total. Temos capacidade e penso que podemos fazer isso. Parece que o programa da atual Direção é ganhar dois em quatro, eu quero ganhar de quatro em quatro… A ambição continua a mesma, continua curta. Nós temos de ganhar, os benfiquistas têm é de voltar a ganhar e depois logo se pensa na Cidade Desportiva…
– Mas os terrenos do atual aeroporto não é uma ideia disparata…
– Não interessa, não interessa… Logicamente que não é um pensamento disparatado mas de certeza que neste mandato é difícil porque no final do mandato teria 80 anos e não sei como estou depois. Agora estou com 76, sinto-me fisicamente perfeito mas não sei como será a seguir. Só sei que se fizer o tetra vou arranjar maneira de fazer o penta, nem que tenha de fazer mais um mandato…
▲ Vieira revê antes de todas as entrevistas os pontos fulcrais do programa da lista que lidera às eleições do Benfica: "Voltar a ganhar"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– No Seixal, falou no Colégio, no Hotel, campos. Há condições para avançar já com tudo isso?
– Temos um problema porque nestes quatro anos ninguém fez projetos, está tudo igual ao que deixei, não houve ninguém que avançasse com nada. Tinham os terrenos para fazer as permutas com a Câmara, nada fizeram. Comprámos uma herdade de 40 hectares para isso mas nem projetos têm, não têm sequer essa capacidade… Nós também não queremos gerir um Colégio mas o Colégio é fundamental, o Hotel é fundamental, a expansão do Seixal é fundamental. Acho que estão criadas as condições com este novo bispo da diocese para falar. Aquilo que tenho em mente é a mesma proposta que tinha feito no passado, é um bocado mais de investimento para nós mas tem de ser porque é preciso resolver rápido. Faltam campos também, o Hotel permite que alguns pais vão ficando lá para verem os seus filhos…
– Como é que se paga tudo isso? O financiamento de 200 milhões parece-me ser mais para fazer face à situação financeira do que para estes investimentos…
– Temos uma linha de financiamento de 200 milhões, é só preciso limar um bocado as taxas a dez ou a 12 anos. O Benfica vai ter um problema grave com os jogadores do Brasil. Não vai receber na totalidade, só uns 10% ou 15% do que está, e não fez provisões de nada. Para a Turquia também costumam demorar a pagar. A única vez que falhámos com alguém foi na altura da Covid-19 e não foi nem aos nossos funcionários nem aos nossos fornecedores mas sim aos empresários, a quem liguei para explicar o porquê de serem os últimos a receber. De resto, fui tudo a horas, não falhámos com ninguém, não despedimos ninguém…
– Falou numa carta da Adidas e da Emirates… O que diziam?
– A carta, como em qualquer empresa mundial, dizia que não tinham receitas e que como tal não podiam pagar. E nós só pensávamos assim: como é que recebemos, tendo em conta que não existiam receitas? Se não tivéssemos gerido tão bem o dinheiro, estávamos tramados… Aliás, na reunião dos grandes com o primeiro-ministro, eu disse que o Benfica estava governado, que não havia problema, para ajudarem os outros.
– Rui Costa falou no peso da Covid-19 quando abordou a questão financeira…
– Não, não… O senhor Rui Costa devia dizer que só foi possível fazer aquilo graças aos grandes profissionais que tínhamos, não só os melhores na área de gestão mas os outros profissionais todos. Sabe perfeitamente que não subiu o passivo por causa da Covid-19. Ele subiu o passivo porque pôs dinheiro em cima de todos os problemas e criava mais problemas. Geriu mal, as consequências foram essas. É por causa disso que para o ano vamos estar como estaremos. É só ver as aquisições que fizeram e quando temos as amortizações. E se não fizermos uma Liga dos Campeões a sério como no ano passado, a receita vem por aí abaixo. Ninguém vai inventar nada, não há ali nenhuma nave de dinheiro a cair no Estádio da Luz. Vamos ver qual é o resultado e isso é o que me preocupa mais. Uma coisa é trabalhar, outra é mandar um pontapé para a frente. Em 2009 ou 2010, tivemos os três uma reunião: eu, o Domingos e o Miguel. Disse que a partir daí não íamos dar mais prejuízo, só lucro. Até eu me comecei a disciplinar mais…
– E no futebol, porque é que o Benfica não ganha mais?
– É preciso fazer uma análise. Desde que eu saí, qual foi o planeamento que houve? O Benfica quando eu saí tinha a equipa quase feita, o planeamento todo com os novos jogadores. Eu lido com as pessoas que estão lá, eu sei que só gostam é dos jogadores com nomes pomposos. Por exemplo, quando comprei o Weigl não estava muito satisfeito em gastar 20 milhões de euros num jogador, foi o primeiro que veio acima dos 15 milhões. A decisão foi tomada por alguém que não fui eu… Mas pronto, assumi sempre. Ainda tentei baixar antes de fechar o negócio mas não dava, nem dinheiro nem prazos de pagamento. Afinal… Temos de arranjar uma alternativa para voltar atrás nisso, não comprarmos nos dias mais quentes de agosto àqueles valores que nem sei se não ultrapassam mesmo os 30 milhões. A formação tem de voltar a ser a base, com um plantel mais curto de 18 ou 19 jogadores e o resto da formação. E curiosamente nem nos recordamos disso mas foi um homem chamado Schmidt que lançou dois ou três jogadores da formação, não teve medo. Foi buscar o João Neves, que era suplente da equipa B, o António Silva a mesma coisa…
– O que pensa da atual estrutura do futebol? Falta um diretor desportivo?
– Não, primeiro quero falar com as pessoas, com o José Mourinho, com o Mário Branco que conheço bem. Agora não vamos mexer. Não vale a pena estar a dizer se concordo ou não, não vamos mexer. Podemos ver tudo isso. A estrutura do scouting tem de ser altamente melhorada, altamente profissionalizada.
– Consegue imaginar uma figura como o Tiago Pinto sem ser o Tiago Pinto?
– Acho até que já está imaginada… Não vou dizer que é igual, se não é igual mas há alguém…
Apesar das críticas que foi fazendo no arranque da campanha (e até antes), apesar das “farpas” que ainda vai deixando de quando em vez a alguns dos adversários na corrida à presidência do Benfica, Vieira quer agora focar-se naquilo que pretende fazer caso seja eleito de novo para a liderança dos encarnados. Pelo meio, e porque também faz parte, não perde uma oportunidade para visar uma bipolarização entre Rui Costa e João Noronha Lopes que entende ser um problema maior do que a taxa de rejeição que possa ter sobretudo na zona de Lisboa e arredores pela forma como deixou a Luz. “Mas o que é que quer que lhe diga? Se eu sou inocente, tenho de esperar que a Justiça faça o que tem a fazer”, repete de forma insistente.
Já houve anos e eleições em que Vieira apostava muito na separação entre a cultura bairrista e os “notáveis” a que agora chama de “elitistas”. Já houve anos também em que tentava puxar por uma nova geração que fosse entrando mais na vida do clube à boleia dos sucessos desportivos que conseguia. Agora, tenta centrar-se só no essencial: chegar, falar e convencer aqueles que considera serem a chave para chegar ainda a uma segunda volta nestas eleições e que, por exemplo, olharam para o que se passou na última Assembleia Geral colocando-o no papel de vítima e nunca de culpado. Se chega ou não, só depois saberá. Mas é com o mesmo conforto que fala do projeto que apresenta para o Benfica como da possibilidade de voltar a ter uma vida mais calma onde consegue ir buscar e levar os netos à escola: “São os benfiquistas que têm de escolher”.
▲ Luís Filipe Vieira quer aproveitar os últimos dias de campanha para mitigar a bipolarização que parece existir nas eleições entre Rui Costa e João Noronha Lopes
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– Recordou nesta conversa aquela reunião com o governo em plena Covid-19 onde esteve Frederico Varandas também. Porque é que ele foi o primeiro a saber que ia avançar?
– Foi, por acaso calhou encontrarmo-nos. Foi num dia complicado, no funeral do Joaquim Oliveira. Tinha estado lá dentro mas para mim é sempre complicado pelas flores ao pé da urna e pelos cheiros, estava ali a complicar um bocadinho a cabecinha. Tive que sair e foi aí que nos cumprimentámos. Perguntou se estava tudo bem e se ia mesmo voltar e eu disse ‘Vou, vou de certeza’…
– E o que é que ele lhe respondeu?
– Disse que ia continuar a ganhar.
– E o que é que lhe respondeu?
– Que de certeza que isso ia acabar…
– Perante isso, como é que viu a reação dele quando falou em manto verde?
– Não sei, não porque teve… Deve estranhar mas é que aquilo está tudo verde. Os centros de decisão na Federação, aqueles lugares… Tudo verde, não há um amarelo, um azul escuro, nada. Depois ainda fala nos tais 30 e tal que são do Benfica mas esses não tomam decisão nenhuma. Aliás, a muitos desses foi o presidente [Pedro Proença] que prometeu emprego se ganhasse, aquilo parece uma central de emprego…
– Acho que nesta altura os sócios do Benfica votam mais por uma liderança ou por um projeto? A figura do próximo presidente é mais ou menos importante do que as ideias?
– Sabe uma coisa curiosa nisto? Vai haver sempre um que é penalizado e que se chama Benfica e já o meu pai me costumava dizer que os grandes inimigos do Benfica são os próprios benfiquistas porque não sabem tomar decisões. Só foi possível o Benfica falir completamente, e faliu, porque nunca houve medidas para evitar isso. Era só contratar nomes sonantes… Repare: foi chegar a um clube como o Benfica e eu, o Vieira da quarta classe, mais o Rafael é que andámos a conciliar contas. O Benfica não sabia sequer quanto devia às pessoas. Chegar a este ponto para mim é imaginável. Os sócios do Benfica é que têm de tomar uma decisão, se sou eu, o António, o Miguel, quem for. O que lhe estou a dizer é que se não for eu depois vão-se arrepender daqui a dois anos, vão ver onde vai parar o clube. Mas não é um ultimato…
– E daqui a dois anos já não estará presente, é isso?
– Não, não, não… Daqui a dois anos já estou com os meus netos…
– É conhecido o aproximar que teve de Pinto da Costa nos últimos anos de vida do antigo presidente do FC Porto. No ano passado o clube também foi a eleições, com o maior sufrágio a eleger Villas-Boas por quase 80%. Também disse a Pinto da Costa que não devia avançar?
– Tenho pessoas nossas amigas que tentaram isso… Não foi obrigado a candidatar-se mas pronto, era isso que ele queria… Ele era um homem de decisões firmes, se ele entendia que estava em condições ia mas já não estava muito bem fisicamente também…
– E falou com ele sobre um regresso ao Benfica?
– Não, sobre isso não. Falámos uma vez sobre o Benfica por causa do penta que afinal ficou tetra. Foi o meu compadre que lhe disse que o meu único pecado no Benfica era não ter chegado ao penta e foi ele que disse ‘Não, não, eu estava no estádio e até tinha dito ao Caldeira que faltavam cinco minutos e que já não tinham hipóteses’. Depois houve o golo do Herrera. Ele sabia que com os jogos que faltavam o Benfica não perdia mais pontos, assim como eu sabia que eles também não iam perder mais pontos. Depois aconteceu aquele milagre, uma coisas que aparece de 100 em 100 anos… Ficámos pelo caminho mas por esse jogo, não foi cá como andavam a dizer que era porque andava a vender jogadores naquela altura…
– Também se falou da questão do guarda-redes, Bruno Varela…
– Pois falou mas as pessoas têm memória curta. Ao longo do Campeonato é culpado num golo, mais nada. Na época anterior o Varela tinha sido o melhor em campo pelo Vitória também com o Sporting e o FC Porto. As pessoas esquecem-se disso. A aposta foi mesmo no Varela, nós é que não quisemos outro.
▲ Vieira diz que não faz ultimatos mas aponta sempre à mesma ideia: se não ganhar em 2025, daqui a dois anos o clube volta a ter de novo eleições porque é ingovernável
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
– Que imagem é que os sócios guardam de si, a parte final com os casos de Justiça ou a década de 2010 e 2020 que foi a segunda com mais títulos depois da recuperação do clube no início do século?
– A primeira fase ficou muito clara para todos, fomos campeões em 2005 e eu próprio disse que tinha sido mau porque era demasiado cedo. O Benfica estava ainda a ser preparado e não foi fácil construir de novo o Benfica, com as infraestruturas todas que fizemos. Depois tivemos uma segunda fase de inovação, com a Benfica TV, o kit de sócio do Benfica, sempre a inovar, a inovar. Na primeira fase, ressuscitámos. Depois, mais tarde, lembro-me da reunião de quadros que fizemos do projeto 50+3+1 num mandato, que eram 50 títulos das modalidades e formação, três títulos de campeão nacional de futebol e uma final europeia. Aí, cumprimos religiosamente tudo. Sobre os casos da Justiça, os benfiquistas todos têm bem na cabeça que estou inocente e um dia vão saber a verdade, agora é só a Justiça funcionar. Essa é a minha certeza absoluta: a Justiça vai funcionar e depois cá estaremos todos para falar sobre o que se passou…
– …
– Sabe que ter aparecido outra vez está a incomodar muita gente… Olhe, falei de ‘manto verde’ e a expressão pegou logo, começou tudo a utilizar… Se for ver aos outros clubes, quem é o presidente mais indesejado para o Benfica? Sou eu, claro… Está escrito, está nessas sondagens que fazem… Não sei quanto valho em votos, não faço ideia, sei é que o Benfica precisa outra vez de uma liderança clara e não é com os outros… Por exemplo, o Rui pelo menos podia ter a capacidade de escolher outro tipo de pessoas para rodeá-lo mas nem isso, não acrescentam. E no caso dele têm de acrescentar porque o Rui não é um homem empresarial, não é um homem de projetos. O Rui foi um super jogador de futebol, empresarialmente nunca foi alguém que tivesse problemas e fosse tentar resolver. Não existe uma visão para o Benfica como a minha…