Quando recebeu o Prémio Nobel da Paz, a líder da oposição da Venezuela, María Corina Machado, desfez-se em elogios ao Presidente norte-americano. Sabendo do desejo do líder dos Estados Unidos da América em vencer o galardão, a experiente política venezuelana saudou os seus esforços pela paz no mundo e disse que Donald Trump também o merecia ter vencido. A antiga deputada da Assembleia Nacional venezuelana tentou sempre cair nas boas graças da presidência dos EUA: mantinha uma boa relação com o secretário de Estado, Marco Rubio (que, aliás, foi um dos que a nomeou para o Nobel), e com muitos políticos norte-americanos, principalmente republicanos.
María Corina Machado provou a Washington a sua lealdade e esperava que o movimento que liderou fosse o escolhido pelos EUA para assumir o poder quando o regime de Nicolás Maduro colapsasse. O seu aliado, Edmundo González, deveria ser o Presidente, baseando-se no argumento de que ele vencera as eleições presidenciais de 2024. Pouco após os ataques em Caracas deste sábado, tudo parecia indicar que a galardoada com o Nobel da Paz ganhasse destaque e fosse escolhida como um dos principais rostos da transição para a democracia: a presidência norte-americana elogiava-a e até a ajudou a sair da Venezuela, numa operação secreta e muito complicada, para ir a Oslo em dezembro, onde participou nas cerimónias do Comité Nobel.
No entanto, Donald Trump deitou um balde de água fria à oposição venezuelana liderada por María Corina Machado, que nem sequer foi informada de antemão dos ataques que levaram à captura de Nicolás Maduro e à ida do Presidente deposto para Nova Iorque para ser julgado. O movimento criado pela política foi ignorado pelos EUA. Na conferência de imprensa no passado sábado, o Presidente norte-americano desvendou que isso não foi uma falha — foi propositado. A Casa Branca não ia contar nem com Edmundo González, nem com María Corina Machado para executarem a transição de poder.
▲ María Corina Machado e Edmundo González
ROONALD PENA R/EPA
Os Estados Unidos optaram por uma solução diplomática inédita: mantiveram rostos leais ao regime em posições de destaque e iam gerir o país à distância. A eleita para assumir o poder foi Delcy Rodríguez, a ex-vice-presidente que se tornou esta segunda-feira Presidente da Venezuela. Contudo, a nova líder venezuelana vai ter de obrigatoriamente cumprir com as ordens oriundas de Washington ou corre o risco, nas palavras de Donald Trump, de ter um “destino pior do que Nicolás Maduro”.
O regime venezuelano está sob forte pressão dos Estados Unidos. O Presidente dos Estados Unidos já admitiu que poderá de novo bombardear a Venezuela se o país não ceder às ordens de Washington. Inicialmente desafiadora, Delcy Rodríguez, uma chavista combativa pragmática, já parece ter aceitado o seu destino e aparenta estar disposta a colaborar com os EUA. No meio disto tudo, María Corina Machado fica à espera de uma oportunidade: vai mantendo os elogios à Casa Branca e até já propôs partilhar o Prémio Nobel com Donald Trump.
Como Corina Machado se tornou a principal opositora ao regime e as reuniões que desagradam os EUA
A plataforma liderada por María Corina Machado sempre funcionou em redor do seu carisma e combatividade. Assumidamente liberal e de direita, a antiga deputada organizou um movimento contra a liderança de Nicolás Maduro, ressuscitando a oposição venezuelana — que ficou bastante vulnerável na sequência do fracasso de Juan Guaidó, que se autoproclamou Presidente do país em 2019.
María Corina Machado. O “fenómeno político” com raízes portuguesas que espera derrubar Maduro
A estratégia da opositora foi diferente da de Juan Guaidó: passou por combater diretamente Nicolás Maduro nas urnas. Porém, o regime não a deixou concorrer e foi escolhido o antigo diplomata Edmundo González para disputar as eleições presidenciais de 2024 e representar a oposição, ainda que María Corina Machado fosse efetivamente o principal rosto do movimento. Com uma mensagem mobilizadora e de esperança após anos de crise económica e de repressão interna, os dois críticos do regime foram conquistando muitos venezuelanos e iam ganhando respeito do Ocidente.
Nas eleições presidenciais de 2024, contando com uma rede de apoiantes espalhada por toda a Venezuela, a oposição venezuelana recolheu as atas em vários locais de voto. Era uma prova inequívoca dos verdadeiros resultados. Mesmo assim, o Conselho Nacional Eleitoral venezuelano — leal ao regime — anunciou que Nicolás Maduro vencera com 51% dos votos, mesmo sem apresentar todas as atas.
Os resultados do Conselho Nacional Eleitoral foram imediatamente contestados por María Corina Machado e a oposição divulgou uma contagem paralela com base em atas desaparecidas e recolhidas em vários locais. Com 68% dos votos, Edmundo González era o vencedor das presidenciais, segundo os opositores. Em consequência, a União Europeia, os Estados Unidos (sob a administração Biden) e vários países denunciaram a ilegalidade das eleições de 2024 na Venezuela e nunca reconheceram Nicolás Maduro como Presidente legítimo.
▲ Cartaz com a fotografia de Edmundo González a dizer que é o "Presidente eleito da Venezuela"
FEDERICO GUTIERREZ/EPA
Por tudo isto, a oposição venezuelana acreditava que Edmundo González deveria tomar posse como Presidente, quando o regime chavista fosse deposto por conta do resultado das eleições. Foi neste contexto político que a administração Trump — assim que tomou posse — começou a explorar alternativas políticas para perceber quem poderia liderar a Venezuela num futuro pós-Maduro.
Como conta o New York Times, o enviado especial norte-americano para missões especiais, Richard Grenell, viajou para Caracas em janeiro de 2025. Na capital venezuelana, o aliado de Donald Trump encontrou-se com representantes de María Corina Machado: o responsável dos EUA pretendia agendar um encontro presencial com a opositora e desejava que lhe fosse entregue uma lista dos prisioneiros políticos que a oposição queria ver libertados.
Ainda assim, esse encontro presencial nunca aconteceu, apesar de Richard Grenell ter prometido que a segurança de María Corina Machado estaria salvaguardada. A dissidente do regime esteve, durante muito tempo, em paradeiro desconhecido na Venezuela, como medida de proteção pessoal. A equipa da opositora recusou essa reunião e, em vez disso, foi realizada uma chamada telefónica entre María Corina Machado e o enviado especial norte-americano, que foi descrita como tendo sido cordial.
▲ Richard Grenell esteve em Caracas em janeiro de 2025 e tentou encontrar-se com María Corina Machado
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Embora a chamada telefónica tenha corrido bem, os Estados Unidos ficaram desagradados com a nega de María Corina Machado em relação ao encontro presencial. Em paralelo, o movimento da oposição nunca entregou a tal lista de prisioneiros que desejava ver libertados, o que ainda frustrou mais a Casa Branca. O movimento político da oposição a Nicolás Maduro temia que fosse divulgado publicamente estas negociações secretas com os Estados Unidos — o que poderia ser considerada uma traição para a maioria dos venezuelanos.
Além disso, os Estados Unidos ficaram frustrados com o facto de María Corina Machado nunca ter apresentado um plano concreto sobre como colocaria o aliado Edmundo González na presidência, no caso de Nicolás Maduro ser derrubado. Já a opositora venezuelana não ficou satisfeita com Richard Grenell por o enviado especial — nos seus contactos oficiais — nunca ter designado o Presidente deposto como líder ilegítimo da Venezuela.
A relação entre Richard Grenell e María Corina Machado nunca foi particularmente amigável ou propriamente produtiva. E isso pode ter tido um preço elevado a pagar pela líder da oposição venezuelana: a Casa Branca começou a duvidar da capacidade de Edmundo González assumir a presidência. Não obstante, nas aparições públicas da opositora ao longo dos últimos meses, os elogios a Donald Trump mantinham-se.
▲ María Corina Machado em Oslo
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O relatório da CIA que desvaloriza Corina Machado — e que terá sido fundamental para ser afastada
A CIA manteve uma presença ativa nesta operação militar que derrubou Nicolás Maduro. Este ramo dos serviços secretos norte-americano tinha informadores junto do Presidente deposto que lhe deu pistas sobre a sua rotina e a sua localização, incluindo no passado sábado, em que foi capturado a meio da noite no Forte Tiuna. Mas as secretas não se ficaram por aqui: também foram incumbidas de elaborarem cenários e avaliações sobre o período pós‑Maduro e sobre as diferentes opções para suprir o vazio de poder no país.
Nas semanas anteriores à operação militar que atingiu a Venezuela, os agentes da CIA apresentaram um relatório confidencial a alguns membros da administração Trump que detalhava quais seriam os cenários mais adequados para o futuro político da Venezuela sem Nicolás Maduro. O documento concluía que a transição de poder deveria ser executada por rostos do regime chavista — e não pela oposição liderada por María Corina Machado, apurou o Wall Street Journal.
Esta avaliação da CIA terá sido fundamental para Donald Trump não apoiar a oposição a Nicolás Maduro e ter optado por manter aliados do Presidente deposto na chefia da Venezuela. Delcy Rodríguez, a ex-vice-presidente que agora lidera o país, seria um dos perfis que as secretas norte-americanas consideraram mais adequados para fazer a transição de poder. Havia ainda mais dois nomes que os EUA achavam adequados para o cargo, mas as identidades não são conhecidas.
▲ Delcy Rodríguez foi um dos nomes que a CIA considerou mais estável para assegurar a transição de poder
MIGUEL GUTIERREZ/EPA
Em relação à oposição, o relatório das secretas dos Estados Unidos sublinhava que Edmundo González e María Corina Machado não gozavam de apoios suficientes dentro da Venezuela para assumirem as rédeas do país. Os dois opositores teriam dificuldades em ganhar legitimidade junto dos serviços de segurança (controlados por aliados de Nicolás Maduro), das forças armadas, das redes de tráfico de droga e até de outros oponentes políticos.
Na conferência de imprensa que deu no sábado, Donald Trump assinalou que, apesar de ser uma “grande mulher”, seria “muito difícil” para María Corina Machado liderar a Venezuela, espelhando a avaliação que a CIA fizera no relatório. “Ela não tem o apoio, nem o respeito dentro do país”, destacou o Presidente norte-americano, acrescentando mais tarde que a opositora só “conseguia ganhar uma eleição se a apoiasse”: “Não acho que ela tenha o apoio popular que tem de ter”.
Na Casa Branca, o Presidente norte-americano nunca foi o principal aliado de María Corina Machado, na verdade. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, é o interlocutor. À BBC, Santiago (nome fictício), analista político venezuelano, sinalizou que “Trump e Corina Machado nunca foram aliados. Ele nunca reconheceu a liderança dela. O interlocutor é Marco Rubio. A liderança da oposição venezuelana tem consciência disso e sabe como lidar com essa situação”.
Mas nem o maior aliado da oposição deseja ver já Edmundo González no poder. Para já, Marco Rubio mantém os elogios à “fantástica” María Corina Machado; no entanto, também lhe tirou o tapete, numa entrevista à NBC: “Estamos a lidar com uma realidade em que queremos uma transição para a democracia. A maior parte da oposição está no exílio e temos de pensar no futuro. Os primeiros passos envolvem a salvaguarda dos interesses nacionais dos EUA”.
Delcy Rodríguez — a opção para lidar com o regime dos EUA — e as críticas de Corina Machado: “Culpada de tortura”
Neste estado ainda de incerteza, ainda não há eleições no horizonte. Donald Trump recusou que vá haver presidenciais nos “próximos 30 dias” e a transição ainda deverá demorar alguns meses. Até lá, nem María Corina Machado, nem Edmundo González deverão governar a Venezuela. No futuro próximo, a opositora deverá retornar a território venezuelano, de onde saiu para Oslo para as cerimónias do Prémio Nobel. Sobre o candidato presidencial, Edmundo González está exilado em Madrid e não há sinais de que voltará à Venezuela.
Nas intervenções públicas, María Corina Machado mantém os elogios ao Presidente norte-americano: não só prometeu partilhar com ele o Nobel da Paz, como também usa a mesma retórica do que Donald Trump. Numa entrevista à Fox News, a opositora de Nicolás Maduro prometeu “deixar a destruição para trás do regime socialista e criminoso e tornar a Venezuela no maior aliado dos Estados Unidos da América na América Latina”.
VENEZUELAN OPPOSITION LEADER @MariaCorinaYA SAYS MADURO BANNED HER FROM THE BALLOT BECAUSE HE WAS AFRAID:
"We were able to bring the country together to carry these elections organized by civil society with millions of people participating. And the fact is that, cowardly, he… pic.twitter.com/3m2ys39Yh3
— Sean Hannity ???????? (@seanhannity) January 6, 2026
A administração Trump vai contar com Delcy Rodríguez por agora. A Presidente interina tomou oficialmente posse esta segunda-feira e jurou “priorizar relações internacionais equilibradas e respeitosas entre os Estados Unidos e a Venezuela”, assim como “igualdade na soberania entre países e na não-interferência”. Inicialmente, a política não estava alinhada com Washington e até ameaçou que Caracas nunca seria uma “colónia” dos EUA. Nos últimos dias, suavizou o discurso.
Delcy Rodríguez, que já veste vestidos da marca italiana Chiara Boni (uma das favoritas das apresentadores da Fox News e das trumpistas MAGA), terá de governar num difícil ato de equilibrismo. Por um lado, não pode desagradar os Estados Unidos, que já ameaçaram que o seu futuro “será pior” do que Nicolás Maduro se desobedecer às ordens da Casa Branca. Por outro, tem de satisfazer as milícias armadas e os militares da Guarda Nacional Bolivariana.
A Presidente interina combina características que agradam aos Estados Unidos para executarem a transição de poder na Venezuela: tem uma extensa experiência governativa — já liderou a pasta das Finanças, dos Negócios Estrangeiros e do Petróleo —, assim como é respeitada pelas Forças Armadas. Pela sua lealdade a Nicolás Maduro e por ser filha de um mártir para o regime (assassinado às mãos dos serviços secretos venezuelanos), Delcy Rodríguez é vista pelos militares como uma figura confiável.
María Corina Machado não gostou da escolha de Delcy Rodríguez para liderar a Venezuela. Na entrevista à Fox News, a política deixou duras críticas à Presidente interina: “É uma das principais culpadas da tortura, perseguição, corrupção e tráfico de drogas. É a principal aliada e o principal elo com a Rússia, a China e o Irão: certamente não é uma pessoa em que os investidores internacionais possam confiar e é amplamente rejeitada pelo povo venezuelano”.
María Corina Machado não conseguiu convencer os norte-americanos de que ela e Edmundo González eram as figuras ideais para a transição de poder na Venezuela. Mas a líder da oposição venezuelana parece ainda não ter deitado a toalha ao chão: continua a deixar rasgados elogios ao Presidente dos EUA e ainda mantém a esperança de que poderá governar a Venezuela um dia. A parte mais difícil de concretizar esse sonho? Convencer Donald Trump.