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Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos mostraram, num debate vivo (e duro) com acusações mútuas, o que faria de cada um deles o primeiro-ministro de que o país precisa. O frente a frente com transmissão em simultâneo nos três canais televisivos generalistas arrancou com o apagão, com os dois a reclamarem para si a capacidade de liderança em tempos difíceis. O candidato da AD e primeiro-ministro reivindicou “sucesso” e “eficácia” enquanto o seu adversário do PS criticou “desorientação e impreparação” dizendo que “o governo falhou” e lembrando a sua ação na crise dos combustíveis ou na pandemia.
A divisão continuou nas contas públicas — com Pedro Nuno a acusar Montenegro de ter “duas faces” e o social-democrata a sugerir que o socialista “não é sério” nas críticas à AD nas previsões de crescimento — e avançou nos impostos, na saúde — com o atual primeiro-ministro a admitir que falhou a promessa de garantir médicos de família para todos os utentes — bem como nas pensões, nos jovens ou na habitação.
O ponto de maior crispação surgiu quando Pedro Nuno atirou para a mesa o caso Spinumviva, a empresa da família do primeiro-ministro cujos clientes não conhecidos foram esta quarta-feira divulgados. O socialista colocou em causa a “idoneidade” de Montenegro e o líder da AD acusou-o de “aproveitamento deplorável” e de não ter “vida, vida cívica, ou empresarial” para o criticar.
Da ausência de limites à “falta de vergonha” deu-se um choque frontal entre Montenegro e Pedro Nuno
Foi o último duelo de candidatos — entre um Luís Montenegro que se disse “à prova de bala” e pronto para “governar” e um Pedro Nuno Santos que se afirmou “estar a trabalhar com humildade” e ser digno de “confiança”, apelando à não dispersão de votos — desta fase de pré-campanha eleitoral. E sem que nenhum dos dois se comprometesse a viabilizar o Orçamento de Estado do vencedor das eleições. A fechar este ciclo realiza-se no domingo, dia 4, o debate com os candidatos dos oito partidos/coligações com assento parlamentar, que será transmitido pela RTP, às 21h00.
Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explica porquê. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo.
Luís Montenegro (AD) — Pedro Nuno Santos (PS)
Alexandra Machado — Não foi bem um frente a frente. Um primeiro-ministro. Outro a querer mostrar que tem postura de primeiro-ministro. Faltou um pouco de picardia q.b. E não foi um debate estimulante. Nos temas principais: Luís Montenegro ganhou na economia, na habitação. Pedro Nuno Santos ganhou no caso das pensões e do apagão. Na saúde houve empate. E na Spinumviva estiveram os dois mal, admitindo até que Luís Montenegro terá saído por cima aos olhos da maior parte do eleitorado.
Pedro Nuno Santos estava bem preparado para atacar no apagão. E entrou bem no debate, com ideias assertivas do que achava que o Governo devia ter feito. Luís Montenegro atacou com o caso do aeroporto, numa tentativa de demonstrar a falta de serenidade e não ter autoridade. Pedro Nuno respondeu bem: passou por um governo que lidou com uma pandemia e esteve na crise de combustíveis por causa da greve dos camionistas. No apagão Pedro Nuno esteve melhor, mas parece que criticar apenas a comunicação e coordenação do Governo sabe a poucochinho, porque parece que não tem mais para pegar, ainda para mais quando o desfecho do problema não foi totalmente desfavorável ao Governo.
Depois Luís Montenegro passou bem na economia, até porque Pedro Nuno mostrou um gráfico contraposto por Montenegro, sem réplica socialista – parecendo entregar os pontos. Não correu bem a Pedro Nuno o ataque sobre a diminuição das verbas para a Fundação da Ciência e Tecnologia, nem na questão de escolha de setores.
No caso da habitação, Montenegro esteve também mais combativo e encurralou Pedro Nuno, que teve a pasta quando foi ministro. Mas o líder socialista saiu, depois por cima nas pensões. Montenegro não consegue passar a mensagem de que não quer um sistema com uma componente privada. E até diz que nesta legislatura não vai alterar o sistema… deixando em aberto o que fará se continuar. Os pensionistas temem este cenário.
Na saúde, os governos têm falhado. Tanto os governos socialistas como até agora o da AD. É um tema difícil e nenhum saiu por cima. Deixo para o fim o caso Spinumviva. Luís Montenegro quis deixar a ideia de que não sabia que ia sair a informação nova sobre os clientes da sua empresa… (não acredito em bruxas, mas que as há, há). Tentou esvaziar antes do debate, não conseguiu. Pedro Nuno Santos tentou atacar, mas acabou por misturar várias polémicas. E a cartada do concurso público da Solverde não sei se pegou, até porque Pedro Nuno tentou jogá-la como se tivesse descoberto a pólvora mas não descobriu… Havia muito para atacar nesta história. Pedro Nuno não foi assim tão eficaz e continua a patinar quanto à comissão de inquérito. E ao lançar muitas coisas para cima da mesa cansa o eleitorado que neste tema, em muitos casos, já não quer saber. Montenegro perdeu também ao tentar apenas a vitimização.
No final, Pedro Nuno tinha de sair por cima. Não saiu. E tinha armas para isso. Um debate entre serenidade e seriedade, mas o país quer mesmo é saber de responsabilidade.
Luís Rosa — Foi uma vitória clara de um Luís Montenegro mais assertivo e objetivo perante um Pedro Nuno Santos surpreendentemente inseguro e intranquilo. O secretário-geral do PS esteve em perda na primeira metade do debate, com o primeiro-ministro a fazer valer a sua gravitas para falar com autoridade sobre o apagão e como o Governo contribuiu para que a recuperação do sistema elétrico nacional fosse mais rápida do que em Espanha e sem qualquer vítima a assinalar. E a virar o feitiço contra o feiticeiro com muita regularidade. Com Pedro Nuno Santos a basear a sua campanha em ataques à falta de seriedade e de honestidade de Montenegro por via do caso Spinumviva, o líder do PSD repetiu vezes sem conta que “o dr. Pedro Nuno Santos não é sério” e que “não conhece limites” — colando-lhe a imagem de radical, de que o líder do PS foge como o diabo da cruz. Foi assim quando acusou Pedro Nuno de “não estar preparado para argumentar” quando errou nos números do orçamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia — que terão subido e não descido, facto que Pedro Nuno Santos não contrapôs. E, principalmente, foi assim no tema da saúde, quando Montenegro conseguiu mostrar dados convincentes que mostram que há menos urgências a fecharem. “Então eu falhei quando fiz acordos com os médicos e enfermeiros em 11 meses que o Governo não conseguiu fazer em 8 anos?”, foi outro bom argumento.
Pedro Nuno Santos esteve muito hesitante e nervoso — que em vez de contra-atacar, balbuciava ou ficava simplesmente calado. O líder do PS só melhorou na parte da Spinumviva mas a vitimização de Montenegro resultou por uma razão simples: o eleitorado moderado não gosta de ver um líder da oposição a atacar o carácter de um primeiro-ministro com base em suposições e sem nenhuma falha concreta a apontar. Independentemente das opiniões dos comentadores — muito críticos com Montenegro e, alguns, com razão — muitos portugueses não percebem o que Luís Montenegro fez de mal. O primeiro-ministro limitou-se a repetir os seus argumentos de sempre — que não houve favorecimento nenhum e que declarou tudo o que havia para declarar — mas juntou-lhe um plus: “O dr. Pedro Nuno Santos não tem autoridade moral nem vida ou vida profissional para me atacar”, contra-atacou Montenegro deixando no ar a ideia subliminar de que o líder do PS nunca teve de trabalhar para pagar contas. Mesmo o alegado favorecimento do Governo à Solverde denunciado por Pedro Nuno foi forçado porque a concessão em causa só termina no final do ano.
Nos restantes temas, como a habitação e as pensões, os argumentos foram os mesmos de sempre, sendo que o ataque de Pedro Nuno Santos a Montenegro sobre uma alegada privatização do sistema da segurança social soou a disco riscado. É a velha tática do medo que os socialistas gostam de jogar para não fazerem nada num sistema falido que precisa de reformas. Uma vez mais, Montenegro mostrou boa preparação quando recordou a Pedro Nuno Santos que estava só a fazer uma comissão técnica sobre um livro verde feito pelo Governo de António Costa.
O líder do PS esteve muito longe dos restantes debates — que ganhou sempre de forma clara. Mas hoje, quando tinha obrigação de esmagar para recuperar nas sondagens, perdeu-o de forma clara.
Pedro Jorge Castro — Pedro Nuno Santos começou por perder na declaração pré-debate. Chegou atrasado por causa de um acidente — mais valia ter ficado meia hora parado ao virar da esquina. Falou apenas meio minuto, durante a publicidade na SIC e TVI (apenas RTP deu em direto), e com um lapso tramado, a prometer um “caminho diferente àquele [sic] que tem sido seguro”, corrigindo depois para “seguido”.
Montenegro chegou antes, a tempo, falou 2 minutos em horário nobre para os três canais. Bem a fazer o contraste com o debate do ano passado, marcado pelo protesto dos polícias e a aproveitar para se gabar de ter pacificado conflitos sociais. Mal a dizer que são eleições que os portugueses não desejavam, como se não tivesse sido ele a provocá-las.
Pedro Nuno foi assertivo e eficaz no caso Spinumviva, mas devia ter tentado impor o tema mais cedo, logo ao seguir ao apagão, depois desta jogada de última hora da divulgação de novos clientes de Montenegro (algo que o primeiro-ministro explicou muito mal). Mais uma vez o lider do PS tem o azar de ninguém estar a ligar ao escândalo, segundo as sondagens.
No resto, Montenegro foi menos amador. Foi-se defendendo como pôde, sofreu vários golpes, mas sobreviveu. Pedro Nuno Santos tinha de ter sido mais letal em todos os temas para virar as sondagens, mas ficou a meio caminho entre a postura zen que teve nos outros debates e o modo ataque que devia ter adotado. No global, nota negativa para os dois: não ficou mais fácil o dilema dos indecisos — entre um primeiro-ministro fragilizado que provocou as eleições e usou este expediente da divulgação inexplicável dos clientes dois meses depois; e um candidato do partido que governou nos oito anos anteriores com vários problemas no cadastro político.
Rui Pedro Antunes — O homem-candidato também é ele e as suas circunstâncias. Depois de ter vencido quase todos os debates, de ter conseguido fazer um extreme makeover da forma, Pedro Nuno Santos chegou ao debate com Luís Montenegro com um dilema complicado entre ter de arriscar e não desmontar o seu novo eu político, que exige contenção. O líder do PS não cometeu erros, mas falhou os objetivos principais: mostrar que está mais bem preparado que Luís Montenegro (apesar do conhecimento dos dossiers, é difícil saber mais do que o incumbente de assuntos de governação) e, de forma subliminar, descredibilizar o primeiro-ministro (a história dos casinos que estava na pasta de transição dificilmente terá sido compreendida, da maneira que queria Pedro Nuno, pela maioria do grande público).
Pedro Nuno Santos voltou a ter sucesso no auto-controlo e, em alguns momentos, pareceu mesmo mais controlado que Luís Montenegro, que não disfarçou o desconforto com as spinumcices. O líder do PS foi, por exemplo, eficaz a elencar várias dúvidas que subsistem, mostrando que não está tudo esclarecido, mas sem grande novidade face ao que tem dito no último mês e meio.
No Apagãogate, que era importante para afirmar quem era o melhor líder na sala, Montenegro conseguiu transmitir mais a imagem de estadista, de líder de ação, com um slogan que o homólogo socialista de Pedro Nuno, Pedro Sánchez, não pode exibir: “Zero mortes”. Zero mortes que mataram o assunto. O importante do apagão, como diria Carlos Queirós, é que ninguém se aleijou. E portanto, como diria Gouveia e Melo, o mestre da tática autoridade em crise, siga a Marinha.
No fim do debate, os dois principais líderes saíram, provavelmente, mais ou menos com a imagem que entraram. E isso, tendo em conta as sondagens e o facto do líder da AD ser o incumbente, dá vantagem a Luís Montenegro.
Os dois não foram claros a dizer que aprovariam o primeiro orçamento ao futuro vencedor. Fizeram mal. Estavam a lutar entre si, mas também pelo voto útil, e esse seria mais fácil de amealhar com esse pré-compromisso.