Sem autoridade moral, desorientado, pouco sério, sem vergonha, impreparado, sem idoneidade, lamentável, deplorável, sem limites (duas vezes), intelectual desonesto, incompetente, demagógico e, finalmente, um fator de instabilidade. O frente a frente entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos teve a duração de 70 minutos e quase tantas trocas de acusações. A cada tema que foi levado para o debate, os dois — social-democrata e socialista — não se contiveram nos ataques e na adjetivação. Seria, ainda assim, o caso “Spinumviva” a motivar o momento mais tenso entre os dois.
De “gozar com quem trabalha” a “deplorável”
A Spinumviva era um dos assuntos mais esperados neste debate e não passou ao de leve, aquecendo mesmo o confronto entre os dois principais candidatos a estas legislativas. Pedro Nuno Santos prometeu que ignorar o tema é “uma linha vermelha” na sua campanha e Montenegro considerou “deplorável” essa atitude do socialista.
A horas do debate, a revelação de documentos por parte de Luís Montenegro à Entidade da Transparência sobre os clientes da Spinumviva. O líder da AD garantiu que não tornou nada público, mas já Pedro Nuno Santos o tinha acusado de “gozar com quem trabalha” ao trazer agora à luz do dia informações que podia ter divulgado “há seis meses” e evitado eleições.
Montenegro tentou virar a sua vida empresarial contra Pedro Nuno, o político de carreira que “não tem vida cívica nem empresarial” e o socialista devolveu-lhe o mimo em forma de aviso a quem fala de barriga cheia. “Não se vitimize porque a vida não o tratou mal”, disse-lhe, acrescentando que nem todos os políticos saem dessa vida com “dois ajustes diretos com duas autarquias presididas por companheiros de partido e amigos”.
Quando Montenegro garantia não ter decisões no Governo afetadas pela sua vida empresarial, Pedro Nuno Santos ainda tirou uma página de uma das pastas de transição do anterior Governo que recomendou o lançamento antecipado do concurso internacional para concessão de casinos – que continua por lançar, o que pode beneficiar a Solverde.
Montenegro acusou-o de “não ter limites” e repetiu a linha que quer que cole na cabeça dos portugueses neste caso: “Não acumulei as funções de primeiro-ministro com outras. Não recebi um único euro de outra entidade privada desde que sou presidente do PSD. Dei todas as informações que me foram pedidas por escrito. Tornei públicas as minhas declarações de rendimento.”
Foi o ponto causador de maior tensão, com o líder da AD a carregar nas tintas da indignação perante aquilo que vai resumindo a “suspeitas”. Do lado do socialista, a enumeração do que ainda falta esclarecer continua lá, embora pareça estar a esmorecer o ímpeto da manutenção da comissão parlamentar de inquérito na próxima legislatura. “Depende de Luís Montenegro”, diz Pedro Nuno que à saída do debate diz que há pontas soltas, nomeadamente quanto à reestruturação da empresa da família Barros Rodrigues. Mais à frente se verá.
Apagão foi tema rápido e sem a deixa que Montenegro esperava
O debate começou pelo tema mais recente, o apagão, mas foi de tratamento rápido, com Luís Montenegro a garantir que o Governo agiu bem na coordenação das operações. Após as críticas às falhas na comunicação, o líder da AD lembrou que não havia “capacidade de falar com portugueses pela televisão” e fez das “zero mortes” uma prova de boa gestão da situação.
Já Pedro Nuno Santos considerou que se o “Governo não é responsável pelo apagão, na comunicação falhou” e que os portugueses e autarcas acabaram por valer por si. Neste ponto surpreendeu Montenegro que aguardava que o socialista atacasse a sua liderança para lhe poder atirar – como atirou na mesma – com “a falta de autoridade para falar” porque ainda carrega o episódio da localização do novo aeroporto às costas. O socialista não contra-atacou.
“Embuste” e “falta de vergonha”. Pedro Nuno investe contra programa económico da AD
Logo a seguir ao tema de abertura, os programas económicos de ambos foram a jogo e, também aqui, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro carregaram na adjetivação. Pedro Nuno Santos foi quem abriu as hostilidades. Começando por dizer que o programa eleitoral do PS era “mais prudente e cauteloso do que o da AD”, que classificou de “embuste” e de ser pensado apenas para uma minoria, o socialista confrontou Luís Montenegro com as previsões de crescimento que o Governo entregou em Bruxelas, mais modestas quando comparadas com aquelas que inscreveu no próprio programa eleitoral.
“Temos mesmo de ser sérios. De uma ponta à outra. Pedro Nuno Santos acaba de lançar uma confusão que ou é mentira ou é incompetência pura”, devolveu-lho o social-democrata, dizendo que as previsões enviadas para Bruxelas decorre das políticas invariantes. Montenegro explicou depois que a AD confia no contributo das políticas públicas que prevê, sobretudo em matéria de “transformação do Estado e das políticas fiscais”, para o crescimento económico. Em contrapartida, argumentou, o PS tem uma lógica de “redistribuição” e um conjunto de políticas que “não modificam nada na economia”.
“Falta vergonha ao programa da AD, traz fantasia e ato de fé. A AD não é boa conselheira do crescimento económico”, contrapôs Pedro Nuno Santos, argumentando que a proposta do PS para o IRC — uma redução seletiva e não transversal como aquela que propõe Montenegro — é “mais inteligente”. Queremos baixar o IRC para empresas que dão um bom destino ao seu lucro. AD propõe redução igual, sem critério, para todas as empresas.”
O maior falhanço da AD contra a herança do PS
Na Saúde, a promessa (falhada) de garantir médicos de família para todos os utentes marcou a troca de argumentos entre os dois. Depois de elencar os resultados conseguidos pelo Governo nessa área, Montenegro acabou por reconhecer já perto do fim o facto de ter ficado aquém (“Sou honesto: não íamos conseguir atingir esse resultado no final de 2025″) e não quis avançar com uma “data concreta” para que essa meta seja alcançada.
Tentando minorar os efeitos do previsível ataque de Pedro Nuno Santos, o social-democrata alegou que havia herdado um SNS com “vários problemas“, muitos deles resultantes da cumplicidade do PS (e de Pedro Nuno) com Bloco de Esquerda e PCP ao longo dos últimos oito anos. Pedro Nuno Santos viu espaço para atacar. A Saúde, disse o socialista, era a “área de maior falhanço da AD” e acusou Montenegro de ser responsável por haver “mais utentes sem médico de família” do que há um ano, pelo crescimento das listas de espera e por “urgências piores”.
O papão reaparece nas pensões
Nas pensões, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos recuperaram um debate que já se tornou um clássico pelo menos desde 2011: quando se aproximam eleições legislativas, os socialistas acusam a direita de querer privatizar o sistema de pensões da Segurança Social e os sociais-democratas, negando tal intenção, dizem que é preciso estudar novas formas de financiamento. No frente a frente entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, não foi diferente.
“O PS leva a sério sistema público de pensões e pensionistas do país. A AD tem o projeto que sempre teve: privatização do sistema de pensões”, atirou Pedro Nuno Santos, prometendo extinguir o grupo de trabalho sobre mudanças no sistema de pensões, liderado por Jorge Bravo, quando e se chegar ao Governo — promessa que repetiria no seu minuto final de apelo ao voto.
Mais um ataque de Pedro Nuno, mais uma irritação de Montenegro. “[O líder do PS] está a falhar mesmo muito à seriedade. Não tem limites à utilização demagógica, deturpada, dos argumentos políticos. Estamos a analisar as conclusões do Livro Verde que o governo de António Costa mandou fazer”, insurgiu-se o social-democrata, antes de escrever na pedra a seguinte promessa: se e no dia em que decidir avançar com qualquer mudança no sistema de Segurança Social só o fará se devidamente legitimado pelas urnas — o que significa que não avançará com qualquer alteração nesta legislatura.
O socialista insistiu na acusação — Montenegro tem como plano a médio-longo prazo privatizar parte do Sistema da Segurança Social — e acusou o Governo de instrumentalizar os pensionistas por motivos meramente eleitoralistas. “[A AD] chega ao Pontal [rentrée do PSD] e anuncia um bónus que não se repete. As nossas propostas são aumentos permanentes”, sugeriu Pedro Nuno Santos. “O debate político tem de ser feito com seriedade e honestidade intelectual“, cortou Luís Montenegro. “Não temos nenhuma alteração prevista no programa eleitoral ao Sistema da Segurança Social. Vamos valorizar todas as pensões. Vamos valorizar mais as mais baixas.”
Habitação e mais jovens motivam nova troca de acusações
Por todos apontado como um dos temas que vai marcar a campanha eleitoral, a Habitação serviu de arma de arremesso entre o verdadeiro incumbente e uma espécie de incumbente do governo anterior, já que Pedro Nuno Santos teve esta pasta durante a governação de António Costa. Luís Montenegro acusou Pedro Nuno Santos de ter deixado um plano de 26 mil novas casas quando só havia dinheiro no programa para finalizar 16 mil e recuperou a proposta da AD que elevou o número para 59 mil. “Ainda estamos a pagar hoje o desinvestimento na Habitação que as ideias de Pedro Nuno Santos trouxeram”, apontou o primeiro-ministro.
O líder socialista defendeu-se com as circunstâncias, dizendo que “verba disponível no PRR aumentou e que impacto da inflação teve consequências”, assegurando que havia dinheiro para cumprir a sua promessa. Ainda assim, não poupou as críticas às medidas levadas a cabo pelo PS, que entende serem responsáveis por ter “acelerado os preços do mercado imobiliário”. E classificou o Governo de ser “incompetente” no apoio às rendas, designadamente pelo facto de os jovens estarem à espera seis meses para receberem o apoio do Porta 65.
O líder social-democrata admitiu que há atrasos no Porta 65 e acabou a justificá-los com a liberalização das regras que permitem o programa chegar a mais jovens, uma “prioridade máxima” da AD. “Só são uma prioridade em tempos de campanha“, acabaria a retribuir Pedro Nuno Santos, dizendo que nos últimos onze meses o Governo já descongelou as propinas, por exemplo. “Dá com uma mão e tira com outra.”
Governabilidade. Ninguém se compromete, depois vê-se
Quando o tema é o dia 19 de maio, os dois fecham-se em copas. Com intenções diferentes, ambos puxam para ideia de estabilidade: Montenegro garante que isso se consegue mantendo quem está, Pedro Nuno diz que se consegue com a mudança de quem não a consegue dar. Mas há caminho para dialogarem no futuro próximo, para desbloquearem a governação? Ninguém se compromete.
A linha única para ambos foi garantir o foco na vitória eleitoral e falar em planos B (ou em necessidade de desbloquear o Governo ao lado) é conversa que fragiliza esse objetivo. Mas Luís Montenegro tentou contrariar a tese que Pedro Nuno vende de um PS desbloqueador do sistema, apontando antes a uma bancada socialista que nas decisões importantes resvala para o lado do Chega. “O PS não hesitou em aumentar a despesa em mais de mil milhões de euros por acordo com o Chega”, exemplificou.
Já Pedro Nuno Santos foi tentado manter viva a memória de quem desencadeou a crise política com eleições antecipadas, apontando Montenegro como “o fator de instabilidade política”. Do seu lado, dialogará “com todas as forças políticas para ter a estabilidade política que Luís Montenegro já não consegue dar”. Quem esperava ouvir uma solução concreta para o dia seguinte às eleições, ficou na mesma.
Deixem o Luís trabalhar vs. a confiabilidade de Pedro Nuno
No final, os dois usaram os respetivos minutos de apelo ao voto para sintetizar a estratégia que vão levar para a campanha eleitoral: Luís Montenegro usando a sua vantagem natural de incumbente, passando em revista tudo o que o Governo fez nos últimos 11 meses, e sugerindo que só está focado em “governar”. “Não estou aqui para ataques pessoais ou maledicência”, despediu-se o social-democrata.
Na sua vez, Pedro Nuno Santos dirigiu-se diretamente para a câmara, prometeu uma “defesa séria das pensões” — os pensionistas são eleitores muito importantes para o PS —, garantiu que tudo fará para “baixar o custo de vida” para todos os portugueses e melhorar o rendimento disponível. “Pode confiar no PS. Vote no PS.”