Na estreia da maratona de 29 debates, 28 na televisão e um nas rádios, estiveram frente a frente Luís Montenegro (AD) e Paulo Raimundo (CDU) na TVI e o primeiro tema foi o esperado: o caso da empresa familiar de Montenegro, que acabaria por levar à crise política e às eleições antecipadas.

Paulo Raimundo insistiu que Luís Montenegro devia ter-se demitido, acusou-o de vitimização e disse ter certeza das incompatiblidades em relação à Spinumviva e o primeiro-ministro demissionário repetiu que não teve nenhum benefício com a empresa, que prestou os esclarecimentos devidos, que não houve qualquer contaminação política, nem há nada que se se lhe possa imputar à sua conduta enquanto titular de cargo público.

Só aos cinco minutos se mudou de tema, mas as divergências mantiveram-se. Primeiro na saúde e gestão privada, depois no IRC e por fim na defesa (não houve tempo para a habitação): Paulo Raimundo insistiu que a CDU não troca “armas pela saúde, pelas pensões e pela segurança social” e quando Montenegro falou em “despesas cumulativas” e na defesa dos “direitos humanos” e da  democracia na Ucrânia”, o secretário-geral do PCP respondeu com a palavra “falácia”.

Na RTP3, o frente a frente entre André Ventura (Chega) e Inês Sousa Real (PAN) começou com um tema menos esperado, dentro dos esperados: a insegurança, mas relativamente às mulheres. O líder do Chega apropriou-se facilmente de uma das suas áreas preferidas de intervenção, para atacar a falta de agravamento de penas para crimes sexuais que há muito pede, para falar de imigrantes e violência e do RASI.

Mas, depois do debate do ano passado que lhe saiu mal frente a Sousa Real, Ventura foi mais agressivo ao colá-la ao governo da Madeira e ao ser “muleta” dessa “corrupção”, e quando entraram animais o líder do Chega conseguiu ir até ir buscar o tema dos ciganos.

Tal como no ano passado, o Observador vai dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates que avaliará quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.

Amanhã debatem Pedro Nuno Santos (PS) e Mariana Mortágua (Bloco), às 21h00, na SIC, e de novo André Ventura, desta vez frente a Rui Tavares, às 22h00, na RTP3. Pode ver o calendário completo dos debates aqui. Os debates têm 30 minutos, com o tempo cronometrado para cada um, mais cinco minutos de tolerância. Cada candidato fará nove debates, sete frente a frente e dois debates a oito, um nas tv’s e outro nas rádios.

Paulo Raimundo (CDU)-Luís Montenegro (AD)

Ana Sanlez — Não é que houvesse grandes dúvidas de que o caso Spinumviva vai marcar a campanha eleitoral. E, se houvesse, ficaram dissipadas logo no primeiro debate. Oito minutos do caso que fez cair o Governo, com Luís Montenegro a manter a postura de vitimização e Paulo Raimundo a acusar o primeiro-ministro de ter sido beneficiário de empresas privadas, sem concretizar muito bem as críticas. Mas depois de duas moções de censura e uma de confiança sobre o tema, não ia ser aqui que íamos ficar esclarecidos. Temas bem escolhidos para um debate em que ninguém lutava por conquistar eleitorado, senão para convencer o seu próprio. Luís Montenegro bem a defender as PPP na saúde, um tema que não será consensual entre possíveis votantes na AD. Raimundo bem a trazer a imagem das creches que poderiam ter sido feitas com o dinheiro da descida do IRC. Um debate equilibrado, com Paulo Raimundo a mostrar que um ano na política faz muita diferença.

Helena Matos — Ideologicamente falando Paulo Raimundo continua a achar que privado é sinónimo de corrupção e que investimento na defesa é investimento na guerra. Por conseguinte, o melhor de Paulo Raimundo, como acontece a qualquer comunista, não é quando defende aquilo em que acredita (e que na prática é apoiado por uma cada vez mais escassa minoria) mas sim quando saca dos problemas que afectam os cidadãos. E aí a frase “O Luís Montenegro é pai, eu sou pai!” funcionou às mil maravilhas. Jerónimo de Sousa citava provébios. Paulo Raimundo está a criar o seu estilo discursivo e este seu “O Luís Montenegro é pai, eu sou pai!” mostrou-nos um líder do PCP retoricamente mais eficaz. O que não quer dizer que Paulo Raimundo tenha ganho o debate mas esteve certamente melhor que aquilo que tem sido o seu habitual desempenho. “Ai pergunta, pergunta!” – respondia Luís Montenegro aos considerandos de Paulo Raimundo sobre a taxa de IRC em Portugal. Este é o terreno em que Luís Montenegro se sente claramente à vontade e se quisesse até podia ter sido muito mais assertivo com o líder do PCP que estava a enredar-se. Tal não aconteceu porque na verdade Montenegro usou este debate para pressionar Pedro Nuno Santos – “Não me traga para aqui o PS” contrapunha com perspicácia Paulo Raimundo – e não para confrontar o líder do PCP. Por fim, uma dúvida: será que todos os debates em que Luís Montenegro participar terão os primeiros 9 minutos dedicados às questões da Spinumviva? A avaliar por aquilo que aconteceu esta noite 9 minutos deitados fora pela oposição que assim desbarata tempo que podia afectar ao escrutínio sobre áreas do governo. Se o registo for este duvido que a oposição capitalize o que quer que seja com o assunto Spinumviva. Mas há que esperar para ver.

Luís Rosa — Paulo Raimundo foi surpreendente e combativo, mas mesmo assim não conseguiu vencer Luís Montenegro. O secretário-geral do PCP marcou pontos junto do seu eleitorado (e da esquerda em geral) quando defendeu que o primeiro-ministro deveria ter apresentado a sua demissão por ter entrado numa situação de alegada incompatibilidade. O tom foi equilibrado – entre o assertivo e o respeito institucional que marca a linha do PCP.

Luís Montenegro começou por ser hesitante na resposta — ao olhar para o vazio, em vez de olhar em frente o adversário — mas defendeu-se bem com argumentos já conhecidos: não tomou nenhuma decisão que tivesse beneficiado a Spinumviva ou os seus clientes, cumpriu todas as obrigações declarativas, respondeu a todas as dúvidas, logo não há problema ético. E só depois foi ao ponto: “qual foi a minha decisão que foi influenciado por interesses privados?”, perguntou a Raimundo. A resposta vaga do secretário-geral do PCP provou que Montenegrou conseguiu destrunfar o adversário e acabou em alta no tema Spinumviva.

O resto do debate foi marcado por uma tentativa de golpe de marketing de Paulo Raimundo ao entregar um dossiê com um conteúdo misterioso ao Luís Montenegro — nunca se percebeu o que continha o alegado dossiê. E a vitória clara do líder da AD nos temas da saúde, da economia e da defesa.

Paulo Raimundo não conseguiu responder de forma convincente aos argumentos de Luís Montenegro sobre as vantagens de um modelo para a Saúde assente na resolução dos problemas dos utentes (independentemente do Estado ou do Privado serem os prestadores de serviço), tal como o chavão de que o Governo da AD favoreceu as grandes empresas foi facilmente rebatido com os benefícios para jovens, classe média e idosos. O KO técnico de Raimundo chegou quando Montenegro recordou um dado simples: a receita fiscal do IRC subiu de forma significativa mesmo com a descida do imposto sobre os rendimentos das empresas.

Na defesa, Montenegro demorou poucos segundos a dizer a palavra que Raimundo evita a todo o custo — “Ucrânia” — mas não explorou como devia o enorme calcanhar de aquiles do PCP: a não censura da invasão da Ucrânia por parte da Rússia de Putin.

Miguel Santos Carrapatoso — Nas últimas eleições legislativas, Paulo Raimundo, então um estreante nestas andanças, teve prestações muitíssimo tímidas na longa maratona de debates. Um ano depois, é caso para dizer que o comunista entrou com o pé direito (ou esquerdo, como preferir) na nova época. O secretário-geral do PCP foi particularmente eficaz em explorar a grande fragilidade deste Governo (a Saúde, sempre a Saúde) e em falar sobre a chaga dos baixos salários em Portugal, sobretudo entre os mais jovens. Conseguiu falar com linguagem simples e certeira para o seu eleitorado e simpatizantes — e era isso que estava verdadeiramente em causa neste debate. Como não houve tempo para falar sobre o projeto de sociedade que tem para o país, também não houve tempo para estragar a pintura. A guerra na Ucrânia foi o último tema a ser discutido — e ainda bem para Raimundo, que já caminhava nova e alegremente para o abismo. Montenegro, que esperava seguramente um teste mais fácil esta noite, sacudiu a pressão no caso Spinumviva, atrapalhou-se com a questão da Saúde, interrompeu mais do que necessário e deixou uma frase que deve (ou deveria) arrepiar o eleitorado de direita que votou na AD à espera de um bocadinho mais de reformismo e menos continuidade. “É cada vez mais difícil para um comunista não votar na força política que está hoje a liderar a governação”. Importa-se de repetir?

André Ventura (Chega)-Inês Sousa Real (PAN)

 Ana Sanlez — Inês Sousa Real e André Ventura têm muito a separá-los (e também algumas coisas a uni-los, ainda que não o admitam). Ventura partiu com alguma vantagem neste debate, pelo simples facto de os temas escolhidos serem as bandeiras do partido, e quando não são Ventura consegue puxá-los para si. Ponham corrupção, castração química de pedófilos e imigração (que mesmo quando não é tema para Ventura passa a ser) em cima da mesa e é provável que Ventura ganhe o debate. Ou pelo menos que tenha mais argumentos, ainda que sejam sempre os mesmos. Inês Sousa Real conseguiu ir nivelando os ataques e foi resistindo às interrupções constantes do líder do Chega com alguma segurança. Mesmo quando a discussão se tornou sobre o amor que ambos têm aos animais. Teve a sua maior demonstração de fraqueza quando quis mostrar que não é de esquerda nem de direita. Destaque para o facto de André Ventura ter conseguido aguentar 10 minutos até dizer a palavra “bandalheira” e de Inês Sousa Real só nos ter relembrado uma vez que o PAN foi o partido da oposição que mais propostas conseguiu aprovar no parlamento.

Filomena Martins — André Ventura não consegue vencer Inês Sousa Real. No ano passado foi ela quem lhe causou maior desgaste. Este ano, a líder do PAN esteve muito distante desse debate em que ‘calou’ o líder do Chega: culpa da própria e do encolhimento do partido. Sousa Real desfoca-se muito em vez de se centrar nas bandeiras com que o PAN cresceu: ambiente, alterações climáticas e animais, e também sem ter este desvio ideológico constante e difícil de compreender, que tanto o colam à direita como à esquerda. Mesmo assim, a primeira frase, que foi repetindo exaustivamente, colou Ventura à cadeira: “O Chega tem de parar de mentir às pessoas, o André tem de parar de mentir”. Depois ser a última, e elencar uma lista de medidas que o Chega chumbou, deu-lhe a pequena vantagem final. Porque, na verdade, André Ventura nunca conseguiu marcar novas posições que lhe venham a valer votos: sobre segurança, disse o que sabemos; sobre imigração, disse o que sabemos; sobre coligações, disse o que sabemos. E ainda misturou animais com ciganos, falou de animais vegetarianos e não conseguiu justificar o apoio às touradas, numa confusão de temáticas incompreensível. Onde é eficaz, é eficaz. Mas está em perda. E sabe-o.

Leonor Riso — Imigração, perceção de insegurança, criminalidade: à custa de algumas interrupções e apartes, André Ventura dominou o debate com Inês Sousa Real. O líder do Chega foi acusado várias vezes de mentir, mas concordou com a rival quanto à violação tornar-se crime público, à crise da habitação e ao aumento do custo de vida. Ventura disse que as mulheres não eram “instrumentos”, mas ficou algo desarmado quando Sousa Real o tratou por tu e recordou os mugidos de vaca dirigidos a deputadas. “Já me chamaram bem pior”, respondeu Ventura, atirando que “ser mulher e querer vitimizar-se” era uma forma de fazer política. Houve ainda tempo para repetir um chavão de há um ano: “A Inês não gosta mais de animais do que eu.” O outro protagonista foi Montenegro, que chegou quando Ventura perguntou a Sousa Real se seria capaz de comprar uma casa a pronto em Lisboa — ela concedeu ao adversário que também não —, e que pode ter ouvido que “nunca é nunca” quanto a acordos entre AD e Chega até que haja “clareza” e “transparência”. Será?

Luís Rosa — Enquanto André Ventura e Inês Sousa Real se digladiavam pelo título “quem é o campeão da proteção animal”, a minha cadela dormia profundamente. Entre os “milhões” de animais “abatidos por motivos religiosos” que o PAN supostamente apoia (denunciou Ventura e Sousa Real desmentiu), os “cavalos e os touros na arena” (que Sousa Real quer defender ao proibir as touradas, ao que Ventura respondia com os “cavalos” maltratados pelos “ciganos” que o PAN supostamente não defende) e um duelo sobre quem apoiava mais as associações de proteção de animais — quase que perguntei à minha cadela, membro da minha família, em quem iria votar, tal foi a combatividade com que os dois candidatos lutavam pelo seu voto. O problema é que o meu animal dormia tão profundamente que até ressonava — feliz por não ter que ouvir um debate entre um Ventura que tenta suster a descida do Chega nas sondagens e uma Sousa Real que luta pela sobrevivência política nestas eleições e pode ficar fora do Parlamento. Apesar de os dois concordarem que não têm dinheiro a pronto para comprarem uma casa em Lisboa, certo é que André Ventura parece perdido no seu habitual discurso anti-corrupção (muitos eleitores de direita não compreendem a associação entre Montenegro e Sócrates) e ficou sem chão na temática da imigração com a política de controlo que está a ser implementada pelo Governo da AD. Já Inês Sousa Real tem de demonstrar a utilidade prática do PAN no sistema partidário português para ultrapassar o complexo do PRD (de Eanes) e do Partido da Solidariedade Nacional (de Manuel Sérgio) — e hoje até quase que reconheceu a acusação de ser uma simples muleta do PS e do PSD.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]