“Adoro política. Adoro serviço público. Sou inspirado pelo legado da minha família. Mas não tenho planos imediatos para me juntar ao negócio familiar”. As palavras foram proferidas por Jack Schlossberg, numa entrevista à revista de lifestyle Town and Country, em agosto de 2024. O negócio de família? A política norte-americana. Jack Schlossberg é, por parte da mãe, Caroline, neto do antigo Presidente John F. Kennedy e, portanto, herdeiro de uma das famílias mais famosas da política norte-americana e, em particular, do Partido Democrata.
Pouco mais de um ano depois de ter feito estas declarações, Schlossberg anunciou esta terça-feira à noite que é candidato ao Congresso nas eleições intercalares de 2026, pelo 12.º distrito de Nova Iorque, uma dos mais ricos da cidade. Procura, portanto, entrar efetivamente no “negócio de família”. A possibilidade de avançar com a candidatura já tinha sido posta em cima da mesa no início de setembro, dias depois de o democrata que atualmente ocupa este lugar na Câmara dos Representantes há mais de três décadas, Jerry Nadler, ter anunciado que não se irá recandidatar em 2026.
Na semana passada, o Politico noticiou, citando quatro fontes próximas do processo, que Schlossberg ia mesmo avançar com a candidatura mas esta só foi formalizada esta terça-feira, com uma publicação nas redes sociais. “Este distrito deve ter um representante que consiga aproveitar a criatividade, a energia e o dinamismo deste distrito e traduzi-los em poder político em Washington”, declarou num vídeo. A mensagem é muito diferente daquelas que costuma deixar nas redes sociais, onde soma mais de um milhão de seguidores entre várias plataformas e é conhecido pelo tom provocador e controverso do seu conteúdo.
Contudo, o apelido Kennedy pode não ser suficiente para assegurar a eleição. O anúncio de Nadler motivou múltiplas candidaturas — o Politico contabiliza uma dezena de possíveis candidatos ao lugar vazio, além de Schlossberg — o que faz prever umas eleições “sobrelotadas”, em que Schlossberg não irá contar com o apoio, relevante, do seu incumbente. Os seus opositores consideram que a fama nas redes sociais ou a herança familiar não é suficiente para preencher o vazio no seu currículo.
Por outro lado, as redes sociais e a juventude — tem apenas 32 anos — podem ser trunfos num Partido Democrata, que vê na renovação geracional do Partido e na captação do voto dos jovens alguns dos seus maiores desafios internos atuais. Quanto ao legado familiar, o próprio herdeiro reconhece o peso e a importância que tem para ele, mas recusa tratamento especial por causa do apelido. “Eu sempre estremeci quando oiço a realeza associada à nossa família”, declarou em entrevista ao New York Times por ocasião do anúncio da candidatura.
Herdeiro, influencer e agora opositor ao Presidente (e ao tio)
John “Jack” Bouvier Kennedy Schlossberg nasceu em janeiro de 1993, o único neto rapaz de JFK e Jacqueline Kennedy Onassis, o casal mais célebre de uma família profundamente envolvida na política norte-americana e em infortúnios que levaram à crença de estarem amaldiçoados. Schlossberg cresceu no bairro de Upper East Side em Nova Iorque e frequentou um colégio privado para rapazes no Upper West Side. O percurso diário de autocarro entre os dois bairros foi lembrado por Schlossberg no seu vídeo de anúncio de candidatura, como prova das suas raízes nova-iorquinas.
Licenciou-se na Universidade de Yale e fez um curso duplo de Direito e Economia em Harvard e estagiou sob a alçada do então senador e amigo da família, John Kerry — mais tarde secretário de Estado. A experiência política formal de Schlossberg terminou aí. Depois, realizou o exame de acesso à ordem em Nova Iorque, passando na primeira tentativa. “Tive uma pontuação de 332 no estado de Nova Iorque o que me coloca no 1% no topo das pessoas que fizeram o teste”, gabou-se nas redes sociais, um ano depois de ter feito o exame.
As eleições presidenciais de 2024 catapultaram-no para a fama. Tornou-se correspondente político da Vogue e escreveu sete textos de opinião na revista e discursou na Convenção Nacional Democrata em apoio a Kamala Harris. Nas redes sociais afirmou-se como um crítico aceso de Donald Trump, publicando vídeos e mensagens provocadoras e muitas vezes condenáveis contra o Presidente. O tom utilizado valeu-lhe críticas pela falta de institucionalidade, mas Schlossberg afirma que há uma estratégia comunicacional no seu estilo.
“Em primeiro lugar, se alguém acha que sou louco porque viu um dos meus vídeos, isso significa que viram os meus vídeos, o que significa que obtiveram informação sobre a administração Trump e as suas política que podiam não ter obtido de outra forma. Em segundo lugar, eu confio nas pessoas. Confio que as pessoas percebem o que se está a passar”, argumentou ao New York Times.
Não é o único a utilizar esta estratégia. A MSNBC destaca um outro reputado político democrata que, do outro lado do país, recorre a “mensagens ligeiramente tresloucadas ou dilacerantes nas redes sociais dirigidas a Trump e ao mundo MAGA, muitas vezes em maiúsculas e com pontuação exagerada”: o governador da Califórnia Gavin Newsom. O combate de Newsom a Trump não passa apenas pelo seu discurso, mas por um combate mais concreto. Foi ele que impulsionou a recentemente aprovada reformulação dos distritos eleitorais da Califórnia, de forma a maximizar a eleição de representantes democratas no estado — uma medida que surgiu depois de o Partido Republicano ter feito, com o apoio de Trump, o mesmo no Texas. O californiano tornou-se, assim, uma das figuras mais proeminentes dos democratas a nível nacional.
O combate de Schlossberg à atual administração norte-americana não é apenas uma forma de proteger o legado de luta pelo serviço público que o avô, JFK, e os tios-avôs, Teddy e RFK, protagonizaram — “as gerações de norte-americanos e nova-iorquinos que lutaram e se sacrificaram para construir este país”, como o próprio definiu à MSNBC. A sua candidatura tem também uma vertente familiar mais direta, já que o tio, Robert F. Kennedy Jr. é membro da administração Trump, onde lidera o Departamento da Saúde e Serviços Humanos.
A fuga de RFK Jr. do Partido Democrata para o Partido Republicano, mais particularmente para o círculo próximo de Donald Trump e o movimento MAGA, criou uma cisão inédita no seio da família Kennedy e uma oposição direta do secretário ao sobrinho. Por oposição ao tio — e ainda que não goste da classificação de família real ou do título de “príncipe” —, Schlossberg procura honrar o legado familiar com a sua campanha. A homenagem ao avô acontece de forma “orgânica”, fruto da sua admiração por um homem que nunca conheceu mas que “quebrou o molde” da política nos Estados Unidos, declarou à CNN.
▲ Schlossberg opõe-se firmemente ao Presidente, mas também ao tio, RFK Jr.
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A “gerontocracia” do Partido Democrata e o ímpeto para uma renovação geracional em Nova Iorque
Jerry Nadler foi eleito representante pelo estado de Nova Iorque em 1992. Desde aí, esteve sentado de forma ininterrupta na câmara baixa do Congresso de forma ininterrupta, ainda que tenha sido eleito por vários distritos ao longo dos anos. No início de setembro deste ano, anunciou que não se iria recandidatar a um 18.º mandato. “Ver [o que aconteceu com] Biden disse mesmo alguma coisa sobre a necessidade de renovação geracional no partido e acho que quero respeitar isso”, declarou então ao New York Times. Um sucessor mais jovem “pode fazer melhor, pode ajudar-nos mais”, acrescentou.
A desistência de última hora de Joe Biden da corrida presidencial de 2024, pressionado por várias figuras cimeiras do Partido, e a consequente derrota, abriu uma discussão entre os democratas sobre a necessidade de renovação dos seus quadros. Esta semana, o tema voltou a ser alvo de escrutínio quando oito senadores democratas apoiaram o acordo proposto pelo Partido Republicano para pôr fim à paralisação governamental. Sete dos oito democratas que votaram ao lado dos republicanos já passaram a idade da reforma nos Estados unidos, estabelecida nos 67 anos, destaca o New York Times.
“Este é o problema da gerontocracia. Quando se tem líderes mais velhos que nunca vão enfrentar uma reeleição, tomam-se decisões que estão desconectadas daquilo em que os eleitores acreditam”, criticou Amanda Litman, líder do grupo “Run for Something” que apoia candidaturas de jovens progressistas a cargos públicos, ao jornal norte-americano.
Porém, a juventude não é um fator suficiente para Nadler, de 78 anos, apoiar Schlossberg. Questionado pela CNN ainda antes do anúncio oficial sobre a possibilidade de o seu lugar ser ocupado pelo herdeiro da dinastia Kennedy, Nadler aproveitou para deixar críticas ao candidato. “Não há nada particularmente bom ou mau em um Kennedy ficar com o meu lugar. Mas o Kennedy, ao contrário de Schlossberg, deve ser alguém com um registo de serviço público, de conquistas [no setor] público e ele não tem isso”, declarou. Com a corrida ainda a começar, a CNN aponta que o apoio do incumbente deverá ir para o deputado estadual Micah Lasher, de 43 anos, que é seu protegido e antigo assessor.
▲ Jerry Nadler, um nos nomes mais importantes do Partido Democrata, vai deixar o Congresso ao fim de 33 anos
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Já Jack Schlossberg desvaloriza a questão da idade. Ao New York Times, nota que o avô JFK e o seu irmão Teddy chegaram à política quando eram mais novos do que ele é agora. JFK tinha 29 anos quando foi eleito representante, Teddy 30, quando chegou a senador. “Nem sempre [o Partido] foi só pessoas velhas, a velha guarda“, ressalvou. No entanto, recusa fazer uma campanha baseada na sua juventude.
“É tempo de uma nova geração de americanos darem um passo em frente e fazerem o que podem fazer pelo seu país. E não acho que deva ser só sobre a idade de alguém. Deve ser especificamente sobre candidatos jovens — candidatos de qualquer idade — que compreendam políticas e como competir neste clima político, que é tóxico”, elaborou à MSNBC.
Em Nova Iorque, uma dinastia caiu para um progressista. Schlossberg é herdeiro, mas progressista
Millenial, nova-iorquino e com uma presença ativa nas redes sociais. A caracterização de Jack Schlossberg torna a comparação com o mayor-eleito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, quase inevitável. Além disso, Schlossberg apoiou ativamente a candidatura do democrata socialista, em vez de Andrew Cuomo. No entanto, entre os atuais adversários do herdeiro Kennedy, há quem o tente colar ao antigo governador do estado de Nova Iorque, filho de um democrata que ocupou o mesmo cargo.
“No que toca ao Jack, os nova-iorquinos acabaram de votar para acabar com uma dinastia política com um passado histórico e um presente conturbado. Vamos ver como é que eles se sentem sobre outra [dinastia]”, declarou Alex Bores, deputado estadual de Nova Iorque de 34 anos que também concorre ao lugar de Nadler, ao New York Times. No seu discurso de vitória, Mamdani exaltou o fim dessa mesma dinastia. Mas as semelhanças entre Cuomo e Schlossberg não são apenas negativas.
O 12.º distrito de Nova Iorque, a que concorre Schlossberg, é uma das zonas mais “glamourosas” da “Big Apple”. Dentro das fronteiras do distrito fica o Empire State Building, a sede das Nações Unidas, a Times Square ou o Central Park. Já o bairro mais emblemático do distrito é o Upper East Side, onde Jack cresceu e viveu a maior parte da vida. Ora, nas eleições da semana passada, o Upper East Side deu a vitória a Andrew Cuomo, com 60% dos votos. Uma imagem mais abrangente de toda a cidade permite ver que o bairro foi um reduto moderado em Manhattan, onde Mamdani venceu a maior parte das secções de voto. Ou seja, no Upper East Side, o legado de Cuomo funcionou a ser favor.
Além disso, a comparação entre Schlossberg e Mamdani falha numa outra dimensão: a relevância dada ao combate à administração federal. No vídeo de apresentação da campanha, Schlossberg identifica o “clientelismo” de Donald Trump “e não o capitalismo” como culpado pela “crise” e pelo “ponto de viragem” que os Estados Unidos ultrapassam. A mudança no atual estado do país, diz, começa com “o Partido Democrata recuperar o controlo da Câmara dos Representantes” para poder fazer frente a Donald Trump.
A campanha de Mamdani foi bem-sucedida por ter apresentado ideias concretas para resolver problemas e não apenas por se apresentar como uma campanha anti-Trump. Uma análise da CBS aos resultados das eleições da semana passada revela que o número de pessoas que diz ter votado em Mamdani como forma de se opor a Trump é maior entre eleitores consistentemente democratas — no caso em análise, que votaram em Kamala Harris nas presidenciais e em Mamdani nas autárquicas. Ou seja, 55% dos eleitores que votaram em Mamdani e Harris votaram em Mamdani como forma de oposição a Trump. O número não passa dos 30% quando se olha para os eleitores que votaram em Mamdani mas não em Harris.