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Rapazes são mais avessos à leitura do que as raparigas: 41% só lê um livro se for obrigado. No caso delas, o valor desce para metade e fica nos 19,9%

Rapazes são mais avessos à leitura do que as raparigas: 41% só lê um livro se for obrigado. No caso delas, o valor desce para metade e fica nos 19,9%

PISA. Um terço dos alunos só lê se for obrigado — e quem não lê não consegue aprender /premium

O PISA 2018 focou-se na leitura, algo que 22% dos alunos de 15 anos considera uma perda de tempo. Não saber ler é o principal motivo para os chumbos logo no 2.º ano — e o início de uma bola de neve.

Ler em Portugal ainda não convence os estudantes. Um terço dos alunos de 15 anos afirma que só lê se for obrigado e 22% diz que ler é uma perda de tempo. Os valores são ainda maiores quando se olha apenas para as respostas dos rapazes, que sobem para 41% e 31,2%, respetivamente. Já entre as raparigas, metade (53,3%) diz que gosta de falar com outras pessoas sobre livros e quase outro tanto, 45,5%, diz que ler é um dos passatempos preferidos. Os rapazes? Ficam pelos 22,9% no gosto de conversar sobre literatura e nos 18,8% quando a pergunta é sobre os passatempos preferidos. Estas são algumas das conclusões do PISA 2018, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos da OCDE, que é feito de três em três anos, e que este ano se focou na competência da leitura. Os resultados foram divulgados esta terça-feira.

Em Portugal, um estudo coordenado por Maria de Lurdes Rodrigues mostra que não saber ler é o principal motivo para as crianças chumbarem logo no 2.º ano — o início de uma bola de neve. Chumbar na primária é quase garantia de que haverá outras retenções ao longo do percurso académico, e um caminho de repetência leva ao ensino profissional. Daqui, a percentagem de jovens que segue para o ensino superior é muito baixa e, sem esse canudo, também é maior a probabilidade de ter uma vida profissional marcada por baixos salários e precariedade.

A maioria dos jovens com percursos de insucesso vem de meios sócio-culturais baixos e são filhos de pais que, também eles, tiveram percursos escolares complicados que conduziram a empregos precários e à pobreza, lembra o antigo ministro Eduardo Marçal Grilo, numa conversa com o Observador antes de serem conhecidos os resultados do PISA. O antigo governante descreve uma pescadinha de rabo na boca chamada leitura que só termina quando o primeiro membro da família aprende a ler fluentemente.

Por isso, também Nuno Crato tem uma ideia muito clara sobre o assunto: “Não pode haver nem uma criança com dificuldade de leitura e isto é uma coisa que ainda não se percebeu em Portugal.” O professor e antigo ministro da Educação tem dificuldade em aceitar de ânimo leve outros números, estes da UNESCO, que mostram que no mundo inteiro 56% dos jovens de 15 anos têm dificuldades extremas em ler frases de um texto simples.

“Mais de metade destes jovens de 15 anos não sabe ler e relativizamos os números porque estamos a falar do mundo inteiro e são médias. Mas, quando se olha para a Europa, o valor é de 19%”, diz Nuno Crato, recordando os números do PISA anterior, de 2015. Para 2018, o relatório mostra a média da OCDE é de 22,6% para essa realidade.

"Está mais do que consolidado, em todos os estudos e na literatura, que a leitura é uma peça fundamental para o desenvolvimento de todas as aprendizagens. Sem a capacidade de ler — que não é apenas a mecânica de ler, é também de perceber e de, posteriormente, utilizar a informação que se consegue obter com a leitura para outras finalidades — vamos sempre ser pessoas com muitas limitações, quer como estudantes quer como cidadãos."
Hélder Sousa, antigo presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE)

Desde o relatório original, os alunos portugueses têm vindo a melhorar as suas competências a leitura, matemática e ciências e apesar de, em 2015, terem ultrapassado a média da OCDE, só conseguiram subir do nível 2 para o nível 3, numa escala que termina no 6. Em 2018, não houve alterações. A pontuação portuguesa caiu ligeiramente, sem significado estatístico, mantendo-se dentro da média.

O nível 2 em que nos mantemos é considerado o mínimo para exercer uma cidadania ativa, ou seja, os estudantes portugueses não passam de um nível médio, lembra Hélder Sousa, antigo presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE). É isso que acontece com a esmagadora maiorias dos países participantes: a média de literacia dos seus alunos não é suficiente para elevar as suas regiões ao nível 4.

Em Portugal, há um padrão que se mantém: os alunos no 10.º, o ano expectável para a sua idade, têm resultados muito acima dos daqueles que frequentam o 7.º, o 8.º ou o 9.º (e que têm um chumbo ou mais no seu percurso). Por outro lado, os alunos com mais retenções que vêm de famílias e de zonas do país mais carenciadas eram, em 2012, eram 90% e quase metade dos que não frequentaram o pré-escolar acabam também por ficar retidos.

“O problema da média é que esconde os alunos extremamente bons e esconde os outros com fragilidades muito graves, que não aprenderam, e que a escola não os fez aprender”, sublinha Hélder Sousa.

Meta para 2020 é de que (só) 15% dos jovens tenham dificuldades a ler

“Uma das metas da Europa para 2020, e uma das que se fala menos, é a de que apenas 15% dos jovens tenham dificuldades de leitura nesse ano. Apenas? Isto não é ambicioso, isto é triste. Em Portugal, que tem vindo a melhorar nos últimos anos, ainda temos um número triste, 17,2%, e que mostra bem o que deve ser feito”, defende Nuno Crato, que, atualmente, dirige a “Iniciativa Educação”, um projeto privado da família Soares dos Santos e cuja prioridade é ajudar todos os alunos a ler. O programa “AaZ – Ler Melhor, Saber Mais” já está a funcionar em 25 escolas de Gondomar, Porto e Açores (São Miguel e Santa Maria), zonas escolhidas de acordo com o PISA por terem piores resultados na leitura.

A fatia de que fala o antigo ministro de Educação de Pedro Passos Coelho é a dos alunos que estão abaixo do nível 2 na escala do PISA e que atingem apenas os níveis mais básicos do conhecimento, os níveis 1a, 1b ou nem isso. E, essa fatia, Portugal não foi capaz de engrossar: desde 2009 que o sistema educativo tem vindo a aumentar os seus alunos de topo (nível 5 ou superior), mas sem um crescimento proporcional dos que estão na base da pirâmide.

"O nosso vocabulário é enriquecido não pelo diálogo, mas pela leitura. Com um vocabulário pobre de palavras conseguimos falar com uns com os outros, mas sem vocabulário não conseguimos entender o que lemos, não conseguimos refletir." 
Marçal Grilo, antigo ministro da Educação

O relatório de 2015 apontava Portugal como uma das 14 economias com esta performance e onde “as melhorias significativas se concentraram entre os melhores estudantes”, aumentando o “fosso entre os resultados dos melhores e dos piores alunos”. A conclusão é simples: o sistema educativo está a conseguir ajudar os bons alunos a serem ainda melhores, mas não consegue resolver o problema dos que chumbam. No topo, estão 7,5% dos estudantes.

Marçal Grilo, ministro da Educação de António Guterres, pede mais avidez nas metas da UE. “Temos condições para poder melhorar esse número, esses 15%. Devemos ser ambiciosos.”

Tolerância zero pede também a reitora do ISCTE, Maria de Lurdes Rodrigues. “A ambição tem de ser maior. Tem de ser de 100% dos alunos a saberem ler, tem de ser uma política de tolerância zero com as dificuldades de leitura. Claro que haverá sempre uma margem de jovens que, por razões diversas, não aprendem a ler com segurança, mas tem de ser uma percentagem residual.” Por isso, diz continuar a defender programas que incentivem os jovens a ler, como o que foi criado em 2006 durante o seu mandato de ministra da Educação (no Governo de José Sócrates).

“Continuo a defender a existência de um Programa Nacional de Leitura, que devia ser reforçado. E esse reforço tem de começar logo desde os primeiros anos de escolaridade para garantir que no final do 1.º ciclo todas as crianças em Portugal sabem ler”, argumenta a reitora.

Os portugueses sabem ler?

Feitas as contas, segundo os dados de 2015, temos 17% de estudantes de 15 anos que não conseguem ler e interpretar uma frase simples sem dificuldade e 7,5% que o fazem com um grande grau de complexidade.

Com base nestes números podemos dizer que os alunos portugueses dominam a leitura? “Não dominam a leitura, mas, do ponto de vista dos padrões internacionais, estamos melhor posicionados no 4.º ano do que no último ciclo”, defende Hélder Sousa, lembrando os resultados do PIRLS, estudo internacional que avalia a capacidade de leitura dos alunos do 4.º ano.

“No PIRLS, os nossos alunos têm uma performance claramente acima da média do estudo, mas é importante perceber que no 1.º ciclo a retenção não é tão significativa como daí para a frente. Quanto chegamos aos alunos de 15 anos, somos medianos. O que se percebe é que do 1.º ciclo para a frente a escola não acrescenta qualidade, porque os alunos acabam por ter uma performance menos boa”, defende o antigo presidente do IAVE, muito crítico do atual sistema educativo, que acusa de ser superficial.

"É preciso que a franja de alunos que revela estes problemas de leitura seja cada vez mais diminuta. Quem não sabe interpretar um texto vai ter dificuldade nas outras disciplinas. As escolas têm de estar mais atentas e tem de ser reforçada a atenção que se dá à leitura. Poderia haver mais créditos horários para esse efeito, mas nas escolas já direcionamos centenas de horas para os apoios a esses alunos."
Filinto Lima, presidente da ANDAEP, associação nacional de diretores de agrupamentos e escolas públicas

Apesar disso, Hélder Sousa lembra que Portugal é dos poucos países que tem evoluído em todos os domínios. Para conseguir ir mais além, defende ser preciso a transformação da sala de aula, fundamental para alavancar a capacidade de aprendizagem dos alunos. “Ela existe”, refere. “Os nossos estudantes têm capacidade para aprender como os da Finlândia, ou, se quisermos ser mais ambiciosos, como os países da Ásia”, aqueles que normalmente aparecem melhor posicionados nos estudos internacionais.

Maria de Lurdes Rodrigues não podia estar mais de acordo. “Se alguns países conseguem que todos os seus alunos saibam ler, e se não há uma distribuição de jovens mais inteligentes em certos países, não há razão para não o conseguirmos fazer. Existe uma grande maioria de jovens a quem é possível ensinar a ler com segurança. Há países que conseguem otimizar essa competência e eu gostava que o meu país tivesse essa ambição.”

Leitura, o legado para as gerações mais novas

Atrás de um chumbo está sempre um aluno que não aprendeu a ler. Durante o estudo “Aprender a Ler e a Escrever em Portugal”, a equipa da reitora do ISCTE — que contava também com outra antiga ministra da Educação, Isabel Alçada — tentou perceber até que ponto a aprendizagem da leitura explicava o insucesso escolar nos primeiros anos de escolaridade. As respostas dos professores foram claras: os alunos não aprendiam a ler e, por isso, chumbavam. “Quando perguntávamos aos professores por que é que aquele aluno chumbou, a resposta era: ‘Não aprendeu a ler. Não atingiu o nível’, explicou a propósito do estudo ao Observador, altura em que defendeu que ler devia ser desígnio nacional.

A sua opinião não mudou desde então e acredita que as dificuldades da aprendizagem da leitura estão na base do insucesso escolar posterior dos estudantes. Mesmo quando aprendem a ler, se não o fazem com segurança, com fluidez, os jovens irão ter dificuldades que se vão prolongar ao longo do percurso académico, defende.

“A leitura é um legado que podemos deixar às gerações mais novas, ler é dar-lhes a capacidade de aprenderem mais — e não estou a falar de ensinar — é a competência que lhes permite continuar a aprender”, diz Maria de Lurdes Rodrigues.

Ler é o único caminho para o conhecimento

“A leitura é aquilo que permite aos jovens progredirem em tudo. Um jovem que tem capacidade de leitura rapidamente multiplica a sua perceção do mundo e a partir daí a sua capacidade de aprendizagem”, diz Nuno Crato.

O professor lembra que cerca de 80% das palavras que adquirimos vêm da leitura, principalmente da que é feita na escola e não das conversas que temos em casa. “Quando estamos a falar não dizemos ‘homogéneo’, dizemos ‘tudo igual’. Não usamos ‘portal’, antes ‘portas de entrada’. Na conversação não usamos palavras que enriquecem o nosso pensamento, a nossa capacidade de aprender as coisas.”

"Continuo a defender a existência de um Programa Nacional de Leitura, que devia ser reforçado. E esse reforço tem de começar logo desde os primeiros anos de escolaridade para garantir que no final do 1.º ciclo todas as crianças em Portugal sabem ler. "
Maria de Lurdes Rodrigues, reitora do ISCTE e antiga ministra da Educação

Marçal Grilo acrescenta um ponto a esta ideia, sustentada por estudos que mostram que crianças a quem os pais leem cinco livros por dia entram no ensino pré-escolar tendo ouvido mais 1,4 milhões de palavras do que aquelas a quem nenhum livro foi lido. A investigação da Ohio State University mostra que basta a leitura de um livro por dia para as crianças até aos 5 anos terem ouvidos mais 290 mil palavras do que as restantes. “O nosso vocabulário é enriquecido não pelo diálogo, mas pela leitura. Com um vocabulário pobre de palavras conseguimos falar uns com os outros, mas, sem vocabulário, não conseguimos entender o que lemos.”

Motivos não faltam para o antigo ministro da Educação dizer que não pode ser mais entusiasta sobre a leitura. A resposta, quando lhe perguntam sobre a importância de ler, é simples: “A leitura, ser leitor, é uma coisa fundamental. Quando vou falar às escolas, digo sempre aos professores: transformem os vossos alunos em leitores. O mundo dos livros é fantástico.”

Para conseguir esse feito, e até para as escolas colmatarem falhas culturais de algumas famílias, Marçal Grilo defende que as bibliotecas escolares são muito importantes para estimular os hábitos de leitura dos jovens, desde que tenham vida e responsáveis com muita imaginação que consigam atrair atrair estudantes para a leitura. “Basta ver uma casa em que não há nenhum livro. A criança está desamparada do lado cultural”, diz, lembrando que o papel da escola também é o de ser elevador social.

Quem nunca leu que atire a primeira pedra

Esse lado fundamental da leitura, como base de todas as aprendizagens, é consensual. João Lopes, professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, resumiu bem a ideia durante a apresentação do projeto “AaZ – Ler Melhor, Saber Mais”, por si coordenado: o 1.º e o 2.º ano são para aprender a ler, os anos que se seguem são para ler para aprender.

“A leitura é uma competência essencial para aceder ao conhecimento, diria que até mais do do que a escrita. É a competência que nos permite aprender”, reforça Maria de Lurdes Rodrigues.

Hélder Sousa lembra que não é por acaso que a leitura é o primeiro foco de todos os países que pretendem melhorar os seus sistemas de ensino. “Está mais do que consolidado, em todos os estudos e na literatura, que a leitura é uma peça fundamental para o desenvolvimento de todas as aprendizagens. Sem a capacidade de ler — que não é apenas a mecânica de ler, é também de perceber e de, posteriormente, utilizar a informação que se consegue obter com a leitura para outras finalidades — vamos sempre ser pessoas com muitas limitações, quer como estudantes quer como cidadãos.”

"Uma das metas da Europa para 2020, e uma das que se fala menos, é a de que apenas 15% dos jovens tenham dificuldades de leitura nesse ano. Apenas? Isto não é ambicioso, isto é triste. Em Portugal, que tem vindo a melhorar, ainda temos um número triste, 17,2%, e que mostra bem o que deve ser feito."
Nuno Crato, diretor da "Iniciativa Educação" e antigo ministro da Educação

Há uma ideia romântica de que ler fluentemente é uma coisa mecânica, acrescenta Nuno Crato, e de que não vale a pena o mecanismo, o que interessa é o compreender. Para si, essa é uma ideia completamente errada e recorda que a palavra são três coisas: a escrita (grafismo), a fonologia (o dizer) e a semântica. “Quando conseguimos descodificar a palavra, estamos prontos para aprender o significado. Se não conseguimos escrever, nem ler, o conceito fica perdido na oralidade. Se conseguirmos ler fluentemente, compreendemos melhor. Esta oposição entre ler e perceber é errada. Se tivermos melhor fluência de leitura, conseguimos perceber melhor as coisas e é isto que o romantismo pedagógico não percebe: a fluência dos automatismos ajuda a compreensão das coisas.”

O que é isso de saber ler?

“A leitura não é apenas a descoberta do fonema e da letra, é também compreender para que é que ela serve, associá-la a coisas agradáveis. Em alguns casos, as crianças associam a leitura a uma coisa desagradável: está ligada à conta que chega e que tem de ser paga, a um papel para ir a tribunal. É importante que na escola se crie a associação a algo agradável e isso pode ser conseguido através da biblioteca ou da hora do conto lida pela educadora”, defende Maria Emília Brederode.

E há pequenas coisas que se podem fazer logo no pré-escolar, sublinha. Não é preciso aprender a ler, garante, mas pode enviar-se recados aos pais, escrever cartas, assinar o próprio nome, ter muitas palavras associadas a objetos na sala de aula.

Filinto Lima, presidente da ANDAEP, associação nacional de diretores de agrupamentos e escolas públicas, lembra que o objetivo do pré-escolar não é o de ensinar a ler. “A leitura começa no 1.º ano e é nesse momento que essa competência deve ser desenvolvida, para ser sedimentada ao longo do 1.º ciclo. Temos alunos, cada vez menos, que chegam ao 5.º ano e não conseguem ler em voz alta, interpretar um texto ou falar em público.” Por isso, a associação de diretores defende que se dê mais atenção a este problema e que seja atacado logo no 1.º ciclo.

"A leitura não é apenas a descoberta do fonema e da letra, é também compreender para que é que ela serve, associá-la a coisas agradáveis. Em alguns casos, as crianças associam a leitura a uma coisa desagradável: está ligada à conta que chega e que tem de ser paga, a um papel para ir a tribunal. É importante que na escola se crie a associação a algo agradável e isso pode ser conseguido através da biblioteca ou da hora do conto lida pela educadora."
Maria Emília Brederode, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE)

Segundo o professor João Lopes, quando a intervenção é feita durante os dois primeiros anos da escolaridade obrigatória, a probabilidade de os alunos se aproximarem da média dos restantes é de 80%. Esse valor desce para metade quando a intervenção acontece durante o 3.º e o 4.º ano de escolaridade e fica nos 10% a partir do 5.º ano.

A batalha de aprender a ler tem de ser travada precocemente. “Aprender a ler é uma coisa que está muito contida nos primeiros anos de escolaridade. Em média, as crianças começam a ler aos 6 anos e é nessa altura que é preciso um enorme esforço. Depois de se aprender a ler, é preciso perceber o que se lê. Em seguida, as crianças começam a refletir sobre o que leram e a correlacionar com o resto do mundo”, sustenta Marçal Grilo.

O problema pode surgir mais tarde, defende Maria Emília Brederode, que acredita que, com o avançar da idade, há um desligar da leitura e ela tem de ser conservada.

Para que isso não aconteça, as escolas têm de continuar a cuidar do gosto pela leitura dos alunos para que ele se perpetue até à idade adulta. Fundamental é que nenhuma criança fique sem saber ler. “É preciso que a franja de alunos que revela estes problemas de leitura seja cada vez mais diminuta. Quem não sabe interpretar um texto vai ter dificuldade nas outras disciplinas. As escolas têm de estar mais atentas e tem de ser reforçada a atenção que se dá à leitura. Poderia haver mais créditos horários para esse efeito, mas nas escolas já direcionamos centenas de horas para os apoios a esses alunos”, conclui Filinto Lima.

No imediato, o plano de ataque às retenções, que consta do programa do Governo de António Costa, pode ser um bom começo, já que os chumbos andam de mão dada com as dificuldades de leitura. “Quando falamos de retenção, esse é um debate que tem de ir mais fundo e ver o que está na base dessas dificuldades”, defende Maria de Lurdes Rodrigues. “A repetência no 2.º ano é explicada pela não aprendizagem da leitura e é uma anomalia. Podemos mesmo dizer que é uma anormalidade. Não vale a pena ter esta discussão da retenção em abstrato, o que vale é a pena discutir a causa: e ela é a dificuldade com a leitura.”

Mais do que de boas intenções, acabar com os chumbos para, em alternativa, apostar na aprendizagem dos alunos terá custos. “Neste plano que está a ser gizado para reduzir os chumbos, não basta boa vontade, é preciso também um investimento forte no combate ao insucesso e na promoção do sucesso. Para ser eficaz, implica que as escolas tenham professores muito bem formados nesta matéria, que possam ter professores de apoio, que tenham alguns psicólogos para poderem pegar nestes miúdos que tem problemas, famílias desestruturadas, grande desinteresse pela escola, desmotivação”, diz Marçal Grilo, frisando que custar dinheiro não é sinónimo de atirar dinheiro para cima das escolas.

O último alerta que deixa é que não vale de nada ir copiar exemplos ao vizinho: “Para ajudar quem tem dificuldades através do programa educativo, a escola tem de conhecer bem os alunos que tem.”

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