O objetivo é ensinar todos a ler. Todos. Para fazê-lo, a “Iniciativa Educação”, um projeto privado da família Soares dos Santos, já começou a trabalhar em parceria com 25 escolas, faltando apenas fazer o despiste dos alunos do 1.º e do 2.º ano que irão ser apoiados. A escolha irá recair sobre aqueles que tenham manifestado especiais dificuldades em aprender a ler e a escrever e que estudem em escolas de Gondomar, Porto e Açores (São Miguel e Santa Maria). Para já, os recursos disponíveis só permitem atuar nestas regiões, mas não está posta de parte a ideia de no futuro alargar a atuação a mais zonas do país.

Os contornos do programa “AaZ – Ler Melhor, Saber Mais” foram conhecidos esta terça-feira durante a apresentação da “Teresa e Alexandre Soares dos Santos — Iniciativa Educação”, o projeto chapéu que tem um orçamento de 20 milhões de euros e que pretende também olhar para o ensino profissional através do “Ser Pro”.  A iniciativa é independente de outros projetos da família, como da Fundação Francisco Manuel dos Santos, por ela fundada.

“Ler não é um ato natural, mas sim social”, argumentou João Lopes, professor da Escola de Psicologia Universidade do Minho, e coordenador do projeto AaZ, durante a apresentação no campus da Nova SBE, em Carcavelos. “É uma competência complexa, que resulta da integração de diversas outras habilidades. Este importantíssimo ato social depende, para a esmagadora maioria das pessoas, de outro ato social igualmente importante e significativo: o ensino.”

Por isso mesmo, o professor — que é também membro do conselho diretivo da “Iniciativa Educação”, liderado por Nuno Crato, antigo ministro da Educação — diz ser comum que numa aula, “alguns alunos aprendam a ler com facilidade, e outros com dificuldade”.

Sobre a dificuldade em aprender a ler, Nuno Crato, que falou antes do professor da Universidade do Minho, já tinha relembrado números alarmantes: 19,7% dos jovens europeus (17,2% em Portugal) com 15 anos têm dificuldades extremas em ler algumas palavras e frases elementares, segundo valores do PISA 2015, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos. O mesmo relatório internacional serviu para identificar as zonas do país onde havia mais problemas e maiores necessidades de intervenção, explicou, por seu lado, Inês Soares dos Santos Canas, também do conselho diretivo.

“Determinados aprendizados escolares constituem condição necessária (ainda que não suficiente) de aprendizagem de quase todas as outras. É este, inequivocamente, o caso da leitura e da escrita”, acrescentou João Lopes, dizendo que se o 1.º e o 2.º ano são para aprender a ler, os anos que se seguem são para ler para aprender. Por esse motivo, a fundação escolheu os dois primeiros anos do 1.º ciclo para trabalhar com os alunos, já que quanto mais tarde a intervenção for feita, piores resultados terá.

Segundo o professor, quando a intervenção é feita durante os dois primeiros anos da escolaridade obrigatória, a probabilidade de os alunos se aproximarem da média dos restantes é de 80%. Esse valor desce para metade quando a intervenção acontece durante o 3.º e o 4.º ano de escolaridade e fica nos 10% a partir do 5.º ano. “O desfasamento dos alunos com dificuldades relativamente aos restantes, tende a aumentar, e não a diminuir. Consequentemente, quanto mais cedo forem detetadas as dificuldades maior é a probabilidade de sucesso da intervenção”, acrescentou João Lopes.

Quando os alunos que vão integrar o programa estiverem escolhidos, um professor-tutor irá trabalhar com pequenos grupos  de cada vez, que nunca serão formados por mais do que três alunos. As sessões terão uma duração de 30 a 45 minutos e uma periodicidade de 3 a 5 vezes por semana, conforme as necessidades do estudante, e deverão arrancar em dezembro.

A avaliação do programa será constante e os próprios alunos irão ser avaliados de três em três semanas, bem como as restantes crianças das turmas em que se integram os alunos apoiados. Estas serão alvo de três avaliações ao longo do ano (no início do ano letivo, em janeiro, e no final do ano letivo). Também será feita avaliação a um grupo de controle para poder perceber se o apoio está a dar resultados ou não. “A conjugação destas avaliações permitirá perceber a trajetória dos alunos apoiados, por comparação consigo próprios e com a média das turmas em que estão inseridos”, sublinhou o coordenador do programa.

Ser Pro. Ajudar adolescentes “sem esperança”

A pensar nos alunos do secundário, a Iniciativa Educação tem também o projeto “Ser Pro”. Se o programa anterior atua junto das crianças mais novas, este é pensado para ajudar adolescentes que reprovaram, “que se sentem atrasados e sem esperança”, esclareceu Nuno Crato.  Acima de tudo, acrescentou, pretende-se apoiar quem quer concluir o secundário com uma formação prática e qualificação profissional.

O projeto tem 11 cursos e já arrancou em oito escolas nas regiões de Moura, Sousel, Setúbal, Lisboa, Sacavém, Seia, Lagoa e Salvaterra de Magos.

Isabel Hormigo, que dentro do conselho diretivo é a responsável por este projeto, explicou que um dos objetivos é aproximar escolas, municípios e empresas, ao mesmo tempo que se “prestigia o ensino profissional”, não se descurando a possibilidade de estes alunos “poderem prosseguir estudos depois de concluírem estes cursos”, ou seja, ingressarem no ensino superior.

Por último, o “Iniciativa Educação” tem no seu site um espaço, o Ed.On, dedicado à divulgação de textos sobre educação, com investigação científica e informações úteis para professores, pais e alunos.