Um amigo vai de férias e pede-lhe ajuda para cuidar do cão: passar lá em casa uma vez por dia para lhe dar comida e água, fazer uma festa e ver se está tudo bem. Alerta-o para ter cuidado e nunca deixar o portão aberto porque o animal tem tendência para fugir. Corre tudo bem até ao último dia: distrai-se, o cão foge para a estrada e é atropelado. Seria capaz de se perdoar a si próprio? E se fosse ao contrário e o cão fosse seu: seria capaz de perdoar o seu amigo?
Este exemplo é apontado num estudo que tenta perceber como se relaciona o perdão interpessoal — a capacidade de perdoar aos outros — e o autoperdão — a capacidade de nos perdoarmos a nós mesmos — e conclui que estas duas capacidades têm algumas semelhanças, mas também algumas diferenças. As pessoas com traços de personalidade mais neuróticos têm mais dificuldade em ambos os tipos de perdão, as pessoas mais amáveis e empáticas têm mais facilidade tanto no perdão aos outros como no autoperdão. E, por fim, pessoas muito conscienciosas tendem a ter mais facilidade em perdoar aos outros do que a si próprias.
Perdoar pode ser definido como o processo psicológico através do qual a vítima de uma ofensa decide, de forma intencional, reduzir ou abandonar sentimentos negativos, como raiva, ressentimento ou desejo de vingança em relação a quem a ofendeu ou causou dano, podendo até, em alguns casos desenvolver atitudes positivas, como empatia, compaixão ou benevolência.
“Perdoar implica, efetivamente, que a pessoa consiga passar por um processo longo, no qual as emoções desajustadas ou negativas, como a raiva ou o ressentimento, são transformadas em emoções e sentimentos ajustados, de forma a trazer-lhe tranquilidade e a paz interior que há tanto tempo procura”, diz Liliana Ferreira da Costa, psicóloga clínica e psicoterapeuta, investigadora no Centro de Psicologia da Universidade do Porto (CPUP), que fez o doutoramento sobre “Perdão, Autoperdão e a Sua Influência no Bem-Estar Psicológico”.
Muitas pessoas dizem querer perdoar, mas descobrem que não conseguem. Isto acontece porque o perdão não é apenas uma decisão racional, mas um ato emocional. “Quando a pessoa decide que quer perdoar, existe efetivamente uma vontade enorme em querer sentir alívio e libertar-se do peso da mágoa causada. (…) A pessoa nesta fase decidiu apenas perdoar. Uma decisão, baseada na sua convicção, contudo, a fase seguinte rege-se pelo perdão emocional”, explica a psicóloga. Esta segunda fase, em que há uma mudança genuína nos sentimentos em relação a quem magoou pode ser um processo mais demorado porque não controlamos as emoções da mesma forma que as decisões racionais. Muitas vezes pode implicar ajuda psicológica especializada.
Sem surpresa, a investigação nesta área mostra também que perdoar é tanto mais difícil quando mais grave foi a ofensa e o dano causado ou quando perdoar implica uma mudança na forma como nos vemos a nós próprios. Por exemplo, se parte de nós se define também pela dor ou pelo ressentimento.
Há também vários mitos sobre o perdão que merecem ser desfeitos. O maior de todos é a ideia de que se perdoa para o outro. É verdade que o perdão tem o outro como alvo, mas o verdadeiro propósito é interior: perdoar é, acima de tudo, uma forma de ficarmos em paz connosco próprios, de aliviar o peso que a mágoa deixa. Por isso importa sublinhar que “perdoar o outro pode não implicar uma reconciliação”, frisa a psicóloga. “Em alguns casos, o perdão pode abrir caminho à reconciliação; noutros, significa apenas libertar-se da dor e deixar de ser refém da própria mágoa.”
Isso é importante porque a investigação é clara quanto aos efeitos do perdão na saúde mental e física: “indica que existe uma relação direta entre o perdão e bem-estar, […] diminuição da autocrítica e diminuição da vergonha.”
Quando se trata de nos perdoarmos a nós mesmos, o processo de perdão implica muitas vezes reavaliar a própria história, olhar o erro de frente e não deixar que nos defina. Um estudo recente sobre autoperdão mostra que a dificuldade de nos perdoamos envolve quase sempre lidar com a culpa, com a responsabilidade e com desejo de nos voltarmos a sentir “boa pessoa”. Trata-se de conseguir conciliar duas forças contrárias: por um lado, reconhecer o erro, por outro, não permitir que isso destrua a própria identidade moral.
Os investigadores identificam também que, para muitas pessoas, o obstáculo maior está na forma como o passado permanece vivo: quando o acontecimento doloroso continua presente — como se ainda estivesse a acontecer — o perdão torna-se quase impossível. Da mesma forma, lidar com a dor apenas tentando “calar a culpa” — evitando pensar no assunto, distrair-se, seguir em frente — tende a deixar-nos emocionalmente bloqueados. Já quem se permite revisitar o episódio, falar sobre ele e integrá-lo na própria narrativa de vida tem mais probabilidades de alcançar o autoperdão. A conclusão é clara: o perdão, mesmo quando dirigido a nós próprios, é sempre um processo de reescrever a própria relação com o passado.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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