O Banco de Portugal diz que ainda não consegue dizer exatamente porquê mas é notório que as empresas portuguesas deixaram de ganhar quota de mercado nas exportações – tanto para fora da União Europeia como para os outros Estados-membros. Essas quotas estão, neste momento, a cair, sobretudo em setores mais ligados à tecnologia e de elevado valor acrescentado.
Isso “preocupa” Álvaro Santos Pereira, disse o novo governador, notando que a economia vai depender mais da procura interna – o que inclui o consumo privado, o consumo público e o investimento. Se a procura interna for puxada pelo investimento, “não tenho a mínima preocupação”, afirmou Santos Pereira, deixando implícito que veria com “preocupação” que a economia portuguesa passasse a depender, novamente, mais do consumo privado e do consumo público – regressando à tendência que existia nos anos que acabaram por levar ao programa de ajustamento económico da troika.
“Se o investimento continuar a ser robusto, e espero bem que sim, não tenho qualquer preocupação. Se voltarmos a ter uma economia baseada só no consumo, isso obviamente preocupa-me um pouco mais“, reconheceu Santos Pereira. Porém, “como temos taxas de poupança mais elevadas do que costumávamos ter e porque está a haver um desendividamento quase generalizado nas famílias, nas empresas, no Estado, isso deixa-me relativamente mais tranquilo”, acautelou.
O risco é que se mantenha a tendência de perda de quotas de mercado na exportação que se verificou este ano e que é uma inversão daquilo que aconteceu na última década e que impulsionou o desempenho da economia nos anos após o programa de ajustamento. Se as taxas alfandegárias (tarifas) e a valorização do euro face ao dólar, nos últimos meses, podem ajudar a explicar uma parte da perda de quotas no mercado global, isso não explica a descida das exportações (em termos relativos) dentro da UE.
FONTE: Banco de Portugal
“Nos últimos anos, na última década e meia, temos tido aumentos muito significativos das quotas de mercado das nossas exportações – isso tem acontecido principalmente em quase todos os segmentos mas, principalmente, nas exportações de alto valor acrescentado ou de intensidade tecnológica média ou alta”, recorda Santos Pereira, alertando que “no último ano houve uma reversão, com exceção das máquinas e equipamentos”.
O Banco de Portugal está a “investigar” de forma mais aprofundada porque é que isto está a acontecer, porque pode dever-se “a uma concorrência mais acérrima por parte de alguns concorrentes externos, como os exportadores chineses” ou pode ser “por um aumento persistente dos custos unitários do trabalho”. “Precisamos de saber o porquê“, afirmou Santos Pereira.
O governador reforçou que “a trajetória externa tem sido notável, com um aumento muito grande de quota das exportações” mas “é importante que isso continue – somos uma economia de 10 milhões, quase 11 milhões de pessoas, devíamos estar a exportar não 47% do PIB mas, sim, 70% ou 80%”. “O esforço de internacionalização da economia tem de continuar e tem de ser uma prioridade total para todos os agentes”, rematou.
“Era o que faltava”. Santos Pereira mais otimista que Centeno mas sem “interferir” com técnicos
O Banco de Portugal deixou, nesta sexta-feira, de prever um défice das contas públicas em 2025 – uma projeção controversa feita no tempo de Mário Centeno – mas continua a prever-se que as contas públicas entrem no “vermelho” já no próximo ano, em 2026, com défices crescentes a partir daí. O supervisor financeiro, agora liderado por Álvaro Santos Pereira, avisa para “uma deterioração significativa [das contas públicas] no período recente, explicada sobretudo pelas medidas de redução de impostos e pelo aumento permanente da despesa”.
Porém, questionado pelo Observador na conferência de imprensa sobre o maior otimismo das novas previsões, que coincidiu com a mudança de governador, Álvaro Santos Pereira garantiu que a mudança de governador não tem qualquer relevância para esta questão. “Era o que faltava“, disse Álvaro Santos Pereira, garantindo que não tem “o condão” de aumentar o consumo dos portugueses ou de afetar a receita fiscal, por exemplo.
O novo governador do Banco de Portugal sublinhou que as projeções são “previsões técnicas”, feitas pelo Departamento de Estudos Económicos, e que “nunca” irá “interferir” neste trabalho. “Nunca interferirei nas previsões do Banco de Portugal, disso podem ter a certeza – as previsões são técnicas e irão ser sempre técnicas, nunca vai haver interferência da minha parte”, repetiu.
Centeno há três meses sem trabalho? "Está num período de 'cooling off'"
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O Observador questionou, também, Álvaro Santos Pereira sobre a ocupação de Mário Centeno, que deixou de ser governador do Banco de Portugal há quase três meses mas continua na instituição da qual é quadro, sem cargo definido. Santos Pereira explicou que Centeno, como antigo governador, está num “período de cooling off” (ou “arrefecimento”) algo a que “tem direito, de acordo com a lei – é o que está a acontecer”.
Mário Centeno está a participar no processo de candidatura ao lugar de vice-presidente do BCE mas Álvaro Santos Pereira não quis fazer quaisquer comentários sobre isso, além de que esse tema não foi discutido no Conselho do BCE na quinta-feira.
Esta foi a segunda vez que este documento foi publicado pelo Banco de Portugal com Álvaro Santos Pereira como governador mas, quando foi apresentado em outubro não continha uma atualização das projeções orçamentais – o que é habitual tendo em conta que essa publicação coincide com a fase de negociação do Orçamento do Estado. Além disso, Álvaro Santos Pereira estava há poucos dias no cargo, pelo que não houve, então, uma apresentação pública.
Concluído o processo orçamental, e com Álvaro Santos Pereira já mais instalado no cargo, o Banco de Portugal faz previsões que são, globalmente, mais otimistas do que as feitas por Mário Centeno em junho. A projeção de um défice de 0,1% do produto interno bruto (PIB) em 2025 passa para uma previsão de um saldo equilibrado – ainda assim menos confiante do que o Governo, que aponta para um excedente das contas públicas de 0,3%.
Em 2026, as contas públicas irão, segundo o Banco de Portugal, cair num défice de 0,4% do PIB– um valor que, ainda assim, é muito menos pessimista do que aquilo que previa o supervisor financeiro com Centeno ao leme: -1,3%. Assim, Santos Pereira reconheceu que há “medidas” que se podem tomar para garantir que existe, mesmo, um superávite em 2025 ou, então, um défice menor em 2026.
Álvaro Santos Pereira defende banco de horas individual
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O governador do Banco de Portugal (BdP), Álvaro Santos Pereira, defendeu o banco de horas individual, apontando que é a favor de um modelo a nível laboral de “flexissegurança”. O governador foi questionado sobre as alterações à lei laboral propostas pelo Governo o governador disse que apenas iria comentar essa medida porque foi ele quem a introduziu quando estava no Governo.
“Defendo um modelo a nível laboral que é a flexissegurança, onde se protege muito o trabalhador, mas aumenta-se a flexibilidade laboral”, salientou. Santos Pereira disse ser “a favor de reforçar muito a proteção dos trabalhadores, mas haver maior flexibilização”, apontando que “o banco de horas individual é exatamente para permitir que os trabalhadores e empresas se possam adaptar em caso de haver muita procura”.
No Natal, exemplificou, “há muita procura e muitas vezes as horas que os trabalhadores fazem não são suficientes”, pelo que, “com a bolsa de horas individuais, permite-se que utilizem mais horas em períodos de grande procura e depois são compensadas noutros períodos”.
“Este tipo de medidas são importantes para aumentar a competitividade”, considerou, apontando que espera que “possa permanecer porque são muito importantes” para Portugal ser “uma economia competitiva”.
Para o ano seguinte, 2027, as previsões estão mais alinhadas: Centeno previa um défice de 0,9% do PIB em 2027 e, agora, faz exatamente a mesma projeção. Neste Boletim Económico, também há uma previsão para 2028, que também não é positiva: um défice de 1% nas contas públicas.
Sobre se o Governo deve tomar medidas para contrariar estas previsões de défice, Santos Pereira disse que “essa pergunta deve ser feita ao Governo” mas, nesta fase, “devido à maior pressão que existe, com as medidas dos últimos anos de maior despesa – pelo Governo e pelo próprio parlamento – e com medidas ao nível da receita, isso quer dizer que vai ser mais difícil manter excedentes orçamentais no futuro“.
“Apesar dos desafios, estou convencido de que a disciplina orçamental vai ser mantida, é fundamental que seja mantida, porque sabemos muito bem o que é que acontece quando não temos disciplina orçamental – e ninguém quer passar por essa situação novamente“, afirmou Santos Pereira, que foi ministro da Economia durante o programa de assistência financeira externa.
Álvaro Santos Pereira também um pouco mais otimista para o crescimento
Embora sejam alterações menos significativas, o Banco de Portugal está agora, também, mais otimista em relação às perspetivas de crescimento económico – o que também contribui para a melhoria das previsões do saldo orçamental.
A economia portuguesa deverá, segundo o Boletim Económico divulgado nesta sexta-feira, crescer 2% neste ano de 2025, acelerando depois para um aumento de 2,3% no produto em 2026. As projeções anteriores eram uma décima inferiores, em ambos os casos.
Para 2027, o crescimento previsto é menor do que em 2026: 1,7%, com uma pequena aceleração, depois, para 1,8% em 2028.
FONTE: Banco de Portugal
“No horizonte de projeção, o crescimento económico é mais apoiado na procura interna do que na média do período 2020–24″, diz o Banco de Portugal, acrescentando que “o PIB deverá crescer a uma taxa média anual de 2,0% em 2025–28, um valor próximo do observado em 2020–24, com contributos (líquidos de conteúdos importados) de 1,5 pp da procura interna e de 0,5 pp das exportações (1,0 pp e 0,9 pp, respetivamente, em 2020–24)”.
A procura interna beneficia da robustez do mercado do trabalho e do impulso da política orçamental e dos fundos europeus, em particular em 2025–26. Em 2027–28, o investimento perde dinamismo com o fim do PRR”, afirma o Banco de Portugal.
O Banco de Portugal nota, ainda, que “os constrangimentos demográficos sobre a oferta de trabalho implicam também menores aumentos do emprego ao longo do horizonte de projeção, com reflexos no rendimento disponível das famílias e no consumo privado”. Ainda assim, a taxa de desemprego deve permanecer “em níveis baixos” nos próximos anos, confia o supervisor financeiro.
“O abrandamento do emprego reflete as restrições ao nível da oferta de trabalho decorrentes do menor crescimento da população”, afirma o Banco de Portugal, acrescentando que se “projetam fluxos gradualmente menores de imigrantes, que assim mitigarão menos o saldo natural negativo”.