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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

PS e PSD não se entendem sobre quem deve governar no pós-eleições

Há figuras importantes do PS a sugerir que não viabilizam governo liderado por Luís Montenegro. À direita, há quem pressione PSD a impedir governação de Pedro Nuno Santos. Todos os cenários em aberto.

Um grande ponto de interrogação. A dois meses de uma corrida eleitoral a todos os títulos inesperada, ninguém sabe exatamente o que poderá acontecer depois de contados todos os votos. À direita, existem pressões para que o PSD governe em qualquer circunstância, ficando ou não em primeiro lugar, com ou sem Luís Montenegro. À esquerda, o PS vai falando a várias vozes e já admitiu tudo e o seu contrário. E, a partir do Palácio de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa, que terá sempre uma palavra a dizer no desbloquear do impasse, vai deixando um aviso: só governa quem provar que tem condições para governar.

De resto, e de acordo com o Expresso, o Presidente da República vai-se esforçando por ditar desde já as regras do jogo: só dará posse a quem oferecer reais condições de governabilidade. Não sendo exatamente claro o que quer isto dizer — era preciso que Marcelo dissesse de viva voz o que pretende exigir e confirmasse ou não esta tese —, os primeiros sinais vindos de Belém podem ter implicações nas estratégias de Luís Montenegro e, em particular, na de Pedro Nuno Santos.

Segundo o mesmo semanário, o Presidente da República quer evitar a todo custo um cenário de bloqueio total. No caso, não quererá indigitar um primeiro-ministro que seja incapaz de fazer aprovar o seu Programa de Governo no Parlamento, ficando numa espécie de limbo político até que outro Presidente esteja em condições de dissolver novamente a Assembleia e convocar eleições — algo que só aconteceria em meados de 2026. Um cenário que, à partida para estas eleições, não é assim tão exótico.

Com os dados que hoje existem, olhando para os resultados das últimas eleições e para a tendência consolidada em todas as sondagens, há um cenário-base que parece incontornável: depois de 18 de maio, haverá uma maioria de deputados de direita no Parlamento. E é partir desse cenário — partilhado genericamente por todos — que se vão fazendo contas ao dia seguinte.

Posto isto, colocam-se essencialmente três hipóteses a partir de 19 de maio. Hipótese A: Montenegro ganha mas sem maioria absoluta. Continua a recusar André Ventura e Rui Rocha é insuficiente. Mas Pedro Nuno Santos resolve a coisa e volta a viabilizar o Programa de Governo da AD.

Hipótese B: Luís Montenegro perde, vai-se embora (como sempre disse que o faria), mas o PSD arranja quem queira liderar a maioria no Parlamento. Seria a ‘geringonça de direita’. Resta saber quem: Pedro Passos Coelho tem feito saber que não está disponível para ocupar o cargo sem eleições legislativas e é difícil imaginar que outro social-democrata veria a sua legitimidade reconhecida pelos outros partidos à direita — em particular, pelo Chega.

E, finalmente, hipótese C: Pedro Nuno Santos vence, o PSD decide manter-se fiel às regras que existiam antes de 2015 e permite aos socialistas governar — pelo menos durante um ano, até o PSD estar de novo pronto a ir a votos, com outro líder e, porventura, outra orientação estratégica.

Tudo muito imprevisível, portanto. Sobretudo quando, dentro dos próprios partidos, existem opções para todos os gostos. Com uma exceção evidente: Luís Montenegro. Como contava aqui o Observador, o atual primeiro-ministro já reiterou que não governará se ficar em segundo lugar e que nunca se colocará nas mãos de André Ventura — sobretudo depois de um ano de legislatura em que confirmou as piores expectativas que tinha sobre o líder do Chega.

Esta garantia de Montenegro abre espaço a uma leitura legítima: se o líder do PSD diz que não governa se ficar em segundo lugar, isto quer dizer que Pedro Nuno Santos terá via aberta para governar caso vença as próximas eleições. Mas pode não ser assim. Não necessariamente, pelo menos. Figuras como Hugo Soares, Paulo Rangel ou Manuel Castro Almeida têm defendido, de forma mais ou menos taxativa, que deve governar quem ficar em primeiro nas eleições.

Em contrapartida, Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares, não deu a decisão como fechada e veio sugerir que, em caso de derrota da AD, será outro líder a tomar a decisão de dar ou não corpo à maioria de direita no Parlamento. Miguel Relvas, antigo braço direito de Pedro Passos Coelho, que não está exatamente em sintonia com a atual direção social-democrata, foi ainda mais taxativo: o PSD “vai ter de saber respeitar a vontade do povo” e abrir a porta ao Chega.

Acontece que esta tese — defendida por muitos à direita — esbarra sempre numa questão aparentemente inultrapassável: perante a indisponibilidade (re)assumida de Luís Montenegro para governar se perder as legislativas, era preciso encontrar no imediato alguém que o quisesse e estivesse em condições políticas de o fazer.

Pedro Passos Coelho, visto como o saca-rolhas dessa maioria de direita, deu sempre sinais de que estaria indisponível para voltar a ser primeiro-ministro sem passar pelo teste das urnas, o que baralha todas as conjeturas que se possam fazer. Não é claro, nesta altura, que exista alguém no PSD com condições políticas para substituir Montenegro nessa função e ser aceite pelos demais partidos à direita.

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Pedro Nuno Santos, por sua vez, está numa situação mais delicada. Sem a perspetiva de que venha a existir uma maioria de esquerda no Parlamento, o socialista só pode esperar ter mais um deputado do que a Aliança Democrática e esperar pela boa-vontade do PSD para chegar ao poder e governar. Não há qualquer cenário que aponte para uma possível reedição da ‘geringonça’ de 2015.

Por isso mesmo, nos últimos dias, tem sido evidente o esforço de várias figuras do PS para repor as regras que existiam até António Costa chegar ao poder. Neste caso, o socialistas contestam a legitimidade política de uma eventual ‘geringonça de direita’, por entenderem que, ao contrário do que aconteceu em 2015, não há dois mas três blocos políticos: como o Chega não conta para as contas à direita, o PSD deve viabilizar o governo de Pedro Nuno Santos. Fazer o contrário, dizem, seria ceder à extrema-direita e violar as regras do jogo.

Tudo se complica quando o partido é confrontado com o cenário da derrota. Pedro Nuno Santos não se compromete a viabilizar um governo de direita, dizendo apenas estar focado na vitória. Em contrapartida, há figuras no PS — como Pedro Siza Vieira ou Augusto Santos Silva — a defender que o partido deveria viabilizar o governo de quem ficar em primeiro lugar.

Ao mesmo tempo, Alexandra Leitão e Marta Temido vão introduzindo ainda mais camadas a um cenário já de si muito complexo: até admitem viabilizar um governo da AD, desde que não seja liderada por Luís Montenegro. Não sendo exatamente uma novidade a nível europeu, seria uma excentricidade no plano nacional. Para já, Pedro Nuno Santos não deu cobertura a este tese. Mas se esta exigência for levada ao limite, tornaria muito difícil qualquer entendimento entre os dois partidos.

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