A preferência do PS passou de um perfil de “Presidente da República com experiência e dimensão internacional” para um que “partilhe a mundividência, a matriz de valores do PS” e que tenha “capacidade de representar Portugal no Mundo”. À saída de reunião da Comissão Nacional do partido que foi marcada para discutir presidenciais, Pedro Nuno Santos só definiu o método de escolha, não ditou calendários e muito menos afunilou as possibilidades. Enquanto espera por António Vitorino e vê António José Seguro avançado no terreno, o PS tenta não fechar portas. E os apoiantes de Seguro aplaudem.
A reunião deste sábado em Setúbal foi muito participada, mas não foi das maiores enchentes socialistas. Francisco Assis, um dos apoiantes mais audíveis de António José Seguro, faz parte da Comissão Nacional, mas não marcou presença na Quinta dos Moinhos onde decorreu o encontro. Muitos autarcas socialistas também não estiveram, bem como também faltaram à chamada vários presidentes de federação. A reunião durou apenas cerca de duas horas e permitiu que Pedro Nuno Santos saísse a dizer que foi “muito pacífica”, quando sabe que o tema — ou a distribuição de apoios entre os possíveis nomes que se alinham (António José Seguro ou Vitorino) — tem trazido muita crispação interna.
PS reúne-se em busca de candidato único, mas em clima de divisão e revanchismo
Certo é que nem o adversário interno de Pedro Nuno, José Luís Carneiro, levantou problemas no decorrer da reunião. Alinhou até com a ideia de uma decisão sobre o candidato presidencial a apoiar numa reunião da Comissão Nacional do partido, o que o líder tinha advogado logo na abertura dos trabalhos: que a definição do apoio socialista seja feita naquele órgão máximo do partido entre congressos. Nem primárias, nem o referendo interno que Daniel Adrião, líder de uma corrente minoritária do partido, tinha proposto e que acabou por nem levar a votos, ao perceber a falta de apoio que tinha, transformando a proposta numa recomendação.
Seguro foi mais referido. Não se falou de Vitorino
Mas se dentro da sala onde estavam reunidos os socialistas o cenário era “pacífico”, fora ouviam-se várias questões sobre a utilidade de uma reunião da Comissão Nacional quando ainda não há candidatos claros. Lá dentro, de acordo com o que apurou o Observador, o debate foi-se fazendo, mas “ninguém levantou a voz contra Seguro”, diz um socialista ao Observador.
E entre o nome do ex-líder e António Vitorino, foi mesmo o de Seguro que apareceu melhor referenciado, com alguns socialistas a elogiarem uma eventual candidatura. Não houve expressão de apoio ao ex-diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, de acordo com as fontes ouvidas pelo Observador.
No final, o líder do partido não quis fechar o calendário da decisão, numa altura em que já se sabe que Seguro ainda levará meses a dizer se é candidato: apontou para a primavera ou para o início do verão. E também não se focou em características muito específicas do perfil de um futuro candidato. Aliás, até foi menos longe do que já tinha ido em público nesta matéria, nem perante os militantes que estavam na reunião, nem aos jornalistas, no final.
Já não referiu a importância da “experiência e dimensão internacional” do candidato que o PS venha a apoiar — como fez na entrevista que deu ao Expresso em janeiro. Uma expressão que parecia inclinar Pedro Nuno para Vitorino, tendo em conta a larguíssima experiência internacional do ex-ministro quando comparada com a curta passagem de Seguro pelo Parlamento Europeu.
Agora Pedro Nuno focou-se antes na palavra “mundividência” e na “capacidade de representar Portugal no Mundo” do futuro candidato. “Um recuo em toda a linha”, comenta um apoiante de António José Seguro, que acredita que “Seguro sai reforçado” da reunião socialista deste sábado.
E a posição de Pedro Nuno Santos voltou a agradar a essa frente no aviso que fez aos socialistas. O líder levou um pedido de serenidade aos socialistas que nas últimas semanas têm trocado argumentos publicamente sobre as presidenciais. Nenhum deles estava na sala, nem Augusto Santos Silva, que disse que Seguro diz “banalidades”, nem Ana Gomes, que diz que Vitorino é “um advogado lobista”, nem mesmo Assis, que se queixa de um ataque concertado a Seguro no PS.
O líder ditou que o “objetivo” e o “apelo” que fez é para que o PS consiga “ter uma candidatura única” na sua área política. O outro objetivo é que, até lá, consiga “poupar aqueles que são os camaradas e candidatos e potenciais candidatos da sua área a críticas que, obviamente, devem estar concentradas nos adversários, nomeadamente os candidatos do centro de direita.”
Pedro Nuno Santos quer “poupar” potenciais candidatos a Belém e nega “hesitação” no partido
Têm sido vários os elementos com relevância no partido a expressarem apoio a qualquer nome que surja desde que não seja o de António José Seguro. Incluindo na direção do partido, onde Isabel Moreira veio dizer que Seguro “não é um bom candidato” e Mariana Vieira da Silva considerou Vitorino uma aposta com maior capacidade de captação ao centro. Nenhuma das duas esteve na reunião deste sábado.
Esta linha de aversão a Seguro acabou por não ter saída nesta Comissão Nacional onde até entre os pedronunistas o Observador ouviu que pode ser inevitável que o partido venha mesmo a apoiar o ex-líder. “Não há aversão, mas também não há entusiasmo”, resumiu um pedronunista ao Observador.
A preocupação que se sobrepõe a qualquer outra discussão, nesta altura, é que o partido não se divida novamente nas presidenciais. “Quero é um candidato único“, comenta um dos participantes na reunião que explica que foi a posição mais defendida no decorrer da reunião. E outro dirigente socialista que também esteve na Comissão Nacional vai na mesma linha. Quando confrontado com a possibilidade de o PS poder mesmo acabar a apoiar Seguro — mesmo com o topo do partido menos animado com essa perspetiva — comentou: “Espero sobrar só um, se não for antes pelo menos a 23 de janeiro.”
“A candidatura presidencial é uma candidatura unipessoal, mas obviamente que terá mais força se for uma única candidatura do espaço político do Partido Socialista”, disse o líder no final da reunião. A um ano de distância, parece mais arriscado para o PS ter um candidato que, por agora, não encante por inteiro o partido, do que uma divisão que o coloque no centro do debate presidencial pelas piores razões.