Há quarenta anos, a 6 de Novembro de 1985, ninguém sabia que era o primeiro dia do que, depois, se chamou “cavaquismo”. Então, foi apenas a tomada de posse de mais um governo, num país que em 11 anos, desde 1974, já tivera 15 (6 governos provisórios e 9 constitucionais). Este, o X Governo Constitucional, era um governo minoritário do PSD, com um parlamento em que os partidos de esquerda (PS, PCP e PRD) estavam em maioria. Mas a crer no que se passara nos anos anteriores, talvez nem fosse preciso a esquerda actuar para o governo ter uma vida limitada. Desde a morte de Sá Carneiro em 1980, o PSD tornara-se especialista em derrubar os seus próprios dirigentes, mesmo estando eles no governo: fizera-o a Francisco Pinto Balsemão em Dezembro de 1982, fizera-o a Carlos da Mota Pinto em Fevereiro de 1985. O novo primeiro-ministro, o professor Aníbal Cavaco Silva, não parecia estar destinado a ser mais do que um dos muitos líderes efémeros do PSD e chefe de mais um governo precário. Como sabemos agora, Cavaco Silva não governou uns meses, mas uma década, entre 1985 e 1995, e a minoria parlamentar de 1985 transformou-se em maioria absoluta duas vezes, nas eleições de 1987 e de 1991. Chamou-se a esse tempo o “cavaquismo”. É o único “ismo” que, na actual democracia (desde 1976), define uma época, e não apenas uma corrente política, como o eanismo, o sá-carneirismo ou o soarismo.
Cavaquismo e anti-cavaquismo
Entre 1987 e 1995, houve dois governos e duas legislaturas completas, num país que, entre 1974 e 1985, tivera 16 governos e em que nenhuma legislatura, desde 1976, chegara ao fim. Nunca a economia portuguesa cresceu tanto desde 1974 como durante o “cavaquismo”. Portugal convergiu com os seus parceiros mais ricos da actual União Europeia. Foi a época em que se dominou a grande inflação que desestabilizava a vida portuguesa desde 1973-1974. O número de portugueses com automóvel e casa própria multiplicou-se. A mortalidade infantil caiu finalmente para níveis europeus. A escolaridade obrigatória aumentou. Concluiu-se finalmente a auto-estrada entre Lisboa e Porto e fez-se mais uma ponte sobre o Tejo. Iniciaram-se as obras de dois dos maiores equipamentos culturais alguma vez construídos de raiz em Portugal, o Centro Cultural de Belém e o Museu de Serralves. Os bairros de barracas em Lisboa e no Porto começaram a ser erradicados. Nunca, até então, se vivera tão bem em Portugal, e pelo menos até 1993, pareceu sempre que no ano seguinte se iria viver ainda melhor. Nessa época, a Irlanda, um dos países mais pobres da Comunidade Económica Europeia, tornou-se um dos mais ricos. Houve quem pensasse que Portugal, na CEE desde 1986, poderia ser o próximo. Na Europa, tinha acabado a Guerra Fria, com o colapso das ditaduras comunistas. É tentador, à distância de três décadas, pensar que o “cavaquismo”, por volta de 1990-1991, terá sido uma das melhores alturas para estar vivo, apesar de ainda não haver internet e smartphones.
▲ Cavaco Silva na campanha em 1985
DR/PSD
Mas quem reler a imprensa da época, não é bem louvor a Cavaco Silva que encontra. O tempo do “cavaquismo” foi, nos jornais, o tempo do “anti-cavaquismo”. Temos assim, de maneira talvez paradoxal, de começar pelo anti-cavaquismo para percebermos a governação de Cavaco Silva. Antes de atribuirmos essa atitude a uma salutar e genérica desconfiança perante o poder político, convém notar que houve causas historicamente precisas para esse esse espírito de reserva e rejeição.
A esquerda andava então de luto pelos antigos credos marxistas, soterrados no desmoronamento da União Soviética em 1989-1991. Dispunha ainda, porém, das fortalezas que lhe deixara a revolução de 1975, na comunicação social, na universidade e no chamado “meio literário”. A partir daí, decretou rapidamente, sem surpresa, porque o dissera de todas as lideranças políticas à direita desde 1974, que o cavaquismo era afinal o salazarismo, ou, quando muito, o marcelismo: o que Portugal teria sido se não tivesse havido o 25 de Abril. Era o regresso das “grandes famílias” e da governação tecnocrática, numa sociedade que, dez anos depois do PREC, voltara a ser “burguesa” e apenas ocupada em juntar-se à Europa rica. Sim, dizia-se e escrevia-se isto mesmo assim, sem medo de parecer absurdo, e ignorando até a ironia de ser o Partido Socialista quem então contava, entre os seus deputados, com dois dos mais importantes ministros de Marcello Caetano, José Veiga Simão e Joaquim Silva Pinto.
Mas houve também um anti-cavaquismo de direita. Teve várias nascentes. A principal e mais forte esteve no ressentimento com a própria estabilidade da governação. A direita habituara-se, desde a morte de Francisco Sá Carneiro em 1980, a contestar e a derrubar os seus líderes. Geralmente, começava-se por comparar qualquer líder a Sá Carneiro, para logo declarar a sua insuficiência de carisma ou o seu desvio de orientação política. Cavaco Silva, apesar de ter sido ministro das Finanças de Sá Carneiro em 1980, também foi sujeito a essa comparação. O que se passava no mundo anglo-saxónico, cada vez mais influente num Portugal a começar a aprender inglês, também inspirou a fronda de direita. Thatcher em Inglaterra e Reagan nos EUA tinham posto na moda um liberalismo conservador muito mais ousado e frontal. Foi fácil, a partir daí, fazer parecer Cavaco Silva demasiado contido: liberalizou isto, mas não liberalizou aquilo. Para os mais tradicionalistas, havia ainda o empenho do governo de Cavaco Silva na integração europeia: ei-lo acusado de ceder soberania e de desproteger a indústria e a agricultura nacionais.
Finalmente, os governos de Cavaco Silva acabaram em 1995 no meio de mais zangas no PSD e de uma derrota do seu sucessor, Fernando Nogueira, nas legislativas, seguida da derrota do próprio Cavaco Silva nas presidenciais de 1996. Entre o pessoal político da direita, o azedume desses momentos finais limitou sempre o entusiasmo pela memória dos governos de Cavaco Silva. O poder, entretanto, passou a ser de esquerda, pouco interessado na celebração do seu antecessor: o Partido Socialista nunca lhe perdoou os dez anos de oposição que não esperava, e receou sempre que qualquer condescendência acerca da história do “cavaquismo” o ressuscitasse. Depois do “cavaquismo”, continuou assim a vigorar na classe política um certo anti-cavaquismo, muito agreste à esquerda, mas não menos notório, embora em versões mais diplomáticas, à direita. Em 2006, Cavaco Silva regressou à política, para obter, agora como candidato presidencial, mais duas maiorias absolutas, em 2006 e 2011. Estes novos sucessos eleitorais não inspiraram à elite política muita reflexão sobre a força do “cavaquismo”: preferiu-se a denúncia, em modo quase profilático, das suas supostas limitações e falhas. Perante críticas que se tornaram lugares-comuns, talvez convenha fazer algumas anotações noutro sentido.
Uma questão de sorte?
Um dos reparos mais correntes é o daqueles que, sem poderem negar que as coisas correram geralmente bem entre 1985 e 1995, insinuam a seguir que tudo se teria devido ao puro acaso de um alinhamento feliz de todos os astros. Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1986, o que fez do país um destino de apoios comunitários. O programa de ajustamento negociado com o FMI em 1983 equilibrara as contas. O preço do petróleo baixou. Em 6 de Novembro de 1985, ao tomar posse do governo, Cavaco Silva teria chegado a um mundo de facilidades. Tudo estaria destinado a correr de feição, quase sem ser necessário fazer nada. Qualquer governação, fosse qual fosse a sua orientação e competência, teria obtido os mesmos resultados. Foi Cavaco Silva, poderia ter sido qualquer outro.
▲ Cavaco Silva conversa com Henry Kissinger em 1990
ANTONIO COTRIM/LUSA
Faz isto sentido? Não faz. Quem assim pensa, esquece o que se passou antes e o que se passou depois. Sim, a entrada na CEE criou uma grande oportunidade. Mas o país que em 1986 entrou na CEE não era um país preparado para aproveitar oportunidades. Era um país ainda marcado pela experiência de muitos anos de ditadura e abalado pela ressaca da tentativa de tomada de poder pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda apenas dez anos antes. Um país em que demasiadas empresas eram propriedade do Estado, em que o acesso a sectores fundamentais da actividade económica estava constitucionalmente proibido aos cidadãos, e em que era instável a propriedade e o uso da terra numa parte importante do território, e em que anos de inflação, de desvalorização da moeda e de crises orçamentais, com duas intervenções do Fundo Monetário Internacional, tinham criado um ambiente de incerteza, de desconfiança e de pessimismo. Um país sem o quadro legal e fiscal adequado a uma economia moderna e desprovido de muitas infraestruturas necessárias. Um país em que o fracasso e a queda de sucessivos governos (9 governos em 9 anos desde 1976) haviam deixado muita gente descrente da política e receosa pelo futuro da democracia.
Quando levamos isto em conta, logo percebemos que a “sorte” da entrada na CEE e do acesso aos apoios e investimentos externos, nunca teria existido, se os governos de Cavaco Silva não tivessem feito o trabalho político, legislativo e administrativo indispensável para pôr o país em condições de aproveitar essa “sorte”. Foi precisa a revisão constitucional de 1989, que finalmente tirou o marxismo do horizonte nacional, e muita legislação para aproximar Portugal de uma economia de mercado em que os investidores tivessem confiança. Foram precisas muitas obras para viabilizar os transportes e as comunicações sem os quais uma economia moderna não podia funcionar bem. A “sorte” deu muito trabalho, os tempos só foram “fáceis” porque alguém venceu muitas dificuldades. De facto, os tempos estiveram longe de ser “fáceis”. A partir de 1993, o governo teve de enfrentar a que foi então a mais grave recessão europeia desde a II Guerra Mundial. Conseguiu-o sem deixar as contas públicas desequilibradas, o país fatalmente endividado e os serviços públicos em ruptura, como aconteceu antes e aconteceria depois. Portugal pôde seguir o caminho para a moeda única europeia.
Mas acima de tudo, vale a pena recordar que se houve “facilidades”, chamemos-lhe assim, entre 1985 e 1995, também as houve depois. Cavaco Silva tem lembrado que a quantidade de fundos europeus postos à disposição do país durante a sua década de governo é comparável à quantidade posta à disposição do país na década seguinte. É verdade que o mundo se tornou mais exigente depois de 1995, com a intensificação da chamada globalização. Mas muitas condições em Portugal melhoraram, em grande medida graças à governação de Cavaco Silva, como o acesso ao crédito, a qualificação da mão-de-obra e as infraestruturas de transportes e comunicações.
No entanto, depois de 1995, a economia não cresceu como crescera nos dez anos anteriores. A meta de convergência com a Europa distanciou-se. No princípio do século XXI, Portugal foi ultrapassado nos rankings europeus por vários países muito mais pobres, mas que souberam aproveitar melhor o contexto da União Europeia. Algum factor fez diferença nesses países, e muito provavelmente foram políticas de abertura, de liberalização e de modernização. De mesma maneira, algum factor terá feito muita diferença em Portugal entre 1985 e 1995, e muito provavelmente a orientação e o trabalho dos governos de Cavaco Silva terão sido esse factor. Sem a orientação reformista desses governos, sem a revisão constitucional de 1989, sem os novos direitos e garantias consagrados na lei, sem a estabilidade fiscal e monetária, sem a atitude favorável ao trabalho e ao investimento, sem as liberalizações e as privatizações, nada teria sido como foi. A governação de Cavaco Silva não transformou o mundo. Mas transformou muitas coisas nesse mundo. Sem essas transformações, os tempos não teriam sido tão bons.
Uma questão de habilidade?
Há, entre os anti-cavaquistas, quem reconheça que não terá sido apenas “sorte”. Mas para sugerir logo a seguir que não teria havido mais do que “habilidade” e “gestão”, no notório sentido que recentemente “habilidade” e “gestão” adquiriram em Portugal: uma governação à vista, que teria feito obras, mas ocasionais, realizado reformas, mas parcelares, tudo sem uma visão geral e sem grande ousadia, seguindo o ar do tempo e os encontrões do momento. Mais uma vez, pressupõe-se que o governo de Cavaco Silva teria feito apenas o que qualquer outro governo, nas mesmas circunstâncias, teria feito, na medida em que todas as suas opções seriam meramente circunstanciais e desgarradas.
Como seria de esperar, não é assim que Cavaco Silva vê a sua própria governação. Ao falar das 13 grandes reformas do seu tempo de primeiro-ministro, no livro As Reformas da Década (1995) ou das suas 13 grandes obras, no livro Uma Experiência de Social Democracia Moderna (2020), Cavaco Silva explica todas e cada uma delas em função de uma visão, que definiu neste último livro como “uma experiência de social-democracia moderna”.
“Social-democracia” refere aqui a visão do Partido Social-Democrata, definida entre outros pelo seu fundador e líder, Francisco Sá Carneiro. Num Portugal pós-revolucionário, sob hegemonia cultural das esquerdas, a “social-democracia” (então rejeitada pelo Partido Socialista) foi a forma política possível que tomou uma orientação a que, nos países anglo-saxónicos, menos constrangidos pelo esquerdismo, se teria chamado “liberal-conservadora”. Não por acaso, a intransigente Margaret Thatcher ficou, nos conselhos europeus, com uma muito boa impressão do primeiro-ministro português. Podemos resumir a “social democracia” de Cavaco Silva em três pontos principais: primeiro, que o bem-estar e a “justiça social” (igualdade) são a grande prioridade política; segundo, que o bem estar e a justiça social dependem de uma economia em crescimento; terceiro, que o crescimento da economia só pode ser alcançado por empresários, trabalhadores e investidores a actuarem num mercado livre e aberto, com regras claras, num quadro de estabilidade legal e fiscal e dispondo das qualificações e das infra-estruturas mais modernas.
▲ Cavaco Silva na inauguração da AutoEuropa em 1995
AFP
Ou seja, segundo Cavaco Silva, reformas estruturais, obras de infra-estrutura e revisão constitucional teriam como razão de ser, não apenas as oportunidades e as conveniências, mas uma visão do que deveria ser o país e o seu governo. Ora, a prova desta tese pode ser feita da seguinte maneira: se essa visão “social-democrata”, como lhe chama Cavaco Silva, foi irrelevante para o que aconteceu, se as reformas estruturais e as grandes obras de infra-estrutura podem ser explicadas sem referir qualquer visão própria do governo, então deveriam todas ter sido recebidas como óbvias e consensuais por toda classe política, independentemente das diferentes ideologias e interesses particulares, logo que se tivesse demonstrado que seriam positivas para o desenvolvimento do país.
Foi assim? Não foi assim. No prefácio a As Reformas da Década, Cavaco Silva lembra que o Partido Socialista, a principal força política de oposição, votou contra 70% das leis que foi necessário aprovar para realizar as reformas estruturais. Quase nada mereceu o apoio do Partido Socialista. Em Uma Experiência de Social Democracia Moderna, Cavaco Silva recorda ainda que muitas das obras que o seu governo lançou começaram por ser criticadas e deploradas, mesmo por quem depois, uma vez concluídas, as apreciou e usou. Tudo o que foi feito em termos de reformas estruturais e de grandes obras de infra-estruturas não o foi sem controvérsia e obstrução. O Centro Cultural de Belém foi, por exemplo, uma obra tremendamente contestada.
Vamos admitir que uma parte das críticas e resistências se devem à tendência natural das oposições políticas em democracia para criticar e resistir a qualquer iniciativa, desde que venha do governo. Mas muitas das críticas e das resistências iam mais longe do que mera pirraça oposicionista. Derivavam de visões e de opções políticas diferentes. Por exemplo, às liberalizações e às privatizações, as esquerdas opunham-se por ideologia, e não por táctica. Este facto permite refutar a ideia de que o governo de Cavaco Silva teria feito apenas o que qualquer outro governo, nas mesmas circunstâncias, teria feito. É duvidoso que um governo do Partido Socialista tivesse avançado pelos terrenos por onde Cavaco Silva avançou com a mesma convicção, empenho, ritmo e amplitude.
Mas outras das críticas e controvérsias que rodearam obras e reformas tiveram outra origem. Deveram-se não necessariamente a divergências ideológicas ou a interesses ofendidos, mas às dúvidas e às hesitações inerentes a qualquer reforma e a qualquer obra, e que explicam por vezes a tentação de adiar decisões. Tendo isto presente, estamos em condições de apreciar o que houve de inovador e de arrojado nos governos chefiados por Cavaco Silva. Procurou-se o consenso, como se nota na revisão constitucional de 1989. Quis-se assegurar a qualidade das decisões. Mas de maneira nenhuma se evitou tomar decisões por receio da controvérsia ou por causa dos riscos associados a qualquer opção.
Que governo português, nas últimas décadas, tomou decisão mais visionária, mais arriscada, do que a adesão de Portugal à moeda única europeia? Visava manter Portugal no que então se chamava o pelotão da frente da integração europeia. Correspondeu, por esse lado, a uma escolha da Europa que, antes de ser governamental, foi a dos emigrantes, exportadores e intelectuais, e que no tempo dos governos de Cavaco Silva foi assumida sem devaneios terceiro-mundistas (embora também sem esquecer os laços e as responsabilidades históricas que explicam a intervenção portuguesa no processo de paz de Angola em 1991, a negociação da transição de Macau, ou o empenhamento na libertação de Timor).
Mas a opção pelo que viria a ser o euro era uma opção exigente em termos de finanças públicas e de economia. Desse ponto de vista, teve como objectivo mais do que manter Portugal encaixado no processo de integração europeia: apontou a provocar uma mudança das condições de desenvolvimento da sociedade portuguesa. Através da integração monetária, o governo propôs-se romper com um ciclo em que o país se habituara a competir internacionalmente pela desvalorização da moeda, pelos baixos salários, para projectar um novo ciclo em que se esperava que o país competisse pelo valor acrescentado, pela produtividade e pela inovação. O projecto do euro, tal como concebido por Cavaco Silva, representava um compromisso com a disciplina dos grandes equilíbrios orçamentais e macro-económicos. Destinava-se assim a romper também com uma antiga prática de pilhagem pelo Estado, através da inflação, dos rendimentos e das poupanças dos cidadãos. Era uma dramática auto-limitação do poder político num país devastado por um brutal inflacionismo desde 1974.
▲ Cavaco e Soares em constante oposição
Arquivo DP/Global Imagens
Se nos anos a seguir a 1995 a moeda única foi aproveitada para outras coisas, para abusar do crédito e do endividamento, é outra história, de uma outra época, de uma outra visão das coisas. Em 1992, perante Maastricht, Cavaco Silva ousou a visão de um país radicalmente diferente. E foi criticado por ter essa visão, considerada irrealista, inclusivamente por aqueles que, ao mesmo tempo e sem darem pela contradição, o acusavam de não ter visão nenhuma.
Fez-se tudo? Não se fez tudo, como é óbvio. Dez anos é muito tempo, mas não é todo o tempo. As condições também não foram sempre as mesmas, se pensarmos na situação de um governo minoritário entre 1985 e 1987, nos constrangimentos da crise de 1993 ou na reanimação das oposições, ajudadas pelo presidente da república, em 1994 e em 1995. Fez-se tudo bem? Não se terá feito tudo bem. Mas fez-se muita coisa, e muita coisa que outros governos, de outras orientações ideológicas ou politicamente mais tímidos, nunca teriam feito. Portanto, não é verdade que o governo não tivesse tido visão ou arrojo.
Uma questão de prepotência?
Há críticos do “cavaquismo” que admitem que o governo fez coisas decisivas e tomou opções ousadas. Mais uma vez, para fazerem uma reserva logo a seguir: tudo teria sido feito num ambiente de hegemonia do poder, de ocupação do Estado, e de prepotência política, que por sua vez justificaria a “crispação” que muitos disseram sentir nos anos finais deste ciclo de governação, em 1994 e em 1995.
As duas maiorias parlamentares absolutas sucessivas, em 1987 e em 1991, explicam muito o ressentimento contra o “cavaquismo”. As maiorias absolutas de um só partido não só eram inéditas, como sempre tinham sido, desde 1976, julgadas impossíveis. Ninguém estava preparado para elas. Irritaram desde logo uma classe política e jornalística habituada aos dramas constantes dos governos vulneráveis de 1981 a 1985, que haviam dado a cada político e a cada colunista a grande ilusão de que tinham o governo do país ao alcance de uma entrevista mais bombástica ou de um artigo mais violento. Depois de 1987, todos, muito naturalmente, ressentiram o fim dessa ilusão, e passaram a sentir-se “oprimidos”. Pior ainda: as maiorias absolutas foram obtidas em eleições livres e limpas. Políticos e articulistas hostis ao governo viram-se obrigados a falar em nome de uma minoria. Por isso, por volta de 1991, o ressentimento contra o “cavaquismo” se transformou, para muitos deles, num geral ressentimento contra o país. A esse respeito, a degradação do ambiente económico devido à crise europeia de 1993 mudou tudo. Subitamente, políticos, jornalistas e comentadores sentiram-se regressados a casa: o governo pareceu-lhes finalmente frágil, ao alcance de uma manchete, de uma abertura de telejornal, de uma entrevista, de uma fuga de informação, de um escândalo. Exploraram essa recuperação de força com grande brio.
O governo, no entanto, nunca controlou todo o regime, nem sequer o procurou controlar. Em 1991, apoiou a reeleição do presidente Mário Soares, antigo líder do Partido Socialista, sem a certeza da continuação da colaboração institucional até aí existente, e que de facto depois não existiu frequentemente. A partir de 1989, a maior parte dos municípios tiveram administrações socialistas, incluindo Lisboa, Porto, Coimbra e Faro (e, a partir de 1993, Cascais e Sintra).
Mas acima de tudo, convém lembrar que esta foi a governação que na história de Portugal mais poder devolveu à sociedade civil. Em 1985, o governo de Portugal controlava grande parte das maiores empresas, os bancos e quase toda a comunicação social. A maioria dos grandes jornais diários de Lisboa eram propriedade do Estado, tal como a única estação de televisão, e todas as emissoras nacionais de rádio, à excepção da Rádio Renascença.
Anos depois, alguns governantes tentaram obter o domínio do Estado sobre a economia e a comunicação social por vias sinuosas de interferência e de promiscuidade. Foi o caso do primeiro-ministro socialista José Sócrates entre 2005 e 2011. Em 1985, esse domínio do Estado existia abertamente e legalmente, como herança em partes iguais do dirigismo da ditadura salazarista e do colectivismo marxista da revolução de 1975. O governo nomeava as direcções de todos os bancos e de quase todos os jornais. Foram os governos de Cavaco Silva, através da revisão constitucional de 1989 e de nova legislação, que possibilitaram as privatizações e a abertura de sectores de actividade à iniciativa privada, quebrando os monopólios do Estado e limitando a capacidade de interferência e coacção dos governos. No tempo de Cavaco Silva, o governo em Portugal passou a ter menos poder, e os portugueses passaram a ter mais.
A famosa “crispação” de 1994 e de 1995 deveu-se precisamente à nova liberdade de expressão e ao modo como o governo renunciara aos meios que lhe teriam permitido abafar o eco dos protestos. Que teria sido o “buzinão da Ponte” no Verão de 1994 sem as televisões e as rádios privadas que o noticiaram e comentaram incansavelmente? Ora, as televisões e as rádios privadas só existiam por iniciativa do governo de Cavaco Silva, aliás perante a opinião contrária das oposições de esquerda. Como o próprio Cavaco Silva escreveu em 1995 no livro As Reformas da Década, “não deverá existir outro caso em que um governo, partindo da situação de controlo quase absoluto do sector [da comunicação social], como se verificava em 1985, tenha de uma forma tão integral prescindido sequer de o influenciar”. Não existe de facto outro caso.
Nunca nenhum governo devolveu tanto poder à sociedade civil, contribuindo para a efectiva democratização e arejamento da vida portuguesa. Sob os governos de Cavaco Silva, a democracia em Portugal não apenas se consolidou, mas desenvolveu-se, num sentido de maior pluralismo e de maior abertura, rompendo ao mesmo tempo com o salazarismo e a revolução marxista. Às vezes, diz-se que estes foram “os anos de ouro da economia portuguesa” depois de 1974. Podia dizer-se talvez que foram também os anos de ouro da democracia.
Uma grande possibilidade
O “cavaquismo” não foi só sorte, não foi só habilidade, e certamente não foi prepotência, como os anti-cavaquistas clamaram. Foi reformismo, foi arrojo, foi confiança na sociedade. Houve coisas que correram mal? Houve. Houve erros, sobretudo erros políticos? Houve, muito especialmente em 1994 e em 1995, quando a atrapalhada sucessão de Cavaco Silva comprometeu a continuação da governação reformista do PSD. Nem toda a gente se portou bem? Nem toda. O “cavaquismo” não foi “o fim da história”, como os seus críticos às vezes parecem exigir que tivesse sido para lhe concederem algum elogio. Mas também não foi uma época que possa ser esquecida, sem que esse esquecimento seja em prejuízo do país.
▲ Em 206 Cavaco Silva candidatou-se às presidenciais. E ganhou duas vezes seguidas
LUSA
Num discurso de Maio do ano 2000, Durão Barroso, então líder do PSD, lembrou que se Portugal tivesse continuado a crescer e a convergir com a Europa rica ao ritmo com que cresceu e convergiu entre 1987 e 1994, teria tido a possibilidade de alcançar a média europeia em 2014. Em 2014, quer dizer, em 2025: há onze anos. Não podemos exagerar o que este dado significa: recuperarmos, nas vidas das actuais gerações, o atraso histórico que tantas dúvidas e tantas crises causaram a tantas gerações de portugueses nos últimos dois séculos, termos um país tão rico como os mais ricos, livre para nos dedicarmos a outros desafios e para nos propormos chegar a outros patamares. Aconteceu à Irlanda. Entre 1987 e 1994, pareceu possível que acontecesse a Portugal.
Esta possibilidade foi o facto historicamente mais relevante dos tempos de governo de Cavaco Silva, e que distingue essa época das épocas que, no actual regime, a precederam e lhe sucederam. Não tínhamos tido essa sensação de estar no bom caminho antes, e não voltámos, infelizmente, a tê-la depois. No já citado discurso de Maio de 2000, Durão Barroso também notou que, ao ritmo a que o país crescera entre 1995 e 2000, a média europeia já não seria atingida em 2014, mas em 2046. Em cinco anos de governos socialistas, tinham-se perdido 30 anos. Nos anos seguintes, deixou mesmo de se falar desse objectivo. Os governos de Cavaco Silva entre 1985 e 1995 foram um momento histórico em que o país sentiu a possibilidade de realizar aspirações antigas e de se livrar de velhos complexos. Pareceu possível. Um dia, talvez volte a ser possível.
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