O domingo começou cedo e no mesmo sítio, para os dois principais candidatos à Câmara de Lisboa. Na Feira das Galinheiras, freguesia de Santa Clara, tanto Alexandra Leitão como Carlos Moedas juraram que não teriam qualquer problema em cumprimentar-se, caso se cruzassem, mas na hora H, um virou à esquerda e outro à direita. A única medição de forças direta foi pelos gritos dos apoiantes: à esquerda gritou-se “Lisboa”, à direita “Moedas”. A outra comparação possível já foi feita entre as bancas da feira.

Quando Carlos Moedas entrou, Alexandra Leitão já estava a caminhar para o final da iniciativa de campanha. A comitiva liderada pelo PS ainda parou, com intenção de fazer um compasso de espera, evitando o confronto entre caravanas, afinal o grupo de Moedas estava nesse preciso momento a entrar na Feira. Mas Leitão quis continuar, o que acabou por fazer com que uma caravana passasse resvés a outra e as comitivas gritassem mais alto num braço-de-ferro que só será tirado a limpo daqui a uma semana.

Por ali, na Feira das Galinheiras, Leitão fez um percurso discreto, sem alarido, ao lado do candidato à Junta de Santa Clara e restante comitiva. Foi parando nas bancas, cumprimentou apenas quem se mostrou aberto a isso, ouviu queixas (invariavelmente sobre as condições de habitação nos bairros municipais) e fez uma declaração aos jornalistas onde recusou deixar de falar no elevador da Glória, jurando que só o refere quando “há novidades”. Já Carlos Moedas queixou-se da “politização” do tema por parte de Leitão, circulou acompanhado por uma coluna de som a debitar “música pimba”, dançou e abraçou.

Chegar e virar à direita. Candidatos arrancam feira pelo mesmo lado

Alexandra Leitão chegou uns nove minutos depois da hora marcada (8h30) para a iniciativa, arrependida de não ter trazido um casaco porque a brisa matinal ainda se faz sentir. Puseram-lhe o microfone — está sempre a ser filmada para conteúdos nas redes sociais — e a candidata virou à direita em direção à primeira banca de fruta: “Bom dia”. Os contactos que fez foram quase foi sempre muito rápidos, quer com quem estava do lado de lá da banca, quer com os clientes. A quem vende e a quem compra, a caravana onde vão alguns jovens vai distribuindo sacos de pano e canetas. Àquela hora, a feira ainda está pouco concorrida e o pregão que mais se ouve é mesmo o da caravana liderada pelo PS: “Viver Lisboa, viver Lisboa” (o nome da coligação que junta PS/BE/Livre/PAN.

Por sua vez, Carlos Moedas também chegou cerca de 10 minutos atrasado à sua hora. Às 9h00, estavam à porta do recinto da feira os cerca de 50 apoiantes que o acompanhariam nos contactos banca a banca. Antes do carro de Moedas chegar, Luís Newton tentava animar os sociais-democratas para uma receção em condições: “Bora, bandeiras ao alto”, pediu o líder do PSD/Lisboa. O presidente da Câmara é então recebido com palmas e desdobra-se logo em beijinhos e abraços aos fregueses, maioritariamente idosos, que também o esperavam. Uma pequena banda encarrega-se de trazer algum ritmo à chegada de Moedas, mas é rapidamente abafada pela coluna que tem repetido até à exaustão a música escolhida para a campanha: “People have the power” de Patti Smith.

Primeiros dez minutos na Feira

Vai equilibrado, na frente liderada pelo PS, o número de quem recusa panfletos e aqueles que os aceitam. “É muito cedo”, justifica a candidata. Uma senhora entra por ali adentro porque a quer cumprimentar: “Muita saúde, vá em frente.” Alexandra Leitão aceita as duas recomendações: nesta altura, a primeira é necessária, para investir na segunda, afinal anda há dias com uma constipação e isso tem limitado contactos. Quem mais a procura são mulheres e mais velhas e com essas eleitoras, a candidata socialista faz questão de perder algum tempo a mostrar, no panfleto que distribui com as principais medidas e uma réplica do boletim de voto, onde está a coligação de esquerda. É preciso indicar ao eleitorado socialista mais fiel que também está lá no meio o “partido da mãozinha” e é isso que faz com a senhora que a procura junto à banca dos ovos.

Mais dez minutos.

A candidata socialista teve de atender uma chamada. Tapa a boca com o maço de panfletos que leva na mão para distribuir e afasta-se da bolha para falar com mais privacidade. Volta para retomar o trabalho da manhã que passa por explorar as preocupações num bairro onde há muita habitação municipal. E assim que alguém se aproxima para fazer queixas pergunta logo: “Os elevadores estão a funcionar?”. É um problema que tem ouvido de forma recorrente, aproveitando logo para apontar responsabilidade à gestão municipal. Ali voltam com outro aviso: “Olhe que eu não vou votar em vocês para depois não fazerem nada”. A candidata promete que não. “Espero não me arrepender”, diz a mesma senhora de dedo em riste. Em princípio, a candidata parece levar este voto no saco.

Anda mais uns passos até a uma banca que venda atoalhados, cumprimenta a vendedora e apresenta-se como adversária de Carlos Moedas. Da interlocutora ouve: “Um grande amigo meu, dei-lhe um beijinho no Santo António, tenho lá uma foto lindíssima!” Leitão não contem o riso alto perante o embaraço. Um dos membros da comitiva aproxima-se para tentar virar aquela admiração a favor da esquerda, apontando a uma das características ali presente: “Olhe que eles querem correr com os imigrantes e os ciganos. Tenham cuidado, essa coligação é perigosa”. Alexandra Leitão já ia na banca seguinte.

Meia hora de feira.

Às nove em ponto entrou em direto para a RTP e respondeu a perguntas dos jornalistas, sobretudo a propósito das queixas de Moedas de “aproveitamento político” do elevador da Glória. Diz que “isso já não serve” e que o que a “indigna” é a “ausência de apoio da parte dos poderes públicos” em relação às vítimas do acidente. Jura que só fala do tema quando lhe perguntam ou quando “surgem novidades”: “A verdade é que cada novidade que surge destapa mais uma coisa que nos indigna e que nos deve indignar a todos.”

A comitiva segue e, a espaços, ouve-se a música Bella Ciao, mas com letra “é na Alexandra, eu vou votar, vou votar, vou votar” e por aí fora. O hino de resistência anti-fascista na Segunda Guerra é popular nas candidaturas de esquerda e esta junta o Bloco de Esquerda e o Livre. “E porque não a CDU?”, pergunta um homem que se aproxima de Alexandra Leitão. A candidata assegura que foi só “porque não quiseram. Nós perguntámos. Estou a responder com absoluta sinceridade”. O homem está desconsolado: “Foi mau não se coligarem. Dê-me uma razão para não votar na CDU”. Neste tema é como se, de repente, se montasse uma banca ali no meio da feira, com a candidata a disparar: “Dou-lhe três! Só há duas pessoas que podem ser presidente. Eu quis a CDU centro. O vereador que for eleito pela CDU vai ter mais influências se eu for eleita”. “Deus queira que ganhe”, diz-lhe o senhor de volta, mas sem lhe prometer o voto.

Às 9h15: o cruzamento de caravanas

Alexandra Leitão já teve quem lhe perguntasse o que “tem para dar”, respondeu logo com “requalificação de bairros e higiene urbana”. Já teve de reabastecer de panfletos para distribuir e também dos sacos de pano da coligação de esquerda para dar aos eleitores. Só mais de meia hora depois de ter chegado é que surge um pedido para a primeira selfie e há um senhor que lhe tinha recusado um aperto de mão, lá atrás, que regressa para dizer que se confundiu e não percebeu de que partido eram. Diz que “lá em Loures” está com Ricardo Leão, que também é PS. Alexandra Leitão estende-lhe a mão: “Há bocado não apertou, mas agora aperta”. Enquanto está por ali parada, poucos metros mais à frente está Carlos Moedas a subir a mesma rua, a entrar na feira.

A comitiva liderada pelo PS hesita se deve ou não descer e é a candidata que diz que é para seguir. Resultado: ficam frente a frente as duas caravanas onde seguem os candidatos que estão na primeira linha da disputa por Lisboa. A socialista vai a descer em direção ao portão e corta à esquerda, enquanto Moedas, vira para a rua da direita, para chegar às primeiras bancas. Evitam-se — embora ambos tenham dito, durante a iniciativa, que não teriam problemas em cumprimentar-se. Não acontece e o braço de ferro possível é entre os gritos de apoio vindos de cada um dos lados. Na coligação de Leitão grita-se “Lisboa”, na do social-democrata grita-se “Moedas”.

Entre os jotinhas que vão mais atrás na caravana da socialista questiona-se se “estava lá mesmo o Moedas?”. “Estava, sim. E foi bem jogado eles a gritarem Moedas e nós Lisboa”.

Dez minutos no mesmo espaço, sem se verem

Os dois candidatos seguem o percurso e ainda há uma coincidência dos dois no mesmo espaço durante uns dez minutos. Muitos dos quais Alexandra Leitão passa a ouvir um senhor com um casaco de fato de treino azul que faz desesperar a comitiva. A candidata vai ouvindo o homem que lhe recomenda andar na rua. “Os políticos têm de andar na rua. Na tropa, o meu comandante almoçava connosco uma vez por mês para ver como era a comida.” A candidata concordava, mas na comitiva já se notava alguma pressa em sair do recinto da feira. Aconteceu já muito perto das 9h30, com Leitão a selar a manhã com uma foto de família à porta e a enfiar-se no carro para ir até à Feira do Relógio: “Alguém quer boleia?”

Por essa altura, a comitiva de Moedas ainda estava apenas a ambientar-se ao local, ainda que esta não fosse uma paragem nova para o presidente da Câmara. A maioria dos comerciantes recebe bem o autarca e fazem referência às vezes anteriores que este passou pela Feira das Galinheiras. A alguns jornalistas que migraram para junto de Moedas, vindos da campanha de Leitão, pergunta-se: “A nossa está muito melhor, não está?”. E não querendo deixar margem para dúvidas a essa pergunta, dois jotinhas gritam ao microfone da coluna volumosa que transportam num trolley: “Galinheiras. Alerta. Chegou a escolha certa.”

Nos primeiros minutos na feira, Moedas ouviu sobretudo desejos de boa sorte para a eleição e garantias de um resultado risonho, mas também houve espaço para algumas interações menos simpáticas. Ainda antes de entrar o recinto, o autarca foi confrontado por um homem de cerca de 40 anos que o recebeu com uma linguagem carregada e novamente, metros à frente, por um pensionista que se dizia “revoltado com este País e com os políticos todos”. O presidente municipal destacaria a parte positiva. “Sou sempre muito bem recebido. Venho cá muitas vezes, venho sozinho ou venho com mais uma pessoa, para poder tirar nota dos problemas. Isto é uma zona em que há pessoas que têm muitos problemas e que nós resolvemos um a um.”

Ao contrário de Leitão, o social-democrata não veste apenas apenas o fato de candidato e serve-se disso para ir registando os dados pessoais dos queixosos como uma promessa de dar atenção aos seus problemas. “Deixe-me ver, qual é a sua morada? Quem é que me ajuda a apontar aqui?”, pergunta à sua equipa. A que se segue o inevitável: “Vamos tratar de si.” Também houve quem reconhecesse a obra do mandato que agora termina, nomeadamente com a redução de 30% das taxas das feiras municipais. “Cumpriu com a sua palavra, mas tem de fazer mais um bocadinho, porque isto não está fácil”, disse um feirante, num misto de emoções.

Primeiros cinco minutos sozinho

A sua vez de falar em direto para a RTP seria às 9h35. Tal como tem vindo a fazer, Moedas aproveitou a primeira pergunta para assustar eleitores indecisos com a presença do Bloco de Esquerda na coligação de Leitão e para sublinhar que o PS está “mais radical”. Aproveitou também para voltar a dizer que a sua adversária está a “utilizar politicamente” o acidente no Elevador da Glória. “O Partido Socialista, por não ter nenhum tema, agarra-se como tábua de salvação àquilo que é uma tragédia”, acusou Moedas, apenas alguns minutos depois da saída de Leitão da feira.

O presidente municipal também desmentiu a notícia da RTP sobre uma vítima do acidente e um familiar de outra que dizem não ter sido contactados nem pela Câmara nem pela Carris na sequência do ocorrido. Contudo, Moedas resiste a discutir os testemunhos concretos trazidos a público na notícia da RTP. “A Câmara não falhou, não falhará com as pessoas, isso é muito importante que se saiba. Agora, eu não utilizo casos particulares de pessoas”, assegurou.

Durante o direto para a televisão, seria interpelado por um residente duma casa municipal nas Galinheiras. “Só queria que me respondesse uma coisa. Eu moro de um quinto andar, sem elevador. Eu sou doente crónico, a minha mulher também, estamos com 74 anos cada um. Estamos fartos de ir ali à Gebalis, não nos dão soluções nenhumas. A gente vai durar quanto mais tempo? Mais uns três, quatro anos. Depois ficamos em casa.” Ao que Moedas responde: “A gente tem que arranjar maneira de ter ali um elevador, ou temos que o pôr noutra casa ou no rés do chão.” O presidente municipal disse ainda ao pensionista que a Câmara está “a pôr novos elevadores” e prometeu também estudar o caso para que o bloco de prédios onde este mora seja um futuro destinatário.

Última meia hora

A partir desse momento, os ânimos pareceram começar a escalar na caravana de Moedas. Patti Smith ficou para trás e a música tornou-se mais popular: a começar com o “Beijo de Funaná” e acabar com os “Peitinhos da Cabritinha” de Quim Barreiros. Feirantes e clientes começaram a abanar-se ao ritmo das faixas. O presidente da Câmara também dançava, fazendo parelha com algumas mulheres: velhas e novas, das Galinheiras ou da sua campanha. Carlos Moedas já vinha prevenido. Em vez do clássico blaser, tinha um casaco mais informal e trazia calçado um par de ténis. “Hoje está todo desportivo“, reparou uma comerciante. “Pois estou”, reconheceu Moedas. Por essa altura, a brisa matinal já não se fazia sentir e o autarca tirou o casaco.

“Estou aqui a dar mais uma volta. Hoje tive de trazer mais uma pessoas porque estamos em campanha eleitoral, mas você sabe que eu sou muito discreto“, explicou à mesma feirante. E essa ronda ao recinto da feira terminou quando passava uma hora desde a entrada em cena de Moedas. Talvez para mostrar que, pelos lisboetas, está pronto para ir mais longe do que Leitão, não se cingiu à Feira e ainda desceu uma outra rua das Galinheiras onde encontrou vários outros comerciantes de rua. Menos de uma hora depois de terminada a ação de campanha, Moedas recebia o Presidente da República e o primeiro-ministro para a cerimónia do 5 de Outubro na Praça do Município. Já com um blaser e sapatos próprios para a formalidade da ocasião.