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Portugal Impacted By Coronavirus
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Corbis via Getty Images

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Seriam precisos três vezes mais casos do que em janeiro para Portugal registar a mesma pressão sobre o SNS

Internamentos são 30 a 35% dos de janeiro, mas vão aumentar. Linha vermelha nas UCI ultrapassada daqui a um mês. Portugal já terá saído do quadrado da matriz de risco. Qualquer projeção é "uma treta".

Portugal está a registar neste momento 30% a 35% das hospitalizações que se verificaram no início do ano, avança o matemático Jorge Buescu, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Apesar de a incidência de contágios de Covid-19 ter alcançado os 224,6 casos a 14 dias por 100 mil habitantes e o R(t) ter subido para 1,19 — esta foi a pior segunda-feira desde fevereiro —, a vacinação parece estar a travar a pressão que esta quarta vaga da epidemia exerce sobre o Serviço Nacional de Saúde.

Como é que isso se vai traduzir no futuro, só o tempo o dirá. Neste momento, “como já temos a população vulnerável quase toda vacinada, não vamos ter um descalabro”: o número de óbitos também ronda 10% a 15% dos casos letais registados há seis meses e, mesmo que a quarta vaga se torne tão grande como a terceira, Portugal não atingirá as 300 vítimas mortais diárias por Covid-19. Ficará “na ordem das dezenas”, prevê Jorge Buescu.

Mesmo assim, mais casos traduzem-se sempre em mais internamentos nos hospitais. Mas como a vacinação está a impedir o desenvolvimento de quadros clínicos mais graves nas pessoas vacinadas, seria preciso um número muito maior de contágios para registar a mesma pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde do que se verificou em janeiro e fevereiro. Tal como a situação epidemiológica está agora, eram precisos cerca de três vezes mais casos diários que no início do ano para se chegar ao mesmo caos que se verificou nessa altura (quem não se lembra das filas de ambulância às portas do Santa Maria ou da falta de ventiladores em vários hospitais). Mas Portugal, com uma média de 1.769 novos casos nos últimos 14 dias, está longe desses números.

Buescu garante que os indicadores estão a sinalizar uma "deterioração" desde fim de maio, mas o processo de construção da matriz de risco, por ter sido "desastrado", iludiu os decisores políticos de que se vivia alguma estabilidade. "Não se fez nada desde aí e a situação é aquela que temos hoje", resumiu Jorge Buescu.

Segundo o matemático, Portugal continua numa fase de crescimento muito rápido na incidência — culpa da variante delta, que se está a estabelecer no país e a tornar dominante, já tem uma prevalência de quase 75%—, o que impede o especialista de calcular quando se atingirá o pico de casos, de óbitos ou de internamentos. E as medidas que o Governo tem implementado até agora não são suficientes, alerta: “É preciso dar mais passos atrás, sermos mais consistentes e escolher medidas com mais impacto”. Neste momento, Portugal é o segundo país da UE (atrás do Chipre) — o terceiro se incluirmos o Reino Unido — com maior incidência de casos Covid, segundo o site Our World in Data.

Óscar Felgueiras, matemático da Faculdade Ciências da Universidade do Porto, também não arrisca uma previsão para o pico da quarta vaga porque considera que a situação epidemiológica em Portugal prossegue em “crescimento exponencial”. A vacinação ajuda, mas apenas a longo prazo e “não está a ser suficiente para contrariar o efeito da variante delta e o comportamento da população em geral, que tem tido mais contacto”. Portugal é o país da UE com mais casos desta mutação originalmente identificada na Índia (só batido na Europa pelo Reino Unido, segundo o Our World in Data).

Também o matemático Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico, aponta que o pico da quarta vaga não ocorrerá nunca antes de 18 de julho — e quão depois vai depender “de medidas, do comportamento das pessoas e das taxas efetivas de vacinação”. “Qualquer projeção neste momento é falaciosa”, afirma o especialista. E apesar de celebrar o facto de a letalidade ser apenas 16% do que era no início do ano, recorda que “já nem à segunda-feira estamos abaixo dos 1.000 casos”.

Portugal vive situação tão crítica que pode já nem aparecer na matriz de risco

A situação que o país vive neste momento não apanhou de surpresa os especialistas que, desde o início da pandemia, têm acompanhado a evolução da Covid-19 em Portugal. Jorge Buescu garante que os indicadores estão a sinalizar uma “deterioração” desde fim de maio, mas o processo de construção da matriz de risco, por ter sido “desastrado”, iludiu os decisores políticos de que se vivia alguma estabilidade. “Não se fez nada desde aí e a situação é aquela que temos hoje”, resume.

Jorge Buescu propõe que o cálculo da incidência seja atualizado: em vez de se utilizar a média de novos casos nos últimos 14 dias, deve antes utilizar-se apenas os dados da última semana. Isso já tinha sido importante quando o país estava na fase decrescente da epidemia, mas aí "o estrago não seria tão grande", aponta o matemático. Mas agora que o país prossegue em crescimento acentuado, "é perigoso mantê-la como está".

Ora, a matriz de risco é constituída por dois pilares: o número de novos casos a 14 dias por 100 mil habitantes (incidência) e o índice de transmissibilidade (R(t)). O problema está sobretudo no primeiro indicador, aponta o matemático: “É como pegar num telescópio e olhar para uma estrela. A luz que vemos naquele momento já foi emitida há muito tempo. Olhar para uma média com dados das duas semanas anteriores é como olhar para o passado”, diz.

Há duas semanas, a 21 de junho, Portugal tinha apenas 756 novos casos e ainda faltavam nove dias para as autoridades de saúde registarem mais de 2.000 infetados em 24 horas pela primeira vez desde meados de fevereiro. Para o país continuar dentro dos 120 casos de incidência (a linha limite da matriz de risco), era necessário que, durante duas semanas, registasse uma média de apenas 880 infetados diariamente: “Onde é que esse número já vai”, comenta irónico Jorge Buescu, em entrevista ao Observador.

Fonte: DGS

Evolução da incidência acumulada e índice de transmissibilidade (de 12 de maio a 28 de junho, semanalmente, depois a cada dois dias) — Observador [Fonte: DGS]

Mais: na realidade, e embora a atualização das autoridades de saúde esta segunda-feira tenha empurrado Portugal para a linha superior do quadrante vermelho da matriz de risco, a situação pode já ser tão crítica que, atualmente, já nem dê para aparecer no esquema. A incidência de 240 casos a 14 dias por 100 mil habitantes (limite superior do gráfico) simboliza uma média de 1.748 casos diários ao longo dessas duas semanas — números que o país já atingiu no fim do mês passado.

Há uma terceira linha vermelha que continua mais longe de ser ultrapassada: a dos internamentos nas unidades de cuidados intensivos, que não podem passar dos 245. Nas contas de Óscar Felgueiras, esse patamar vai nos 55% neste momento. Tendo em conta os dados recolhidos até esta segunda-feira (com 136 internados em UCI), Portugal pode atingir esse limite dentro de um mês.

Só que o atraso dos indicadores utilizados na matriz de risco não permitem vislumbrar com clareza a verdade situação epidemiológica portuguesa. Jorge Buescu propõe que, embora o R(t) continue a constar na matriz de risco, o cálculo da incidência seja atualizado: em vez de se utilizar a média de novos casos nos últimos 14 dias, deva antes utilizar-se apenas os dados da última semana. Isso já tinha sido importante quando o país estava na fase decrescente da epidemia, mas aí “o estrago não seria tão grande”, aponta o matemático. Mas agora que o país prossegue em crescimento acentuado, “é perigoso mantê-la como está”.

A métrica do número de casos a 14 dias por 100 mil habitantes foi aconselhada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças por oferecer uma imagem mais estável da situação epidemiológica num determinado país, mas países como o Reino Unido e a Alemanha costumam preferir olhar para a média de casos nos sete dias anteriores para orientar as medidas impostas internamente. “O tempo que se ganha em termos de interpretação de dados são cerca de três dias e meio”, resume o matemático Óscar Felgueiras.

É tempo precioso quando um país está a cavalgar uma onda de novos casos, mas o matemático da Universidade do Porto considera que o R(t) ajuda a recuperar alguma da sensibilidade e do atraso que a incidência calculada a 14 dias impõe às contas dos especialistas. Ainda assim, Óscar Felgueiras concorda com Jorge Buescu: a linha vermelha dos 240 casos por 100 mil habitantes a 14 dias já foi ultrapassada. E com o R(t) acima de 1 há “várias semanas”, a situação promete piorar antes de melhorar.

Segundo os cálculos do Observador (com base no Boletim Epidemiológico da Direção-Geral da Saúde), o R(t) na região Norte tinha ultrapassado 1,6 e na região de Lisboa e Vale do Tejo era de 1,17 (média a sete dias). Isso quer dizer que, por cada 100 casos, daqui a três ou quatro dias o Norte terá 160 casos novos e LVT terá 117, como explicou o epidemiologista Manuel do Carmo Gomes, ao Observador.

País está a um mês de alcançar a linha vermelha dos internados em UCI

Há uma terceira linha vermelha que, não estando incorporada na matriz de risco, continua mais longe de ser ultrapassada: a que diz respeito ao número de internamentos nas unidades de cuidados intensivos, que não podem passar dos 245. Nas contas de Óscar Felgueiras, “esse patamar vai nos 55% neste momento”. Tendo em conta os dados recolhidos até esta segunda-feira (com 136 internados em UCI), Portugal pode atingir esse limite dentro de um mês.

Lisboa e Vale do Tejo e Algarve já ultrapassam limite de internamentos em UCI. Hospitais de Lisboa aumentam capacidade de resposta

Mesmo assim, o matemático considera que ainda há tempo para inverter essa tendência e que o número de internados nos cuidados intensivos por causa da Covid-19 “relativiza o impacto do aumento de casos, porque muito deles não se traduzem em tantos internamentos”. Mesmo assim, concorda que o número de hospitalizações vai aumentar. A esperança é que, à medida que a cobertura vacinal for aumentando, possa haver “algum travão nessa subida também”.

Carmo Gomes sobre explosão de casos: “Travar, agora, só com medidas muito mais duras”

Em meados de maio, o índice de transmissibilidade em Portugal (em geral) e na região de Lisboa e Vale do Tejo ultrapassou a linha vermelha — R(t) de 1 — e nunca mais voltou a descer. Na última semana, o R(t) disparou na região Norte, Centro, Madeira e Açores. O crescimento dos novos casos de infeção ainda não é evidente em todas as regiões, mas há outros sinais que indicam que o país está a entrar numa nova fase crítica da pandemia: aumentaram os casos com atraso na notificação e diminuiu a percentagem de casos rastreados e isolados, segundo os relatórios da “Monitorização das linhas vermelhas para a Covid-19”.

Sempre que o R(t) é maior que 1 significa que o número de novos casos diários será maior do que nos dias anteriores. E este crescimento será tanto mais acelerado quando mais distante de 1. Vejamos o exemplo desta segunda-feira: segundo os cálculos do Observador (com base no Boletim Epidemiológico da Direção-Geral da Saúde), o R(t) na região Norte tinha ultrapassado 1,6 e na região de Lisboa e Vale do Tejo era de 1,17 (média a sete dias). Isso quer dizer que, por cada 100 casos, daqui a três ou quatro dias o Norte terá 160 casos novos e LVT terá 117, como explicou o epidemiologista Manuel do Carmo Gomes, ao Observador.

Naturalmente, quantos mais casos diários maior será o crescimento e isso explica porque é que o Norte e a Madeira, apesar de terem um aumento acentuado no índice de transmissibilidade, mostram um impacto diferente no número de novos casos — a Madeira tem 10 a 15 casos diários, o que quer dizer que na próxima sexta-feira pode rondar os 20 casos diários.

O Norte foi a última região do continente a ultrapassar a linha vermelha do índice de transmissibilidade — R(t) de 1 — a 17 de junho, enquanto nas restantes regiões do continente isso já tinha acontecido há mais de um mês. Desde a semana passada, que se tornou evidente que os casos no Norte estão a crescer mais rápido: registaram-se 3.350 dos 7.854 casos de infeção desde 1 de junho.

As regiões autónomas da Madeira e dos Açores foram as únicas que durante o último mês desceram para R(t) menores que 1, mas agora estão ambas a aumentar, segundo os cálculos do Observador. Os Açores terão mesmo ultrapassado a linha vermelha (com base nos resultados citados).

Manuel do Carmo Gomes está confiante que a vacinação contra a Covid-19 vai ajudar a travar a progressão da pandemia, mas não sabe dizer quando. Tudo depende da capacidade de os hospitais aguentarem a pressão dos internamentos. Mas o epidemiologista alerta: tínhamos 50 pessoas internadas nas unidades de cuidados intensivos a 1 de junho, mais 63 um mês depois (113 a 1 de julho) e mais 23 em quatro dias. "Está a aumentar o número de casos muito graves", avisa.

Manuel do Carmo Gomes diz ao Observador que, em meados de maio, a matriz de risco — com a incidência acumulada a 14 dias e o índice de transmissibilidade — já mostravam o início do crescimento exponencial. Este crescimento começa com “uma falsa sensação de que está baixo e é controlável, mas depois dispara”. No final de maio, havia poucos mortos por Covid-19 e a pressão nos hospitais não tinha comparação com o início do ano, “o que faz baixar a guarda”, lamenta, o epidemiologista.

No fim de maio devíamos ter mantido o discurso cauteloso”, critica Manuel do Carmo Gomes.

“O ideal era evitar que este crescimento exponencial entre na fase explosiva. Mas é muito difícil introduzir medidas quando ainda vamos a tempo de evitar a explosão”, diz o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “Quem é que, na primeira semana de junho, aceitaria medidas muito restritivas — quando os números estavam a subir, mas ainda eram muito baixos?”

No ponto em que estamos, “as medidas implementadas já não vão evitar a subida — talvez possam atrasar um pouco”, diz Manuel do Carmo Gomes. “Travar, agora, só com medidas muito mais duras.”

Manuel do Carmo Gomes está confiante que a vacinação contra a Covid-19 vai ajudar a travar a progressão da pandemia, mas não sabe dizer quando. Tudo depende da capacidade de os hospitais aguentarem a pressão dos internamentos. Mas o epidemiologista alerta: tínhamos 50 pessoas internadas nas unidades de cuidados intensivos a 1 de junho, mais 63 um mês depois (113 a 1 de julho) e mais 23 em quatro dias.

“Está a aumentar o número de casos muito graves”, avisa. E se em março e abril, a média de idades eram os 65 anos, agora a maioria tem entre 40 a 49 anos e “há um número significativo entre os 30 e os 39 anos”.

Além disso, o epidemiologista não consegue prever o impacto da alteração dos padrões de comportamento nos próximos meses: as crianças estão de férias, os jovens têm muito mais tempo livre para socializarem e o verão vai convidar a mais encontros entre jovens e jovens adultos.

Além disso, é muito frequente os sintomas serem ligeiros ou inexistentes nestas faixas etárias, fazendo com que uma pessoa infetada esteja a transmitir o vírus mais tempo antes de, eventualmente, se isolar ou curar a infeção. Tudo isto combinado com a maior transmissibilidade da variante delta, estão criadas as condições para os casos continuarem a crescer exponencialmente.

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