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Jeff J Mitchell/Getty Images

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Sexo na terceira idade: a moda dos bailaricos que acabam no "quarto escuro"

Elas já não podem engravidar; eles usam comprimidos azuis. E fazem sexo desprotegido. No "quarto escuro" dos bailaricos da terceira idade, escondem-se doenças sexualmente transmissíveis.

Anda muito esquentamento por aí e a transmissão roda porque não tiveram cuidado de se proteger. E não é só nos bailes, é por todo o lado.” A frase é de Caetano, 76 anos, frequentador assíduo de bailes organizados para pessoas da terceira idade e resume uma realidade que se calhar muitos estão longe de imaginar.

Encontramo-lo nos Alunos de Apolo, já atrasado para mais um sábado de bailarico. Vem vestido a rigor para a ocasião e nota-se de longe o cheiro a perfume. “O meu par já cá está”, confessa enquanto tira o blaser. É com destreza que sobe as escadas de pedra, cada uma iluminada com uma cor do arco-íris, e logo em seguida uma escadaria mais estreita até à sala do segundo piso.

No salão grande, pouco iluminado, já estavam entre 250 a 280 pessoas a dançar ao som da banda Vice Versa. Esta é apenas uma das salas em funcionamento em dia de baile nos Alunos de Apolo. Há mais uma no andar inferior, onde também há música e para onde vão aqueles que, durante o intervalo do baile, não querem estar parados nem um minuto.

Caetano começou a frequentar estes bailes quando tinha apenas dez anos e nunca mais deixou de vir. Viúvo há sete, jurou a si mesmo que nunca mais iria ter uma relação amorosa “fosse com quem fosse”. “Tem de haver responsabilidade e honestidade“, defende.

"Anda muito esquentamento por aí e a transmissão roda porque não tiveram cuidado de se proteger"
Caetano, 76 anos

Na sua opinião, é precisamente isso que falta nos relacionamentos. “Eu sei de muitas senhoras que dançam três e quatro vezes com a mesma pessoa, vão jantar, estão um bocado um com o outro e depois cada um vai para a sua casa”.

Anabela, que há já vários anos frequenta os Alunos de Apolo, ouve o comentário de Caetano e não resiste a intrometer-se: “Eles não pagam jantares assim sem terem nenhum interesse. Eu conheço um [senhor] que já não tem relações [sexuais] com a mulher há dois anos. Diz que tem diabetes e que por isso não pode. Mas depois vai com outras”.

“Os bailes têm muito má fama”

Para Rosa, de 67 anos, estas histórias também são familiares. “Já ouvi falar de umas coisas… que apanham sida e isso…”. Sentada numa das muitas de cadeiras do restaurante Floresta do Ginjal, em Cacilhas, vai-se mantendo atenta às movimentações da sala enquanto vai balança o corpo ao som da música do Trio Clave, encarregue da animação da tarde. “Eu adoro ouvir música e dançar, mas não danço com qualquer um”, explica.

Nota-se pela maneira desconfiada com que olha para alguns dos pares, nomeadamente para os homens. “As pessoas olham para mim e veem que sou uma pessoa séria, mas os bailes têm muito má fama“.

Muita dessa fama vem das situações de ‘engate’ que se vivem nestes espaços. “Várias pessoas vêm para o engate e isso acaba por criar mau ambiente”, explica Adélia, que há vários anos que vai aos bailaricos com um grupo de amigas. “Uma pessoa vem aqui para se divertir e depois há outras que vêm para o engate, e eles pensam que é tudo o mesmo”.

Com mais de cinquenta anos (não diz a idade certa), começou a vir aos bailes do Ginjal em 2010 e este é o seu preferido: “É um ambiente familiar. Ninguém abusa“. Aqui há bailarico às terças, quintas, sábados e domingos. Chegam a receber cerca de 150 pessoas de cada vez. Esta quinta-feira, contudo, contam-se pouco mais de meia centena.

"Muitas pessoas vêm para o engate -- tanto eles como elas -- e acaba por criar mau ambiente"
Adélia

O presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia (SPGG) explica que muitas pessoas mais velhas dirigem-se aos bailes já com o objetivo de se envolverem com alguém — e até compram o dito comprimido azul (viagra) para quando lá vão. Como foi o caso do seu doente que, aos 76 anos, apanhou gonorreia e sífilis através de uma relação desprotegida com uma mulher de cerca de 60 anos que conheceu num baile.

Isto acontece, explica Manuel Carrageta, porque muitos idosos cresceram numa época “antes da sida” em que, apesar de existirem estas doenças, “não havia educação sexual” como há hoje em dia”. “Os idosos têm o sistema imunitário diminuído, portanto apanham estas doenças com mais facilidade”, explica o cardiologista ao Observador.

“É uma geração que pensa que naquela idade não há problema”. Isto é, que com aquela idade já não correm o risco de apanharem doenças sexualmente transmissíveis e como muitas destas senhoras já se encontram na menopausa, acabam por só se focar na questão de já não correm o risco de engravidar.

VIH: 222 casos em 2016 até agora

Em 2015, segundo um relatório europeu citado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), Portugal foi o país da União Europeia onde foram registados uma maior proporção de novos casos de VIH em pessoas com mais de 50 anos.

De acordo com dados do INSA, divulgados no dia 29 de maio no “Relatório sobre a Infeção VIH, SIDA e Tuberculose 2016”, no ano passado foram registados 222 casos de infeção por VIH em adultos com idade superior a 50 anos à data do diagnóstico, o que corresponde a 24,4% do total de diagnósticos — número de casos notificados ao INSA até 30 de abril de 2017, pelo que poderão ainda aumentar. Já em 2015, foram 279 casos, isto é, 24,3% do total de diagnósticos.

Dos 222 casos de 2016, 149 foram diagnosticados em homens (67,1%) e 73 em mulheres (32,9%), dos quais 55,9% são portadores assíntomáticos. 32,9% dos casos foram diagnosticados em Lisboa — mais concretamente 73 casos. Porto e Setúbal são o segundo e terceiro distritos onde foram diagnosticados mais casos de infeção por VIH, 44 e 33 casos respetivamente.

Até ao momento, em 2016 foram diagnosticados 22 casos de VIH. 149 em homens e 73 em mulheres.
INSA

Em 81,1% dos casos a transmissão foi feita através de relação sexual heterossexual — 180 dos 222 casos.

Os números dos casos de VIH/sida estão constantemente em atualização. Estes números de 2015 correspondem aos notificados até 30 de abril de 2017 e aumentaram relativamente aos apresentados no relatório do INSA “Infeção VIH/sida: a situação em Portugal a 31 de dezembro de 2015” (252 casos), onde constam dados reportados até 30 de junho de 2016. Daí o número de casos relativos ao ano passado poderem ainda vir a aumentar até junho deste ano.

“Então, borracho? Estás bom, borracho?”

A atuação do Trio Clave está marcada para as 15h00, mas ninguém diria, pela quantidade de pessoas que, meia hora antes, já aguarda ansiosamente na sala com vista para o rio Tejo e Lisboa.

A maioria são senhoras na casa dos 60 e 70 anos — ainda que se vejam também algumas caras mais jovens –, vestidas e pintadas a preceito. Vão pondo a conversa em dia com as vizinhas do lado, enquanto estão sentadas nas inúmeras cadeiras dispostas em fila ao longo das paredes da divisão, de modo a criar um espaço vazio no centro da sala para as pessoas poderem dançar. Já se conhecem das muitas tardes ali passadas. “Olá! Já não a via há algum tempo”, diz uma senhora ao cumprimentar, com dois beijinhos na cara, uma outra.

Com o aproximar das três da tarde, o corrupio na casa de banho das senhoras vai-se intensificando. Aproveitam para dar os últimos retoques na maquilhagem e no cabelo para entrarem na pista de dança no seu melhor. Os homens, em número bastante inferior ao sexo feminino, vão-se concentrando na entrada da sala, a observar quem já lá se encontra, ou junto ao balcão, onde aproveitam para beber uma cerveja ou um café antes do início do baile.

António Rocha, que explora o espaço há três anos, anda de um lado para o outro a atender os clientes. Os bailaricos do Ginjal não são recentes e António Rocha decidiu mantê-los. “Vêm cá pessoas dos 40 aos 80 anos para se divertirem“, conta ao Observador.

Se o divertimento é feito exclusivamente através da dança ou de algo mais, isso já não adianta. “Ah, isso já não sei. Vai ter de lhes perguntar”, afirma entre sorrisos, até ser interrompido por um cliente. “Sr. Rocha, ‘tá bom? É um cafezinho, por favor”.

O movimento na sala vai-se intensificando. Já algumas pessoas estavam a aquecer em frente ao palco, quando o Trio Clave finalmente entra em ação. Aos primeiros acordes, os homens que se encontram à entrada começam a aventurar-se para o centro da sala. O elevado volume da música praticamente abafa qualquer outro som. Talvez por isso o convite para dançar seja feito quase exclusivamente de forma gestual.

O esquema é quase sempre o mesmo. Ele dirige-se até à cadeira onde ela está e estende a mão ou então faz um ligeiro inclinar de cabeça. Uma vez aceite o convite, há várias ‘posições’ para dançar — algumas delas “um escândalo”, considera Rosa.

Há a ‘clássica’, ou seja, a mão esquerda dele na cintura dela, ela com a mão esquerda no ombro dele enquanto as duas mãos direitas estão entrelaçadas; a ‘abraçada’, em que os pares se abraçam, ele com os braços na cintura dela e ela agarrando-o no pescoço, mantendo assim os corpos bem juntos um ao outro. Os mais atrevidos optam ainda por uma terceira posição, que consiste numa escolha entre as outras duas no que toca aos braços, acrescentando um movimento de pernas quase que entrelaçado graças ao encaixe das ancas.

Muitas daquelas que ficam sem par, ou por haver poucos homens ou por não terem sido convidadas, não se fazem de rogadas e vão para o centro da sala dançar sozinhas ou com outra mulher.

Quando a música acaba, as senhoras regressam aos seus lugares, reservados com as suas malas e casacos, e esperam pelo próximo convite. Enquanto isso não acontece, voltam à conversa com a pessoas sentada ao lado. “Então borracho? Estás bem borracho?“, pergunta uma senhora, na casa dos 60, a Marcelino. “Sempre”, responde-lhe, entre sorrisos provocadores.

Foram várias as senhoras com quem Marcelino dançou ao longo da tarde. Vê-se que o homem de 60 anos é um habitué destes bailes. “Eu gosto muito de dançar e do roçar“, conta.

“Eu gosto muito de dançar e do roçar”
Marcelino, 60 anos

Estas situações de engate nos bailes não se notam apenas na pista de dança, onde, por vezes, as mãos têm dificuldade em se manter fixas ou se notam uns sorrisos mais provocadores. Basta passar pelo bar, durante o intervalo da banda, para se ver um homem a falar ao ouvido de uma mulher, encostada à parede. Entre sorrisos e palavras, ela vai-se contorcendo e rindo até que a atuação recomeça e cada um vai para seu lado.

Algo que também acontece são cenas de ciúmes. Adélia recorda uma situação em que dois homens começaram “à guerra” à conta de uma mulher, porque um deles não gostou que ela dançasse com outro. Escândalo maior foi quando um senhor foi ‘apanhado’ pela mulher no baile a dançar com outra.

“Elas passam de mão em mão”

O que não faltam são homens e mulheres casados que vêm aos bailes às escondidas dos companheiros, acrescenta Adélia. Marcelino é um deles. Está “junto” com uma senhora e ela não sabe que o marido vem aos bailes, mas garante que se fica por aí.

“A maior parte das mulheres mais velhas que vem cá é viúva, e as menos velhas vêm cá quando o marido está a trabalhar“, explica Amélia, acrescentando que por volta das 17h30/18h muitas começam a sair para estarem em casa quando o marido chega do trabalho — pelas 17h45 foram várias as pessoas que começaram a sair do Ginjal.

Há coisas que acontecem por fora, encontros às escondidas. São relações mais rápidas, tanto no caso dos homens como das mulheres. E quanto mais velhos, mais atrevidos”, acrescenta a mulher de cerca de 50 anos.

Joaquim diz ter começado vir aos bailes “para se distrair” porque a mulher não lhe “liga nenhuma”. Isso não o impediu de ter um envolvimento com outra senhora que foi bem além da pista de dança. “Já fui para a cama com uma mulher, mas só aconteceu uma vez. Foi um envolvimento rápido. Toda a gente faz isso, mas o que mais gosto é de dançar”, explica o homem de 57 anos, garantido que teve relações sexuais seguras. “Claro! Elas passam de mão em mão. De manhã estão a dançar com um e à noite com outro”.

Sexo seguro nos idosos é pouco divulgado

Ainda assim, Maria João Quintela, presidente da Associação Portuguesa de Psicogerontologia, alerta para que não se criem estigmas em torno dos bailes, especialmente porque este tipo de ambientes podem ser “favorecedores de encontros e relações que podem colmatar muitos casos de solidão”. “Não são os bailes que provocam estas doenças. As pessoas podem ter comportamento sexuais de risco, quer seja porque se conheceram num baile, na rua, em casa de um amigo”, esclarece a médica de clínica geral.

A médica ressalva a importância de se fazerem campanhas, não só em relação às doenças sexualmente transmissíveis nos mais velhos, mas também no que toca a “educação sexual, comportamentos, liberdade sexual e responsabilidade para com o parceiro”.

O sexo inseguro para os mais velhos não está suficientemente divulgado. Há alguns anos, a sexualidade e pessoas idosas nos nossos modelos mentais não entrava, ou pelo menos a pessoa idosa era tratada como se fosse assexuadas”, acrescenta.

"O sexo seguro para os mais velhos não está suficientemente divulgado"
Maria João Quintela, presidente da Associação Portuguesa de Psicogerontologia

Mas nem tudo se resume à atividade sexual, refere ainda Maria João Quintela. O lado sentimental e psicológico destes relacionamentos fortuitos não pode ser esquecido. “Há pessoas que estão mais sozinhas e depois é mais custoso serem rejeitadas”, defende a especialista.

Anabela não se pode queixar. Foi num dos bailes dos Alunos de Apolo que conheceu o marido, já lá vão nove anos. “Aqui arranjam-se muitos namorados, depois há relações que dão certo e outras que não”.

À medida que as pessoas vão chegando ao baile, vai cumprimentando e dando dois dedos de conversa. São muitos anos de casa e Anabela já conhece os clientes mais assíduos (e as suas histórias). “Esta, coitadita, é muito sozinha e anda toda triste”, diz ao olhar para uma senhora a dirigir-se até ao salão no segundo andar. “Um senhor, que é casado, pagou-lhe um lanche e ela ficou toda entusiasmada. Até já o convidou para ir lá a casa, mas ele não vai”.

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