Sextech. A tecnologia já vende os novos vibradores como se fossem telemóveis /premium

17 Novembro 2018

Os vibradores estão a sair das sexshops para serem vendidos nas secções de tecnologia das grandes lojas. Mas as empreendedoras destes gadgets de sextech ainda enfrentam piadas de mau gosto.

Stephanie Alys criou um wearable — tecnologia que se veste — que pode ser utilizado por “homens e pessoas com pénis”. Já Alexandra Fine vende um concorrente direcionado “a pessoas com vulvas”. As duas empreendedoras estiveram na Web Summit, em Lisboa, da mesma forma que vão a outras feiras tecnológicas: com o objetivo de apresentar os produtos que vendem como qualquer outra startup que apresenta novos gadgets.

Em conversa com o Observador, as duas empreendedoras frisaram que não vendem apenas vibradores, mas sim uma nova forma de olhar para a tecnologia e a sexualidade. Numa comparação direta com plataformas de encontros online, como o Tinder e o eHarmony, asseguram que a indústria de gadgets sexuais está não só a crescer, mas também a ser mais aceite na sociedade. Por vezes, pode ser mais difícil fazer um pitch a investidores, mas têm conseguido cativar, e não é por se falar de sexo, é pela oportunidade de investimento. Como mostrava a Forbes em 2015, este sector tem o potencial de ser um mercado de 15 mil milhões de euros.

Alexandra Fine era analista na RedLight Management e Stephanie Alys trabalhou na Deloite como consultora (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

O passado de Alexandra e Stephanie nem sempre foi ligado à indústria do Sextech. Stephanie trabalhou na Deloitte como consultora; Alexandra foi analista na Red Light Management, empresa que gere as carreiras de músicos como Dave Matthews ou Enrique Iglesias. Daí para o negócio de vibradores, bastou uma ideia: pegar na tecnologia que existe e criar gadgets sexuais com designs mais modernos, conectáveis e práticos.

O objetivo não é substituir humanos durante o sexo, é melhorar as experiências, afirma Alexandra: “Entrámos nesta indústria porque queríamos criar tecnologia que ajudasse os parceiros a conectarem-se em vez de estarem distraídos”. Como diz Stephanie: “O smartphone é a última coisa em que uma pessoa toca de noite e a primeira de manhã, em vez de ser no próprio parceiro”. Para isso, vendem vários gadgets que juntam a sexualidade com a tecnologia para melhorar as relações sexuais entre casais, apesar de também “poderem ser utilizados para masturbação ou relações em grupo”, como explica Stephanie.

Crescendo, Tenuto e Pom, os vibradores que já se vendem ao pé de secadores de cabelo

Por ser uma tecnologia que toca num tema íntimo como é a sexualidade, Alexandra refere: “Continuamos a querer que o sexo seja uma coisa em privado, mas também queremos que seja uma conversa, é uma interseção entre sexo e negócios”. É por este lado comercial que levaram à Web Summit os seus principais produtos. A MisteryVibes, de Stephanie, levou o Crescendo, um vibrador dobrável “para todos os géneros”, e o Tenuto, um gadget sexual vibratório para homens. A DameProducts, de Alexandra, levou o Pom, um pequeno vibrador “que cabe na palma da mão”, conta a criadora, criado “a pensar em mulheres”.

Cada um destes produtos replica os avanços que a indústria tecnológica tem apresentado em vários gadgets, desde smartphones a drones. Têm até seis motores vibratórios internos (como um comando de consola), são 100% à prova de água (como as mais recentes câmaras fotográficas), têm carregamento sem fios (como os últimos iPhone) e utilizam silicone não bacteriano para maior durabilidade (como as pulseiras de alguns smartwatches). Além disso, como começa a ser obrigatório para qualquer gadget, são conectáveis por bluetooth a outros aparelhos e podem ser controlados através de uma app. Por todas estas características, e pelo preço mínimo de cerca de 90 euros, as duas empreendedoras são muito claras a definir os seus clientes como “um mercado premium”. Mesmo com estas inovações, atendendo ao objetivo destes produtos, funcionam também sem estarem conectados à rede e ambas afirmaram que não recolhem dados dos utilizadores.

Tech é tech. Quando começamos a falar do interior destes produtos, de como os fabricamos e na parte do hardware, o aspeto da sexualidade desaparece”, assume Stephanie sobre o Tenuto e o Crescendo. “A conversa muda para motores encapsulados, como é que os conseguimos fazer e o que estamos a inovar”, explica a fundadora da Mistery Vibes sobre o contacto que têm com outros inventores em feiras tecnológicas. “Fazem-me perguntas sobre como é que consigo garantir que a vibração não interfere com o acelerómetro”, refere.

Na conferência sobre SexTech, esteve ainda presente Polly Rodriguez, da Unbound Babes. Esta empresa fabrica também um pequeno anel vibrador para ser utilizado na mão, em público, com um design bem discreto, que a presidente executiva utilizou na conferência. É esta mudança no design destas tecnologias que está a permitir a este negócio sair das Sexshop para entrar nas secções de saúde e beleza dos hipermercados e lojas de eletrónica. A possibilidade de se passar a comprar estes produtos pela Internet com empresas mais credíveis — que garantem que é possível fazer a devolução e accionar garantias, se necessário — abriu as portas a que muitos casais curiosos investissem nestes gadgets, justificam as empreendedoras.

[Veja no vídeo as intervenções de Polly, Alexandra e Stephanie no palco da Web Summit]

Stephanie Alys dá o exemplo de como estes produtos já facilmente chegam ao grande público, em vez de ser só em sexshops: “Já estamos a vender produtos nossos em lojas de aeroporto, mesmo ao pé dos secadores de cabelo, na secção de tecnologia e gadgets”. A Dame Products, como conta Alexandra Fine, tem produtos “em lojas de saúde e sites como a Goop”, de Gwyneth Paltrow, dedicado ao público feminino.

“O e-commerce está a ajudar. As pessoas ficavam acanhadas por devolver produtos. Trabalhámos para algumas sexshops, mas tentamos apontar para o Dutyfree [lojas de aeroporto] e lojas de tecnologia”, explica Stephanie sobre a tática com que está a entrar no mercado tecnológico.

O facto de o design destes gadgets sexuais ter evoluído para “formas que não replicam genitália”, como disse Alexandra, acabou por contribuir para o aumento deste mercado. Como explicam as empreendedoras, a indústria passou de um ponto em que, nos anos de 1990, na série O Sexo e a Cidade, se falava da Hitachi Magic Wand e do Rabbit [wearables sexuais facilmente identificáveis como tal] para uma indústria com produtos feitos de poliésteres especiais, motores encapsulados e materiais dobráveis “adaptáveis à genitália”, referiu Stephanie.

“Acho que são como uma escova de dentes, algo que utilizas todos os dias para melhorar as tuas experiências”, compara Alexandra.

O que estas empreendedoras estão a fazer é utilizar novas táticas de negócio de outras empresas tecnológicas que vendem desde torradeiras a auscultadores. Têm produtos arrojados e inovadores, que juntam novas funcionalidades, desde ligações Bluetooth a apps para controlar o nível de vibração. Com esta abordagem de negócio, e afirmando que os produtos são “a pensar em melhorar as experiências sexuais entre casais ou grupos, e não apenas na masturbação [a solo]”, até já têm análises aos produtos que fabricam publicadas na Wired ou emitidas na BBC.

Na página oficial destes produtos, as características são apresentadas como noutros produtos tecnológicos

A produção destes aparelhos é também muito semelhante à de outros produtos eletrónicos. “Garantimos que as baterias são certificadas durante testes de stress e qualidade na fábrica. Depois, quando se tem um produto que é bom o suficiente, faz-se o teste com pessoas”, explica Stephanie. “Fizemos muito boas mudanças em vários produtos depois desta última fase”, assume Alexandra. Também se preocupam em garantir que o material não é tóxico nem fica com bactérias.

“Temos de olhar para toda a nossa tecnologia como ferramentas com que estamos a interagir humanamente”, defende Alexandra sobre a forma como estão a abordar este mercado do Sextech. “Há 10 anos, quando tivemos a ideia [da MisteryVibe] apenas vimos como é que a tecnologia, as apps e o desenvolvimento precisavam de ser feitos”, explica Stephanie, mostrando que o foco foi não só em garantir que este produtos proporcionavam prazer, mas que realmente funcionavam e seriam inovadores no mercado.

Startups como as outras, mas a ter de enfrentar piadas de mau gosto

Ninguém [de investidores a interessados na feiras de tecnologia] faz uma aproximação de forma neutra. “Ou não querem falar. Ou o contrário, e dizem ‘oh meu Deus, temos de falar, é uma ótima ideia'”, conta Alexandra. As duas empreendedoras têm ido a conferências de tecnologia há cerca de quatro anos. Mesmo no início, apesar de a conversa e apresentação das ideias que mostravam em eventos como o TechCrunch Disrupt ou Ryse (um dos ‘eventos irmãos’ da Web Summit) gerar alguns “risos inseguros”, como revela a responsável da Dame Products, o resultado tem sido proveitoso. “Estamos aqui para fazer o pitch a investidores”, assume.

Contudo, sendo um negócio virado para a sexualidade, “há dificuldades”. Como conta Alexandra, demasiadas vezes ouve a piada de mau gosto: “Posso ter uma demonstração?”. Como explica, “é fácil rirem-se e gozarem, mas isso só mostra o desconforto e insegurança da pessoa”.

“Ao fazerem piadas sobre o meu produto [com piadas sexuais] estão-me a tornar num objeto sexual, não estão a falar do meu produto. Mudam o tópico do meu produto para o facto de eu ser um ser sexual. Masturbar-me ou ter prazer sexual não é o assunto, é o produto”, explica Alessandra.

As duas empresárias conheceram-se pessoalmente pela primeira vez na Web Summit, mas neste ponto da dificuldade em apresentar a ideia de negócio, contam experiências muito semelhantes. “Uma vez candidatei-me a uma incubadora e recebi um e-mail a dizer apenas: isto é uma piada? Foi muito mau”, diz Alexandra. “Infelizmente, já me aconteceu o mesmo”, conta Stephanie. Contudo, especialmente para empreendedoras, o panorama de negócio está a mudar, explicou: “O movimento #metoo deu às empreendedoras mais confiança para resistir. Quando se está num ponto em que se precisa de investimento e de construir um negócio de hardware, é preciso fazer tudo”, mas há limites.

Estas dificuldades mostram-se também em partes mais simples de fazer crescer um negócio de gadgets: “Estamos banidos de publicitar na maioria das plataformas como o Facebook. Já em relação ao Viagra e a disfunção erétil, como não é para prazer, não acontece o mesmo”, contava Stephanie na conferência no evento. Contudo, plataformas de encontros online como o Tinder e o eHarmony também tiveram os mesmos impasses no início, comparou.

“Quando se está desesperado quer-se reuniões com investidores. Antigamente acontecia muito e diziam “vamos falar durante o jantar”, ou “vamos falar depois da conferência de tecnologia no bar do meu hotel”. O que o Metoo fez foi dar a capacidade de responder: Não, vamo-nos encontrar no meu escritório ou no lounge de investidores na conferência”, explica Stephanie.

Stephanie revela que, mesmo com mais dificuldades em fazer chegar a mensagem do seu produto, tem clientes “dos 17 aos 70 anos”.

A responsável da MisteryVibes faz ainda um apelo aos pais e aos filhos adolescentes para falarem mais abertamente sobre a sexualidade: “Uma das coisas que me preocupa é quando jovens atravessam a puberdade e ficam curiosos com o seu corpo. Têm uma área ali em baixo sobre a qual não sabiam nada e sentem vergonha por se tocarem. Podem utilizar coisas que não estão desenhadas para isso, sejam vegetais, escovas elétricas, ou outras coisas. São produtos que não foram desenhados para isso, pode ser mesmo perigoso. As escovas elétricas têm curvas que recolhem bactérias”. Por isso, afirma que não é preciso comprar os produtos da MisteryVibe, que são mais caros. “Pode ser um vibrador de 8 ou 10 euros, como os Bullet”.

fotografia de João Porfírio.
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