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Sofi Oksanen e a história da violência russa contra as mulheres: "O silêncio e a indiferença do Ocidente foram comprados com rublos"

O livro "A Guerra de Putin Contra as Mulheres" foi publicado no ano passado. A autora, Sofi Oksanen, esteve agora em Portugal e em entrevista falou de uma cultura de abuso, impunidade e misoginia.

Há muito que Sofi Oksanen tem como foco no seu trabalho enquanto escritora o passado soviético e o presente russo. É pouco surpreendente, tendo em conta a origem da autora: nascida na Finlândia, mas com antepassados estónios, há feridas ainda por sarar dos dois lados destas fronteiras europeias a nordeste no que toca à relação política, militar e cultural entre estes povos e aqueles para quem Moscovo é a capital.

No entanto, se obras como Quando as Pombas Desaparecem, Purga ou o mais recente O Parque dos Cães abordavam estas questões através de uma lente ficcional, a invasão russa da Ucrânia em 2022 motivou-a a debruçar-se sobre o historial russo de violência — particularmente a violência sexual em tempos de guerra —, enraizando-se numa realidade que a atingiu muito de perto, já que a tia-avó de Oksanen foi violada por elementos do Exército Vermelho, deixando sequelas para a vida.

“Ela nunca se casou e nunca teve filhos”, contou ao Observador em Lisboa. Depois de um ensaio inicial assinado para o site Upnorth em 2022, Oksanen expandiu a investigação, resultando em A Guerra de Putin Contra as Mulheres, publicado em setembro de 2024 em Portugal mas promovido recentemente pela escritora no nosso país a propósito da sua passagem pelo festival LeV — Literatura em Viagem, em Matosinhos.

A premissa da autora é que, apesar da violência sexual ser infelizmente comum em cenários de conflito, o comando militar russo parece usá-la deliberadamente como arma, prática que, defende, já vem dos tempos da União Soviética. Em conversa com o Observador, Sofi Oksanen defende que Moscovo está a recorrer a violações e castrações na Ucrânia como prática genocida, porque o que está em causa é a intenção. “Não se trata apenas de quebrar a resistência da Ucrânia, há uma intenção deliberada de não haver mais ucranianos”, aponta.

Ao longo de uma extensa conversa, Oksanen aponta o dedo à Rússia de Putin e à política de “eliminar da história oficial e da educação tudo o que, de alguma forma, dê a entender que a Rússia cometeu crimes de guerra no presente ou no passado”. Mas também ao Ocidente, por ter apostado numa política de apaziguamento ao longo de décadas até esta desembocar no atual clima de hostilidade.

Para a escritora, há notas positivas a tirar da atual situação, nomeadamente os avanços que estão a ser tidos no direito internacional para pôr fim às práticas impunes de violência sexual. No entanto, alerta também que o problema a ser enfrentado vai para lá do campo de batalha, já que o Kremlin está a fazer da misogenia um instrumento diplomático, porque “as mulheres são perigosas para o poder central, pelo que devem ser mantidas na linha”. “Todos os regimes autoritários são maus para os direitos das mulheres, por isso há algo que os une. Mesmo que possam não estar unidos de outra forma, isso é algo que, de facto, têm em comum”, aponta.

▲ A capa de "A Guerra de Putin Contra as Mulheres", de Sofi Oksanen, na edição portuguesa da Objetiva

A violência sexual sempre foi uma arma de guerra. Porque é que a sua utilização por parte da Rússia é tão particular?
Cada contexto é um pouco diferente. Embora eu diga que desde sempre fez parte do armamento de guerra, não significa que seja natural ou que devamos pensar dessa forma. Há muitos conflitos e guerras em que é possível contê-la. Vejamos, por exemplo, o que aconteceu em Berlim após a Segunda Guerra Mundial. Foi o Exército Vermelho que cometeu a maior parte da violência sexual contra as mulheres alemãs. Porquê? Devido à responsabilidade do comando, essa é a questão fundamental. Veja-se, há muitas coisas que se podem fazer: é, por exemplo, possível ter mais mulheres no exército, porque quanto mais houver, menos provável será a violência sexual no campo de batalha. No entanto, o crucial é mesmo a responsabilidade de comando e tanto o exército como todo o Estado russo têm prosperado no trono da impunidade. Nunca foram punidos pelos seus crimes de guerra em geral e agora, neste contexto de violência sexual, também não têm sido condenados. O que está a acontecer na sociedade russa é que não se condena a violência sexual contra mulheres e homens. Assim, se os soldados não são responsabilizados por isso ou se é aceite, entende-se que é assim que as coisas acontecem. Além disso, se encararmos a sociedade russa como uma sociedade em que existe um elevado nível de tolerância quanto à violência sexual em geral, se esta é aceite no país de origem, como podemos esperar que tratem melhor os inimigos? Tal não acontece e, dessa forma, o retrocesso dos direitos das mulheres na Rússia faz parte de todo o fenómeno. Além de que é também, pura e simplesmente, uma arma barata, tão barata quanto possível.

A pergunta, de certa forma, era também sobre o facto de, em muitos casos, a violência sexual parecer ser uma consequência da brutalidade da guerra. Mas o que propõe neste livro é que no atual caso russo não é uma consequência, é uma prática reiterada.
É uma prática, sim, sem dúvida. É uma política. E estamos a receber novas provas sobre isso neste preciso momento, porque há novos relatórios sobre a forma como o exército russo está a tratar os prisioneiros de guerra e os civis em cativeiro, e estão repletos de violência sexual, de formas indiscriminadas de tortura e humilhação, tanto contra homens como contra mulheres.

Tem trabalhado os temas do legado da União Soviética e da violência contra as mulheres na sua ficção. O que é que a levou a escrever um ensaio especificamente sobre eles?
Escrevi sobre este tema no meu romance Purga, que saiu em 2008 e foi precedido por uma peça de teatro, que estreou em 2007. Nessa altura, a razão pela qual quis escrever sobre o assunto foi porque estava muito frustrada com as guerras dos Balcãs. Estava a pensar “era suposto avançarmos e isto é o que acontece em plena Europa. Como podemos considerar o nosso continente de alguma forma moderno se temos países ou grupos a utilizar este tipo de armas?” Fiquei muito, muito frustrada com isso, e também com as consequências da violência sexual, que eu sabia serem de longo prazo, podem durar toda a vida, não são algo que desapareça num piscar de olhos. E as vítimas nunca foram devidamente indemnizadas. No entanto, por outro lado, no ano passado, penso eu, a Ucrânia pagou as primeiras indemnizações às vítimas de violação.

Qual a importância disso?
É algo sem precedentes, porque nunca tinha acontecido num país que ainda está em guerra. De certa forma, apesar de tudo isto ser horrível, há de facto progressos em determinadas práticas. Falando sobre os aspetos positivos de coisas horríveis, uma pessoa que menciono no livro, a mulher russa Olga Bykovskaya — cuja conversa telefónica com o marido foi intercetada quando ela estava a encorajar o marido a violar, desde que ele usasse preservativo — acabou de ser condenada em Kiev a cinco anos de prisão pela sua ação de encorajar um soldado a violar mulheres ucranianas. Claro, foi condenada à revelia, é certo, mas ela está na lista da Interpol. É hoje uma criminosa de guerra procurada internacionalmente.

Ou seja, a questão aqui também é que isso crie jurisprudência, certo?
Exatamente. Portanto, nesse sentido, isso é algo enorme. Se pensarmos na história das violações de guerra, apesar de estarem a acontecer coisas horríveis neste conflito, na verdade, do ponto de vista jurídico, também estamos a dar grandes passos em frente.

Defende que o uso generalizado da violência sexual nos conflitos armados deve ser discutido como uma tática de genocídio. Em que sentido?
Com base nas provas que temos sobre estes crimes sexuais, há muitos sinais que mostram a intenção destas ações; quando falamos de genocídio, o que está em causa é sempre a intenção. A intenção de destruir uma nação, um grupo de pessoas ou uma etnia. E com base nos depoimentos das testemunhas, os soldados russos estão a dizer às suas vítimas coisas que implicam intenções genocidas. Como, por exemplo, “violamos-te para que não possas ter filhos ucranianos”. Ou “violamos-te até não quereres ter relações sexuais com homens ucranianos”. E depois, claro, uma prova muito óbvia é a castração dos homens ucranianos. Portanto, há muitos exemplos diferentes desta intenção genocida. Não se trata apenas de quebrar a resistência da Ucrânia, há uma intenção deliberada de não haver mais ucranianos.

"Na sociedade russa — nas prisões e no exército, por exemplo —, a violência sexual é um grande fenómeno, mas é também um tabu. As vítimas não vão contar na televisão o que lhes aconteceu no exército ou na prisão e essa é também uma questão de controlo no sistema prisional e nas forças armadas. É uma grande parte da estrutura de poder na Rússia."

Enquanto lia isto, o que me veio à cabeça foi uma espécie de extensão da tática de terra queimada. Portanto, neste caso, está-se a retirar a um ser humano a sua capacidade de produzir descendência.
Parece-me uma metáfora muito boa: não só destruir os edifícios, as infraestruturas ou até os humanos, mas também destruir o futuro, tentando terminar a capacidade de ter crianças.

Como referiu, embora a maior parte das ações sexuais violentas seja contra as mulheres, há também muitas provas de agressão sexual contra os homens por parte da Rússia. Se os casos de mulheres já são negligenciados, os dos homens parecem ser ainda mais. Porque é que acha que isto acontece?
Há diferentes razões. Para começar, temos mais provas e mais dados quanto às vítimas do sexo feminino. Em todas as ditaduras, a violência sexual é também exercida contra os homens, mas é provável que as vítimas do sexo masculino não queiram falar. Penso que todas as raparigas são educadas com consciência da violência sexual, especialmente agora, depois do #MeToo, porque também temos uma linguagem pública para falar sobre o assunto. Em comparação, não me parece que os rapazes sejam educados com a ideia de que podem ser violados, o que torna tudo ainda mais difícil, além de que temos também menos psiquiatras que trabalham com vítimas do sexo masculino. Penso que deveríamos prestar mais atenção a este facto e também encorajar os homens a falar sobre o assunto. Outra coisa é que se pensarmos nas vítimas masculinas e femininas, com as femininas surgem sempre os velhos mitos de que os homens têm um desejo sexual incontrolável e que isso leva à violência — embora esta nunca aconteça num mercado a céu aberto, por exemplo. Ou seja, os agressores sabem como tentar manter o segredo, o que é contraditório com esse mito. Além disso, não existe nenhum mito sobre o facto de os agressores masculinos terem um desejo sexual incontrolável por homens, a não ser que sejam homossexuais. Mas penso que os soldados russos não queiram passar essa ideia ao resto do mundo! (risos)

A violação masculina também pode ser, de certa forma, considerada embaraçosa. Existe também aqui um elemento de tabu relativamente a conceitos de masculinidade e heteronormatividade?
Sem dúvida. Na sociedade russa — nas prisões e no exército, por exemplo —, a violência sexual é um grande fenómeno, mas é também um tabu. As vítimas não vão contar na televisão o que lhes aconteceu no exército ou na prisão e essa é também uma questão de controlo no sistema prisional e nas forças armadas. É uma grande parte da estrutura de poder na Rússia. Claro que agora as prisões estão vazias porque os reclusos estão a lutar [na Ucrânia], mas a população encarcerada é muito numerosa na Rússia. Ou seja, é um fenómeno enorme na sociedade russa.

Um dos primeiros exemplos que oferece das consequências da violência sexual como arma de guerra diz respeito a um membro da sua família. Com base no que aprendeu e na sua experiência pessoal de lidar com essa situação de perto, quais são os tipos de impactos sociais duradouros que isso tem?
No caso da minha tia-avó, ela nunca se casou e nunca teve filhos. Portanto, dessa forma, a intenção da violação genocida atingiu o seu objetivo, mas os impactos a longo prazo são simplesmente coisas como constatar o controlo do sistema, ter consciência de que é isto que o sistema nos faz se não obedecermos. Não houve justiça, obviamente, mas penso que se a minha tia-avó tivesse vivido num mundo diferente… Enfim, não faço ideia se ela percebeu que não era a única. Muito provavelmente, sim, mas faz a diferença ver uma vítima a falar publicamente sobre o assunto. Atualmente, temos muitos casos em que a vítima falou em público e isso fez com que um grande número de mulheres avançasse com queixas. Portanto, dessa forma, numa conversa pública, há força nisso, só para dizer que não se está sozinho.

No livro, refere que a forma como as vítimas de crimes de guerra sexuais se manifestaram no Japão teve um efeito dominó no desenlace de outros conflitos. Uma coisa muito importante que menciona é o facto de a violação, por exemplo, ser também uma ferramenta imperialista para o ato de auto-censura por parte da vítima. Pode explicar como é que isso acontece?
É uma forma de silenciar as pessoas, mas também de silenciar comunidades inteiras. É claro que a vítima do crime é a vítima real, mas não falamos sobre como o crime traumatiza toda a comunidade e as respetivas famílias. Esta é também uma das consequências a longo prazo, porque se pensarmos nos casos na Ucrânia, onde o exército russo tem forçado os pais a verem os filhos a serem violados, ou os filhos a verem os pais a terem relações sexuais, ou então também a ter pessoas de fora a assistir ao crime, desta forma, está-se a traumatizar comunidades e a quebrar laços com diferentes gerações.

Salienta que também é importante que as pessoas falem publicamente sobre este assunto. Caso contrário, podemos olhar para as vítimas e assumir que se trata de uma quantidade enorme de casos, mas isso torna-se apenas uma estatística, certo?
Sim, e é claro que é compreensível que muitas vítimas não queiram falar, mas, uma vez mais, isso não significa que as outras pessoas devam ficar caladas. É verdade que a mente humana está construída de uma forma que não nos permite sentir simpatia pelos números, eles não têm um rosto. É da psicologia humana básica sentir empatia por outro ser humano que pode ser como nós. É isso. E se pensarmos também na amplitude etária das vítimas — as mais novas são crianças de poucos anos e as mais velhas são mulheres com mais de 80 anos —, ao observarmos isto percebemos que não tem absolutamente nada a ver com velhos mitos sobre o desejo sexual.

epa11785473 Russian President Vladimir Putin gestures as he answers questions during his annual live broadcast press conference with Russian federal, regional, and foreign media at the Gostiny Dvor forum hall in Moscow, Russia, 19 December 2024. Russian President Vladimir Putin on 19 December holds his end-of-year press conference and the 'Direct Line with Vladimir Putin' televised event, where he will answer citizens' questions focusing on domestic issues.  EPA/YURI KOCHETKOV

▲ "Nunca fizemos nada de errado, não é agora que vamos fazê-lo. Foi um dos mitos que o regime de Putin começou a enfatizar porque era daqueles que ainda unia as pessoas"

YURI KOCHETKOV/EPA

Já o referiu anteriormente — inclusive nesta conversa: algumas ações de violação e tortura sexual das tropas russas não são apenas patrocinadas pelo Estado, mas também pelos membros da família daqueles que as perpetuam. Deu o exemplo da chamada telefónica que foi intercetada. Porque é que acredita que isto está tão presente na cultura russa atual?
Os soldados precisam da aprovação da frente doméstica para o que estão a fazer, porque querem ser pais, maridos e filhos respeitados, obviamente. Nesse sentido, esta ligação entre a frente doméstica e a frente de combate é muito importante para a Rússia. Além disso, desde há muito tempo que o sistema educativo foi transformado numa educação patriótica militar, onde os papéis de género são bem definidos, assim como quem é o inimigo. A desumanização do inimigo é também um fator chave. Lançaram, por exemplo, um livro com imagens do que são os russos e do que são os ucranianos, em que os soldados ucranianos também são descritos como homossexuais, por exemplo. Portanto, se formos educados num sistema em que não pensamos que o inimigo é um ser humano, então praticamente tudo é possível. Mas é necessário um longo caminho para chegar a este ponto, em que não consideramos os inimigos como seres humanos ou iguais a nós. Na Rússia, há racismo contra os ucranianos desde há muito tempo, pelo que, dessa forma, têm sido considerados sub-humanos ou não iguais aos russos.

Às tantas escreve no livro “a Federação Russa não é um Estado de direito. A obediência à lei é seletiva, funcionando como um meio de silenciar uma posição e qualquer dissidência”. Recupero esta citação porque relaciona-a com as formas seletivas que o atual regime escolheu para representar a história da Rússia e o impacto que isso tem hoje. Pode explicar onde está essa ligação?
A Rússia serve-se de um conceito chamado “inocência imperial”, ou seja, estão a eliminar da história oficial e da educação tudo o que, de alguma forma, dê a entender que a Rússia cometeu crimes de guerra no presente ou no passado. E se não houver informação ou dados sobre os crimes que o nosso país, os nossos concidadãos ou os nossos antepassados cometeram, pensamos que tal não é sequer possível. Este é também um outro método psicológico de como cometer crimes.

Em que sentido?
De certa forma, temos carta aberta para cometer crimes porque nunca fizemos nada de errado, fomos educados numa sociedade onde nós, os nossos pais e os nossos avós nunca fizemos nada de errado. Ou seja, se nunca fizemos nada de errado, não é agora que vamos fazê-lo. Isto está relacionado com o mito da Grande Guerra Patriótica. É algo enorme, e já o é desde os tempos da União Soviética. Foi um dos mitos que o regime de Putin começou a enfatizar porque era daqueles que ainda unia as pessoas. As pessoas ainda tinham experiências pessoais ou histórias familiares sobre a Grande Guerra Patriótica.

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Mas o que está em causa quando se fala da Grande Guerra Patriótica?
O que é problemático é o facto de colocar o sacrifício russo no centro, sugerindo que mais ninguém se magoou, apenas os russos. Falámos há pouco da Segunda Guerra Mundial — tem literalmente esse nome, ou seja, toda a gente sofreu! Mas na Rússia, só os russos sofreram ou, durante os anos da URSS, os cidadãos soviéticos. Nessa lógica, por exemplo, o Holocausto não teve importância porque se privilegiava o sofrimento dos soviéticos e não dos judeus. Portanto, há isso. No entanto, com a Grande Guerra Patriótica, elimina-se também o pacto Molotov-Ribbentrop, o que significa que não existia para os russos na União Soviética, tal como não existe hoje em dia. Assim, de certa forma, quando falamos da Segunda Guerra Mundial, estamos a falar de coisas totalmente diferentes das que os russos falam, e eles estão a educar as crianças e as novas gerações com este conceito. Isso faz com que seja praticamente impossível ter uma conversa.

Porque esta acontece sob pressupostos completamente diferentes?
Veja, a razão pela qual tenho vindo a escrever sobre este assunto há tanto tempo é que esta luta pela compreensão da história começou nos Estados Bálticos muito antes de a Rússia invadir ou ocupar a Península da Crimeia [em 2014]. Nos países bálticos, existem grandes comunidades de língua russa, que são educadas com os meios de comunicação social russos, etc… De certa forma, existem dois entendimentos diferentes do passado e da realidade, o que torna tudo muito complicado, e já nessa altura era claro que se tratava de algo que iria ter consequências a muito longo prazo. E essa foi uma das razões pelas quais senti que era importante escrever sobre o passado soviético, muito antes de terem alterado o código penal na Rússia para criminalizar falar-se sobre os crimes do Exército Vermelho. E isso já define o código moral do país. Se for ilegal falar sobre os crimes que o nosso país cometeu, então é bastante claro que isso vai levar a uma situação em que esses crimes são considerados atos heroicos e um bom cidadão vai cometê-los.

Escreveu no livro que, apesar de no período caótico dos anos 90 da Rússia pós-União Soviética ter havido uma espécie de acerto de contas com o passado, há uma política muito deliberada no sentido de negar isso e propor uma visão alternativa.
A Rússia poderia ter seguido outro caminho nos anos 90, mas, infelizmente, aqueles que insistiram nisso acabaram por ser uma minoria. Não me parece que haja um único país que queira realmente aceitar os crimes que cometeu. É difícil, é horrível. Quero dizer, não se quer fazer isso, simplesmente. Se os outros não nos pressionarem insistindo que é preciso enfrentar estes crimes, então é claro que se quer esquecê-lo.

"Do ponto de vista do Kremlin, as mulheres são perigosas para o poder central, pelo que devem ser mantidas na linha. Já a nível internacional, estão a utilizar a misoginia como um instrumento para encontrar amigos em regimes autoritários. Todos os regimes autoritários são maus para os direitos das mulheres, por isso há algo que os une."

Este ensaio aponta também o dedo ao Ocidente, considerando que a forma como este terá minimizado os crimes da União Soviética e da Federação Russa levou até à situação atual. Como é que isto aconteceu?
Há muitas explicações para este facto. Uma delas é que o Ocidente não quis realmente pressionar a Federação Russa a ser confrontada com os seus crimes. Estávamos a viver uma época em que os países ocidentais não achavam que isso fosse necessário, algo muito diferente do que estávamos a pensar nos estados bálticos. Quer dizer, forçar a Rússia a confrontar-se com os crimes soviéticos teria levantado questões sobre as reparações, seria necessário compensar o sofrimento das vítimas e, claro, Moscovo não quer pagar isso. Nesse sentido, foi tudo bastante claro. Mas também, sabe, Vladimir Bukovsky, talvez um dos mais famosos dissidentes soviéticos, foi de facto uma das pessoas que foi aos arquivos russos nos anos 90, quando estes abriram, e foi tentar fazer cópias de todos os materiais de arquivo que tinham. É uma história engraçada, de certa forma, porque as pessoas que trabalhavam nos arquivos não sabiam o que era um scanner portátil, que ele trouxe consigo e começou a fazer cópias. Eles não perceberam que ele estava a fazer e, assim, conseguiu copiar bastante material. Bukovsky era uma das pessoas que apoiavam a ideia de que a Rússia precisava de enfrentar o passado, mas, segundo ele, uma das razões pelas quais os países ocidentais não estavam interessados neste projeto era que também teria exposto os ocidentais que, na realidade, tinham trabalhado para os soviéticos. Penso que isso foi parte do problema.

Portanto, havia o risco de desenterrar um passado que se queria lá atrás?
Claro. Devo frisar que, também na Finlândia, muitos políticos estiveram envolvidos com os soviéticos e penso que não queriam que o assunto fosse trazido à luz do dia. A questão é essa: quando se investiga uma coisa, pode aparecer outra. E depois, a partir dos anos 90, o dinheiro russo roubado aos cidadãos russos começou a fluir para os países ocidentais. Esse é outro fator deste problema: havendo tanto dinheiro russo a ir para o Ocidente, não era provável que essas pessoas quisessem forçar a Rússia a enfrentar os seus crimes. De certa forma, o silêncio e a indiferença do Ocidente foram comprados com rublos. E se pensarmos em dinheiro russo, é uma loucura a quantidade que existiu e continua a existir nos países ocidentais. Parte do problema estava também no sistema bancário britânico, que estava a receber tudo. Era de doidos.

Tanto mais que Londres começou a ficar conhecida como “Londongrad”.
Exatamente. Por isso, penso que estes são os dois grandes fatores… No entanto, outra coisa importante para nós, nos países ocidentais, é que, à medida que avançávamos para um mundo pós-colonial e compreendíamos que o imperialismo era algo que devia ser deixado no passado, não conseguíamos sequer imaginar que houvesse um país que pensasse o contrário. “Os russos são parecidos connosco, por isso devem pensar como nós”, achámos, o que se trata de um equívoco comum. Mas também aponto o dedo ao mundo da cultura, porque se pensarmos no número de títulos, de filmes, de programas de televisão sobre a Alemanha de Hitler, no quanto investigámos, é um género em si mesmo, não é como se alguém pensasse “oh, já há um filme sobre a Alemanha Nazi e outro sobre Hitler, isso é suficiente, não precisamos de falar mais sobre isso”. Está sempre a sair um novo filme ou programa de televisão sobre o Terceiro Reich ou sobre a Stasi, é simplesmente alucinante a forma como os alemães trabalham nisso, o que também gera problemas. Mas, de qualquer forma, estão a produzir histórias. Ou seja, de certa forma, não querem esquecer.

Acha que é diferente quando se pensa na União Soviética?
Por exemplo, depois de lançar o meu primeiro romance em 2003, Stalin’s Cows, que estava relacionado com estes assuntos, quando escrevi o segundo, na Finlândia, as pessoas perguntavam: “ok, então, de certa forma, já despachaste o tema ou não?”

Ou seja, numa lógica de “mas é só isso que tu fazes, escrever sobre a União Soviética”?
Sim, encarando isso como se fosse errado concentrarmo-nos neste tema. Mas alguma vez podemos escrever toda a história de uma nação ou de um fenómeno apenas com um romance? Não é assim que pensamos na Alemanha, ou é? Mas, é claro que há várias razões para não haver tantos filmes sobre os campos soviéticos, por exemplo — é muito mais caro e complicado viajar para a Sibéria do que rodar um filme na Alemanha ou num estúdio. No entanto, o maior problema tem também a ver com o que pensamos ser importante. Se pensarmos no número de livros ou de ficção traduzida [sobre a União Soviética], não são assim tantos. Claro que, em todos os países bálticos, os nossos autores escreveram sobre o tema e há muita não-ficção sobre o assunto, mas esses livros não costumam chegar ao estrangeiro. Por isso, a compreensão internacional baseia-se, normalmente, no tipo de produtos culturais e de histórias públicas que temos, e há menos sobre os gulags. Parte disto deve-se simplesmente ao facto de a Rússia não o querer.

A Alemanha Nazi teve um período de vida relativamente curto, especialmente em comparação com a União Soviética, que protagonizou um conflito prolongado durante muitas décadas. E na Guerra Fria havia uma espécie de dicotomia em que ou se era a favor do Ocidente ou se era a favor do Leste. Acha que isso dificultou a exploração deste tipo de temas em relação à União Soviética?
Sem dúvida. Essa é provavelmente uma das razões. Por exemplo, na Finlândia houve um movimento radical de esquerda patrocinado pela União Soviética nos anos 70 e que se centrava muito no mundo cultural. Por isso, era um mundo em que era preciso tomar partido [enquanto escritor], isto apesar dos autores finlandeses não serem muito ativos politicamente. Eu falei com colegas mais velhos e o que eles vêem agora é que a geração seguinte ficou aliviada por não ter de tomar partido, criou-se uma espécie de passividade, tornaram-se menos ativos politicamente porque não precisam de o ser.

epa11731034 Men in military uniform walk at the Red Square outside the Kremlin during a cloudy day in Moscow, Russia, 20 November 2024.  EPA/MAXIM SHIPENKOV

▲ O Kremlin está a fazer da misogenia um instrumento diplomático, porque "as mulheres são perigosas para o poder central, pelo que devem ser mantidas na linha", diz a escritora

MAXIM SHIPENKOV/EPA

As críticas e as denúncias que faz neste livro contra as ações passadas e presentes da Rússia seriam consideradas pelo Kremlin e pelos seus aliados como aquilo a que frequentemente chamam russofobia. Como reage a isso?
A russofobia é uma das narrativas russas que o Kremlin quer realmente fazer avançar. Se eu escrever um ensaio sobre os uigures, por exemplo, ninguém me vai dizer “ok, então odeias a China”. É normal falar de crimes contra os direitos humanos. A não ser que se fale de crimes contra os direitos humanos cometidos pela Rússia, porque então somos acusados de russofobia. É interessante que eles queiram enfatizar este termo, porque existe uma insinuação nesse conceito ou palavra de que se é de alguma forma um doente mental se se falar sobre isso, porque uma fobia é um distúrbio. Por isso, se falarmos dos crimes contra os direitos humanos cometidos pelos soviéticos ou pelos russos, estamos de alguma forma a ser malucos. Mais uma vez, voltamos à questão de saber o que é considerado um bom patriota na Rússia, o que está certo ou errado na sociedade russa. Nos países ocidentais, as pessoas deviam estar mais conscientes dos termos que utilizamos e das razões que nos levam a utilizá-los, para compreenderem o seu verdadeiro significado. Para ser justa, se eu falar sobre os nazis, ninguém me vai acusar de ser germanofóbica. Pela lógica russa, isso seria o correto, mas esse tipo de conceito nem sequer existe porque entendemos que é normal e saudável falar sobre os crimes que a Alemanha de Hitler cometeu. Mas se utilizarmos o conceito de russofobia, se falarmos exatamente das mesmas coisas que a União Soviética e a Rússia cometeram, estaremos, de certa forma, a enlouquecer.

Uma leitura superficial desta obra seria a de que está a tratar todos os russos da mesma forma, mas frisa no livro de que não se trata de algo biológico ou essencialista e sim cultural. Refere, por exemplo, que no século XIX, o Império Russo foi um dos primeiros Estados-nação a criminalizar a violência doméstica.
Há muitos exemplos na história russa em que se pode dizer “oh, eles podiam ter seguido esse caminho”, mas não o fizeram. Há uma longa história de aceitação da violência na Rússia, mas isso não tem absolutamente nada a ver com os genes ou a biologia. E se pensarmos na Federação Russa e no número de diferentes grupos étnicos existentes na Rússia, isso é outro aspeto que também deve ser realçado nos países ocidentais, porque me incomoda muito a forma como falamos dos russos. A forma como usamos a palavra “russos” é, de facto, muito diferente da forma como falamos de qualquer pessoa que viva em países anglo-americanos ou de língua inglesa. Repare, o português é uma língua internacional, se alguém fala português, não pensamos automaticamente que essa pessoa vive em Portugal. E, no entanto, ao mesmo tempo, estamos sempre a falar de falantes de russo como “russos”, embora a sua etnia ou a sua identidade possam ser algo totalmente diferente. E depois voltamos à cultura, porque não temos livros, programas de televisão, títulos, filmes suficientes sobre pessoas que vivem na Rússia.

Escreve que uma consequência perigosa da misoginia estatal russa é a forma como, de alguma forma, é exportada e potencia atitudes semelhantes noutros locais. Pode explicar melhor esta questão?
Uma das razões pelas quais senti a necessidade de escrever este livro foi porque, se pensarmos apenas nas notícias diárias sobre a guerra e sobre a Rússia, estamos a apagar a grande história do género e da misoginia que está por detrás. E a Rússia está a utilizá-la de uma forma muito inteligente. A violência sexual na Ucrânia é apenas um aspeto ou uma frente deste conceito, sendo que, na política interna russa, a misoginia é utilizada para manter as mulheres fora do poder. Na federação russa, praticamente todo o poder político e económico está nas mãos dos homens e eles querem mantê-lo assim. Se pensarmos na oposição russa ou em Alexei Navalny, por exemplo, o seu movimento recrutava mulheres, estavam envolvidas no seu apoio. Do ponto de vista do Kremlin, as mulheres são perigosas para o poder central, pelo que devem ser mantidas na linha. Já a nível internacional, estão a utilizar a misoginia como um instrumento para encontrar amigos em regimes autoritários. Todos os regimes autoritários são maus para os direitos das mulheres, por isso há algo que os une. Mesmo que possam não estar unidos de outra forma, isso é algo que, de facto, têm em comum. E o facto é que em todos os países, em todas as sociedades, existe um certo nível de misoginia, de homofobia, de racismo, e as pessoas que têm tendência a ser assim são os potenciais aliados da Rússia. Encontrando-se num país ocidental onde a política oficial é totalmente diferente, sentem-se fortalecidas por alguém que apoia a sua visão do mundo. Portanto, de certa forma, trata-se de psicologia humana básica, queremos encontrar pessoas com a mesma opinião. Para a Rússia, este é um instrumento para criar o caos nas democracias liberais ocidentais, e eles estão a ser bem sucedidos nisso.

Relativamente a esses vínculos que a Rússia está a fomentar e à guerra na Ucrânia, o sentimento geral é que esta poderá chegar ao fim, mas apenas devido à política de aproximação de Washington a Moscovo. Se for esse o caso, onde é que isso deixa as vítimas ucranianas da guerra?
Temos de assumir a responsabilidade pelo que está a acontecer, pois já não podemos encarar os Estados Unidos como um farol de orientação moral neste momento. É a Europa que precisa de o ser agora, para um futuro melhor para a humanidade.

"Para as mulheres na Finlândia, que é um dos países com maior igualdade de género do mundo, a casa é o lugar mais perigoso para se estar, temos um número muito elevado de casos de violência doméstica. E a União Europeia tem dado bastantes avisos porque temos um número reduzido de asilos para mulheres, por exemplo. Se não conseguimos resolver o nosso próprio problema, como poderemos fazê-lo noutros lugares?"

Já falou nas disputas culturais durante a Guerra Fria, mas hoje em dia parece haver também uma dissonância em alguns círculos de esquerda: se, por um lado, há a defesa dos direitos das mulheres e das pessoas LGBT, ao mesmo tempo, há também a defesa do legado da União Soviética e do papel atual da Rússia como um “baluarte” contra uma ordem mundial liderada pelos EUA. Qual é a sua opinião sobre isso?
Se pensarmos no movimento de esquerda nos países ocidentais, eles estavam muito, muito cegos pela União Soviética. É inacreditável. E muitas dessas pessoas esqueceram-se disso, perderam o interesse pela União Soviética quando esta entrou em colapso, as mesmas pessoas que eram ativas nos anos 60, 70, 80 e que viam a URSS como um mundo ideal para as mulheres e para as pessoas em geral. Já na altura os Estados Unidos eram o mau da fita para o movimento de esquerda, hoje haverá provavelmente alguns a fazer um exame de consciência ou uma travessia no deserto… (pausa) Bem, também não sei se “direita” e “esquerda” são palavras corretas para os atuais movimentos políticos, de tal forma que já não percebo onde estão. Mas, seja como for, outra forma de o dinheiro sujo russo se infiltrar no nosso sistema e de nos cegar é o facto de a Rússia estar a financiar fortemente os movimentos e os partidos ditos de direita nos países ocidentais, pelo que, na verdade, é impossível dizer como seria a Europa continental ou a União Europeia se esses organismos não tivessem recebido tanto apoio da Rússia. Talvez tivessem ficado mais fortes de qualquer forma, mas foram ajudados por Moscovo.

Também fiz esta pergunta porque hoje em dia fala-se muito do “mundo multipolar”, o que significa que algumas pessoas pensam que, apesar de todas as coisas que a Rússia faz ou é acusada de fazer, o saldo acaba por ser positivo porque desafia a hegemonia cultural e militar da NATO e dos EUA.
Bem, este é um pensamento que a Rússia, por exemplo, quer promover nos países africanos e é realmente perigoso o que estão a fazer lá. Todos os países africanos são diferentes, é certo, e compreendo que, com a história colonial que têm, não tenham fé nos franceses, nos britânicos ou nos portugueses. No fundo, não têm fé em ninguém da Europa. Percebo isso. Mas é também porque não sabem muito sobre a Rússia. Portanto, vai ser horrível. Na verdade, já está horrível, mas vai piorar.

Sofi Oksanen. A escritora finlandesa que quer por a Estónia no mapa

Em 2018, deu-nos uma entrevista muito centrada na história conturbada da Estónia e nos seus esforços para preservar a sua identidade nacional. Tendo em conta que, desde então, deu-se a invasão da Ucrânia, como encara hoje a importância de os países reabilitarem, celebrarem e promoverem as suas memórias nacionais?
Não sei. Quero dizer, uma coisa que é diferente é que ser estónio é, de certa forma, bastante simples, porque a única coisa que queremos fazer é falar a nossa língua, educar os nossos filhos na nossa língua e viver no nosso país. Foi assim que a ex-Presidente [Kersti Kaljulaid] se referiu quanto ao que significa ser estónio. É tão simples quanto isso. Como já referi, o pensamento russo sobre o que é ser russo é muito diferente, mas esta é a ideia básica de ser estónio e não mudou. O que é diferente hoje é a forma como o mundo exterior vê os estónios, sendo que, agora, o conhecimento estónio é considerado como algo real, como experiência e know how e não como reações histéricas ou emocionais de um Estado mais pequeno. Mas… (pausa) Os estónios sobreviveram a tanto que não acho que precisemos de tornar a nossa identidade nacional mais forte. Ela é forte, é a única forma de sobreviver. Não há muitos grupos linguísticos fino-úgricos que ainda prosperem e, por isso, sem esta identidade nacional, simplesmente não existiriam.

Tem surgido a discussão de que estamos a entrar numa era pós-#MeToo, em que as vítimas de violência ou assédio sexual estão a ser desacreditadas e retratadas por alguns meios de comunicação social e alguns atores como meramente vingativas ou indignas de confiança. Como podemos perseguir os crimes sexuais cometidos noutros locais se começamos a perder o controlo sobre os seus termos no nosso próprio quintal?
Essa é uma grande questão. Tem sempre a ver com a vontade política… Não tenho uma resposta simples para isso. Mas, por outro lado, a própria pergunta também pode ser vista como uma desculpa para não…

Agir?
Sim. Quer dizer, para as mulheres na Finlândia, que é um dos países com maior igualdade de género do mundo, a casa é o lugar mais perigoso para se estar, temos um número muito elevado de casos de violência doméstica. E a União Europeia tem dado bastantes avisos porque temos um número reduzido de asilos para mulheres, por exemplo. Se não conseguimos resolver o nosso próprio problema, como poderemos fazê-lo noutros lugares? No entanto, se dermos à Rússia um desconto nesta matéria, isso é algo que, sem dúvida, tornará todos os perpetradores globalmente mais fortes. Não há dúvida sobre isso e isso levanta a questão de saber que tipo de futuro vamos dar aos nossos filhos. No que diz respeito à violência sexual, o nosso sistema jurídico não é perfeito, mas está a melhorar. Criar um mundo justo é um processo e nós queremos respostas simples, mas elas não existem. E é esse o problema, é por isso que o populismo é fácil. Damos respostas simples, mas elas nunca nos dão um mundo melhor, de facto. No entanto, as respostas complicadas podem dar-nos, pelo menos, um passo em direção a um mundo melhor. E acho que seria fácil dizer que este é o objetivo e que depois tudo será bom, mas isso é uma utopia, não é a realidade.

Há cinco décadas, era possível não investigar crimes sexuais porque não dispúnhamos de provas ou de meios para processá-las. Mas hoje em dia, temos muito mais ferramentas tecnológicas e legais para tal. Ou seja, não o fazer é mais uma escolha do que outra coisa. Considera que isto representa, de certa forma, um teste moral para a nossa época?
Acho que sim. Veja, se pensarmos nos gulags soviéticos, é fácil dizer isso [que não existiram], uma vez que nunca fomos à Sibéria, não há documentários e os guardas não andavam com bodycams para transmitir imagens para algures. Há muito material sobre sobre estas coisas, mas não havia esse tipo de provas.

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▲ "Há novos relatórios sobre a forma como o exército russo está a tratar os prisioneiros de guerra e os civis em cativeiro, e estão repletos de violência sexual"

Anadolu via Getty Images

O que está a dizer é que, sem provas materiais, é mais fácil desacreditar-se isso como sendo propaganda contra a União Soviética.
Precisamente. Dessa forma, podia-se dizer “eu não sabia”, e isso dava uma desculpa, porque era difícil obter provas, a maioria dos ocidentais nunca viajou ao outro lado da Cortina de Ferro, as viagens eram estritamente controladas e, por isso, não se via a realidade soviética. Mas agora há imensas provas. O exército russo está sempre a filmar e, nas prisões russas, há muitas torturas e violência sexual. Aliás, há alguns anos, houve um enorme escândalo na Rússia, porque o FSB tinha filmado a maioria das violações e torturas que tinha cometido aos reclusos. Assim, o FSB utilizava a violação como instrumento para, em primeiro lugar, extorquir os reclusos, se quisesse que eles fizessem alguma coisa, pois assim tinha a prova da violação. Além de que, nas prisões, quem é violado vai para o nível mais baixo da hierarquia prisional. Portanto, de certa forma, era usado como uma ferramenta para manipular os reclusos e levá-los a fazer o que eles queriam, para torná-los informadores, etc… A dada altura, quiseram passar todo esse material para uma base de dados ou para outro servidor e colocaram um recluso a fazê-lo. Acontece que esse recluso foi vítima dessa prática e divulgou tudo, o que se tornou um enorme escândalo porque estava em todo o lado, mesmo que depois tenham conseguido controlar a situação. Mas, de qualquer modo, era uma prática corrente do Estado também no sistema prisional, porque o FSB está sob o controlo do Kremlin. O mesmo se tem passado desde 2014 nas prisões na Crimeia e no Donbass, há testemunhos de reclusos de que tudo é filmado. Portanto, a Rússia tem uma quantidade louca de material filmado sobre tortura de reclusos, civis e pessoas em geral. O que é que vamos fazer com este conhecimento?

Devolvo-lhe a pergunta.
Não sei, é espantoso, porque nunca nos deparámos com uma situação como esta, em que existem tantas provas materiais sobre este tipo de crimes. O que é que vamos fazer com os dados, se os obtivermos? É claro que agora a Rússia não nos vai dar esse material, mas e se uma fuga de informação como a que referi acontecer? E se alguém se apoderar desse tipo de material? O que vamos fazer em relação a isso? Não tenho a certeza se estamos preparados para tal. Talvez devêssemos, porque é um dilema moral. Claro que o que está a acontecer nos países populistas ou nos países a caminho do autoritarismo é outra questão, mas se estamos a caminhar para um mundo em que temos tantas provas dos crimes, não podemos continuar a fingir que não sabíamos. Não sei como é que nós, como é que a União Europeia, vamos reagir. O nosso sistema jurídico baseia-se no facto de que, se existem provas, estas conduzem a uma ação judicial. Falamos de defesa na Europa, mas o sistema jurídico também faz parte disso — o que estamos a defender se não defendermos a justiça?

Embora se trate de uma questão diferente e muito mais complicada, estamos a assistir a algo semelhante em Gaza, onde há tropas israelitas a carregar os seus próprios vídeos que documentam os seus próprios abusos. Tal como acontece com os russos, trata-se de algo auto-infligido. O que pensa disso?
É isso, o que vamos fazer então? Não sei, mas se não podemos confiar no nosso sistema jurídico, quem somos nós? Esta é talvez a próxima grande questão de identidade para nós, porque penso que temos de ser capazes de responder a estas questões. E, claro, também temos de abordar a responsabilidade das empresas de redes sociais. Não só se pode usá-las para envergonhar as vítimas ou extorqui-las, porque [as redes sociais] são utilizadas para todos os tipos de crimes, como também se está a espalhar desinformação e propaganda, ou seja, material que está realmente a encorajar os perpetradores a cometer os crimes. Além de que a Rússia está a utilizar também as redes sociais para contratar soldados e cidadãos de países da União Europeia para fazerem o seu trabalho sujo. Onde reside a responsabilidade das empresas de redes sociais? Não sei, mas essa é também outra grande questão.

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