À procura da solidão num mundo que não para de falar

28 Fevereiro 2015144

José Gil, Mário Laginha e Sandro William Junqueira procuram-na todos os dias, quando querem criar. E não faltam casos e estudos que apontam a solidão como um ombro amigo. Conseguiam viver sem ela?

Quando começou a aprender a tocar piano, Mário Laginha passava oito horas por dia, sozinho, a “estudar”. Oito horas, um dia de trabalho. Acordava, tomava o pequeno-almoço, e sentava-se em frente ao piano. Depois do almoço, a rotina era a mesma. E após o jantar, o “estudo”, a obsessão, só terminava com “as pancadas do pai na parede”. “Era um código de que estava hora do pianista ir dormir”, diz Mário Laginha, 54 anos, a rir-se, ao Observador.

À primeira vista pode parecer um contrassenso, mas são as pessoas que passam mais tempo sozinhas, no “tempo nu” nas palavras de Walter Benjamin, as que fazem mais trabalho criativo, de acordo com vários estudos científicos publicados na última década. Em 2003, o estudo Solitude: An Exploration of Benefits of being alone, publicado na revista científica Theory of Social Behaviour, já falava sobre este padrão. Mas nos últimos dois anos, não faltam livros e estudos que mantenha essa ideia a correr.

Susan Cain, autora do livro Silêncio: O poder dos introvertidos num mundo que não para de falar (ed. Temas e Debates), defende ao extremo a riqueza criativa que surge da solidão e apela à prática da introversão. Eficácia, produtividade, multitasking e brainstorming, palavras apregoadas como salmos religiosos por muitos empreendedores contemporâneos não entram, nunca entraram, no campo da criação artística. Pelo contrário, defende a autora, são conceitos nocivos a este tipo de prática.

Mário Laginha praticava piano oito horas por dia, desde muito novo.

Com o tempo e prática, Mário Laginha criou uma relação física, intimista, com o piano, tornando-o um dos pianistas mais conceituado em Portugal, hoje em dia. “Ensaiamos com outras pessoas. Mas o estudo é realmente só”, diz. A parte principal do trabalho criativo, e a mais estrutural é feita a solo, explica. O que para muitas crianças seria um tormento tornou-se “uma fatalidade boa” para o pianista. Deu-lhe a “liberdade de ser músico”, de aprender “por imitação” e testar-se. A família nunca o impediu. Laginha queria ir ao limite e descobrir os ritmos que mais o tocavam. Apanhar o pulso da vida, sozinho. “Uma pessoa que se habitua a estar só não tem medo da solidão”, garante.

Às vezes, está a “estudar” e os filhos andam pela mesma sala, mas consegue abstrair-se. Admite, contudo, que é algo que “nem todos conseguem”. Se ele, enquanto pianista, consegue tolerar a presença de mais pessoas na mesma sala quando está a “estudar”, para um escritor é “muito mais difícil”.

“Nós, no fundo, estamos sempre sós dentro das nossas cabeças”

Sandro William Junqueira, tal como Mário Laginha, também tem uma relação íntima com o piano. Mas não enquanto músico. O autor do romance Um piano para cavalos altos (ed. Caminho) escreveu este livro isolado num quarto, enquanto ouvia Rachmaninoff . Em loop, durante meses, o mesmo cd, o mesmo ritual. A música entrou na “matéria bruta” do romance, deu-lhe força e ritmo. Escreveu sozinho, mas acompanhado pela música, uma experiência que voltou a repetir em alguns dos capítulos do seu mais recente romance No céu não há limões (ed. Caminho). “Há qualquer coisa que entra dentro de ti”, diz ao falar da experiência, explicando que é muito diferente escrever com música que tenha “palavras”, pois estas “tendem a interferir”.

Quando está a escrever, passa oito horas por dia, sozinho, a trabalhar. Mas esta meta não é estanque: depende dos dias e do momento do livro. Nem Sandro se considera um típico escritor neurótico com a sua solidão, que “não suporta o mínimo barulho, que o interrompam”. “Há momentos de grande produção” e outros em que tem de se afastar, reduzir o investimento no livro, para não se deixar consumir. Mesmo nesses momentos, acaba sempre por “andar com aquilo na cabeça”. “A escrita é um ofício em que tens de estar lá sempre”, diz Sandro. Nas palavras de outro escritor português, “não se é escritor, está-se escritor”. E onde é esse local? Na solidão de cada um. (Esqueçamos o caso de Herberto Helder, o mais eremita dos poetas portugueses contemporâneos – o caso extremo na literatura portuguesa, onde estar só é mais do que uma necessidade criativa.)

“Para a ficção e a criação artística é absolutamente necessária concentração; um virar-se para dentro e aprofundar, um tempo e um espaço próprio”, diz José Gil.

“É o fechar da janela, do mundo, para te sentares numa cadeira a escrever. O virares-te para dentro”, diz. É desbravar novos horizontes, “uma tortura, porque não tens ninguém para te amparar”, mas mesmo assim avançar. Enquanto Sandro fala, faz lembrar alguns versos do poema Cântico Negro de José Régio.

“Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que eu faça não vale nada.”

Escrever de manhã ou à noite, na cozinha ou no quarto, a própria posição do corpo, interfere com o processo. É algo para lá do intelectual, é físico. “Nós, no fundo, estamos sempre sós dentro das nossas cabeças”, diz. Por isso, Sandro William Junqueira afirma que vê a escrita como “uma tentativa de comunicar com o outro”.

Por momentos, pode parecer que estamos a ouvir um ermita a falar. Na realidade, porém, estamos no Portugal do século XXI: a era da partilha, da extroversão e do divertido. Das selfies e do Facebook. Vivemos numa “sociedade de paredes finas”, temos as redes sociais para comunicar mais facilmente, mas, mesmo assim, para Sandro, “os seres humanos têm um problema de comunicabilidade”. E o mundo da criação “vai continuar a ser um ato solitário”. Os escritores “são esponjas do mundo”, diz, e escrita, a criação original, exige “lentidão” – outra característica de quem faz trabalho criativo, assinalada em vários estudos. Um exemplo: Leonardo Da Vinci nunca quis saber quando o acusavam de ser lento a pintar e não entregar os trabalhos encomendados a tempo. Leonardo da Vinci sabia que estava certo na sua “lentidão”, conta Robert Greene, no livro Mastery (não editado em Portugal), onde descreve o percurso de vida de vários indivíduos que são considerados “mestres” nos seus campos de especialidade.

O mundo mexe-se rapidamente, mas os escritores, diz Sandro, conseguem “reduzir a velocidade que as coisas têm”. Fechar a janela do mundo, “estar dentro”. Mergulhar na solidão e encontrar um ritmo próprio. No fundo, é uma necessidade básica. E qual é o escritor que melhor representa melhor esta busca? “Fernando Pessoa, o que explorou ao máximo este tema [a solidão].”

“É perigoso pensar, e é perigoso criar”

“[Fernando] Pessoa vivia de forma recorrente experiências limite, de trauma [na sua solidão]”, diz José Gil, filósofo português, autor do livro Cansaço, Tédio e Desassossego (ed. Relógio de Água). Como é conhecido, Pessoa esteve à beira da loucura, mais do que uma vez, e chegou a arrumar as malas para ir-se internar num asilo. Mas isto nunca o impediu de continuar a mergulhar para escrever, até morrer. (Tal como Thoreau não partiu para o para a floresta para ficar sozinho e sossegado: “Fui para os bosques viver de livre vontade, Para sugar todo o tutano da vida…”) “Estes mergulhos são quase condição de criar novo e originalmente. Criar qualquer coisa que os outros não sabem”, garante José Gil. E este tipo de mergulhos só se pode fazer “a sós” – e nem são isentos de riscos.

José Gil considera que a solidão é uma necessidade para quem pratica o pensamento.

Quando ainda era muito jovem, o pensador português também teve as suas primeiras experiências com a solidão. Aos 20 anos, José Gil estudava matemática, antes de emigrar para Paris, e experimentava-se na ficção. “Para a ficção e a criação artística é absolutamente necessária concentração; um virar-se para dentro e aprofundar, um tempo e um espaço próprio”, diz. Sentir a necessidade “de se retirar do mundo para o encontrar mais profundamente”. Passava muitas horas sozinho a escrever, tal como hoje passa muitas horas sozinho a pensar. Esta força “vem também de um plano de atingir um plano de começo virgem do princípio”.

Hoje, enquanto um dos filósofos portugueses mais reconhecidos, José Gil continua a navegar sozinho pelo pensamento. “Para pensar é preciso experimentar-se, fazer experiências sobre si”, defende. Na solidão, o pensador, o escritor, o músico, o pintor… vai chegar a “esse ponto de origem, de virgindade. E o surgimento do novo em nós é a experiência do caos – o que não é uma coisa banal”. É no “caos”, defende o filósofo, que se encontra o autêntico, mas também é lá que tudo fica mais arriscado. “Experiências limites em que acontece uma desestruturação do pensamento, da linguagem, da realidade, podem ir ao limite, nas fronteiras com o plano psicótico. Há muita coisa que pode acontecer. Por isso é perigoso pensar, e é perigoso criar”, afirma. Vejamos o exemplo de Fernando Pessoa.

Neste ponto, as águas ficam turvas, segundo o filósofo. “Chega-se a esse limite e nem se fala em criação. É pânico. O que se verifica depois, é que se se consegue sair desse caos há uma experimentação de si que todo o artista e pensador faz. Quando se renasce, tem se um campo completamente alargado relativamente aos anteriores do que a pessoa podia pensar, do que podia criar, dos seus próprios poderes”, explica.

Por isso, José Gil não tem problemas em afirmar que concorda com as palavras de Nietzsche. É preciso coragem, coragem para criar, pensar, e estar sozinho. Uma demanda pela autenticidade e busca do não pensado. Coragem para gritar como Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, escreveu:” Solidão. Solidão, minha pátria!”

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