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TERESA ABECASIS/OBSERVADOR

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Tchaikovsky banido, dramaturgos de farda e os mísseis na estreia de Mabka. A cultura como resistência em tempos de guerra

Ucrânia utiliza cultura como arma de guerra, nos palcos, partituras e guiões. O Observador visitou um teatro e a icónica Opera de Lviv, onde uma estreia foi interrompida por alerta de mísseis.

Um homem ajeita o papillon ao espelho a minutos do ballet começar, como se fosse alguém importante. A Ópera de Lviv está lotada com mais de mil pessoas que se engalanaram para assistir à estreia mundial de Mabka, mas não se contam mais de meia centena de homens adultos. Antes do abrir do pano, a orquestra no fosso toca o hino da Ucrânia e todos se levantam para cantá-lo emocionados. No fim, alguém grita: “Slava Ukraina”. E a sala responde: “Heroyam Slava”. As linhas elegantes tomam conta do cenário mágico do palco. O primeiro ato do ballet da ucraniana Victoria Polyova decorre na perfeição e a sala recupera o fôlego da normalidade. Mas o inimigo não tarda a lembrar-lhes onde estão. Tocam as sirenes e a sala é evacuada.

Centenas acomodam-se no bunker. Alina Plakhtiienko, uma das responsáveis do teatro, procura o Observador, na preocupação permanente com os “foreign journalists”. Horas antes, com a sala vazia, tinha confessado: “Chegámos a interromper espetáculos devido aos ataques aéreos, mas isso não acontece há mais de dois anos. É pouco provável que aconteça esta noite”.

Estava errada. Um dia depois do dia Ação de Graças que muito irritou os ucranianos, a estreia mundial de um ballet inspirado no drama clássico da escritora ucraniana Lesya Ukrainka era interrompida por alertas de ataque aéreo. Alina, que é diretora de comunicação da Ópera, justifica a previsão falhada: “Por norma eles atacam à noite, não ao final da tarde. Mas, enfim, são russos. Unpredictable pigs!”

A responsável do teatro vai ao Telegram atestar a potencial gravidade do alerta: “São mísseis, temos mesmo de estar aqui”. Como todos os ucranianos, Alina foi a um canal de Telegram ver o tipo de ataque. A gravidade do alerta varia consoante os dias e a localização, mas há uma hierarquização natural do perigo: drones (levar muito a sério), mísseis (levar a sério) e MIG’s no ar (apenas cautela). Oficialmente, claro que não há distinções: se a sirene toca, todos para o bunker do teatro (“antes da guerra era um bar incrível”). O protocolo é claro: se a paragem durar menos de uma hora, o espetáculo recomeça. Se durar mais, é remarcado para outro dia. Não foi o caso.

O alerta foi levantado ao fim de 40 minutos. A peça recomeça. A sala volta a encher-se. Atrás do palco, onde é dado acesso ao Observador, Vasyl Vakul, antigo ministro da Cultura de Iúlia Timochenko e diretor da Ópera assiste com vários ecrãs à frente: diferentes planos do palco e, numa das pequenas televisões, o mapa dos ataques aéreos da Ucrânia. A peça tem o nome de Mabka – o espírito feminino da mitologia ucraniana associado à floresta. “É uma história de amor, mas em tempo de guerra, cada um pode encontrar significados muito específicos para si. Porque esta história é sobretudo sobre amor, mas o amor também envolve resistência e tragédia”, explica a responsável do teatro.

Mavka é um conto clássico ucraniano baseado no livro O Canto da Floresta, escrito por Lesya Ukrainka
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É uma história de amor onde os humanos se cruzam com os espíritos de uma floresta
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Nos bastidores, os ecrãs permitem ver diferentes ângulos do palco. No canto, um mapa da Ucrânia mostra o estado de alerta das diferentes regiões naquele momento
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A estreia da peça é interrompida pelos alertas de ataques aéreos na região. Os espectadores têm de ir para o abrigo
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Se o alerta durar menos de uma hora, o espectáculo é retomado. A guerra já faz parte da rotina
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Alina conversa com o Observador num inglês perfeito, mas começa com um “boa tarde” na língua de Camões, explicando que considera o “Português a língua mais bonita do mundo”, como é hábito ouvir-se do italiano. Todas as culturas são uma inspiração para o que se produz na Ópera de Lviv, exceto uma: a russa. “Cancelámos todas as óperas e bailados russos que tínhamos no nosso repertório e substituímo-los por óperas e bailados ucranianos inéditos, escritos por compositores ucranianos”, explica Plakhtiienko. A reprogramação do repertório da Ópera Nacional de Lviv – a primeira a reabrir ao público após a invasão de larga escala – abriu espaço para as peças ucranianas se afirmarem. Mabka é já a quarta obra do ciclo “Avançar”. Como na semana da estreia disse o diretor Vakul, estão a ser dados “passos importantes não apenas para o ballet ucraniano, mas verdadeiramente para o ballet mundial”.

“Cancelámos todas as óperas e bailados russos que tínhamos no nosso repertório e substituímo-los por óperas e bailados ucranianos inéditos, escritos por compositores ucranianos”
Alina Plakhtiienko, responsável da Opera de Lviv

“Ucraniana orgulhosa”, como se descreve nas redes sociais, Alina especifica ao Observador exatamente o que foi cancelado pela Ópera de Lviv: “Todas as óperas de Tchaikovsky, as de Rimsky-Korsakov, as de Mussorgsky. Prefiro não as mencionar, para não fazer publicidade.” Admite que as peças russas eram “muitas e bastante populares”, mas ficou agradavelmente surpreendida quando foram “canceladas e ninguém se queixou” e continuaram a “esgotar as salas para ver obras ucranianas”. Vasyl Vovkun também defendia as obras nacionais antes da peça estrear: “Espero sinceramente que superemos a nossa nostalgia pelo O Quebra-Nozes e O Lago dos Cisnes. Temos material que não só pode competir, como também alcançar o mais alto nível cultural”.

A diretora do departamento de Cultura da câmara de Lviv explica ao Observador que o cancelamento das óperas russas é “um passo lógico dentro da política nacional mais ampla de descomunização e descolonização, incluindo a esfera cultural.” Marta Belshei lembra que a “Ucrânia tem Borys Lyatoshynsky, Stefania Turkewich, Mykola Lysenko — uma enorme constelação de compositores, e o mesmo acontece em todos os campos culturais: literatura, música, pintura, escultura. Os seus nomes são incontáveis.” E acrescenta: “Assim sendo, é lógico não promover figuras da cultura de um país que tem travado uma agressão armada contra a Ucrânia há mais de onze anos, mas sim destacar e homenagear nomes ucranianos. Afinal, quem o fará, senão nós?”

A Ópera de Lviv começou a ser construída em 1897 e fica numa das pontas da principal avenida da cidade
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Foi um dos primeiros edifícios com eletricidade em Lviv
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Antes da guerra, a sala de espectáculos recebia nove milhões de visitantes anualmente
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Voltamos ao bailado na Ópera. No fim do espetáculo, atrás do palco e longe da frente de batalha, celebra-se mais uma vitória da Ucrânia. “O nosso inimigo, os russos, estão a tentar não só destruir os nossos edifícios e as nossas cidades. O que eles querem, essencialmente, é destruir-nos como nação. E qual é a parte essencial de cada nação? A cultura. Não seremos uma nação sem a nossa cultura”, defende Alina.

"Cancelar as operas russas é um passo lógico dentro da política nacional mais ampla de descomunização e descolonização, incluindo a esfera cultural"
Marta Belshei, diretora do departamento de Cultura da câmara de Lviv

No fim do espetáculo, o balanço é claro: Lesya Ukrainka — 1. Vladimir Putin – 0. Vasyl Vovkun, num discurso final a que o Observador assistiu, sintetizava o sentimento de atores e administração do teatro: “Se vocês estão felizes, nós estamos felizes”.

Dizia ainda o antigo governante, numa análise mais cultural, que o medo da repetição é a essência do teatro, lembrando que o espetáculo foi um desafio por ser inspirado no Canto da Floresta da escritora que alimentou a mitologia ucraniana. Lesya Ukrainka dá também nome a um dos teatros de Lviv, aquele que mais mudou a programação em função da guerra e em que “o Shakespeare são os soldados”.

Soldados-Shakespeare: os guiões com narrativas militares que invadiram a programação do Lesya

Avançamos para o número 36 da rua Horodotska, onde funciona o Teatro Lesya (sim, em homenagem à mesma poetisa na qual se baseia o bailado a que assistimos). O edifício é robusto, de linhas soviéticas, sem a elegância da Ópera de Lviv – que é de tal forma um ex-libris que protagoniza a face das notas de 20 hryvnias, a moeda ucraniana. O próprio edifício carrega um simbolismo de um passado controverso. Quando foi construído, em 1911, era uma Casa Católica, mas sete anos depois já era utilizado como cinema e alojou diversos teatros até 1954. Nesse ano, a companhia do Teatro Dramático Russo do Exército Soviético, mais tarde renomeado Teatro Dramático do Distrito Militar dos Cárpatos, mudou-se de malas e guiões para o edifício. Durante o período soviético, muitas daquelas salas que agora têm manequins ou disfarces eram também utilizadas para reuniões do KGB ou como quartos para generais do Exército Vermelho quando visitavam Lviv.

Com a independência, em 1991, o teatro perdeu o financiamento militar e deixou de ser a casa dos soldados-atores. Passou por várias remodelações até ser batizado, em 2011, com o atual nome e passar a ser gerido pela Câmara Municipal de Lviv. Em 2017, passou a ter uma programação moderna e a ser uma academia de teatro, até que chegou a invasão de larga escala de 2024.

Anna Hetmanova, do Teatro Lesya, conta ao Observador que o edifício deixou de funcionar como teatro durante três meses para “servir de abrigo a refugiados de outras zonas da Ucrânia” e todos os trabalhadores do teatro “transformaram-se em voluntários”. Atores, técnicos, encenadores passaram a ocupar o tempo a ir buscar refugiados internos à estação de comboios. “Foi um período assustador, mas fez com que tivéssemos uma grande união”, explica Anna.

▲ As peças que vão a palco no Teatro Lesya, onde Anna Hetmanova trabalha, contam histórias da guerra que o país está a viver

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O teatro-abrigo — que teve a sorte de nunca ser atacado pelos ares como o de Mariupol — abrigou centenas de ucranianos. A direção do teatro colocou televisões no espaço com antigas peças e, contra as expectativas, muitos dos deslocados assistiam. Três meses depois da invasão de larga escala, a Câmara Municipal de Lviv, o proprietário do Teatro, pediu a todos que recomeçassem a atividade. Já nada seria como antes.

É verdade que a companhia já tinha realizado duas peças antes de fevereiro de 2024, inspiradas na guerra que começou no Donbass em 2014 e na Crimeia, com o nome de Heróis e Glória aos Heróis — mas estava longe de ser o principal foco do Lesya. Em maio de 2024, a primeira peça, Imperium delendum est, foi naturalmente dedicada aos primeiros meses de guerra. O Império Deve Cair, explica Anna ao Observador, é uma peça que “mistura cânticos tradicionais, com poemas de autores tradicionais e histórias pessoais dos nossos atores. Foi um trabalho poderoso. Fomos depois apresentá-la noutros países e acho que foi uma mensagem e um statement muito forte para os outros países perceberem o que se passa aqui”. A peça foi apresentada, logo no verão de 2022, no Festival de Avignon.

A essa juntaram-se muitas outras peças com narrativas diretamente relacionadas com a guerra. Desde então têm-se sucedido peças com guiões sobre a invasão de larga escala. Penélope, por exemplo, é uma peça inspirada na Odisseia de Homero, que transpõe metaforicamente a espera da mulher de Ulisses para as mulheres ucranianas que têm os maridos e namorados na linha da frente. E que esperam por eles fielmente sem saber se um dia vão ou não voltar.

O teatro produziu também a peça Travellers Playlist, um musical-documentário, inspirada num fuzileiro com o nickname “Adler” que contou a sua história à encenadora Anastasiia Kosodii. Adler combateu em Azovstal, Mariupol, e foi capturado pelos russos. Após ouvir a história, crua e cruelmente descrita em detalhe, Anastasiia decidiu manter 80% da conversa inalterada e apenas lhe acrescentou música.

▲ Um ensaio no dia em que o Observador visitou o Teatro Lesya. Numa companhia pequena, sente-se a falta de cada pessoa enviada para a guerra

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Marta Belshei, diretora do departamento de cultura da câmara de Lviv, que é a proprietária deste teatro, destaca igualmente a importância da cultura no contexto do atual conflito: “Em tempo de guerra, a cultura torna-se uma ferramenta excecionalmente poderosa de resistência não violenta. Serve como forma de diplomacia, como meio de defender a verdade contra a propaganda e como forma de chamar a atenção global para a identidade nacional — apesar das narrativas propagandistas sobre ‘nações irmãs’ ou mesmo da negação dos ucranianos como uma nação distinta.” Além disso, continua Belshei, a “cultura fornece também testemunhos documentais e artísticos dos crimes cometidos na guerra da Rússia e permite à sociedade articular e processar o trauma coletivo, levando estas experiências ao conhecimento da comunidade internacional.” É muito isso que o Lesya tem feito nos últimos quatro anos.

"A cultura fornece testemunhos documentais e artísticos dos crimes cometidos na guerra da Rússia e permite à sociedade articular e processar o trauma coletivo, levando estas experiências ao conhecimento da comunidade internacional."
Marta Belshei, do departamento de cultura da câmara de Lviv

Outra das peças no renovado repertório do Lesya é a tragicomédia Meu amigo, o Elfo Negro, do realizador Denys Fedieshov, que já foi ator e que agora é também combatente. A adaptação da peça foi difícil, explica Anna, porque “o Denys estava na linha da frente, então tivemos de fazer os acertos através do Zoom. Ele sempre de farda militar e com a indicação de que se houvesse uma emergência, ele tinha de sair”. A obra conta a história de dois amigos que passam a infância juntos, crescem juntos, mas com a guerra um deles vai combater para a linha da frente enquanto outro segue a vida como dramaturgo. É abordada, precisamente, a forma como a amizade é afetada por esta realidade.

O Meu amigo, o Elfo Negro é interpretado por dois homens: os atores Vasyl Kolisnyk, que faz de Orest, e Andriy Kravchuck, que faz de Andriy. Mas os homens não abundam na Ucrânia, nem nesta, nem noutras companhias.

A quota cultural, mulheres que fazem de homens e os atores na linha da frente

Anna Hetmanova reconhece que a mobilização de homens afetou o funcionamento do Teatro Lesya. “Temos uma equipa muito pequena e, para nós, cada pessoa é valiosa, mas compreendemos perfeitamente que é preciso defender o nosso país. Neste momento, temos seis pessoas na linha da frente, que vão desde atores a técnicos de palco”, explica a também responsável pelas Relações Públicas do Lesya.

Hetmanova conta que a companhia vai mantendo o contacto permanente com os atores-soldados para que se “animem e acreditem que vão voltar”. Em breve, vai haver um momento especial de contacto com o campo de batalha. “No dia de São Nicolau, 6 de dezembro, organizamos uns presentinhos e enviamos para eles, para lhes tentar dar algum conforto e perceberem que não estão sozinhos”, conta. E que tipo de presentes enviam? “Doces, meias táticas, tabaco ou velas”.

"Temos um ator nosso que está a combater e é vegetariano. No nosso exército é um problema ser vegetariano, porque não há refeições para vegetarianos. Então nós enviámos pacotes enormes de salsichas vegetarianas, pastas e coisas do género".
Anna Hetmanova, responsável do Teatro Lesya

Anna conta que também alguns desses mimos que enviam para a linha da frente são personalizados. “Temos um ator nosso que está a combater e é vegetariano. No nosso exército é um problema ser vegetariano, porque não há refeições para vegetarianos. Então nós enviámos pacotes enormes de salsichas vegetarianas, pastas e coisas do género”, revela.

A responsável do Lesya explica que a lei de mobilização geral da Ucrânia permite aos agentes ter uma quota de homens ao abrigo de “necessidade especial para a arte”. Essa “proteção” é importante para manter as peças que têm papéis masculinos. O Observador analisou os decretos de mobilização, que têm cada vez menos exceções, e a lei tem evoluído no sentido de serem cada vez menos as exceções de “interesse nacional”, inclusive na área da cultura.

▲ Alina Plakhtiienko fala no "dever artístico" de manter viva a cultura durante uma guerra

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Já Alina Plakhtiienko, da Ópera, não se alonga muito sobre o assunto, mas diz que aquele organismo, como todos, cumpre a lei geral de mobilização. “Muitos dos nossos artistas, bailarinos, cantores de ópera juntaram-se às Forças Armadas, mas outros ficaram cá para cumprir o seu dever artístico. Repito: manter a cultura viva também é importante para vencer a guerra”, diz a responsável da Ópera de Lviv. Nos bastidores da estreia da Mabka contámos 14 bailarinos, mas há vários outros homens na equipa em torno do espetáculo.

Naquela peça de ballet em particular, à qual o Observador assistiu à estreia mundial, o equilíbrio é grande, mas há quem assuma o risco de o teatro ucraniano vir a ser a antítese do teatro tradicional japonês, em que eram os homens a representar personagens femininas.

Taras Benyuk, diretor artístico do ”Novo Teatro”, em Ivano-Frankivsk, admitiu-o em meados de outubro. “Isto não é uma brincadeira, é uma nova realidade: já temos espetáculos em que mulheres interpretam papéis masculinos”.

Agentes céticos: fé na cultura, mas não em Trump

Alina, Anna e Marta acreditam que a cultura pode ajudar a salvar o País, mas estão ambas muito céticas quanto a uma paz a breve prazo. A diretora de Imagem da Opera de Lviv diz que está, “como todos os ucranianos, bastante pessimista quanto à capacidade dos líderes mundiais para resolver isto diplomaticamente, porque estão a fazê-lo de uma forma terrível.” Sobre o acordo que Donald Trump quis impor a Kiev, antes e depois das alterações, Alina acusa os protagonistas de estarem “a fazer tudo muito mal”. Ainda assim mantém a esperança: “Não tenho direito de não acreditar no meu povo e no meu exército. E tenho o dever de ajudá-lo. É o que fazemos diariamente aqui no teatro”.

“O acordo de paz de Trump não parece um acordo, mas o reconhecimento do fracasso total do nosso país. A minha primeira impressão foi de que foi a Rússia a escrever os pontos, porque eles incluem os seu próprios objetivos e desejos: é o plano de paz da Rússia, não o nosso"
Anna Hetmanova, responsável do Teatro Lesya

Anna vai mais longe e diz que “o acordo de paz não parece um acordo, mas o reconhecimento do fracasso total do nosso país”. A responsável do Teatro Lesya diz que a primeira impressão que teve do acordo foi de “que foi a Rússia a escrever os pontos, porque eles incluem os seus próprios objetivos e desejos: é o plano de paz da Rússia, não o nosso”.

Apesar do ceticismo, Anna Hetmanova espera ter um acordo porque reconhece que “as pessoas estão exaustas, os nossos soldados estão exaustos.” E acrescenta: “Tenho muitos amigos que estão a defender o nosso país agora e estão numa situação difícil. Mas o nosso povo não quer concordar com uma paz que seja temporária e que daqui a dois ou três anos tenhamos de voltar a passar por isto.” Um dia depois de Vladimir Putin ter dito que podia manter a guerra até que “o último ucraniano fosse morto”, Alina deixa um aviso: “O nosso povo vai lutar até ao fim”.

Estão todos cansados e os agentes culturais não são exceção. “Já perdi familiares, amigos, ex-colegas da cultura. Penso que já não há ninguém na Ucrânia que não tenha perdido alguém próximo”, conta a responsável da Ópera de Lviv.

Alina Plakhtiienko tem trabalhado arduamente para manter a cultura viva e, para já, ainda só saiu para ir dois dias a Nova Iorque. Não só acha o português a língua mais bonita do mundo, como confessa que se perde horas a fio a ver imagens de Portugal, o que desejaria ser o seu próximo destino de férias. Ao falar para o Observador diz que gostava que os portugueses “não se deixassem levar pela propaganda russa” porque cada um é importante na Defesa da Ucrânia. “Não há países pequenos, todos são importantes para nós”, assume. Alina pede ainda que os portugueses consumam mais cultura ucraniana e deixa um apelo para que deixem de lado a cultura russa: “Não se deixem cegar pela grandeza do bailado russo, da arte russa, porque esta arte é construída sobre o sangue — e não apenas o sangue ucraniano”.

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