“Tinha tanto de bonito como de horror”. O incêndio do Chiado visto por uma bombeira que o combateu

25 Agosto 2018273

As chamas criavam túneis de fogo. Paula Tocha não esquece os dias de combate ao incêndio do Chiado. Tinha acabado de fazer 19 anos. O pai não saiu do quartel, à espera dela e do irmão. Foi há 30 anos.

O quartel estava vazio. Havia roupas espalhadas e a cair dos armários. Na rua, sentia-se um cheiro intenso a queimado. Nem a escuridão da madrugada escondia a nuvem de fumo que começava a instalar-se nos céus de Lisboa. Paula Tocha, o irmão e também um vizinho tinham sido chamados para combater um incêndio no Chiado. Conseguiram prever que seria “uma coisa maior do que é normal”, mas não suspeitaram que era “gigantesca”. “Até levei a minha roupa toda para, eventualmente, ir trabalhar depois”, recorda ao Observador. Na altura, estava a aproveitar as férias de verão para trabalhar numa colónia de férias. Acabou por faltar.

“Olha, o teu irmão já foi a correr, o teu irmão já foi a correr”. Os moradores que viviam perto do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Lisboa conheciam bem os irmãos e brincaram com Paula quando a viram sair, também a correr. O rasto deixado no quartel pelos outros que de lá já tinham saído à pressa denunciou o que, minutos mais tarde, puderam ver com os próprios olhos. Primeiro, o irmão que “corria mais”. Depois, Paula.

Incêndio começou nos Armazéns Grandella e rapidamente destruiu os Grandes Armazéns do Chiado (JOÃO MARQUES VALENTIM)

“Quando chegámos, era impossível não perceber”. Quase um “cenário de guerra”. Ao mesmo tempo, “um espetáculo dantesco”. “Tinha tanto de bonito, como tinha de horror”, recorda ao Observador. Não faltam a Paula Tocha adjetivos e formas para descrever o incêndio do Chiado de 25 de agosto de 1988. Tinha acabado de fazer 19 anos e contava pouco mais de um ano como voluntária dos bombeiros. Agora, 30 anos depois, é vice-presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa.

“Começam a aparecer chamas do outro lado. Criou um túnel de fogo”

“Estava tudo cortado, tudo a arder. Havia muita gente a assistir, muitos carros dos bombeiros”. Paula não teve muito tempo para apreciar o fogo, mas o suficiente para “perceber logo a evolução dele”. As chamas não tinham sido controladas logo e, por isso, avançam a alta velocidade. As instruções que receberam foram claras: “É para apagar. É para apagar e pronto”. Os bombeiros foram distribuídos por zonas. Paula ficou na mesma do irmão e do vizinho. “Fomos posicionados e tínhamos uma zona à nossa responsabilidade: tentar impedir o avanço do fogo ou apagar e fazer a extinção das chamas. Havia mangueiras cruzadas umas com as outras, mas era uma confusão organizada”, recorda.

“Tínhamos o museu do Carmo, que tentámos a todo o custo que não ardesse. Se não é controlado, ia tudo até ao Largo Camões"
Paula Tocha, bombeira

A confusão intensificou-se quando viram “o fogo a passar de uma rua para a outra” — um dos momentos mais “aflitivos” do combate. “O fogo está de um lado e começam a aparecer chamas do outro lado. Criou um túnel de fogo”, ilustra Paula. Os bombeiros temiam que as chamas se descontrolassem. Sabiam que aquela zona estava repleta de construções antigas com materiais “altamente combustíveis” ou, como Paula resume, “um fósforo encostado numa caixa de fósforos”. “Tínhamos o museu do Carmo, que tentámos a todo o custo que não ardesse. Se não é controlado, ia tudo até ao Largo Camões”, admite.

Agora, 30 anos depois, Paula Tacho defende que “correu muito bem”, embora reconheça que “houve de facto algumas coisas erradas”. Uma delas, aponta, foi o impedimento de passar na rua do Carmo, que Paula acredita ter sido um dos principais motivos pela qual o incêndio “alastrou da forma como alastrou” . “Tinha paralelos de cimento que impediam o trânsito. A rua estava embelezada, mas não ajudou em nada porque os carros não passavam”. A vice-presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa admite que, depois de o incêndio do Chiado, houve uma preocupação, em zonas históricas, de tentar que não houvesse elementos urbanísticos que dificultassem o trânsito. “Mais tarde, fez-se isso no Bairro Alto, que é uma zona muito complicada e uma autêntica pólvora”, explica.

Centenas de bombeiros acorreram ao Chiado para travar aquilo a que Mário Soares chamou, na altura, “uma das maiores catástrofes que assolaram o país” (JOÃO MARQUES VALENTIM)

O incêndio do Chiado mudou a forma como se combatem as chamas em zonas urbanas, mas essas mudanças foram “surgindo gradualmente”.“A grande polémica, na altura, prendeu-se com o alerta: uns diziam que era a uma hora, outros diziam que era a outra hora”, lembra. Depois daquele agosto de 1988, houve um maior investimento nos sistemas de alerta e as pessoas foram “mais sensibilizadas para a forma de como pedir ajuda”.

O fogo que destruiu em 5 horas o que o Marquês fez em vários anos

O título é da 1ª edição do Diário de Lisboa daquele 25 de agosto. “Ardeu o ‘Grandela’, ardeu o ‘Chiado’, ardeu a CRGE (Companhias Reunidas de Gás e Electricidade), ardeu o ‘Eduardo Martins’, ardeu o ‘coração’ de Lisboa. Chamas por todo o lado: Rua do Carmos, Rua Nova do Almada, Rua do Crucifixo, Rua Ivens, Rua Garrett, Rua do Ouro, Rua dos Sapateiros, Calçada do Sacramento. Nem a ‘Pepe’ escapou, a Companhia de Seguros ‘Espanha SA’ também não”, escrevia Júlio Rodrigues, logo no início de um dos artigos das 10 páginas dedicadas ao incêndio. No total, foram quatro quarteirões, desse “coração de Lisboa em chamas”, que o jornal referia também na primeira página.

1ª página do jornal Diário de Lisboa de 25 de agosto de 1988

Tal como conta Paula Tocha, é difícil perceber, exatamente, a que horas começou o incêndio. Entre o guarda do elevador de Santa Justa, que garante que avisou os bombeiros por volta das 3h da manhã, ou a testemunha que chegou a dizer que viu uma carrinha sair dos Armazéns Grandella já perto das 4h, havendo ainda o relato de que só às 5h da manhã começou a ser vista uma coluna de fumo, aparentemente inofensiva, naquela zona.

Certo é que a manhã ainda não tinha nascido quando os primeiros bombeiros chegaram ao local e, de imediato, pediram reforços. Eram 5h20 da manhã. As chamas já tinham, nessa altura, tomado conta do Grandella e ameaçavam os edifícios vizinhos . A intensidade do fogo era tal que, uma hora depois, o interior do outrora grande estabelecimento comercial de 11 pisos, inaugurado ainda no século 19 e que chegou a ter lojas de tecidos, decoração, alfaiataria, brinquedos e pronto-a-vestir, estava já reduzido a cinzas — restava apenas a fachada. A partir daí, foi como uma construção de peças de dominó de desmoronar, mesmo que ao Chiado não parassem de chegar bombeiros e autotanques, além dos helicópteros da Força Aérea, que chegaram a sobrevoar a zona para dar indicações ao trabalho em terra.

"É um incêndio de proporções incalculáveis, de uma gravidade espantosa. É um desastre nacional", disse Mário Soares, na altura presidente da República

O cenário, que já não era fácil, apresentava aos bombeiros um problema ainda maior: não era possível aos carros de bombeiros trabalharem na rua do Carmo, foco do incêndio, por causa dos obstáculos colocados pela Câmara Municipal, referidos por Paula Tocha. A isto acresce que algumas fachadas também começaram a ruir, criando uma situação de grande perigo para quem ainda tentava evitar que “uma das maiores catástrofes que assolaram o país” — como foi de imediato classificada pelo presidente da República, Mário Soares — chegasse a dimensões ainda maiores — e mais imprevisíveis. Ainda não eram 8h30 da manhã e, escrevia o Diário de Lisboa, “Lisboa, vista da Ponte 25 de Abril” era já “uma enorme coluna de fumo” e as autoridades preocupavam-se com uma nova prioridade: impedir que o fogo chegasse ao edifício do Montepio Geral e destruísse “os milhões de contos ali guardados”, numa altura em que o vento também tinha começado a criar grandes dificuldades. Se tudo isto não bastasse, o rebentamento de uma conduta de água fez diminuir a pressão nas mangueiras.

A zona foi inundada por autotanques que tentavam a todo o custo controlar as chamas (JOÃO MARQUES VALENTIM)

A mobilização era geral: além das várias corporações de bombeiros, chegaram também os serviços de incêndio do aeroporto de Lisboa, a polícia de intervenção e equipas da Cruz Vermelha, que começam a montar postos em vários locais, com os hospitais da cidade todos de prevenção. A meio da manhã, os meios aéreos tinham desaparecido e os bombeiros queixavam-se, em lamentos a que viria a juntar-se a indignação de Mário Soares, que terá confrontado o vice-primeiro ministro e ministro da Defesa, Eurico de Melo: “mas onde é que está a Força Aérea?”. Além de Soares, que à “catástrofe” já tinha acrescentado que o incêndio era “de proporções incalculáveis, de uma gravidade espantosa” e “um desastre nacional”, ao local chegaria também o primeiro-ministro, Cavaco Silva, com uma avaliação na mesma linha.

Cavaco Silva junto aos locais afetados pelo incêndio, a 25 de agosto de 1988 (JOÃO MARQUES VALENTIM)

A par das operações de combate às chamas, era uma correria nas ruas mais próximas: funcionários de lojas e empresas tentavam salvar o que fosse possível e os passeios estavam cheios de moradores atónitos — e em pânico — com o que viam, muitos com os poucos pertences que conseguiram tirar de casa.

Só quase 6 horas depois do alerta, o incêndio deu sinais de começar a ceder, ainda que tenham sido precisos três dias para extinguir as chamas e ainda outros, que se seguiram, para fazer o rescaldo e assegurar que não havia reacendimentos, numa amalgama de destroços, cimento e ferro, que sepultou casas, lojas, empresas e escritórios. Cerca de duas mil pessoas ficaram sem emprego. Cinco famílias perderam a casa e tiveram de ser realojadas.

“Quando houve abertura de portas para começar o ataque, dá-se uma deflagração mais violenta que apanhou todo o edifício, de forma que as provas que existiam no sítio onde evoluiu o incêndio foram praticamente todas destruídas”, explicou Helena Gravato, Inspetora-chefe da Polícia Judiciária.

Naquele dia, a imprensa referia a existência de cerca de 20 feridos e um morto — um bombeiro que ficou presos nos escombros. Referia a imprensa, mas a informação não chegou aos operacionais no terreno. “Quando há estas situações, a tendência é ocultar para que quem está em combate não seja afetado psicologicamente por isso. Ainda hoje, sempre que possível, tenta-se que não seja. Estávamos no meio da cidade, a ambulância saiu e nem percebemos”, conta a bombeira Paula Tocha. Perceber-se-ia mais tarde que havia uma segunda vítima mortal. Um homem de 70 anos, também soterrado. Feridos, no total, foram cerca de 50.

Extintas a chamas, era preciso perceber como é que a catástrofe tinha acontecido, logo a partir da origem, mas o inquérito aberto pela Polícia Judiciária acabou por ser arquivado em 1992 com poucas respostas. Na altura, muitos apontaram o dedo ao dono dos Armazéns Grandella, Manuel Martins Dias. Ainda as chamas consumiam o edifício, naquele 25 de agosto de 1988, e o Diário de Lisboa já dizia que o fogo tinha começado de madrugada nuns armazéns “praticamente falidos e cujo proprietário tinha sido libertado horas antes do incêndio, depois de ter sido acusado pela polícia de burla ao fisco e fogo posto”. Manuel Martins Dias não chegou a ser acusado e ficou por descobrir a origem do fogo. Parte da explicação para a falta de elementos de prova está na violência das chamas. “Quando houve abertura de portas para começar o ataque, dá-se uma deflagração mais violenta que apanhou todo o edifício, de forma que as provas que existiam no sítio onde evoluiu o incêndio foram praticamente todas destruídas”, explicou Helena Gravato, Inspetora-chefe da Polícia Judiciária à Lusa, em 2013.

Armazéns Grandella reabriram em 1999, com novas lojas e uma nova configuração (SEBASTIÃO ALMEIDA/OBSERVADOR)

Os edifícios demoraram anos a reerguer-se. Os armazéns Grandella, por exemplo, que ficaram apenas com a fachada, só voltaram a abrir ao público 11 anos depois.

“Uma marca de como nos sentimos muitas vezes tão impotentes perante aquelas chamas”

O incêndio marcou o início de carreira de Paula Tocha e nunca há-de sair-lhe da memória. Esteve três dias seguidos no combate às chamas e só ia ao quartel para descansar “um bocado”. “O meu pai não saía de lá. Ainda por cima, tinha lá dois filhos”, recorda. Quando o fogo foi apagado, Paula voltou ao quartel para descansar realmente. “Depois voltei para render os meus colegas, porque tínhamos de fazer o rescaldo. Eram muitos escombros e, por baixo daquilo tudo, havia ainda muitas brasas. Foram quatro dias no total”, lembra a bombeira ao Observador.

Além da comida disponível no quartel, havia aquela que chegava aos bombeiros que estavam no combate, através de voluntários da Cruz Vermelha.  “Havia muitos pacotes de leite a circular. Lembro-me que houve uns dias, na fase de rescaldo, que apareceram sandes. Tenho uma foto sentada nos degraus, onde tinha parado para comer”, lembra Paula Tacho ao Observador. Foi tirada pelo fotojornalista João Marques Valentim, que passou aqueles dias no Chiado, ao serviço do jornal Correio da Manhã.

Além da comida disponível no quartel, havia aquela que chegava aos bombeiros que estavam no combate (JOÃO MARQUES VALENTIM)

Nem a idade nem o facto de ter combatido um incêndio de tais dimensões, um ano depois de se ter tornado bombeira, chegou para assustar Paula Tacho: “Nunca pensei em desistir”. Ainda hoje fala no incêndio do Chiado frequentemente. “É uma referência para os bombeiros que o combateram. Ninguém se esquece. É uma marca de como nos sentimos muitas vezes tão impotentes perante aquelas chamas”.

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