O dique do rio Mondego na zona de Casais, junto a Coimbra, cedeu esta quarta-feira junto a campos agrícolas. Segundo a Proteção Civil, não há populações em risco, mas muitas pessoas tiveram de sair das suas casas naquela zona. O dique que se prolonga pelas margens esquerda e direita do rio que nasce na Serra da Estrela e desagua na Figueira da Foz não pôde conter a força da água que, com as tempestades que têm atingido Portugal, se tem avolumado todos os dias.

Durante uma conferência de imprensa, o primeiro-ministro Luís Montenegro alertou que pode haver mais roturas da estrutura devido à precipitação que ainda é esperada e que levou à evacuação de várias zonas de Coimbra e que colocavam em risco cerca de três mil pessoas. Mas afinal, que estruturas são estas, como evitam cheias e o que acontece quando cedem?

O que é um dique?

Trata-se de uma estrutura ao longo das margens de um rio cuja função é “suster a força da água para individualizar ou separar a parte do rio, da que é margem”, explica Fernando de Almeida Santos, Bastonário da Ordem dos Engenheiros, ao Observador. “E se for essa a função, pode ser também para travar” as águas do rio. Carmona Rodrigues, presidente da Águas de Portugal, caracteriza o dique como “um aterro, uma obra de terra que geralmente pode ter até cerca de três metros de altura” e que “até pode ser de areia, mas depois tem que ter uma parte que é de argila para que não haja infiltração da água”.

“Durante a maior parte de um ano médio [em termos de caudal], o nível da água está sempre abaixo da cota dos terrenos das margens. Ou seja, não só não inunda como permite a drenagem natural dos campos porque o nível de água dentro do rio está mais abaixo que o nível da terra”, continua. “Os diques conseguem que os caudais grandes, os chamados caudais de cheia, fiquem encaixados na secção do rio entre os dois diques [um em cada margem] sem inundar os campos.”

No caso de Coimbra, o dique tem a função de separar a água das margens esquerda e direita. Esta quarta-feira, o que cedeu foi o da margem direita, junto à zona de Casais.

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O que levou à construção do dique?

Da Serra da Estrela até Coimbra, o rio Mondego corre por uma zona de declive acentuado mas, entre a cidade e a Figueira da Foz, onde desagua, o caso muda: “São cerca de 40 quilómetros de terrenos muito planos”, explica Carmona Rodrigues. É o chamado Baixo Mondego.

Há centenas de anos, a floresta autóctone começou a ser substituída por pomares de frutos e por vinha. Deu-se então um fenómeno de erosão e depósito de terra e areia no leito do rio, conhecido por assoreamento. “O fundo do rio subiu muito”, conta o presidente da Águas de Portugal, o que causou “a diminuição da capacidade de transporte de caudais do próprio rio”.

Por isso, há cerca de 50 anos, a água galgava as margens e “o rio tinha inundações todos os anos”, explica, episódios que os agricultores resistiam erguendo pequenos diques a que se chamam “motas”. Em 1962, perante o perigo das cheias, lançou-se o chamado Plano Geral do Aproveitamento Hidráulico da Bacia do Rio Mondego que permitiria não só controlar esses fenómenos, mas também tratar águas residuais, produzir energia hidroelétrica ou criar sistemas de rega para a agricultura.

O dique foi construído com areia do leito do curso de água retirada aquando da “regularização” do rio, conta Carmona Rodrigues, também professor de Hidráulica e de Gestão de Recursos Hídricos na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

A Mota-Engil, que teve nos diques do Mondego o seu primeiro grande projeto de obras públicas, ainda tem um vídeo no Youtube a explicar toda a construção, com o alargamento e aprofundamento do leito do rio, os diques, as pontes e estradas.

E como surge a barragem da Aguieira?

A barragem da Aguieira, que só foi terminada em 1981, tinha o papel de também “encaixar parte das cheias para defender o Baixo Mondego”, explica Carmona Rodrigues. Foi, aliás, das primeiras estruturas deste tipo a ter um chamado contraembalse, uma “barragem baixinha” chamada barragem ou açude da Raiva, que permite gerar energia à noite e aos fins de semana enviando a água de jusante para montante, para dentro da barragem da Aguieira. Este processo ajuda, igualmente, a controlar as cheias.

Depois da barragem da Aguieira e do açude da Raiva, o rio Mondego chega a Coimbra, mas não sem antes se encontrar com o rio Ceira, um afluente na sua margem esquerda e onde nunca foi possível erguer uma barragem que o controlasse. “É uma bacia natural”, ilustra Carmona Rodrigues. “Nestes anos em que chove muito bem, em que há muito caudal [no Ceira], o que se quis fazer foi uma exploração da Aguieira de forma a que as descargas da barragem não coincidissem com as pontas das cheias, para haver um desfasamento natural”, adianta. “E isso tem sido conseguido.”

“O rio Ceira não está controlado”, reforça Fernando de Almeida Santos. “Podemos ter um grande caudal que vem do Ceira e não há maneira de o controlar na Aguieira.” O sistema conta ainda com a Ponte-Açude de Coimbra, uma estrutura que só está relacionada com a rega do Baixo Mondego e que se situa na zona do Choupal, onde se espraiam os diques ao longo de cerca de 40 quilómetros, até à Figueira da Foz. Neste local, os caudais já atingiram os 2.100 metros cúbicos por segundo, confirmou a ministra do Ambiente.

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Qual é a capacidade de um dique?

Em Coimbra, os diques foram construídos de forma a suster 2 mil metros cúbicos de água por segundo, a unidade usada para calcular a quantidade de um líquido que passa por uma superfície num determinado período de tempo. “É a cheia de referência”, afirma Carmona Rodrigues, que no entanto diz nunca ter visto “um ano como este”: “Não me lembro de ter havido tantos dias seguidos sempre a chover.”

Porém, um dique tem sistemas que ajudam a aliviar a pressão como se de um quadro elétrico se tratassem: os chamados descarregadores. Um dos tipos de descarregador é o dique-fusível: da mesma forma que acontece com uma sobrecarga elétrica, este também rebenta quando a água sobe a uma certa altura onde já não há argila (que o torna impermeável). E assim, a água inunda a margem.

Existem quatro descarregadores no dique do rio Mondego, mais precisamente na margem direita, explica Carmona Rodrigues. São estes que permitem a chamada “inundação controlada dos campos” agrícolas que lá se encontram. Porque na margem esquerda é onde se situam mais povoações, alvo das ordens de evacuação durante as cheias, como agora aconteceu com três mil pessoas a terem de deixar casas ou lares de idosos.

“O primeiro dique-fusível é o do Choupal, e há outros três em sistemas de sifão mais ou menos até à passagem da autoestrada (A-1). O sifão é uma “estrutura em betão”, na forma de um tubo na vertical curvado, que faz com que a água que atinja uma determinada altura seja puxada por uma força de vácuo para os campos agrícolas. Em média, libertam até cerca de 200 metros cúbicos de água por segundo para essas áreas, valor que com a precipitação dos últimos dias já terá atingido os 900 metros cúbicos de água por segundo.

Segundo a agência Lusa, existe um descarregador junto ao viaduto da A1, mas o Governo não mencionou se a rotura estava ligada ao mesmo. O Observador questionou a Agência Portuguesa do Ambiente, mas não obteve resposta em tempo útil.

O que leva ao galgamento de um dique?

Segundo a ministra do Ambiente, a cedência desta quarta-feira deu-se às 18h30 junto à A1. “Foi uma rotura parcial de dez metros de largura para campos agrícolas e é uma cheia lenta”, salientou Maria da Graça Carvalho em conferência de imprensa em Coimbra. “São dois pontos positivos. Vai para os campos, mas vai espraiar até Montemor-o-Velho, a malha urbana está protegida por dois diques, o trabalho mais urgente é monitorizar os dois diques que estão a proteger as casas de Montemor-o-Velho para não haver galgamentos do rio para a malha urbana.”

Mas afinal, como se deu esta rotura? “Os riscos [nos diques] podem derivar de duas situações. De haver galgamento dos diques, por se atingir dentro do rio uma altura superior àquela que seria de base para o cálculo desses diques; ou de haver uma degradação por falta de manutenção”, clarifica Armando Silva Afonso.

“Ele abre, geralmente”, continua. “É uma cedência, o termo mais correto seria uma cedência, ele vai ceder porque não consegue aguentar as águas. Deixa passar a água e a partir do momento em que a água começa a passar, a própria água tem um efeito de erosão e vai arrastando aquelas terras e abrindo cada vez mais um buraco.”

“Geralmente, quando o dique é galgado, rompe porque começa a ruir a terra do lado de fora e do lado de dentro”, acrescenta Carmona Rodrigues.

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O que danifica o dique?

“A manutenção dos diques é importante”, desde já mantendo-o com uma boa cobertura vegetal que ajude à sua sustentação, como relva, salienta o presidente da Águas de Portugal. “Quando os diques não são bem mantidos, nascem lá arbustos ou até árvores, o que é mau não só pelas raízes que vão criando caminhos de penetração de água, como também pelos troncos, que vão criando buracos”.

“Se os diques não forem tratados, há várias causas, como a vegetação”, que podem levar a problemas estruturais, “e com o tempo, podem ficar mais suscetíveis a rupturas”, confirma Armando Silva Afonso, presidente da Assembleia da Região Centro da Ordem dos Engenheiros. Quando em 2001 o dique cedeu e 400 famílias ficaram desalojadas, o problema foi atribuído “à degradação da estrutura dos diques”, explica o especialista.

Afinal, os diques têm uma “vida útil”, alerta ainda Fernando de Almeida Santos, bastonário da Ordem dos Engenheiros, e devem ser sujeitos a manutenções periódicas. “Se me perguntarem se isso está a ser feito, eu não sei responder a esta questão. Se a manutenção está a ser devidamente feita agora não sei, mas em termos de projeto, e de cálculo, não tenho dúvidas que isso foi projetado para uma determinada vida útil e nisso há responsabilidades inerentes aos projetistas que pelo menos assumem a responsabilidade da vida útil, do cálculo que fizeram.”

E quando o dique cede, é difícil travar a destruição da estrutura, assume Armando Silva Afonso. “A própria água ajuda a degradar aquilo tudo porque ao passar, começa a arrastar todos os solos de que são constituídos. A partir daí, começa a aumentar o buraco, e vai piorando sempre a situação. A partir do momento em que há uma pequena falha, é catastrófico. Já não se consegue tapar, nem se consegue evitar que haja realmente uma passagem, uma degradação maior.”

Barragem de Girabolhos, a peça que falta

Esta quarta-feira, a ministra do Ambiente pediu à APA que lançasse o concurso público com vista à construção da barragem de Girabolhos até ao final de março. Apesar de estar prevista no Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico, que remonta a 2007, acabou por ser cancelada em abril de 2016, quando tinha sido já concessionada à Endesa.

“O sistema do Baixo Mondego está coxo” sem esta barragem que ficaria localizada entre os concelhos de Gouveia, Seia, Nelas e Mangualde, explica Armando Silva Afonso, e que permitiria um melhor controlo dos caudais. “A barragem da Aguieira tem um papel importante, consegue reter as águas e se houver uma boa gestão da barragem, vai fazer um encaixe destas grandes precipitações. Mas por trás da barragem, não consegue”, explica o presidente da Assembleia da Região Centro da Ordem dos Engenheiros. “Girabolhos é a peça principal desse sistema.”

Carmona Rodrigues salienta que a barragem faz parte dos planos de há 60 anos. Além disso, avisa, também nunca se instalaram, na Estação Elevatória do rio Foja, a jusante de Montemor-o-Velho e da povoação da Ereira (que ficou isolada), as previstas seis bombas para extrair a água dos campos. A única disponível só voltou a funcionar no dia 9 de fevereiro, depois de ter ficado sem energia elétrica após a passagem da depressão Kristin.

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