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Um magnata da construção, um multimilionário russo e um médico espanhol. Lusobritânico revela os maiores "caçadores de troféus" do mundo

A investigação de Eduardo Gonçalves revela os principais rostos da caça de troféus: 17 norte-americanos, 3 russos, 2 espanhóis, 2 mexicanos e 1 canadiano estão no top 25.

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George Harms é um dos pouquíssimos caçadores em todo o mundo a ter recebido o “Prémio Mundial de Conservação e Caça” do Safari Club. Para lá chegar, ao longo das últimas sete décadas teve de matar, pelo menos, 802 animais, numa lista de que fazem parte ursos, veados, ovelhas, mas também os chamados “Big Five” africanos: leão, elefante, leopardo, rinoceronte e búfalo. Além de Harms, o mais prestigiado galardão da instituição foi atribuído a apenas outros 70 caçadores. Eduardo Gonçalves investigou este grupo exclusivo da caça mundial e chegou ao top 25 do maiores caçadores. Em conversa com o Observador, o ativista define-os como “toxicodependentes: uma vez que pegam naquilo, nunca mais o podem largar. Ficaram completamente viciados”.

“O ser humano é um ser caçador”, repetem os aficionados da atividade, fazendo questão de mencionar que a prática está nas nossas origens enquanto espécie. Seja por necessidade ou com fins recreativos, a verdade é que a atividade tem vindo a diminuir de uma forma global, com mais restrições a serem impostas por governos locais e menos licenças a serem emitidas todos os anos. Apesar de já não existir tamanha necessidade como existia há alguns milhares de anos, a indústria cinegética começou a destacar-se em casos mediáticos de caça desportiva, como a morte de Cecil, o famoso leão morto por um dentista norte-americano no Zimbabué em 2015.

Este mesmo caso foi um dos principais motivos que justificaram a criação do movimento “Ban Trophy Hunting” (“Proíbam caçar troféus”, na sua tradução literal). A campanha começou no Reino Unido, três anos depois do episódio de Cecil, fruto da iniciativa de um ex-jornalista e conservacionista lusobritânico. Ao longo dos últimos oito anos, Eduardo Gonçalves tornou esta a sua missão pessoal: utilizar a sua extensa rede de contactos para chegar a deputados do parlamento britânico, com o objetivo de proibir integralmente esta prática.

Ao longo dos anos, foi recolhendo apoio de milhares e milhares de pessoas, entre deputados de (quase) todos os partidos representados no parlamento britânico, a figuras públicas como Ricky Gervais, Judi Dench e Alex Ferguson. Para acumular mais e mais evidências que justifiquem o avanço de um projeto-lei que acabe com a caça de troféus, Eduardo Gonçalves infiltrou-se nas redes do Safari Club International (SCI) — a maior organização de caçadores de troféus de todo o mundo — para expor a indústria e trazer para o debate público as questões éticas sobre o tema.

Precisamente no 10.º aniversário da morte de Cecil, o investigador lusobritânico lançou um livro onde revelava uma lista dos 25 caçadores de troféus mais ativos do SCI. Na grande maioria dos casos, explica Eduardo Gonçalves, a tradição é familiar, começando-se em criança a caçar aves ou “caça menor” e, gradualmente, evoluindo para outro tipo de armamento e animais maior porte.

Em Portugal, as espécies que configuram a “caça maior” são o javali, o veado, o gamo, o muflão e o corço. Contudo, não foi nestes destinos que os “grandes” caçadores construíram as suas abastadas coleções de animais embalsamados. No sul de África, seja em Moçambique, Zimbabué ou África do Sul, a lista de espécies que podem ser caçadas não é tão restrita, existindo uma relativa liberdade sobre o que se pode ou não caçar. Em Moçambique, por exemplo, a única proibição é o rinoceronte, tudo o resto está livre de restrições.

O objetivo do Safari Club Internacional, que tem “capítulos” (ou representações) em vários países do mundo, é “defender, preservar e proteger os direitos de todos os caçadores”. Ao mesmo tempo, uma das grandes bandeiras destes grupos de caçadores desportivos é que a sua atividade, apesar das críticas que são feitas, é fundamental para a conservação da vida selvagem em todo o mundo e para a sobrevivência financeira de determinadas comunidades nos locais mais recônditos do continente africano.

Assim, a instituição promove esta vertente da caça desportiva através da entrega de mais de 40 prémios todos os anos, que promovem a acumulação de troféus de diferentes espécies em todos os cantos do mundo, incentivando os milhares de membros a realizarem excursões que custam milhares de euros para caçar todo o tipo de animais. Para referência, uma visita de três dias ao interior de Portugal para caçar veado ou javali custa cerca de dois mil euros, na popular plataforma BookYourHunt. Noutros pontos do globo, para caçar animais mais raros ou maiores, como um elefante ou um búfalo, as visitas podem chegar às centenas de milhar.

Espécies, países e a quantidade de animais caçados: o caminho para a distinção

Existem, essencialmente, quatro categorias de prémios do SCI: “Continental“, “Inner Circle“, “Milestone” e “Cumulative“.  O primeiro tem como objetivo incentivar os caçadores a viajar por diferentes continentes, exigindo 15 espécies africanas, 12 europeias e norte-americanas, oito da Ásia, da América do Sul e também do sul do Pacífico. Cada um destes objetivos por continente configura um prémio. Na classe “Milestone“, o princípio é o mesmo, mas a distinção é feita tendo em conta a espécie e a localização, não apenas o continente.

Para obter a distinção “Inner Circle“, os critérios são mais vastos. Sempre no registo de uma quantia específica de diferentes espécies de um determinado local no planeta, nesta categoria é feita a separação entre os caçadores por cinco níveis diferentes, desde o cobre (o mais baixo), ao diamante (o mais prestigiado). Nos casos identificados por Eduardo Gonçalves no seu livro “20 elephants in 75 minutes“, os caçadores detêm diversos galardões da categoria diamante, mas também de todos os outros prémios disponíveis, incluindo o mais exclusivo da secção “Cumulative“.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 7.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui e o sexto aqui]

Destes, que dependem do número de prémios conquistados ao longo do ano, o mais importante é o “World Conservation and Hunting Award” ou “Prémio Mundial de Conservação e Caça”, que foi atribuído a menos de 70 caçadores em mais de 50 anos de história do clube.

Por definição, esta modalidade é a caça de animais selvagens por motivos desportivos — não por alimentação —onde habitualmente é feito um processo de taxidermia de uma parte do corpo da espécie morta, para dispor numa coleção ou num local como troféu. Porém, a sua prática acaba por estar associada a um elevado custo tanto de deslocações, como equipamento, como o próprio processo de exportação do troféu coletado. Assim, a prática da caça de troféus está associada a multimilionários dos mais diversos ofícios, entre os magnatas e os médicos.

Com a investigação de Eduardo Gonçalves, dos 17 norte-americanos, três russos, dois espanhóis, dois mexicanos e um canadiano que configuram o top 25, ficamos a conhecer alguns dos rostos que protagonizam a caça de troféus a uma escala global.

O pódio norte-americano, o livro de recordes e um revólver

George Harms começou a caçar aos oito anos. O que começou com coelhos e aves no ambiente rural de Nova Jérsia, rapidamente provou ser insuficiente para alimentar uma fome por uma caça maior que foi crescendo ao longo das décadas. Em mais de 100 excursões espalhadas por seis continentes, o norte-americano é hoje o líder de todas as tabelas do SCI, o detentor de múltiplos recordes mundiais e, também, um dos visados da investigação de Eduardo Gonçalves.

“Harms, que vive atualmente na zona predominantemente rural de Farmingdale [Nova Jérsia], fundou a George Harms Construction na década de 1960. A empresa fatura anualmente projetos de construção no valor de cerca de 100 milhões de dólares [84,9 milhões de euros]. Agora, afastou-se da gestão quotidiana da empresa, mas continua a ser o presidente do conselho de administração”, escreve o investigador luso-britânico no seu livro recém-publicado “20 elephants in 75 minutes“.

De acordo com os cálculos do investigador luso-britânico, George Harms foi responsável pela morte de mais de 800 animais. Desta forma, o magnata da construção é um dos membros do clube restrito de menos de 70 caçadores internacionais que já receberam o “Prémio Mundial de Conservação e Caça” do Safari Club, o galardão mais prestigiado da instituição. Em mais de 70 anos de atividade neste setor, Harms recebeu mais prémios que qualquer outro caçador registado no clube.

Dos mais de quarenta disponíveis, Eduardo Gonçalves diz ao Observador que o norte-americano já venceu “virtualmente” todos prémios duas vezes — “a primeira a utilizar uma espingarda, e novamente com arco e flecha”. Para atingir o nível diamante do “Inner Circle“, um caçador tem de matar um certo número de animais, todos de espécies diferentes. Por exemplo, para receber o “Hunting Achievement Award“, George Harms teve de caçar 125 espécies diferentes. Neste programa, existem prémios dedicados a cada continente, exigindo 80 animais para África, 16 na Europa, 15 na Ásia, 32 na América do Norte e 11 no Sul.

Todos estes prémios (e mais umas dezenas) têm o nome de George Harms eternizado. Para além de ter um palmarés para mostrar os resultados das centenas de excursões em que participou, o norte-americano tem “um número extraordinário” de entradas no livro de recordes do Safari Club International. Este arquivo existe para registar os “maiores animais” caçados pelos membros da instituição, com centenas de “medidores oficiais” espalhados por “quase” todos os países do mundo — incluindo pelo menos oito em Portugal. Harms tem 242 entradas no livro, com oito recordes e 29 em diferentes “top 10”.

Em segundo lugar da lista, com menos 70 animais que George Harms, está o também norte-americano Ben Seegmiller, um “consultor de exploração mineira” que chegou a integrar o conselho de administração do Safari Club International, sendo um dos maiores financiadores da instituição em conjunto com a sua mulher Marilynn. Tal como o líder do ranking compilado por Eduardo Gonçalves, Seegmiller foi um dos recipientes do exclusivo “Prémio Mundial de Conservação e Caça”, bem como outros 61 “grandes títulos” do clube prestigiado.

Ben e Marilynn inseparáveis tanto na vida profissional como no mundo da caça, faziam um esforço para conjugar os projetos em que estavam envolvidos. Ao serviço da Seegmiller International, o casal juntou-se em projetos de consultoria na Libéria, na China e no México, onde foram acumulando galardões do SCI. Marilynn, que morreu em 2007 após uma “longa batalha com um cancro”, foi, durante “muitos anos”, reconhecida como a melhor caçadora do mundo e única laureada do prémio Diana — prémio do Safari Club atribuído apenas a mulheres.

Uma das maiores conquistas de Ben Seegmiller foi o urso polar, apesar de ser “expressamente proibido” enquanto troféu em solo americano, por ser classificado como uma “espécie ameaçada”. Ainda assim, completamente legal apenas no Canadá, foi na ilha de Baffin que começou a aventura que acabou por contar a Eduardo Gonçalves. “Estávamos a viajar no gelo congelado do oceano a cerca de 100 metros da borda de uma majestosa ilha de rocha sólida que se erguia quase verticalmente do oceano congelado. Entre as nossas motos de neve e os penhascos de rocha sólida da ilha, estava um urso polar de muito bom tamanho”, recordou o caçador.

Quando o animal se começou a aproximar, conta, “sem se aperceber da existência do caçador”, Seegmiller “levantou” a arma e com apenas um tiro, matou o urso. “Foi como se tivesse um desejo de morte e me deixasse apanhá-lo com um mínimo de esforço”, relata o norte-americano. Depois de “uma das maiores aventuras de caça do mundo”, como o próprio descreve, decidiu oferecer o troféu — o pelo e a cabeça — ao guia que o orientou durante a excursão.

"Não conseguiria dizer quantos animais já cacei nos últimos 48 anos que tenho andado a viajar pelo mundo, mas certamente que são vários milhares, mais de 420 espécies"
Marcial Gómez Sequeira, caçador espanhol

O seu melhor amigo, Leon Munyan, é o último membro do pódio da lista do investigador lusobritânico. Foi Seegmiller quem o convenceu a juntar-se ao Safari Club International e, assim, parcialmente responsável pela grande quantidade de prémios e recordes batidos por Munyan. Não obstante, sendo filho de um empreiteiro, o norte-americano “começou a caçar quase no momento em que aprendeu a andar”, lê-se numa biografia publicada no seu site. Juntou-se oficialmente ao SCI em 1997, ano em que começou a colecionar troféus e, em 2001, já detinha 11 espécies que “se qualificavam” para o livro de recordes do clube.

Desde então, 240 espécies diferentes depois, Leon Munyan acabou por abrir um museu, o “Munyan Family Hunting Conservation Museum“, onde estão preservadas as memórias e as recordações das centenas de expedições que realizou ao longo destes últimos anos. Segundo Eduardo Gonçalves, na sua coleção privada existem pelo menos 317 troféus. Estes animais, contudo, não pertencem apenas a Leon. Ao longo dos anos, a tradição começou a alastrar-se aos restantes membros da família. Kathy, a sua mulher, participa na grande maioria das caçadas — não como caçadora, mas como videógrafa profissional. As duas filhas, Käthe e Danell, também têm entradas nos recordes do SCI.

Para além dos 54 grandes prémios recebidos nestes quase 20 anos, apesar de pertencer ao clube há relativamente menos tempo que os outros dois caçadores mencionados, Leon Munyan fez algo inédito. Foi o primeiro membro do Safari Club a receber o conceituado “Prémio Mundial de Conservação e Caça”, utilizando apenas um revólver, ao invés de uma espingarda como os restantes.

O milionário russo que caça com o filho e o médico espanhol que quis abrir o maior museu do mundo

Apesar de ocuparem os principais lugares da lista compilada pelo investigador lusobritânico, os norte-americanos não são os únicos galardoados na caça de troféus. O primeiro dissidente surge no sétimo lugar, com Andrey Zaika, um empreendedor e multimilionário russo que é, também, o mais novo a integrar a classificação. De acordo com a publicação russa Chronicles, a indústria da pesca tem um papel importante no quotidiano do noroeste da Rússia. Assim, sendo o presidente do “sindicato das explorações coletivas de pesca da região de Arkhangelsk”, Zaika é o nono “pescador-empresário” mais rico do noroeste.

Os quase 10 milhões de euros de lucro anual das suas empresas abrem as portas às sucessivas deslocações a diferentes terrenos de caça. Desde o México à Etiópia e ao Paquistão, Andrey Zaika foi acumulando cada vez mais prémios e, deste modo, é coroado o principal cidadão russo neste mercado. Em fevereiro de 2024, na convenção anual do Safari Club International, em Nashville (no estado norte-americano do Tennessee), o caçador foi o laureado do “Prémio Mundial de Conservação e Caça”, conforme uma publicação feita na plataforma ProfiHunt.

Nesta mesma rede, onde tanto caçadores como agências de viagem que organizam estas excursões de caça partilham os troféus que recolhem das aventuras, Andrey Zaika revela que esteve no México numa “viagem de família” com o seu “companheiro de caça” Egor, o filho. Em 2021, os dois foram até às “profundezas da natureza selvagem — nas selvas da península do Iucatão” e voltaram para casa com novas “espécies raras” para adicionar à “coleção”: um veado-mateiro, um peru-ocelado, um mutum-grande e uma paca. Não é conhecido o número total de animais mortos pelo caçador russo.

O que é vagamente conhecido, no entanto, é o número de animais presentes na coleção do oitavo classificado na lista. “Não conseguiria dizer quantos animais já cacei nos últimos 48 anos em que tenho andado a viajar pelo mundo, mas certamente que são vários milhares, mais de 420 espécies”, estimou Marcial Gómez Sequeira, em declarações ao El País em 2019. Médico, antigo presidente de uma das principais seguradoras de Espanha e ex-membro da administração do Real Madrid, Gomez Sequeira é o principal caçador europeu do Safari Club Internacional.

Para financiar centenas de saídas e troféus, o espanhol, que era acionista maioritário da Sanitas — fundada pelo seu pai décadas antes —, vendeu as ações que detinha por cerca de 130 milhões de euros. “Tentei calcular, há uns anos, quanto tempo passei a caçar. Aparentemente tenho estado a disparar o equivalente a 24 horas por dia durante 11 anos e três meses da minha vida. Sem parar”, afirma Gómez Sequeira, na mesma entrevista.

Com fundos quase ilimitados, o multimilionário espanhol de 85 anos diz ter a coleção mais “meticulosa” do mundo, tendo em sua posse um lobo do Alasca, um macaco dos Camarões, um tigre da Tailândia, uma chita da Namibia e um rinoceronte branco de Angola — ilegal, de acordo com a legislação cinegética angolana. Com um grande número de troféus colecionados ao longo dos anos, Gómez Sequeira revelou ao jornal espanhol que teve a ideia de se “livrar” dos vários animais que caçou, com o intuito de “deixar o mínimo de problemas possível” às filhas e mulher quando “for para o outro mundo”.

Assim, surgiu a ideia de transformar o seu palmarés particular num museu para qualquer pessoa poder visitar. “Ocorreu-me contactar Guillermo Fernández Vara [antigo presidente do governo regional da Extremadura], que é meu primo afastado, para levar os meus troféus de caça para a Extremadura e transformá-los num museu”, contou o caçador. A ideia, que chegou a ser assinada numa fase preliminar, era expor a coleção em Olivença. Fernández Vara e o presidente da Câmara da cidade confirmaram ao El Pais que iriam estar representados 1.250 troféus de Gómez Sequeira no “coração” de Olivença.

O sonho era a abertura do “Museu Coleção de Caça Marcial Gómez Sequeira”. O que aconteceu, na verdade, acabou por ser um pesadelo. Dois anos após a entrevista dada ao El Pais, em 2021, a polícia abriu uma investigação ao magnata, que resultou na apreensão de 49 dos seus troféus — que acabaram por ser transferidos para o museu de História Natural de Madrid. As autoridades espanholas descobriram que o empresário não tinha registo dos documentos necessários para assegurar a importação legal destes animais.

Foram confiscadas “quatro presas de elefante, quatro caninos de hipopótamo, dois cornos de rinoceronte e 132 peças de marfim esculpidas”, nota o jornal espanhol.

"A moda é toda a gente fingir que sempre foi um conservacionista/caçador apaixonado e que antes de mais nada a sua principal preocupação tem sido a segurança destas espécies e a sua feliz existência. (...) A maior parte destes 'apóstolos' não passam de carniceiros que disparam sem qualquer cuidado contra qualquer um dos infelizes animais que têm o infortúnio de se colocar ao alcance das suas insaciáveis espingardas."
António Sánchez Ariño, caçador espanhol

“20 elefantes [mortos] em 75 minutos”: o “maior” que não aparece na lista

Se os lugares de topo da lista se orgulham de estar a rondar a marca dos mil animais caçados, Eduardo Gonçalves recorda ao Observador que os caçadores de troféus não são apenas os que pertencem ao Safari Club Internacional. A lista que o investigador lusobritânico compilou, ao longo de quatro anos nos círculos próximos destes caçadores, tem por base os prémios recebidos e os recordes presentes no arquivo mantido pelo clube.

Contudo, há mais para além do SCI. O primeiro exemplo dado é, também, de onde Eduardo Gonçalves retirou a citação que deu origem ao título do livro que expôs todos estes nomes: “O meu recorde pessoal são 20 elefantes em 75 minutos”. As declarações são do espanhol António Sánchez Ariño, “se calhar, o maior caçador a nível mundial”. Agora com “80 e tal anos”, mas o seu percurso começou, como muitos outros, aos nove anos, quando adquiriu a sua primeira arma — “desde essa altura que eu sabia que, sem qualquer dúvida, queria ser um caçador de elefantes”, cita o investigador, passagens de um livro escrito pelo caçador.

Sánchez Ariño, amigo do antigo rei Juan Carlos I, matou o seu primeiro elefante aos 22 anos, um dia que “mudou para sempre a sua vida”. Desde então, tornou-se num de apenas 13 caçadores que já caçaram mais de mil elefantes, uma “irmandade”, segundo o próprio. É, no entanto, o único com mais de 130 leões caçados a atingir esta marca. “Não tenho nada a esconder e nada para lamentar”, admite.

Para além de se afastar dos moldes dos 25 nomes mencionados na lista de Eduardo Gonçalves, António Sánchez Ariño também demonstrou uma perspetiva diferente sobre o setor que todos partilham. “A moda é toda a gente fingir que sempre foi um conservacionista/caçador apaixonado e que antes de mais nada a sua principal preocupação tem sido a segurança destas espécies e a sua feliz existência. Lamento ter de dizer que, tendo em conta o que eu vi pessoalmente e salvo algumas honrosas exceções, a maior parte destes ‘apóstolos’ não passam de carniceiros que disparam sem qualquer cuidado contra qualquer um dos infelizes animais que têm o infortúnio de se colocar ao alcance das suas insaciáveis espingardas”, escreveu o caçador no mesmo livro.

Para o espanhol, a caça “não é uma guerra contra os animais, mas sim um desporto nobre, apaixonado, onde o caçador usa as suas capacidades para tentar levar um troféu”, descartando as opiniões que assemelham a atividade a uma “operação militar onde todos os inimigos têm de ser exterminados”, admitindo, ainda, que considera os animais “nobres adversários”. No capítulo dedicado a Sánchez Ariño, Eduardo Gonçalves termina com uma citação do caçador direcionada aos seus colegas de setor cujo “único mérito é estarem carregados de dinheiro”: “Estes carniceiros só sabem puxar o gatilho, e se não conseguirem pelo menos cinquenta animais no safari vão para casa irritados e mais tarde escrevem para revistas sobre como tudo foi um desastre, o caçador profissional inepto e o organizador [da excursão] um ladrão”.

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