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Foram duas horas da reunião em Mar-a-Lago entre Volodymyr Zelensky, Donald Trump e as respetivas delegações, e ainda reservaram uma hora final para uma videoconferência com vários líderes europeus onde afinaram detalhes sobre os progressos alcançados na residência do Presidente dos Estados Unidos da América. O resultado? Uma reunião “excelente”, de acordo com Trump, mas como se trata de uma guerra “complexa” que “não se resolve num só dia”, significa que estão apenas “muito perto” de alcançar um acordo de paz com Moscovo.
Para Donald Trump, há apenas “um ou dois” problemas a resolver para finalmente convencer Zelensky e Vladimir Putin a assinarem o mesmo documento. “Vamos a 95%”, afirmou o Presidente norte-americano na conferência de imprensa que se seguiu à reunião, referindo que existem apenas “um ou dois” problemas. Fazendo um rescaldo da reunião com Zelensky, Trump diz que foi uma conversa “excelente” e que fizeram “um grande progresso” para cessar aquela que é “a maior guerra desde a Segunda Guerra Mundial”.
Além do caldo de galinha e dos bifes acompanhados de batatas fritas que foram servidos na grande sala de banquetes de Trump — juntamente com “um bolo de chocolate com o nome de Trump”, como descreve a imprensa ucraniana —, em cima da mesa estava o plano de 20 pontos apresentado por Washington no mês passado, mas que tem sido o centro das negociações que têm decorrido desde o encontro em Genebra no final de novembro.
▲ As delegações da Ucrânia e dos EUA num almoço em Mar-a-Lago
AFP via Getty Images
Os “grandes progressos” que deixaram as negociações “muito perto” de uma conclusão
De acordo com Volodymyr Zelensky, a delegação ucraniana está de acordo com “90%” da formulação atual do documento, pelo que entrou na residência de Trump no estado da Flórida com o objetivo de discutir os restantes 10%. Ao lado do seu homólogo norte-americano e diante de dezenas de jornalistas, o Presidente da Ucrânia confirmou que foram discutidos “todos os aspetos” presentes na proposta e, como tal, foram alcançados “grandes progressos”.
“Sobre as garantias de segurança entre os EUA e a Ucrânia concordamos a 100%. As garantias entre a Europa e os EUA estão quase a ser acordadas. Sobre a dimensão do nosso corpo militar estamos 100% de acordo e estamos agora a finalizar o plano de prosperidade. Concordámos em definir as ações futuras”, afirmou Zelensky, confirmando que ficaram agendados contactos entre as duas delegações para a próxima semana. Donald Trump confirmou, também, que a próxima reunião conjunta com os líderes europeus poderá acontecer já no início do próximo ano, mas sem avançar datas. Já o Presidente ucraniano, após a conclusão da conferência de imprensa, anunciou que este encontro seria em Washington, em janeiro.
Não esteve presente nas declarações à imprensa, mas presidente da Comissão Europeia — uma das participantes desta videoconferência —, também assinalou o “bom progresso” alcançado nesta reunião. “A Europa está pronta para continuar a trabalhar com a Ucrânia e com os nossos parceiros dos EUA para consolidar este progresso. Para tal, é fundamental dispor de garantias sólidas de segurança desde o primeiro dia”, escreveu Ursula von der Leyen na rede social X.
We had a good, one-hour-long call with @POTUS, President @ZelenskyyUa and several European leaders to discuss their meeting today on peace negotiations.
There was good progress, which we welcomed.
Europe is ready to keep working with Ukraine and our US partners to consolidate…
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) December 28, 2025
Zelensky foi também questionado pelos jornalistas sobre a necessidade previamente mencionada de convocar um referendo para fazer aprovar o plano apresentado pelos Estados Unidos da América. Enquanto o Chefe de Estado ucraniano referia que não seria uma necessidade — apenas “uma das chaves” para fazer aprovar o plano —, mencionando também a possibilidade de vir a ser aprovado com maioria parlamentar, Donald Trump interrompeu o seu homólogo para dizer que acreditava — com base numa sondagem recentemente consultada — que cerca de “91% da população ucraniana vai querer ver o fim da guerra” — seja através de um voto favorável via referendo, ou no parlamento ucraniano.
Nesse sentido, Trump lançou também a possibilidade de falar diretamente ao parlamento da Ucrânia para convencer os deputados a aprovar a proposta norte-americana. “Acho que não seria necessário, mas se ajudasse a salvar 25.000 vidas por mês, que o faria sem problema”.
Volodymyr Zelensky e Donald Trump anunciaram também a criação de um grupo de trabalho composto pelas delegações que estiveram presentes no almoço na residência do Presidente dos Estados Unidos da América, que vão continuar a afinar detalhes sobre a proposta para a paz e, eventualmente, trabalhar com a Rússia para cessar as hostilidades na Ucrânia.
Questionado sobre uma estimativa para o final da guerra, Trump diz que, “no melhor cenário”, o conflito poderá terminar “nas próximas semanas”. No pior cenário, “pode nunca acabar”. “É possível que não aconteça. De qualquer maneira, dentro de algumas semanas saberemos”, afirmou o Presidente norte-americano, que se mantém otimista sobre a conclusão da guerra num futuro próximo.
Sobre a conversa com Putin, Trump voltou a reforçar que foi “muito produtiva” e sublinhou que o Presidente da Rússia também quer paz na região. “Conheço-o muito bem. Nas duas horas de conversa não falámos sobre o tempo”, acrescentou. Questionado sobre se Moscovo terá de assumir algum tipo de responsabilidade e contribuir para a reconstrução da Ucrânia, Trump garantiu que a Rússia “vai ajudar”, porque “querem ver a Ucrânia a ter sucesso”.
▲ Volodymyr Zelensky e Donald Trump à porta da residência do Presidente dos EUA em Mar-a-Lago, na Flórida, antes da reunião
Getty Images
Os 5% que faltam para alcançar um plano para paz que agrade a ambas as partes
Todos os temas foram discutidos. E apesar de a conversa ter sido “excelente” aos olhos de Donald Trump e “maravilhosa” para Volodymyr Zelensky, aqueles “um ou dois” problemas referidos pelo Presidente dos EUA são o que estão a impedir a resolução do conflito neste momento.
Na conferência de imprensa, Zelensky disse que a Ucrânia mantém “uma posição diferente à da Rússia” relativamente à cedência territorial da região do Donbass, sublinhando a importância do respeito pelas “pessoas e pelo território” que controlam. Segundo Donald Trump, é um problema que continua “por resolver” após esta reunião em Mar-a-Lago, mas que “estão bastante mais próximos” de uma resolução.
O plano apresentado por Washington prevê o “congelamento” da linha da frente na data da assinatura. A partir daí, um grupo de trabalho seria destacado para determinar os parâmetros para futuras “zonas económicas especiais”. Adicionalmente, numa alínea deste 14.º ponto do plano que incide diretamente sobre as regiões de Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Kherson — sob ocupação russa —, referem que serão destacadas forças internacionais ao longo desta linha “congelada” para monitorizar o cumprimento do acordo, no que se tornará uma zona desmilitarizada. O documento exige ainda a retirada russa de Dnipropetrovsk, Mykolaiv, Sumy e Kharkiv para o acordo entrar em vigor, excluindo os territórios do Donbass que foram ocupados logo no início do conflito em 2022.
Trump foi também questionado sobre a central nuclear de Zaporíjia, que tem estado sob controlo russo desde o início do conflito. De acordo com a proposta — que Zelensky também tem manifestado alguma oposição —, as instalações passariam a ser operadas, em conjunto, pela Rússia, pela Ucrânia e também pelos Estados Unidos da América. Segundo o Presidente dos EUA, Vladimir Putin está, na verdade, “a trabalhar com a Ucrânia para a reabrir”, mostrando a abertura do seu homólogo russo para este 12.º ponto do plano. “[Putin] tem sido muito bom nesse sentido. Quer mesmo vê-la aberta novamente. Não a atingiu com mísseis”, acrescentou. Zelensky — que não olhou na direção de Trump e manteve sempre uma cara neutra enquanto o Chefe de Estado elogiava os esforços de Putin — não referiu se houve progressos nas negociações sobre esta matéria.
O maior foco de Zelensky na conferência de imprensa foi referir os verdadeiros pontos de convergência que ficaram assinalados nestas últimas reuniões. As garantias de segurança fornecidas pelos Estados Unidos da América à Ucrânia foram totalmente aceites pelo Presidente ucraniano e o mesmo se aplica para a condição de manter 800 mil efetivos em tempo de paz nas Forças Armadas da Ucrânia. Porém, Zelensky admite que ainda resta limar algumas arestas relativamente às condições de segurança entre os Estados-membros da NATO e Kiev, bem como os planos para garantir a reconstrução e a prosperidade económica do país num cenário pós-guerra.
Trump e Zelensky não entraram na residência de Mar-a-Lago com a expectativa de vir a resolver o conflito “num só dia”, devido à “complexidade” da situação, e, por isso, confirmaram que já está agendada uma próxima reunião entre as duas delegações no início do próximo ano — bem como uma segunda edição de uma videoconferência que junte Trump, Zelensky e os líderes europeus. Zelensky diz que quer um acordo de paz o mais brevemente possível e Trump, que se recusa a definir um prazo, admite que saberá “dentro de algumas semanas” se será possível, ou não, acabar de vez com esta guerra.