As 12 badaladas soaram dois minutos depois das 12h e, com o som saído de um par de altifalantes ao invés do sino pendurado na torre da igreja matriz, começou o êxodo da população de São João do Peso. O plenário de cidadãos para decidir o novo executivo da Junta de Freguesia estava marcado para as 12h30, na Casa do Povo, a meia dúzia de passos de distância do local onde a missa acabara de terminar.
Foi pelas 13h46, cerca de uma hora depois de terem começado os trabalhos, que os aplausos naquela pequena sala — que também serve de palco para as aulas bissemanais de ginástica — furaram as quatro paredes e se ouviram nas ruas. Quando a população finalmente desceu as escadas e voltou para o sol quente de domingo é que brincaram: “Já temos fumo branco!”.
Apesar da comparação à eleição de um Papa — sempre imprevisível —, não havia qualquer incerteza associada ao resultado daquela reunião. Apenas uma lista anunciou a sua candidatura com antecedência e, não obstante de haver a possibilidade de mais partidos se juntarem à corrida durante o plenário, a entrada surpresa de um adversário político acabou por nunca acontecer.
Assim, a eleição foi relativamente simples. Havia apenas uma opção no boletim e a grande maioria da população não hesitou em colocar a cruz no papel. A candidata social-democrata Rosário Cavalheiro foi a escolhida pelos cidadãos para assumir a liderança da junta de São João do Peso, a freguesia com menos eleitores de todo o território continental.
Rosário Carvalheiro: “Gostaria muito de trazer mais pessoas até São João do Peso”
A abstenção seletiva, a falta de oposição e o resultado inevitável: os primeiros resultados deste domingo
O horário desta reunião extraordinária de fregueses foi escolhido meticulosamente, garante a presidente cessante desta que é a freguesia com menos eleitores do território continental. O objetivo era coincidir precisamente com o final da cerimónia religiosa — na qual participa uma grande parte da população — e, deste modo, garantir uma maior taxa de participação do que nas eleições passadas.
Em 2021, dos “112 ou 113” cidadãos recenseados, compareceram 54 para exercer o seu direito de voto. Tratando-se de uma população maioritariamente envelhecida — com “cinco ou seis” adultos abaixo dos 50 anos — o número de eleitores diminuiu para as autárquicas deste ano. Um total de 108 pessoas (106 portugueses mais dois estrangeiros) foram convocados para este plenário.
Enquanto uns estavam na missa, os que decidiram não ir até à igreja matriz ou estavam no café, ou no anexo do edifício da Junta de Freguesia. Nesta pequena sala, que se situa no final da pequena rua onde estava previsto os cidadãos encontrarem-se pelas 12h30 para eleger a composição da sua autarquia, decorrem as eleições autárquicas no seu formato tradicional.
À porta estão afixados dois boletins: um verde, para a Câmara Municipal de Vila de Rei, e um amarelo, para a respetiva Assembleia Municipal. Aqui, os cidadãos votam nos seus representantes para o concelho, aguardando pela hora do encontro a poucos metros de distância. Pelas 14h00, já metade da população tinha votado neste sentido.
À saída da missa, aqueles que escolheram ficar na rua juntam-se aos cristãos praticantes e o convívio na rua principal da freguesia está animado. A primeira pessoa a enfrentar as escadas da Casa do Povo — um edifício construído em 1940 que recebe todo o tipo de eventos da vila — chegou pelas 12h12, exatamente dez minutos após as doze badaladas. Só era preciso alguém dar o primeiro passo. Nos 20 minutos que se seguiram, os fregueses faziam fila à porta onde estava a ainda presidente da junta a confirmar as presenças.
Rita Cavalheiro, a autarca cessante, decidiu não voltar a candidatar-se por “motivos pessoais”, revelou ao Observador e, por isso, surge apenas como candidata para presidir a mesa do plenário para os próximos quatro anos. “Ó Ritinha, já dá para entrar?”, questiona um dos vários cidadãos que se aproxima da Casa do Povo. A resposta afirmativa convida mais um par de fregueses para dentro da sala de reuniões.
No total, foram 50 pessoas a participar no plenário — uma juntou-se apenas para a votação da presidente da junta, na segunda parte dos trabalhos. A primeira votação a ser feita nesta reunião foi para decidir se para além da população, a comunicação social também poderia estar presente. O consenso proibiu a entrada daqueles que não residem em São João do Peso e, por isso, o Observador teve de assistir a este evento incomum a partir das ruas desertas da freguesia.
Ao mesmo tempo que se fechava a porta, ouve-se uma conversa no snack-bar a cerca de 100 metros de distância. Lá, os fregueses admitem que não participaram no plenário por já conseguirem prever o seu desfecho. Afinal, havendo apenas uma lista candidata à junta, uma surpresa na contagem dos votos era pouco provável. Rita Cavalheiro admite, também, que pelo simples facto de ser necessário subir escadas para aceder ao palco da reunião na Casa do Povo, alguns fregueses de saúde mais debilitada acabaram por não participar.
Mesmo assim, uma carrinha do Centro de Acolhimento de São João do Peso estacionou à porta do recinto para deixar aqueles que se esforçaram para estar presentes na reunião. No final da contagem, independentemente daquela que seja a condição dos eleitores, os cidadãos chegaram a um consenso. A lista encabeçada pela mãe da presidente cessante seria a próxima a governar a freguesia. Dos 50 cidadãos que votaram, dois não colocaram uma cruz na opção única que constava nos boletins.
Com os resultados homologados pouco depois das 14h, a presidente da Junta de Freguesia de São João do Peso tornou-se numa das primeiras autarcas a ser eleita neste domingo de eleições.
A troca de cargos entre mãe e filha que abriu as portas para o regresso da presidente
Não sendo a primeira vez que calça as botas de candidata, Rosário Cavalheiro revelou esta mais nervosa que nunca para este plenário. “Nunca tomei um calmante”, admite ao Observador, mas confessa que nesta instância, a ideia chegou a passar-lhe pela cabeça. De acordo com as regras desta modalidade eleitoral, era possível que uma nova lista se apresentasse à corrida eleitoral em pleno plenário. Não é obrigatório que a candidatura seja anunciada previamente e, por isso, evocando o que aconteceu em 2013 — quando se apresentou um candidato à última hora —, os sociais-democratas estavam nervosos.
Rosário Carvalho concorreu à freguesia pela primeira vez em 2009 e, durante 12 anos, a candidata que tem sido sempre apoiada pelo PSD governou São João do Peso. Quando chegou ao limite do terceiro mandato, teve de se afastar e decidiu trocar de papéis com a filha, Rita, que na altura presidia a mesa do plenário. Questionada sobre o que motivou a candidatura para este segundo ciclo de governação, Rosário Carvalho afirma que a população — “maioria de 80 e 90 anos” — precisa de “ter um apoio”, algo que já tem feito “na retaguarda” e que, por isso, considera ser “capaz” para prestar este serviço para com os fregueses.
“As pessoas sabem que podem contar comigo”, acrescenta. Enquanto a grande maioria da população é idosa e precisa desta maior atenção vinda da junta, as gerações mais jovens que cresceram na freguesia “têm outros objetivos”, admite a agora presidente, referindo que “é difícil” tornar São João do Peso atrativo para os mais novos. “Mas tenho que estar disponível”, continua.
Rosário Cavalheiro acumula funções na Câmara Municipal de Vila de Rei enquanto assistente técnica. É na capital do concelho que reside o “futuro”. É aqui que estão as escolas, os supermercados, a piscina, o ginásio e todas as infraestruturas que “o Peso não tem”. “Para nós, o importante seria descentralizar um bocadinho estas atividades para virem até nós”, desabafa a autarca. Na lista de promessas eleitorais, os pontos-chave passam pela manutenção do património já existente na vila. Porém, um dos grandes objetivos da sua candidatura é “trazer pessoas” para São João do Peso.
Admite que será uma tarefa difícil, devido à carência habitacional que a freguesia enfrenta. Apesar de existirem várias casas recentemente renovadas, muitas acabam por estar fechadas. Na maioria dos casos, trata-se de proprietários que herdaram as habitações e que as usam muito periodicamente e, por isso, não vendem nem alugam durante o resto do ano, para aqueles que efetivamente “querem vir” para São João do Peso.
O sonho, assim, passa por tentar trazer pessoas suficientes para ultrapassar a marca dos 150 habitantes — que perderam em 2013 — e, por isso, tornaram-se na primeira freguesia do continente a ser obrigada a realizar eleições por plenário de cidadãos.
▲ Rosário Cavalheiro a assinar os documentos para oficializar o seu regresso à presidência da Junta de Freguesia de São João do Peso
Martim Andrade/Observador