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O posto fronteiriço está cheio. Há filas de pequenas carrinhas e carros perto da infraestrutura vermelha e verde, com um símbolo onde se vê a foice e o martelo, acompanhados de uma estrela vermelha, espigas de milho e cachos de uvas. O céu está praticamente limpo e sente-se algum frio: estão cerca de 12ºC, apesar de ainda ser fim de setembro. A guia Evelina (nome fictício), que fala inglês, romeno e russo, recolhe os passaportes do grupo turístico que lidera, incluindo o meu. Garante que “será rápido” passar a fronteira e que “não há problemas nenhuns” em entrar na Transnístria, embora os governos ocidentais (incluindo Portugal) desaconselhem a viagem. A guia realça que faz várias vezes por semana esta viagem. “Toda a gente já me conhece”, diz, entre risos, falando sobre os guardas.
A passagem da fronteira decorre sem problemas e voltamos a entrar na pequena van que nos transporta. Ao contrário de Evelina, o condutor não fala inglês. É um homem na casa dos 65 anos e é na mesma medida sorridente e tímido. Após passar a fronteira da República da Moldávia rumo à Transnístria, a guia explica que, como é uma região separatista e não reconhecida internacionalmente, os trabalhadores do posto fronteiriço não podem carimbar o passaporte. Em vez disso, oferecem um cartão de migração (apenas na volta) que comprova a passagem por aquela região.
Há outra diferença que salta à vista logo que se entra nesta zona. Nos carros, veem-se três matrículas: as moldavas (com a faixa azul europeia e a bandeira do país), uma branca (com a bandeira verde e vermelha da Transnístria) e outras descaracterizadas, apenas brancas. A guia distingue que os carros com as segundas matrículas não podem circular fora do território da República da Moldávia. As terceiras podem. Apesar de estes carros terem sido comprados na região separatista, a matrícula branca permite-lhes circular noutros países.
▲ Posto alfandegário perto de Bender onde o Observador atravessou a fronteira
AFP via Getty Images
Assim que entramos na fronteira, a guia avisa que é preciso ter dinheiro físico. Cartões de débito ou de crédito não funcionam, a não ser que sejam russos. Avisou também que provavelmente a rede móvel não funcionará. Afinal, a Transnístria está praticamente isolada do mundo e dos sistemas internacionais que garantem esses serviços. A população da região separatista continua a pretender tornar-se independente da República da Moldávia — e alguns líderes políticos não escondem a aspiração de se juntarem à Federação Russa. Do outro lado, a liderança moldava insiste que a Transnístria integra a República da Moldávia e que essa é uma questão inegociável.
Bender: as homenagens a um comandante russo e um casamento ortodoxo
A política, a questão identitária e este conflito congelado são logo visíveis na entrada de Bender, uma das cidades perto da alegada fronteira entre a República da Moldávia e a Transnístria. Há soldados armados nas ruas. Há bandeiras da Transnístria e também da Federação Russa. Um dos primeiros pontos em que paramos é o memorial e complexo histórico militar de Bender. Há um grande monumento — uma espécie de portal — com o brasão de armas imperial russo. Atrás estão um cemitério militar e uma pequena igreja.
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Neste cemitério militar estão enterrados soldados da região que lutaram em vários conflitos entre o século XVIII e o XX. À frente do portal está uma estátua de Alexander Suvorov, um antigo comandante do século XVIII que foi responsável pela anexação da região que corresponde à atual Transnístria pelo Império Russo, após vários conflitos contra o Império Otomano. O comandante fixou as fronteiras entre os dois impérios no rio Dniester, que atravessa a República da Moldávia a meio — e que divide grosso modo os restantes territórios moldavos da Transnístria.
▲ Complexo histórico militar de Bender
Getty Images
Após Evelina explicar a história do lugar, atravessamos a estrada. Entramos num supermercado, que também tem uma pequena casa de câmbio. Tudo parece normal — e não falta comida nas prateleiras. Apesar do isolamento internacional, veem-se produtos italianos, britânicos, espanhóis e russos. Decidi que cerca de 30 euros deveriam ser suficientes para o dia, já que a guia turística destacou que os preços são relativamente baixos em comparação com a República da Moldávia — um dos países da Europa onde o custo de vida é mais baixo. No momento em que pego nas notas e nas moedas, reparo que, na nota de um rublo transnístrio, a figura representada é Alexander Suvorov.
Suvorov é uma figura histórica de relevo na Transnístria. Foi ele, aliás, quem fundou a cidade de Tiraspol, capital da região separatista, onde vamos mais tarde. Antes de irmos à maior cidade da zona, temos duas paragens. A primeira é a igreja do Santo Príncipe Alexander Nevsky, uma figura com um elevado significado para os ortodoxos. Neste espaço religioso, está a acontecer um discreto e pequeno casamento com pouco mais de dez convidados.
Não podemos explorar a igreja à nossa livre vontade, mas podemos observar o casamento naquela manhã soalheira de sexta-feira. Evelina garante que “ninguém nos pode expulsar” e que “é normal” entrarem convidados a meio de cerimónias religiosas. Do que observamos, há rituais distintos dos da Igreja Católica, principalmente o facto de haver dois guias espirituais durante o casamento, que participam ativamente ao lado dos noivos. Estes usam coroas na cabeça.
▲ Interior da igreja do Santo Príncipe Alexander Nevsky (à esquerda), pintura dos Romanov (à direita)
Observador
No momento da saída, Evelina pára quase à porta da igreja e diz para repararmos nas pinturas. Ali estão retratados os Romanov, incluindo o último czar, Nicolau II. Apesar dos anos de comunismo e de o ateísmo ter sido incentivado durante os tempos soviéticos, as pessoas ainda são “muito religiosas” na Transnístria, diz a guia. Tal como, aliás, acontece na restante República da Moldávia. “Na minha família, houve batizados em casas de familiares durante o comunismo”, conta Evelina. Depois da queda da União Soviética, a Igreja Ortodoxa Russa voltou a ganhar grande influência na Federação Russa e, por arrasto, na Transnístria. E os Romanov, a dinastia que liderou o Império Russo, até foi canonizada em 2000.
Saímos da Igreja e a temperatura já está mais alta. O sol continua a brilhar. Ao lado da Igreja, está a fortaleza de Bender, um dos ex-libris turísticos da Transnístria. Foi construída no século XVI pelos otomanos, mas continuou a ser usada pelos russos nos séculos a seguir. O monumento está bem conservado. Evelina frisa que foi “com dinheiro da União Europeia” que o governo separatista conseguiu fazer as obras, mesmo que a integração europeia seja uma linha vermelha para o executivo transnístrio (e um dos pontos de discórdia com Chișinău).
A relação com a União Europeia (UE) continua a ser um tema tenso na região, marcado por vários avanços e recuos. Ainda assim, em declarações ao Observador feitas após a visita à Transnístria, Stefan Wolff, cientista político e professor na Universidade de Birmingham, esclareceu que a “grande maioria dos laços económicos da Transnístria são agora com a União Europeia”: “Os subsídios russos para o território diminuíram significativamente ao longo dos anos” e isso gerou uma aproximação. Se bem que a Rússia se mantenha muito atenta.
A fortaleza otomana na República Moldava da Pridnestróvia
Perto do portão da fortaleza, um sítio bastante turístico, há uma placa em russo (a língua oficial da região separatista) e em inglês, onde se lê “PRIDNESTROVIE IS NOT TRANSNISTRIA” (“Pridnestrovie não é Transnístria”). República Moldava da Pridnestróvia é a designação oficial que o governo separatista faz questão de usar para designar o território. Na placa, pode ler-se ainda que “a palavra Transnístria foi usada por fascistas romenos para resignar a parte ocupada da União Soviética durante a Grande Guerra Patriótica” — expressão usada na URSS para a II Guerra Mundial.
▲ A placa sobre o nome "República Moldava da Pridnestróvia"
Observador
“Para os cidadãos do nosso país, este termo está firmemente associado aos anos da ocupação romena, à limpeza étnica da população judaica, roubos, fome, pandemias e a romanização forçada da população. Hoje, o uso desse termo pode ser entendido como um desrespeito às vítimas. É por isso que Pridnestrovie aprovou uma lei que bane o uso do termo em relação à República Moldava da Pridnestróvia”, está escrito na placa.
Há muitas camadas históricas na placa. Quando o Império Russo se desintegrou e foi criada a União Soviética, a Transnístria (o termo usado pela generalidade da comunidade internacional) fazia parte da URSS; a partir de 1924 passou a integrar a República Socialista Soviética da Ucrânia. Ao mesmo tempo, o restante território da República da Moldávia juntou-se à Roménia, uma das grandes vencedoras da Primeira Guerra Mundial, que conquistou vários territórios, um dos quais a Transilvânia.
Tudo mudou em 1939. Quando Adolf Hitler assinou com Josef Estaline o pacto Molotov-Ribbentrop, o líder soviético exigiu que a Bessarábia (a designação histórica da Moldávia) integrasse a União Soviética. O Führer não contestou: “O lado alemão declara o seu completo desinteresse político por essa área”. Por causa disso, as tropas da URSS anexaram novamente a Moldávia, para desagrado da Roménia. Assim que o pacto entre nazis e soviéticos foi violado e a Alemanha atacou a União Soviética, a Roménia — que se alinhara no início da guerra com as potências do Eixo — ocupou militarmente a Moldávia, incluindo a Transnístria e até partes do oeste da Ucrânia.
▲ A assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, tratado que também incluía uma alínea sobre a República da Moldávia
Bettmann Archive
A Roménia entretanto mudou de lado e juntou-se aos Aliados. Mas, como aconteceu em outras partes da Europa de Leste, as tropas do Exército Vermelho acabaram por ocupar o país, incluindo a Transnístria. Enquanto a Roménia manteve a independência (ainda que se tornasse um estado alinhado com Moscovo, com um regime comunista), a Moldávia voltou a integrar a União Soviética — e foi criada a República Socialista Soviética da Moldávia, onde estava integrada a Transnístria.
A fortaleza de Bender manteve as funções de instalação militar durante a Segunda Guerra Mundial, se bem que não tenha havido nenhuma batalha nas proximidades. Primeiro, foi ocupada pelos romenos e pelos alemães; depois pelos soviéticos. Quando se entra no complexo de várias torres, há um grande mapa que conta a história do local — desde a fundação pelos otomanos até à conquista russa. Para além disso, o monumento inclui um pequeno museu da tortura.
Após contextualizar historicamente a fortaleza, Evelina deixa-nos sozinhos para explorarmos o local, incluindo o bizarro museu de tortura. A guia diz que vai até ao bar do monumento. Mais tarde, confessaria que bebeu alguns shots de conhaque — que, segundo ela, são a “especialidade” do café. Após subir e descer torres e observar a vista panorâmica para o Rio Dniestre, a fronteira natural entre a Transnístria e a República da Moldávia, é altura de irmos para Tiraspol, a capital da região.
▲ A fortaleza de Bender, perto do rio Dniestre
Observador
O Memorial da Glória em Tiraspol e as mágoas de uma guerra civil
É uma pequena viagem de carro desde Bender até Tiraspol. Há mais soldados nas ruas e mais bandeiras da Transnístria e da Federação Russa. Na capital, o primeiro ponto antes do almoço é outro memorial com várias estrelas. Mas este aqui é mais solene do que o de Bender: há túmulos com grandes fotografias, datas de nascimento e flores. O Memorial da Glória é composto sobretudo por campas daqueles que morreram durante a guerra civil da Transnístria, que ocorreu desde março até julho de 1992. Também estão lá enterrados soldados que morreram durante a II Guerra Mundial e durante a guerra soviética no Afeganistão, mas a maioria morreu entre aqueles meses.
Quando a União Soviética se dissolveu, a República Socialista Soviética da Moldávia (na qual se incluía a Transnístria) decidiu tornar-se independente. Em agosto de 1991, o país declarou independência, incluindo nas suas fronteiras o território da atual região separatista. Isso motivou um forte descontentamento dos transnístrios, muitos dos quais se identificavam como russos ou ucranianos — e não como romenos. Como pano de fundo deste confronto, havia sempre a possibilidade de a República da Moldávia se juntar à Roménia, tal como tinha acontecido durante o período entre as duas guerras mundiais. Grande parte da população moldava ainda hoje fala romeno e alguma identifica-se como romena.
Em março de 1992, a República da Moldávia foi oficialmente reconhecida pela Organização das Nações Unidas como um Estado independente. E, apesar de já ter havido algumas escaramuças desde 1990, foi aí que começou formalmente a guerra civil. A maioria da população da Transnístria desejava ser integrada na Federação Russa.
▲ Guerra Civil na Transnístria
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Morreram cerca de 1.500 pessoas (a população à altura de 700 mil pessoas) durante quatro meses de conflito. Moscovo apoiou aqueles que pretendiam permanecer na Federação Russa ou criar um país novo e independente da República da Moldávia. Como tal, enviou soldados para a Transnístria. Em paralelo, a Roménia prestou apoio àqueles que pretendiam ficar no mesmo país. O cessar-fogo chegou em 1992, quando o Presidente russo Boris Yeltsin decidiu terminar com as hostilidades, assinando um acordo com o chefe de Estado moldavo, Mircea Snegur.
O acordo estipulava a presença de tropas de manutenção da paz russas na Transnístria, ao mesmo tempo que a República da Moldávia concederia um “estatuto especial” administrativo à região. Isso, no entanto, nunca aconteceu. Apesar do cessar de hostilidades, a liderança política transnístria nunca aceitou essa hipótese e declarou-se como um Estado autónomo, cortando os laços com Chișinău, que nunca aceitou a solução e insiste que a Transnístria é parte da Moldávia. As tropas russas ficaram também na região.
Trinta e três anos depois do cessar-fogo, a situação continua igual. Como se vê nas ruas, ainda há militares russos na Transnístria, que continua a funcionar como um Estado independente — tem moeda própria, um governo autónomo e instituições. A Rússia ainda é um suporte desta região separatista, fornecendo-lhe apoio militar, financeiro e político.
▲ A capital da Transnístria, Tiraspol
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As bandeiras como símbolo de independência e a dependência da Rússia — que sofre uma “reviravolta”
Poucos metros ao lado do Memorial da Glória, está exposto um tanque, que “nada tem a ver com a guerra civil” da Transnístria, garante a guia. É apenas um símbolo do poder militar, já que o tanque foi usado pelo Exército Vermelho na Hungria, durante a Segunda Guerra Mundial. Uns metros à frente, há um parque central de Tiraspol chamado “Catarina, a Grande”, numa referência à imperatriz russa.
Em frente deste parque estão várias estrelas vermelhas com inscrições em russo. Estamos na praça central de Tiraspol, onde se sublinha a autonomia política da região. Do lado esquerdo das estrelas, há bandeiras de todas as cidades que compõem a Transnístria, tal e qual como se fossem regiões de um país. Do lado direito, há três bandeiras: a da Transnístria e duas regiões separatistas georgianas — a da Ossétia do Sul e a da Abecásia.
Ao lado dos símbolos das três regiões separatistas, “havia ainda a bandeira da região de Nagorno-Karabakh, mas foi retirada quando as tropas azeris conquistaram a região”, descreve Evelina, numa referência à guerra que opôs Arménia e Azerbaijão durante 33 anos pelo controlo do enclave, que acabou por ser anexado de facto pelos azeris.
▲ As bandeiras no centro de Tiraspol — do lado esquerdo, as bandeiras das cidades da região; do lado direito, as bandeiras da Transnístria e das regiões georgianas da Ossétia do Sul e da Abecásia
Observador
Tal como acontece com a Transnístria, a Ossétia do Sul e a Abecásia são territórios cujas relações com a Federação Russa se converteram num foco de tensão desde a queda da União Soviética. As regiões separatistas georgianas procuraram aproximar-se de Moscovo, havendo minorias pró-russas a contestarem o que denunciam como uma subjugação a Tbilisi. Usando o argumento de que as comunidades próximas da Rússia estavam em risco, a Rússia levou a cabo uma intervenção militar na Geórgia em 2008, que resultou no reconhecimento da independência das zonas separatistas por parte de Moscovo e que consolidou a presença russa mais direta naquelas áreas.
Ainda assim, poucos países reconhecem a Ossétia do Sul e a Abecásia como um Estado autónomo, estando dependentes em grande medida do Kremlin para manterem o estatuto separatista. Em comparação, as regiões georgianas têm uma vantagem face à Transnístria: estão geograficamente próximas da Rússia, sendo a capacidade de influência de Moscovo significativamente maior.
Na praça de Tiraspol, o tempo parece ter voltado para trás. Além das bandeiras e das estrelas vermelhas, há outra estátua de Alexander Suvorov, esta maior do que a de Bender. Vendem-se gelados e comida nuns quiosques, mas há pouco movimento. E uma espécie de sensação de se estar nos anos 90. Depois dos shots de conhaque, Evelina diz ao grupo que precisa de descansar um pouco e dá carta branca para explorarmos sozinhos esta parte da capital, enquanto se senta num banco de jardim.
A situação da região, que esteve sempre numa posição complexa do ponto de vista geopolítico, piorou desde o início de 2025. Em declarações posteriores ao Observador, Marina Ohanjanyan, membro do think tank Clingendael, enfatizou que a Transnístria está “definitivamente numa posição extremamente vulnerável e difícil, muito pior do que antes de 2022″. Ao contrário da Ossétia do Sul e da Abecásia, a região está “fisicamente isolada da Rússia”: “Desde que a Ucrânia parou o trânsito de gás natural no dia 1 de janeiro de 2025, os problemas energéticos têm sido contínuos”. É já, apelidou, uma “crise”.
▲ Centro de Tiraspol
Observador
A especialista neerlandesa concede que a influência russa ainda é “forte”. No entanto, “mais do que nunca”, a Transnístria está “dependente da boa vontade de Chișinău e do Ocidente e da União Europeia” para continuar a manter o seu estatuto. Marina Ohanjanyan não tem dúvidas que está é “uma grande reviravolta quando se compara com o passado”.
Por sua vez, Stefan Wolff destaca que a Transnístria “já sobreviveu” no passado a “crises económicas e energéticas”. “Fê-lo, porque nem o Governo em Chișinău nem a União Europeia tinham interesse em que a Transnístria colapsasse”, diz, argumentando que as “consequências” de um eventual colapso seriam “difíceis de prever”. “É mais fácil e seguro manter as relações com uma entidade mais ou menos estável e funcional, mesmo que isso signifique ajudar um regime que está longe de ser uma democracia liberal.”
A cantina soviética, a espetada e a confusão na hora do pagamento
Depois de a guia descansar, partimos para almoçar, já que passa das 14h30. Vamos a um restaurante. Ou melhor dizendo, a uma cantina que recria os tempos da União Soviética. No exterior, além de um letreiro vintage, há um carro antigo — modelo soviético — com a matrícula da Transnístria. Na esplanada, vê-se a bandeira soviética e um retrato de Lenine.
▲ A entrada da cantina soviética
Mas é quando entramos no restaurante que a imersão nos tempos da União Soviética é total. Há inúmeros retratos de Lenine e Estaline. Bustos dos antigos líderes soviéticos e de Karl Marx. Um casaco que era usado pela elite política da União Soviética. Uma máquina de escrever com o alfabeto cirílico. Uma bandeira vermelha com inscrições em russo.
Ainda um pouco zonza, a guia diz-nos para nos sentarmos na esplanada. O frio que se fazia sentir de manhã já se desvaneceu. Umas empregadas jovens, que não devem de ter mais de 25 anos, entregam-nos o menu. Falam inglês, algo raro na Transnístria. O cardápio é bastante extenso e confuso, com letras em cirílico e algarismos, difíceis de compreender para quem não fala russo. Evelina clarifica que o preço é calculado em função da quantidade de carne ou peixe que se come — e esses números explicavam isso.
O pedido é confuso. A empregada especifica que há três pratos a “sair rapidamente” — enquanto que para os outros “se espera uma hora ou mais”. Acrescenta que recomenda a cerveja artesanal. O pedido é feito entre várias dúvidas, porque ninguém do grupo entende bem o que vai comer. A guia assegura que “é bom” e que é “carne”, mas permanecem muitas dúvidas.
▲ O interior da cantina soviética
Observador
Chegam as cervejas e um enchido, que parece salame, e que ninguém tinha aparentemente pedido. Depois vem o prato principal: uma espetada de porco, um pouco de batata desidratada, ervilhas e cebola. Foi, efetivamente, rápido. Mas há clientes nas outras mesas que esperam há muito tempo pelo seu prato. Antes de irmos embora, vemos um casal a tentar pagar com cartão de débito. A empregada explica-lhes que não é possível: “Não temos sistema para isso”. Apenas dinheiro ou cartões russos são aceites.
Pagamos com dinheiro vivo. Apesar de a refeição ter custado mais ou menos cinco euros por pessoa, Evelina considera “muito caro” e diz que “fomos roubados”. “Já tinha vindo muitas vezes aqui e hoje foi muito caro. Não percebi porquê. Não comemos assim tanta carne”, reclama. Garante que não vai voltar tão cedo com turistas à cantina.
Sovietes, a estátua gigante de Lenine e o Parlamento: como a Transnístria reclama autonomia política
Depois do almoço, paramos na Casa dos Sovietes. “Foi onde se localizou o primeiro Parlamento da Transnístria”, refere a guia, acrescentando que atualmente serve para acolher diferentes serviços públicos.
▲ Casa dos Sovietes, com o busto de Lenine à frente
Getty Images
É um edifício branco grande, de estilo brutalista, ou não tivesse sido mandado construir por Estaline. Colunas pesadas, um ar austero e as cores da bandeira da Transnístria. Em frente, há um busto de Lenine — algo que, aliás, se vê em várias partes da região separatista. Nos lados estão estruturas com rostos de pessoas. Evelina explica que de um lado são “as pessoas do ano” — que se notabilizaram pelos seus feitos em várias áreas — e do outro são “as pessoas mais importantes da Transnístria”.
Nos postes de eletricidade ali perto estão colados papéis onde se oferece trabalho na Alemanha, na Polónia ou até em Israel. “É a realidade das pessoas. Muitos não conseguem sobreviver aqui”, justifica Evelina. Uma tendência que também se verifica na República da Moldávia, reconhece, mas que “é menos acentuada” na sua opinião.
Voltamos à praça central com as bandeiras. Já recuperada da sonolência do conhaque — na cantina só bebeu um chá —, Evelina volta a explicar algumas partes da História da Transnístria. Aproveita para falar sobre um busto discreto de um químico nascido em Tiraspol, Nikolay Zelinsky. “Não tem nada a ver com o Presidente Zelensky!”, assegura a guia.
▲ Busto de Nikolay Zelinsky
Observador
Poucos metros ao lado do busto de Nikolay Zelinsky está um edifício grande, em tons castanhos e brancos, mais moderno do que a Casa dos Sovietes. É ali que se reúne o Conselho Supremo da República Moldava da Pridnestróvia, isto é, o Parlamento regional. É dominado por um partido que se identifica como russófilo e putinista — dos 33 lugares, só quatro são ocupados por independentes. E é o principal símbolo da autonomia política da Transnístria.
Em frente ao Parlamento, está outro dos maiores símbolos da Transnístria: uma estátua gigante de Lenine, com 19 metros de altura. “Parece o Super-Homem”, comenta Evelina, frisando que tem essa opinião porque a figura do antigo líder soviético veste uma capa, que parece ondular ao vento. Foi colocada em frente ao atual Parlamento em 1987, para comemorar os 70 anos da Revolução de Outubro.
Evelina aconselha-nos a tirar fotografias apenas junto a Lenine. “É bom para ficarem com uma memória fotográfica”, assinala. Mas deixa um aviso: não nos devemos aproximar da porta do edifício, devemos ficar apenas em redor da estátua e observar de longe. “Os guardas aqui são desconfiados. Podem pedir-vos o passaporte e ficar com os vossos dados. Não recomendo”, destaca. São 17h30 de uma sexta-feira e muitos políticos, assessores e trabalhadores administrativos estão a sair do trabalho.
▲ Estátua de Lenine em frente ao Conselho Supremo da República Moldava da Pridnestróvia
dpa/picture alliance via Getty I
As dificuldades na Transnístria e como a guerra na Ucrânia piorou a situação da região
Depois das fotografias, regressamos ao Memorial da Glória para ouvir mais explicações de Evelina. A guia mora em Chișinău. Contou que a sua família fala romeno, mas que aprendeu russo quando era pequena. “Tinha amigas que falavam russo e eu também queria falar. Aprendi num instante, foi durante um verão”, recorda. Se bem que vá tentando ser objetiva, Evelina não deixa de demonstrar que politicamente se identifica com o atual rumo da República da Moldávia: o da aproximação à União Europeia e ao Ocidente.
“As pessoas aqui [na Transnístria] vivem presas porque querem. Podem ir sempre para a República da Moldávia. Podem ir para a Europa. Elas vivem neste isolamento porque querem”, considera. É visível que, embora haja uma relativa normalidade nas ruas (que “estão sempre limpas”, sublinha Evelina), existe sempre a sensação de uma região que se tornou anacrónica. A guia turística diz também que a guerra da Ucrânia veio tornar a Transnístria uma região ainda mais desfasada da República da Moldávia e moralmente comprometida, por tacitamente apoiar um país que invadiu outro.
Evelina recorda que a República da Moldávia “se solidarizou com a Ucrânia” e temeu uma invasão nos dias a seguir à guerra ter começado. “O Presidente Zelensky é um herói. A forma como defende o seu povo…”, elogia. Na Transnístria, a guerra na Ucrânia (país que faz fronteira com a região) foi paradoxalmente vista por alguns como um momento de esperança — de que a região separatista ia finalmente integrar a Federação Russa.
▲ Mapa da Transnístria
Um dos objetivos de Vladimir Putin no início da invasão seria conquistar a região histórica da Novorossiya, a região sul da Ucrânia banhada pelo Mar Negro. Caso o Presidente russo conseguisse consolidar esses ganhos, as tropas chegariam muito perto da Transnístria — e esta zona separatista poderia juntar-se à Rússia. Isso nunca se materializou. As tropas ucranianas resistiram e a guerra continua centrada a leste. Por um lado, isso causou alívio na população da República da Moldávia, que temia ser um novo alvo do Kremlin. Por outro, desapontou muitos habitantes da Transnístria.
Porém, os impactos da guerra na Ucrânia na Transnístria devem ser interpretados com várias nuances — e não apenas pelo prisma pró-europeu versus pró-russo. Ao Observador, Stefan Wolff corrobora que a invasão causou medo de que a região separatista pudesse ser arrastada para a guerra, o que causaria problemas ao lado ucraniano e desestabilizaria a República da Moldávia. Mas “isso ainda não se materializou”. “A liderança em Tiraspol tem interesse em ficar fora da guerra — cerca de 30% da população da Transnístria tem origem ucraniana”, recorda.
É certo que as relações entre a Transnístria e a Ucrânia se complicaram desde fevereiro de 2022; as fronteiras entre os dois territórios estão, por exemplo, encerradas. Mais do que isso, a região separatista ficou muitas vezes sem eletricidade (uma vez que continua completamente dependente do sistema elétrico russo). Em outubro de 2025, numa altura do ano em que as temperaturas já começam a ficar mais baixas na Transnístria, a eletricidade está novamente em falta, o que levou a que se ativassem os planos de contingência.
▲ Falta de energia da Transnístria começou em janeiro de 2025
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Não há água quente em muitas casas. Hospitais e escolas têm dificuldades em manter-se abertos. A região vive praticamente às escuras. A situação agravou-se apenas no início de outubro, sendo que, quando visitámos a região dois dias antes das eleições parlamentares na Moldávia, ainda não havia falhas na eletricidade. Chișinău e a União Europeia têm oferecido ajuda para resolver a situação, mas a Transnístria tem recusado.
Ao Observador, Anatoliy Dirun, professor na Escola de Estudos Políticos de Tiraspol, concede, ainda assim, que as rotas de transporte de energia da Ucrânia interrompidas “acabaram por aumentar a dependência económica da República da Moldávia”. Politicamente, o analista revela, no entanto, uma contradição: a Transnístria vê Moscovo como um “garante de segurança”, ao mesmo tempo que a guerra na Ucrânia veio “enfraquecer a influência da Rússia”. “A Transnístria tornou-se numa ferramenta de negociação com potencial”, considera.
O orgulho do clube Sheriff, o oligarca próximo de Putin e a integração económica europeia
Do Memorial da Glória, partimos rumo a outra paragem. É um dos pontos que mais celebrizou a Transnístria recentemente: o estádio do clube de futebol Sheriff, que participou na Liga dos Campeões na época de 2021/2022 e até venceu o Real Madrid. Visitamos a loja ao lado do estádio, mas não entramos na infraestrutura desportiva. Há camisolas e outros itens desportivos do clube à venda.
A economia local gira em redor deste clube de futebol, que é detido pelo empresário moldavo-russo Viktor Gushan. Antigo agente do KGB e bastante próximo do Kremlin, Gushan é um dos empresários mais poderosos da região e controla os principais setores económicos da Transnístria. O oligarca é mesmo considerado o líder nas sombras da República Moldava da Pridnestróvia — e tem sido ele o principal intermediário com a Rússia.
▲ Um dos edifícios do Sheriff
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O futuro da Transnístria está em grande medida nas mãos deste oligarca poderoso, um dos mais ricos do pós-União Soviética, com uma fortuna avaliada nos dois mil milhões de euros. Mas não só: a União Europeia terá também um papel a desempenhar. Em declarações Observador, Gerald Toad, professor na Virginia Tech School of Public and International Affairs, diz que a elite económica regional “valoriza fortemente” que a Transnístria “esteja cada vez mais integrada nos mercados da União Europeia”.
“Também penso que eles entenderam que a balança do poder pendeu decisivamente para a direção de Chișinău nos últimos anos”, constata, acrescentando que a União Europeia já fez um “compromisso significativo” com a República da Moldávia e que “não vai voltar atrás”.
Vai a Transnístria colapsar? Integração na República da Moldávia não é assim tão fácil
Com esta integração económica na UE e com a alta da eletricidade, será que o statu quo se vai manter na Transnístria? Para Stefan Wolff, a vitória do bloco pró-europeu liderado pela Presidente Maia Sandu nas eleições parlamentares da Moldávia, em setembro de 2025, fará com que o assunto “não tenha grande importância na agenda”. “Para o novo Governo, a chave será manter a estabilidade e focar-se nas negociações de acesso da Moldávia à União Europeia”, salienta. Durante as negociações para a adesão à UE, esse tópico certamente surgirá, já que serão discutidas questões territoriais. “Mas o Governo não tem pressa em resolver um conflito em termos potencialmente desfavoráveis.”
▲ Edifício governamental em Chișinău, com a bandeira da União Europeia
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Contrariamente aos últimos anos, Marina Ohanjanyan reconhece que existe agora uma “possibilidade realista” de a Transnístria deixar de estar presa na época soviética e se juntar à República da Moldávia. Mas destaca que “dependerá de muitos fatores”, avisando que a “reintegração na República da Moldávia é difícil em termos administrativos” e “financeiramente custosa”. “A República da Moldávia, como um dos países mais pobres da Europa, vai precisar do apoio da União Europeia“, frisou.
Se é verdade que o Governo pró-Ocidente mantém como “objetivo” a integração da Transnístria na República da Moldávia, também subsistem várias dúvidas não só sobre como tal seria feito, mas também sobre os impactos que teriam no resto do país. Marina Ohanjanyan ressalva, contudo, que caso a zona separatista aceite o domínio de Chișinău, isso podia “ajudar o processo de integração da Moldávia na União Europeia”, visto que há “Estados-membros que têm dificuldades em admitir um país com um conflito congelado”.
A curto prazo, Anatoliy Dirun, que vive na Transnístria, considera que uma “reconciliação total é improvável”. “Não há um conflito aberto, mas falta confiança. Desde 2022, a geopolítica — e não questões técnicas — definiram as relações entre os duas partes”, frisou. Enquanto Chișinău se foca na integração europeia, Tiraspol “procura preservar a sua autonomia e os laços de segurança com a Rússia”.
No entanto, Anatoliy Dirun realça que tem havido “laços económicos e cooperação” que mantêm os canais de comunicação abertos. “O progresso talvez não venha da forma de reintegração política, mas através de projetos de reaproximação práticos, diálogo direto e medidas para construir confiança. A paz aqui advém de interesses partilhados e não de declarações”, sublinha.
A última paragem da excursão é num hipermercado para comprar doces, souvenirs e cambiar os rublos restantes. O grande estabelecimento comercial, tal como o clube, chama-se Sheriff, já que faz parte de uma cadeia de supermercados também detida por Viktor Gushan. Como ainda me sobravam alguns rublos, comprei chocolates e rebuçados. Fiquei sem dinheiro, à exceção de um rublo, que guardei como recordação.
▲ Rublos transnístrios
Anadolu via Getty Images
Depois do hipermercado, já com o sol a pôr-se, voltamos a passar por Bender. E novamente pelo posto fronteiriço, que está cheio. Dão-nos o cartão de migração — a prova de que, naquelas horas, tínhamos estado na República Moldava da Pridnestróvia, como realça o pequeno papel. A excursão foi uma autêntica viagem no tempo à União Soviética, antes da sua dissolução. Mas também foi uma viagem que mostrou como ainda há populações que vivem totalmente reféns das rivalidades geopolíticas.
Na Transnístria, não há solução a curto prazo à vista, se bem que alguns analistas acreditem que o fim da guerra da Ucrânia poderá motivar algumas mudanças. Para Gerald Toad, o futuro da Transnístria será determinado por uma “interação dinâmica” entre Bruxelas, Berlim, Paris, Kiev e Moscovo. Até esse momento chegar, tudo deverá manter-se na mesma.